sábado, 4 de março de 2017

A Falência da Escola Dominical

O Pastor David Brito não se cansava de enfatizar: “A Escola Dominical é o seminário da igreja”, e ele estava completamente correto em sua maneira de raciocinar. Houve mesmo uma época em que os alunos verdadeiramente aprendiam, e não era raro ouvir alguém dizer que a Escola Bíblica Dominical era a mais gratificante reunião da igreja. O tempo passou e as coisas mudaram drasticamente. Eu, por convivência, conheci a EBD em cinco estados brasileiros e em todos eles a freqüência dos crentes nestas reuniões era massiva, sendo que pelo menos noventa por cento dos cristãos eram matriculados, e destes, cerca de oitenta por cento era freqüentadores assíduos da Escola Dominical.

       Hoje o que se testemunha é uma cena lamentável. As escolas estão cada vez mais vazias e existe até quem as considere como desnecessárias. Na região onde moro, por exemplo, existem pastores presidentes de campo, presbíteros e diáconos que nunca vão às reuniões da EBD. Não poucos líderes a submeteram ao completo descaso. Eles começaram evitando-as, depois as transferiram do Domingo para outros dias da semana, e mesmo assim, não é coisa rara eles marcarem outro tipo de atividade exatamente para aquele dia e hora, fazendo assim com que a reunião seja adiada ou simplesmente anulada. O descaso tem sido geral.

       O que se comenta nos bastidores é que os assuntos ali tratados são enfadonhos demais e que noutros casos a CPAD tem reprisado temas já estudados. Eu reconheço a validade desta alegação, mas o fato é que o problema vai além do apontado. Certo pastor, ao tratar do assunto comigo, me perguntou se o problema não está em que a nossa mentalidade evoluiu bastante em relação à mentalidade proposta pelos comentaristas de nossas Lições Bíblicas, porque, para todos os efeitos (pondera ele), o sistema de ensino deles não mudou muito desde que aceitamos a fé há cerca de trinta anos. Isso também é verdade, mas acho que não vem ao caso, pois eu continuo a freqüentar a Escola Dominical como sempre o fiz. Não obstante, a observação prevalece, porque alguns dos professores com os quais tenho lidado e que também são assíduos freqüentadores da EBD, também têm reclamado dos conteúdos de nossas Lições Bíblicas. Eles alegam que está sendo difícil trabalhar encima dos gabaritos produzidos pelos comentaristas e que às vezes estes escrevem sem levar em consideração o nível intelectual e o grau de exigência de alguns alunos. Eu mesmo já me deparei com lições às quais considerei tão supérfluas quanto evitáveis. Do mesmo modo, estes seletos professores costumam ensinar com a revista fechada, dando provas de que não dependem do conteúdo da lição. Isso é um péssimo sintoma.

       A CPAD parece estar se esforçando no sentido de inovar e de injetar ânimo no sistema educacional da instituição através de seminários e palestras. Pastores e outros mestres de várias partes do país também têm contribuído através de blogs e sites regularmente dão suporte as professores a cada nova lição. Isso é bom e útil, mas ao que parece, o cerne da coisa não está precisamente ou tão somente em ampliar o cabedal intelectual de nossos professores. Na verdade, a maior parte desse problema está é no material de ensino que dispomos. Precisamos ser francos e aceitar que os comentários de nossas lições dominicais são elementares e que não agregam conhecimento útil nem sabedoria proveitosa. Infelizmente não dá para crescer em conhecimento sendo nutrido segundo a cartilha da CPAD.

       Na verdade, e a fim de não sermos injustos, há apenas dois ou três comentaristas de Lições Bíblicas que regularmente escrevem coisas dignas da pena de um estudioso, e foi por reconhecer esse fato que num trimestre do ano passado eu fiz questão de escrever ao Pastor José Gonçalves, parabenizando-o pelos excelentes comentários  que fizera na edição da Lição Bíblica na qual tratara sobre a Carta de Paulo aos Romanos, o que considerei uma jóia do pensamento cristão moderno. Outros profissionais da área deviam pensar a respeito e igualmente se aplicar em produzir literatura de cunho verdadeiramente teológico, em vez de ficarem a discorrer sobre assuntos sem importância.

       Para alguns comentaristas pode parecer árdua tarefa esta de se colocar na condição dos alunos da EBD e experimentar de suas exigências intelectuais. Eles também estão insatisfeitos com o conteúdo de nossas lições. Quanto aos professores, muitos deles são obrigados a se virar como podem, já que em não raros casos, subsídios não há que os favoreçam. E não quero que o meu leitor imagine que estou a duvidar das capacidades de nossos comentaristas. Longe disso! O que estou a declarar é que os conteúdos de nossas Lições Bíblicas (salvo os casos supracitados) são superficiais e que se equipara à qualidade do ensino secular de nosso país, que, aliás, é paupérrimo.

       Me ponho a pensar, entrementes, quão frutífero seria o aprendizado se o grosso de nossos comentaristas escrevessem com a mesma desenvoltura de Alexander Balmain. Ele era brilhante, mas se tornou ainda mais eficiente porque conseguia ensinar teologia profunda sem se desvencilhar da graça e da devoção. Um dos profissionais da CPAD esteve em minha cidade há alguns anos e abertamente afirmou que a editora reprime a liberdade teológica e intelectual de seus contratados. Não me lembro de tê-lo ouvido pedir segredo a respeito, mas não é novidade. De minha parte, não discuto se isso é bom ou ruim, pois toda empresa possui alguma política interna, e, por outro lado, os contratos existem para que sejam respeitados, mas uma vez que a minha condição de educador da igreja me obriga a consumir os seus produtos, vejo-me no direito e na responsabilidade de externar a insatisfação com a qual tenho convivido.

       Outro pastor, cuja influência é bastante notável dentro da Convenção Estadual da AD na Bahia me disse que a CPAD é um “grupo fechado” e que novas mentalidades não são bem-vindas. Isso sim é uma perda lastimável! O time de comentaristas de Lições Bíblicas é composto por seis ou oito cabeças, e algumas delas estão a escrever as mesmas e infrutíferas coisas há anos. Se continuarmos assim, vai ser uma tarefa deveras hercúlea livrar da mediocridade as futuras gerações de pensadores cristãos no Brasil. O pior de tudo é que o meu pessoal pessimismo não me deixa acreditar que haverá melhoras nesse sentido, porque para que isso venha acontecer se fará necessário o abandono de velhos paradigmas, e já ficou comprovado que os amigos lá de dentro não estão dispostos a fazer semelhante sacrifício.
       Bom seria se eles se despertassem enquanto há tempo, porque se esse desinteresse pela Escola Dominical viralizar não haverá como reverter o quadro. E isso, caros publicadores, não tem a ver apenas com alguns “gatos-pingados” do interior da Bahia. Eu pessoalmente conheço ministérios inteiros que estão evitando as reuniões dominicais para aprendizado da Bíblia, e os rebanhos por sua vez, estão seguindo o triste exemplo. O número de revistas de Lições Bíblicas vendidas a cada trimestre não reflete a verdadeira freqüência dos crentes na Escola Dominical.

       Recentemente certo amigo usou o celular para gravar uma reunião dominical em sua igreja onde o número de membros ultrapassa a casa das duas centenas, e o que o vídeo mostra é a realidade nua e crua: menos de dez crentes estavam presentes, e, dentre estes, nem o pastor nem qualquer representante da liderança local. A cena se repete em outras igrejas e a impressão que fica é que apenas os “ignorantes” é que estão levando a escola Dominical a sério. Tem pastor que prefere passear no shopping com a família nas manhãs de Domingo. Presbíteros há que trocam a EDB pela praia ou pelo futebol. E não pensem que estou exagerando quando digo que existem até presidentes de ministérios que preferem ir à rinha ver briga de galos a se unirem ao rebanho aos Domingo para uma discussão sadia em torno da Palavra de Deus. Não seriam sintomas de falência espiritual? Que cristão, em sã consciência, abdicaria de ir à igreja na manhã de Domingo com a família para juntos aprenderem a Palavra da Verdade?

       Apesar disso, alguém desejará reagir a isso alegando que a frieza espiritual é um sinal dos tempos. Tudo bem. Que seja então! Todavia, isso não deve impedir que a CPAD e sua junta de educadores se ocupem em fazer a sua parte produzindo Lições Bíblicas com conteúdo verdadeiramente proveitoso. Não ficarei surpreso se alguns se levantarem para defender o atual estado das coisas; é em nome dos inconformados que estou a me pronunciar.


       Suplicarei então aos prezados irmãos da CPAD que não tomem estas minhas palavras como ofensas, porque afinal de contas somos todos servos de Deus e desejamos a saúde plena da igreja de Cristo. Ademais, vocês também sabem que é possível fazer melhor.