sábado, 7 de janeiro de 2017

Melquisedeque, o fim de um mistério

Quem foi Melquisedeque? Esse tem sido um mistério tantas vezes solucionado, porém jamais elucidado a contento. Mas se dermos crédito às memórias históricas de Sankoníaton é provável que encerremos aqui a nossa busca pela resposta à questão que tem desafiado o nosso entendimento e curiosidade através dos séculos. Sankoníaton foi um sacerdote fenício contemporâneo de Abraão e ele mesmo compôs duas interessantes obras que ainda podem ser consultadas por pesquisadores de nossos dias. As referidas obras são A Cosmologia e o Livro das Gerações.
      O Livro das Gerações de Sankoníaton possui caráter hermético, mas quando estudado com persistência pode sem sacrifícios da fé ser interpretado à luz das genealogias do livro de Gênesis. Essa obra, pois, sendo traduzida para o grego por Filo de Biblos e conservada para nós pelo gênio de Eusébio de Cesaréia em sua Preparatione Evangelica, oferece uma solução para o enigma da identidade de Melquisedeque.
      Segundo a tradução de Filo de Biblos, a obra de Sankoníaton é marcada pela curiosa sentença: “No princípio existia apenas, Bel, o qual é Cronos, e dele nasceu outro Bel, e depois deste nasceu Canaã. E Canaã foi o pai de todos os fenícios”. Os escritos de Sankoníaton há muito vinham parecendo ser de um redundante mistério, mas desde que o Bispo Cumberland se propôs a estudá-los à luz da história bíblica as coisas começaram a fazer sentido e aos poucos outros eruditos de renome se uniram pela investigação minuciosa deste autor fenício até que se descobriu que os seus trabalhos não são senão outra versão daquilo que relatado nos primeiros capítulos de Gênesis.
      O primeiro Bel, do qual nos fala Filo de Biblos em sua tradução, é o mesmo que o Patriarca Noé. O segundo Bel é Cão, filho do mesmo Noé. Cão foi pai de Canaã, que, como sabemos pela Bíblia, foi o fundador da Fenícia. Noutra parte da obra de Sankoníaton está escrito que Cão (ao qual ele chama igualmente de Ham) foi pai de dois filhos: Misraim e Canaã. A cerca destes dois personagens a Bíblia nos assegura que eram filhos de Cão e netos de Noé. Acontece que Cão teve outros dois filhos: Cuxe e Pute.
     Ainda em outra passagem de Sankoníaton nós lemos que Cão, um habilidoso feiticeiro, foi pai de Osíris e de Sidique, sendo este último um homem que se destacara por sua justiça e também por haver sido o descobridor da utilidade do sal. Na opinião de alguns pesquisadores que tenho consultado, esse Osíris é o mesmo que Misraim e eles se apegam a essa hipótese porque Misraim de fato foi o fundador do Egito, ao passo que Osíris se tornou o seu mais excelente monarca.
Em relação a Sidique, quero destacar que o mui espetacular Faber, depois de ter feito exaustivas e frutuosas pesquisas sobre a obra de Sankoníaton, assumiu que essa personalidade tem tudo para ser identificada com o velho Noé.No entanto, o Bispo Cumberland, que foi o iniciador das investigações sobre Sankoníaton, chegou á conclusão de que esse Sidique era o Patriarca Sem e que ele mesmo (Sidique) teria sido o pai de Melquisedeque, que foi rei em Salém e sacerdote do Deus Vivo em Canaã.
     Escrevendo por volta do século I a.C. Diodoro se referiu a Osíris como sendo o mesmo que Cão, filho de Noé. Assim sendo, não estaria equivocada a interpretação pela qual se entende que Osíris é Cão e que Sidique é o mesmo que Sem, já que a Bíblia realmente afirma que Cão e sem eram irmãos. Vamos acrescentar a isso a opinião sustentada por célebres estudiosos que entenderam que Osíris, rei do Egito, teve um irmão chamado Sete, o qual era adorador de um Deus estrangeiro e que não reconhecia as divindades locais. Sete, acreditavam estes nobres biblicistas, era o mesmo que Sem, e os meus leitores hão de se recordar que historicamente falando, Sete foi inimigo mortal de Osíris e que foi declarado apóstata, sendo por isso perseguido e obrigado a fugir do Egito.
      O historiador Plutarco que desfruta da mais elevada estiva entre os acadêmicos, nos conta que quando Sete fugiu do Egito foi parar em uma terra onde fundara a Judéia e a cidade de Jerusalém. Embora não mencionando o nome de Sete, o historiador Flávio Josefo dos hebreus conta uma história que é basicamente a mesma versão daquela mencionada em Plutarco. Eis aí as suas palavras: 
“Temosis, filho de Alisfragmoutosis, tomou um exército de quatrocentos e oitenta mil homens para atacá-los (aos hicsos), mas ao perceber que seria impossível vencê-los, tratou de fazer um acordo com eles e permitiu que partissem do Egito para irem se instalar em qualquer parte que desejassem sem sofrer danos. O número deles era de duzentos e quarenta mil. Eles então partiram, levando tudo que possuíam e foram para fora do Egito, através do deserto da Síria, mas temendo os assírios que então dominavam em toda a Ásia eles se dirigiram a um país que atualmente se chama Judéia, onde construíram uma cidade capaz de conter toda aquela multidão de povos e a chamaram de Jerusalém” (Josefo contra Ápio).
      
     Está evidente que essa declaração de Josefo carece de minuciosa depuração e eu não pretendo aqui me prender aos pormenores, mas deixo em destaque o detalhe da época da colonização da terra que mais tarde veio a ser conhecida pelo nome de Judéia e da fundação da cidade de Jerusalém. Agora Plutarco nos diz que o fundador da cidade de Jerusalém foi Sete. A questão que fica então é: quem verdadeiramente foi Sete? Nós com toda segurança entendemos que ele não pode de forma alguma ter sido o mesmo que o Patriarca Sem. Primeiro porque está bastante claro que originalmente Sem não foi o colonizador das terras de Canaã, nem fundador da cidade de Jerusalém. Historicamente falando, os descendentes de Sem não foram os originais colonizadores da Palestina, mas ali chegaram apenas muito depois de os cananeus a terem possuído. Como lemos em Gênesis 10. 21-23, os países que originalmente brotaram de Sem foram: Elão (Pérsia), Assur (Partes da Assíria), Arfaxade (Caldéia), Arã (Síria) e Joctã (Península da Arábia). Daí inferimos que a informação de Plutarco na qual se diz que Sete fundou a Judéia e Jerusalém não deve ser tomada como uma decisiva alusão ao Patriarca Sem.
      Quem foi o colonizador das terras de Canaã (entenda-se Judéia)? Ora, foi Canaã, como sugere o próprio nome! Quem fundou a cidade de Jerusalém? Deixemos que a Bíblia o responda: “E partiu Davi e todo o Israel para Jerusalém, que é Jebus; porque ali estavam os jebuseus, moradores da terra” (I Crônicas 11. 4). Agora corrobore essa informação com Ezequiel 16. 3: “E dize: Assim diz o Senhor Jeová a Jerusalém: A tua origem e o teu nascimento procedem da terra dos cananeus; teu pai era amorreu e tua mãe hetéia”.
     Quão esclarecedores são esses textos bíblicos! No primeiro somos informados de que os primeiros habitantes de Jerusalém eram os jebuseus. Já no segundo nós somos esclarecidos quanto aos fundadores da cidade de Jerusalém: um era amorreu e o outro era heteu. Observem então à luz de Gênesis 10. 15,16 que jebuseus e heteus eram povos procedentes do Patriarca Canaã. Pronto. Agora sabemos quem era Sete, o famoso sacerdote de El-Shadday que foi peregrinar nas terras do Egito e que teve de fugir dali para uma terra distante na qual fundará a Judéia (que naturalmente tinha outro nome na época) e a cidade de Jerusalém. As evidências não nos deixam enganados. Sete era o mesmo que Canaã, a mesma pessoa que, de acordo com Sankoníaton, foi o original colonizador da Fenícia. Atentem então para o que escreveu G. Rawlinson em The Story of Phoenicia:

     “Os primeiros habitantes da costa marítima da Síria os quais através dos tempos vieram a ser conhecidos como fenícios eram os cananeus. Esse povo, de uma raça descendente de Cão, estava muito próximo dos egípcios, etíopes e dos primitivos babilônios”.
   
     Estamos então de acordo em que Sete e Canaã eram a mesma pessoa e que com tal essa pessoa procedeu da casa de Cão, aquele ímpio filho de Noé. Essa é a idêntica informação que encontramos em Sankoníaton. Ali também está escrito quer Sidique era irmão de Osíris, da mesma forma que Misraim era irmão de Canaã. No entanto, Sidique e Canaã eram a mesma pessoa, assim como Osíris equivalia a Misraim. Nós lemos em Diodoro de Sicília que Cão também foi conhecido pelo nome de Osíris, e, no entanto, o verdadeiro e mais celebrado de todos os Osíris foi um descendente de Cuxe biblicamente conhecido como Ninrode. Misraim a quem Sankoníaton também identifica pelo nome de Osíris foi o original fundador do Egito, porém, Ninrode, sendo seu sobrinho, conquistou aquela terra dantes chamada de Misor em homenagem ao seu fundador. Foi Ninrode que, assumindo o nome de Osíris, batizou aquela terra segundo o nome de seu filho Egito. Foi esse terceiro Osíris (Ninrode), portanto, quem perseguiu e obrigou a Sete, o qual na verdade era o seu tio Canaã a fugir para a região que mais tarde viria ser chamada de Judéia. E já tivemos a oportunidade de demonstrar segundo as Escrituras que os descendentes de Canaã foram os verdadeiros fundadores de Jerusalém.
       Rawlinson com muita propriedade nos conta que no princípio tanto a Fenícia quanto o Egito haviam sido nações monoteístas que serviam apenas ao Deus verdadeiro. Mas como teria sido possível a Canaã (Sidique) tornar-se sacerdote de El-Shadday? A resposta para essa questão não nos parece tão difícil de ser concedida. Afinal, a Bíblia diz que Canaã recebeu uma maldição divina devido ao pecado cometido por seu avô Cão. Essa maldição previa que Canaã seria feito escravo de Sem. Pesquisadores devidamente preparados concluíram que a maldição tinha a ver com a conquista de Canaã por meio do general Josué e pela expansão do domínio judaico iniciada por Davi e Salomão.       Eu também acredito nisso, mas está evidente que parte dessa maldição devia recair sobre a pessoa de Canaã. Eu realmente creio que ele se tornou servo do Patriarca Sem e que nesta condição acabou se tornando piedoso, justo e temente a El-Shadday. Com efeito, os povos que medraram de Canaã são chamados de semitas e não camitas (de Cão), como era de se esperar. Os especialistas observaram neste detalhe e entenderam que os cananeus se tornaram semitas porque falavam o idioma dos descendentes deste Patriarca e que igualmente adotaram a sua religião. Os habitantes de Canaã falavam a mesma língua que os hebreus.
         Reza a tradição que Sete (Canaã ou Sidique) era arauto de uma divindade estrangeira e que no Egito fora declarado inimigo dos deuses regionais. Ele então foge para a Palestina e ali funda a cidade de Jerusalém. Não muito longe dali (creio eu) ele funda outra cidade: Salém, na qual inicia os serviços do culto a El-Shadday, que era o mesmo Deus de Abraão. Não é sem motivo, portanto, que quando Abraão chega para peregrinar na terra da promessa vai se instalar exatamente às portas de Salém, já que era ali que o sacerdote Melquisedeque presidia sobre o santuário de Deus, o que não deixa de ser deveras inusitado. Salvo me falha a memória, deve ter sido no Dicionário Bíblico de William Smith que li que este Melquisedeque provavelmente tenha nascido da descendência de Cão. E não é apenas da semelhança entre os nomes de Sidique e Melquisedeque que depõe em favor dessa teoria. Sankoníaton também afirma que Sidique foi originador de um povo o dinastia chamada Cabiri.
       Diversos autores consagrados já discorreram acerca da identificação dos Cabiri. Faber, por exemplo, compôs uma obra em dois volumes sobre o assunto. Nós sabemos por meio de Heródoto que os Cabiri se instalaram e dominaram em diversas partes do mundo antigo, e as plaquinhas de argila descobertas em Tell-el-Amarna nos informam que um rei (ou uma linhagem de reis) chamado Cabiri estava dominando sobre a região que cobria cidades como Hebrom, Jerusalém e Salém. Pela Bíblia nós também sabemos que a dinastia de Sidique ainda dominava aquelas regiões quando Israel retornara do Egito sob a liderança de Josué, pois Adonisedeque, um de seus últimos representantes, era rei em Jerusalém. A meu ver, portanto, parece provável que Melquisedeque e Canaã tenham sido a mesma pessoa. Para saber mais, aconselho ao leitor que leia o meu livro Elias e a Revolução dos Profetas.