sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

A Diferença entre O Tempo dos Gentios e A Plenitude dos Gentios



No ano de 1998 recebi em minha companhia um jovem que havia acabado de se converter ao Evangelho. Ele logo passou a pertencer ao meu restrito grupo de amigos e, agora, passados já vários anos, esse moço se tornou um mestre em assuntos teológicos e um arguto investigador das Escrituras. Recentemente ele me contou de sua experiência enquanto trocava “idéias” em um grupo de WhatsApp formado unicamente por pastores e pregadores de várias partes do país. O assunto da vez era o “atual” cumprimento das profecias, e no leme do barco estava um pastor de fama reconhecida ao qual não poucos cristãos têm considerado como o maior pregador de escatologia do Brasil.
      Entre uma observação e outra, certo pastor fez questão de ressalvar que a imagem e a pessoa do dito pregador deviam ser trazidas sob a mais venerável consideração, mas que a despeito disso, a opinião por ele sustentada devia ser reavaliada já que (ponderava o interlocutor) a premissa estava deveras desgastada. O reverendo, ainda que com carinho e educação, reagiu a esta observação alegando que “não há nada a ser reconsiderado, pois a escatologia não muda”.
       Infelizmente, e para dano do aprendizado cristão, eu tenho de admitir e lamentar que a escatologia não tenha mudado. Pelo menos não para aqueles que por preguiça ou bazófia têm se contentado com os rudimentos da Doutrina das Últimas Coisas. Eu, pelo contrário, tenho ensinado e insistido em que não poucas concepções formadas sobre a escatologia precisam ser abandonadas e completamente esquecidas a fim de que nos apropriemos de conhecimentos mais elevados e consistentes. Para a felicidade dos que amam a teologia eu posso assegurar que a escatologia mudou muito e para melhor.
       A fim de dar um claro exemplo de como estão ultrapassados alguns conceitos antigos e ainda aceitos como corretos no campo da escatologia, chamarei a atenção do meu leitor para um assunto há muito debatido nos círculos intelectuais do cristianismo no Brasil, o qual é a errônea concepção que alguns de nossos doutores têm sustentado acerca do chamado “tempo dos gentios”, tal como foi referido pelo Senhor em Lucas 21. 24: “E Jerusalém será pisada pelos gentios, até que os tempos dos gentios se completem”.
       Mas o que vem a ser esse tempo dos gentios? – Se você fizer essa pergunta a qualquer teólogo ou pregador das Assembléias de Deus, por exemplo, ele seguramente há de responder que o tempo dos gentios tem a ver com a Era da igreja, a chamada Dispensação da Graça. No entanto, eu afirmo que essa colocação está muito equivocada e que foi edificada sobre o nada; ou mais, que ela reflete bem o comodismo intelectual e a presunção dos que fazem a teologia em nossa nação. Aliás, não é de agora que venho chamando a atenção de nossos teólogos para uma consideração mais cautelosa e para uma investigação mais criteriosa sobre o nascedouro das doutrinas que compõem o arcabouço de nossa Teologia das Últimas Coisas. Tal é o caso da concepção formada sobre a expressão “Tempo dos Gentios”.
       Trata-se de um ingrediente constante na tradicional escatologia dos judeus, a qual devia receber mais respeito e atenção da parte de nossos estudiosos mais sinceros. A expressão, ainda que não seja corriqueira nas obras do apocalipsismo judaico, sobressai através das idéias ali desenvolvidas. O tempo dos gentios é, por assim dizer, a extensão do domínio pagão sobre a herança dos filhos de Jacó. Em outras palavras, ela diz respeito à opressão de Israel e à temporária anulação da monarquia davídica até que venha o Libertador de Sião na pessoa de seu Messias Glorioso. Não devia existir confusão sobre as palavras proferidas por Cristo, pois está muito evidente que os gentios ali referidos não são os povos evangelizados e adicionados à Igreja, mas as nações ímpias que pisam e profanam o solo sagrado de Jerusalém. Isso efetivamente não tem nada a ver com a Era da Igreja ou com a Dispensação da Graça.
       Em contrapartida, em Romanos 11. 25, o apóstolo Paulo menciona que “o endurecimento veio em parte sobre Israel, até que a plenitude dos gentios haja entrado”. Essa Plenitude dos Gentios tem certamente tudo a ver com a Era da Igreja e sua missão evangelizadora, pois na presente sessão Paulo se refere aos gentios como sendo aqueles que em função da incredulidade dos judeus em relação à obra redentora de Jesus, acabaram sendo aceitos na comunidade dos filhos de Deus. Notem que o apóstolo se refere a essa plenitude dos gentios como sendo um segredo, isso é, uma doutrina pouco difundida. Quanto a isso ele estava completamente correto. A expressão grega ali utilizada é pleroma, a qual significa literalmente “o complemento ou finalização de uma atividade” que, nesse caso, pode ser a obra evangelizadora da igreja.
       Então, antes de deixarmos ocorrer à nossa imaginação que a escatologia não muda, seria bom fazermos uma consulta mais criteriosa sobre as bases de nosso antigo e ultrapassado modo de entendermos a Doutrina das Últimas Coisas. Até breve.


Daniel 8.14: A profecia das 2300 tardes e manhãs



“Depois ouvi um santo (anjo) que falava; e disse outro santo àquele que falava: Até quando durará a visão do contínuo sacrifício, e da transgressão assoladora, para que seja entregue o santuário, e o exército, a fim de serem pisados? E ele me disse: Até duas mil e trezentas tardes e manhãs; e o santuário será purificado”.

       Observem os meus leitores como é possível à especulação humana transformar em um “mistério insondável” um texto bíblico cuja explicação e compreensão são bastante singelas. Começarei por explicar que tenho uma irmã que por haver perdido o encanto pelo cristianismo histórico, acabou se enveredando pelos ensinamentos das Testemunhas de Jeová. Certo dia estive em sua casa e, ela, assumindo um tom de voz que denotava espanto, afirmou que estava ficando maluca, pois o ancião que presidia no salão ao qual freqüentava estivera dando explicações acerca da profecia de Daniel 8. 13, 14 e dissera algo ao qual ela considerou ser o cúmulo dos absurdos. A razão de seu espanto estava em que o líder de sua organização dissera que as 2300 tardes e manhãs mencionadas na profecia de Daniel deviam ser interpretadas como se referindo a um período de dois mil e trezentos anos ao cabo dos quais o Reino de Deus seria iniciado no Céu e na Terra.
       A fim de resumirmos a questão, vamos explicar que segundo a computação feita e crida entre as Testemunhas de Jeová, os supostos dois mil e trezentos anos da profecia de Daniel seriam ou foram completados no ano de 1914, ocasião na qual Jesus teria feito a “purificação” do santuário celestial, dando assim início àquilo que usam chamar de Reino de Deus. Quanto à minha irmã, estava pasma por não conseguir acreditar que os mestres de sua religião pudessem ter a perfeita certeza de que Cristo fizera a purificação do santuário celeste no ano de 1914.
_ Como é que eles podem tomar conhecimento de algo que teria acontecido no Céu em 1914? – perguntava ela com incredulidade.  E não era para menos!
       No entanto, elaborar interpretações esdrúxulas sobre os números da Bíblia nunca foi um privilégio das Testemunhas de Jeová. Ou o meu leitor acaso não saberia que durante os séculos XVII e XIX era mania comum entre os cristãos fazerem as mais loucas previsões e interpretações encima do supramencionado texto do Livro de Daniel? O mais famoso dentre todos os casos já registrados é certamente aquele que foi estrelado por William Miller, quando ousou interpretar os números da profecia de Daniel 8. 13, 14, e por duas vezes cravou o que supunha ser a exata do retorno glorioso do Filho de Deus.
       Sem querer dar vazão à questão que considero tola demais, irei expor o sentido puro e simples da profecia das 2300 tardes e manhãs, e começarei afirmando que esse número não possui nenhuma interpretação especial e que não tem aplicação escatológica alusiva à esperança da igreja de Cristo. Cabe esclarecer, ademais, que a confusão formada em torno desta profecia só se tornou possível porque alguns expositores desprovidos de certas informações se deixaram enganar pela ilusão que os fez acreditar que esse texto e profecia estejam de algum modo relacionados àquela explicação das setenta semanas de Daniel, mormente à porção registrada no capítulo 9 e versículo 24. O que certamente não é o caso.
       Vamos então à explicação. Uma antiga e até certo ponto simpática interpretação dizia que as 2300 tardes e manhãs mencionadas em Daniel 8. 13, 14 diziam respeito à duração do reinado de Antíoco Epifânio, que é o principal personagem destacado na profecia. No entanto, isso dificilmente pode ser verdade; primeiro porque de acordo com a interpretação ali apontada, a soma de todas as tardes e manhãs daria seis anos, quatro meses, duas semanas e seis dias os quais seriam alusivos à totalidade do tempo pelo qual se estenderia o reinado do ímpio imperador. Mas infelizmente o depoimento da História contraria tal suposição.
       Em segundo lugar, a explicação não deve vir ao caso, porque a profecia diz respeito à duração da profanação do santuário sob a tirania de Antíoco, o que só veio acontecer por volta do quarto ano de seu reinado.
       Em terceiro lugar, as interpretações costumam estar equivocadas porque fazem uso indevido da contagem dos números apontados em Daniel. As duas mil e trezentas tardes e manhãs ali referidas não devem e não podem ser tomadas como relacionadas a determinado número de dias ao longo dos quais se estenderia a desolação do templo de Salomão. Para chegarmos ao exato cerne da questão é necessário que entendamos que as 2300 tardes e manhãs têm ligação não com dias especificamente falando, mas com o número de sacrifícios contínuos ou diários que deixariam de ser oferecidos no santuário em face da profanação causada por Antíoco IV. E visto que estes sacrifícios ocorriam duas vezes a cada dia, a forma correta de computar as tardes e manhãs de Daniel 8. 14 devia ser 1150 dias e não 2300, como se tem suposto.
       Essa forma de estudar o assunto está correta, pois foi exatamente assim que aconteceu. A fim de chegarmos a essa conclusão não precisamos inventar fórmulas mirabolantes ou sacrificarmos o texto bíblico. Suficiente seria fazermos uma consulta à História para vermos como as coisas se ajustam por si mesmas. Vejamos, por exemplo, o que o historiador Flávio Josefo tem a dizer a respeito do assunto:
“Referirei particularmente, com toda a exatidão que me for possível, a guerra que se travou no meu tempo e contentar-me-ei em tocar brevemente on que se passou nos séculos precedentes. Direi de que modo o rei Antíoco Epifânio, depois de tomar Jerusalém e de tê-la possuído durante três anos e meio, foi de lá expulso pelos filhos de Matatias...”

      Noutra porção da mesma obra ele torna a relatar, desta feita se referindo à morte de Alexandre Magno e como o seu reino foi dividido entre quatro de seus generais. Mais interessante de tudo é saber que na ocasião o historiador dos hebreus está fazendo a mais confiável exposição e interpretação das profecias de Daniel, pelo que, retornando ao reinado do iníquo Antíoco Epifânio, eis que ele escreve, ainda se referindo aos generais de Alexandre:

Eles reinaram durante vários anos, e de sua posteridade viria um rei que faria guerra aos judeus, aboliria todas as suas leis e toda a forma de sua república, saquearia o Templo e durante três anos proibiria que ali se oferecessem sacrifícios. Isso tudo aconteceu sob o reinado de Antíoco Epifânio”.

       O número de anos referidos por Josefo em ambas as porções de sua magistral obra representa a perfeita computação daquelas 2300 tardes e manhãs da profecia de Daniel 8. 14. Na primeira menção, o historiador aponta três anos e meio de profanação sobre o santuário, um período durante o qual 2300 sacrifícios deixaram de ser oferecidos. Na segunda menção, ele aponta apenas três anos, mas aqui não há contradição, pois o que se pretende é dar uma soma arredondada e aproximada do tempo ao longo do qual os sacrifícios diários ficaram interrompidos. Segundo a profecia descrita em Daniel 8. 13, 14, a desolação e profanação impostas por Antíoco Epifânio durariam 1150 dias, o que de fato, e conforme à moda que os judeus tinham de contar o tempo, não davam três anos (1080 dias) nem três anos e meio (1260 dias). Eis a solução do problema.