terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Divórcio Cristão

O divórcio pode ser definido como a anulação legal do vínculo matrimonial. Caso me fosse perguntado se existem sacramentos no credo evangélico, eu prontamente responderia que existem três: o batismo pelo arrependimento, a Santa Ceia do Senhor, e, por último, o casamento. Acerca da sacralidade destas três coisas, não temos razões para debater. Eu tenciono falar sobre o casamento, ou mais precisamente a dissolução deste, que é o divórcio. Ora, todos nós sem dificuldades entendemos que o casamento é uma instituição sagrada e que Deus mesmo é o seu mentor; portanto, se tiver de dar uma definição do divórcio, eu afirmarei que ele é o selo e chancela de um fracasso e que a despeito da causa que o tenha motivado, o divórcio sempre há de ser a ruptura de uma instituição sagrada.

       Tenho lido e acompanhado um pouco da história das civilizações e notei que desde os primórdios da humanidade o matrimônio havia sido uma expressão de caráter sagrado, mas que a posterior cultura greco-romana amenizou-lhe o significado ao transformá-lo em um ato público, ou seja, um contrato social. Quando lemos, por exemplo, a obra A Cidade Antiga, de Fustel de Coulanges, entendemos que no princípio (e isso se estendeu por muito tempo) o matrimônio e a família eram de uma natureza indissolúvel, principalmente por se acreditar as sua continuidade no pós-túmulo.

       Hoje sabemos que o casamento é um negócio apenas deste mundo e que não será continuado no além. Apear disso, não há porque negarmos que o matrimônio é uma instituição divina, e que, nessa condição, objetivamente deveria ser anulado apenas por meio da morte de um dos cônjuges. Deveria. Mas infelizmente no mundo real as coisas não ocorrem desta maneira. No presente século as pessoas estão se divorciando quase que na mesma velocidade proporção com que se casam. No meio evangélico não tem sido diferente e vários são os fatores que têm contribuído para o aumento dessa estatística. Estas causas são muitas e estão em diferentes áreas da vida, mas de uma forma ou de outra, o casamento cristão só chega a ser dissolvido quando a sua vida deixa de estar blindada pelos conselhos da Palavra de Deus. E não importa se a decisão de pôr fim ao casamento partiu de apenas um dos cônjuges; quando o matrimônio cristão se torna inevitável é porque ambos fracassaram.

       Não ignoramos que a responsabilidade é pessoal e que dois já não podem continuar casados quando o sentimento e a vontade de um já não batem com a do outro. Acontece que no divórcio o fracasso é dos dois exatamente porque o casamento é uma cumplicidade física e espiritual e que ignorar essa natureza é o princípio da dissolução. Além do mais, devemos levar em consideração a Palavra de Jesus Cristo quando declara que não é da vontade de Deus que os casais se separem. Eu não preciso aqui citar os textos da Bíblia, pois julgo que o meu leitor tem maturidade e que sabe perfeitamente que a Escritura expressamente afirma que Deus abomina o divórcio.

        Então Deus abomina o divórcio? – Pelo menos é isso que diz a sua Palavra. E por que existe o divórcio? – Eu respondo que o divórcio cristão existe por pelo menos dois motivos principais, e o Senhor Jesus, quando tratou do assunto abordou ambas as causas. Em primeiro lugar, Ele afirmou que o divórcio foi aprovado entre o povo de Deus “por causa da dureza do coração dos homens”.

       Essa sentença, tantas vezes sublinhada pelos interpretadores da ética de Jesus, é extremamente reveladora e traz ao lume uma verdade da qual se tem feito pouco caso. Antes de qualquer coisa, essa afirmação de Jesus explica apenas o óbvio. Isso é que o divórcio surgiu primeiramente para beneficiar os homens em detrimento das mulheres. Ora, qualquer um pode concordar que no mundo antigo não existia o divórcio e que o casamento era desfeito apenas por meio da morte. Mesmo naqueles famigerados casos de traição conjugal, não se usava recorrer à separação, já que o adúltero era sempre condenado à morte.

       No início da legislação de Israel, enquanto Moisés dava formas ao código cívico-religioso da nação, as decisões importantes eram tomadas em parceria com os anciãos do povo e os líderes tribais. O concubinato, que nos primeiros tempos não era muito comum, agora estava em voga, e isso permitia ao homem possuir uma esposa legítima e tantas concubinas quanto pudesse sustentar. Essa forma de lei, para ser perfeita, ou mesmo para a banalização geral da moralidade humana, deveria dar às mulheres também o direito de possuírem mais de um marido. Mas para se fazer justiça à época, é bom que o leitor saiba que durante a era patriarcal o mundo era bárbaro e muito desigual para todas as pessoas, de sorte que a mulher, ainda que pudesse, jamais iria desejar a total independência. Para a sua segurança, o que lhe cabia por sorte era conseguir um bom casamento e aceitar viver submissa a esse esposo apesar de possíveis indesejáveis.

       Estando Moisés a promulgar a Torah sobre Israel, os líderes do povo questionaram a lei que os obrigava a manterem o casamento com a mesma esposa durante toda a vida. Depreendendo das palavras proferidas pelo Senhor Jesus, quando disse: “Por causa da dureza de vossos corações...”, podemos sem perigo deduzir que estes líderes nacionais, ou pelo menos alguns deles, se recusaram aceitar a regra do “até que a morte os separe”, e assim obrigaram o legislador a validar a lei que os permitia se divorciarem de suas esposas mesmo por razões que consideramos banais. Moisés sabia que a medida contrariava o plano original de Deus, mas por causa da insistência daqueles homens, ele aprovou o divórcio.

       Nos dias terrenos do Senhor, quando a questão do divórcio foi suscitada pelos líderes da religião local, as leis do casamento haviam sofrido adaptações por causa do modelo de matrimônio que se praticava no mundo greco-romano. Doravante, mesmo que em raros casos, a mulher israelita também podia recorrer ao divórcio. O adultério ainda era crime capital entre os judeus, o marido, todavia, podia anular o matrimônio caso, por exemplo, encontrasse na mulher algum defeito físico ou distúrbio psicológico que lhe desagradasse. Quando indagaram ao Senhor se era lícito ao homem se divorciar da mulher por qualquer motivo, eles tinham em mente as causas acima apontadas. No entanto, Cristo lhes explicou que o divórcio era legal apenas porque estava previsto na lei, mas também esclareceu que Moisés o aprovou contra a sua vontade, pois entendia que o plano original traçado por Deus é que os casais sejam separados tão somente pela morte.

       Evidentemente que nenhum ser humano, fosse ele sacerdote ou profeta, podia invalidar aquilo que Moisés prescreveu na lei. Para tanto, fazia-se necessário que surgisse no mundo um ser superior aos anjos e aos homens, capaz de corrigir antigos erros e fazer justiça á causa feminina. Cristo reprovou tenazmente o divórcio por qualquer motivos e explicou que o casamento, por ser um pacto espiritual, só deve ser desfeito através da morte de um dos cônjuges e que o divórcio deve ser buscado apenas naqueles casos em que ocorrem traições matrimoniais, o que, na legislação da época, também resultava na condenação de morte.

        Vemos então, nessa inicial instância, que o divórcio veio a existir por causa da injustiça praticada pela classe masculina em relação às mulheres. Dadas as explicações do Mestre, vieram os seus discípulos em particular e o interrogaram ainda, porquanto não lhes havia descido bem a idéia de o homem poder se divorciar da mulher  apenas em caso de infidelidade conjugal. Cristo ratificou o seu primeiro dito, e deixou claro que os discípulos, caso estivessem desejosos de praticar a religião com fidelidade, teriam de entender e aceitar que quando um casal se separa por motivos secundários e volta a contrair matrimônio com outra pessoas, anda que estejam acobertados pela lei dos homens, ainda assim serão culpados de adultério diante de Deus. Quem é, pois o homem, seja ele juiz ou pastor, para reinterpretar ou mesmo anular o dito do Senhor?

       Em segundo lugar, ao analisarmos a doutrina de Jesus, entendemos que o divórcio cristão existe também por causa da justiça divina. Como assim? – Já respondo. Ora, nós explicamos que naqueles dias, caso houvesse traição da parte de um dos cônjuges, o infiel seria levado à morte pelo crime de adultério. Nesse caso, ou mesmo em conformidade com o pensamento implícito de Jesus, o divórcio seria necessário apenas para oficializar a liberdade do que havia sido traído.
       Do ponto de vista divino, que não pretende que os casais se separem jamais, o divórcio, quando é causada pela infidelidade conjugal, tem a função de fazer justiça ao cônjuge traído, o que lhe dá o direito real de poder se casar novamente, enquanto que o traidor, caso venha contrair novas núpcias, continuará sendo adúltero enquanto o primeiro esposo viver.

       Essa resolução, ainda que pareça amarga e injusta, é fruto do pensamento vivo de Jesus de Nazaré, cuja ética nós hipocritamente afirmamos seguir. Mas houve mesmo um tempo em que o cristão buscava moldar a vida segundo os padrões da Palavra de Deus. Hoje, porém, sendo liderados por pastores imorais e espiritualmente mortos, os rebanhos do Senhor ficam desprotegidos e o casamento cristão passa a ser visto e compreendido como um negócio banal. Estes pastores infiéis dão aval ao divórcio por qualquer motivo e em não raros casos até instruem os servos de Deus a se divorciarem para outra vez se casarem.

       Na maioria dos casos, são obreiros fraudulentos e adúlteros, que aprovam medidas espúrias pelas quais podem justificar seus próprios pecados. A verdade é que perante Deus os tais são duas vezes culpados e não poderão escapar da condenação. Porque se dura coisa é cometermos pecado, imaginem qual há de ser o final daqueles que, além de pecar, ainda ensinam os servos de Deus a desobedecerem na sua Palavra. Um deles, falsamente chamado de terapeuta, teve a pachorra de afirmar que o divórcio é errado, mas que apesar disso, o crente pode se divorciar, porque a Bíblia diz que “o sangue de Jesus Cristo nos purifica de todo o pecado”. Reparem então até onde chega a cegueira espiritual e a estupidez desses líderes. Pior ainda é sabermos que é essa classe de gente descomprometida que está a conduzir e orientar o povo de Deus. Em um caso como esse, o Senhor Jesus com toda certeza afirmaria que “ambos cairão no abismo.”

       Mas retornando ao ponto principal de nosso estudo, respondemos à indagação que tanto nos fustiga os neurônios: É verdade que o cristão só pode ou deve se divorciar em casos nos quais há infidelidade conjugal? Antes de darmos a resposta direta, vamos trazer á memória que, se no atual momento reina a liberalidade, e a dissolução matrimonial tem sido exposta ao banal, houve uma época (e isso não foi há muito tempo) em que os pastores não aprovavam o divórcio nem mesmo em caso de adultério, de modo que, quando um casamento cristão era desfeito, o cônjuge traído sob a obrigação de viver sozinho até que o traidor viesse a óbito. Uma forma de zelo excessivo que foi fruto da ignorância e que foi tão prejudicial quando o liberalismo que hoje presenciamos. Somos o povo de Deus e temos a sua Palavra para nos orientar.

       Enfim, vamos responder á questão principal desse estudo. Então afirmarei que não. Que Deus realmente não deseja que os seus servos se divorciem jamais, e o Senhor Jesus afirmou que o cristão só deve recorrer ao divórcio como último recurso, isso é, quando um dos cônjuges tiver cometido adultério. Naturalmente que estas palavras de Jesus devem ser tomadas primeiramente dentro do contexto social, cultural e religioso em que foram pronunciadas, e que o seu objetivo era pôr fim a uma questão que devia ser desnecessária. Os líderes judaicos, por exemplo, quando concederam à mulher o direito de em raros casos se divorciar de seu marido, assinalaram que ela podia pedir a anulação do casamento, se, por exemplo, o esposo se tornasse idólatra e quisesse obrigá-la a adorar outros deuses. Eu não qual a opinião de nossos melhores mestres, mas de minha parte estou completamente convencido de que num caso como esse o divórcio não podia parecer injusto perante Deus.

       Mas ampliemos um pouco mais o raio da querela. E se a mulher fosse casada com um homem bruto e espancador? E se ele a obrigasse a cometer abortos? Ou de outra maneira: e se ele deliberadamente a maltratasse, de modo que isso causasse abortos consecutivos? Apresentemos enfim a questão que serve para ambos os lados: E se um dos cônjuges atentasse contra a vida do outro, recorrendo, tomemos como exemplo, ao uso de venenos? Percebe-se então quão complexa é a situação. Sou cristão conservador e não pretendo nem em sonhos fazer resistência às santas recomendações do Senhor, e mesmo assim estou certo de que os líderes espirituais mais judiciosos sustentarão a opinião de que tal como no caso do adultério, em todos os exemplos supramencionados pode o cristão recorrer ao divórcio, porque, para todos os efeitos, todos esses pecados que ora mencionei são muito mais graves do que a infidelidade conjugal.

       Aliás, a infidelidade conjugal torna-se um motivo menor para o divórcio, e comparada com as faltas ora apontadas, pode ser perfeitamente perdoável. É por isso que os pastores mais sábios e espirituais às vezes orientam as suas ovelhas a não se divorciarem nem mesmo quando o casamento for maculado pela traição de um dos cônjuges. Eu acho nobre esse ato de perdoar uma traição conjugal, assim como respeito demais a postura dos líderes que aconselham aos casais a se prepararem espiritual e psicologicamente para a restauração do matrimônio frente a um eventual caso de infidelidade.

       Apesar disso, esse é um conselho que tenho evitado dar. A gente torce e ora sempre pela restauração do matrimônio solapado, mas conheço cristãos que foram traídos e que escolheram perdoar, mas que hoje se arrependem amargamente. Em alguns casos o cônjuge faltoso realmente retomou a vida digna e até ficou melhor do que era antes. Há casos também em que o ser traído optou pelo perdão, e, pensando unicamente em “salvar o casamento”, deixou de perceber que o traidor não demonstrou sinais de arrependimento. Ele até deixou de trair, mas desde então tem se mostrado indiferente, tornando morna a convivência. Por outro lado, tenho acompanhado casos de irmãos que perdoaram, mas que depois perceberam que esse perdão era maior do que se podia dar. Hoje eles vivem amargurados, ou então se sentem injustiçados, e existem até os que não conseguiram mais ter no outro a confiança que tinham antes. Em todos estes casos o que vejo são pessoas espiritualmente feridas, insatisfeitas e presas a um casamento que sabem existir apenas no papel. Por razões como estas, tenho assumido que perdoar ou não perdoar é um assunto muito pessoal e que deve ser encarado com oração e cautela.

       Que diremos então destes casamentos que “existem apenas no papel”, nos quais o cristão, infeliz, vive apenas da ilusão e da aparência? Não deviam as pessoas se separarem quando o casamento real já não existe? O engraçado (ou eu devia dizer o mais trágico?) é que as pessoas costumam recorrer a opiniões muito parecidas quando acham que estão preparadas para se casar. O cristão não deve se entregar a esse tipo de raciocínio, ou de outra sorte, já a ruína o espera. A Palavra de Deus diz: “O homem não deve separar aquilo que Deus uniu”. Casamento, como hei dito, é cumplicidade, de modo que, quando desfeito, gera a falência moral e espiritual de dois cristãos que diante de Deus e dos homens fizeram votos de se amar e viverem juntos até que a morte os separe. Esses votos são coisas sérias, mas infelizmente as pessoas não estão mais dando importância aos bens espirituais.

       Se o meu leitor se encontra nessa condição e está pensando em se divorciar, é bom saber que a separação pode não resolver o problema, e ainda vai criar outro maior. Entenda, amigo leitor, que os cônjuges já fracassaram uma vez e que se recorrerem ao divórcio irão se afastar ainda mais do plano de Deus, pois de acordo com a Palavra do Senhor Jesus, em tal casa o divórcio não lhes confere o direito divino de se casarem com outra pessoa, e além do mais, essa separação cedo ou tarde arrastará ambas as partes ao adultério. Não importa se o teu pastor ou bispo é de outra opinião. Ele não está autorizado a te orientar a fazer o oposto do que foi ensinado pelo Filho de Deus. Eu de minha parte também não tenciono determinar coisa alguma, senão alertar os irmãos no sentido de que ninguém (inclusive este que vos escreve) está isento de ver ruir o seu casamento por razões que, sabemos, podem ser muito pequenas. Mas se mesmo assim alguém deseja se divorciar, deve fazê-lo por conta própria, assumindo toda a responsabilidade e tendo a consciência de que está desagradando a Deus.

    

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Donald Trump, Jerusalém e a Paz no Oriente Médio






                                                         
Dizia Napoleão que os grandes homens são propensos a cometer grandes erros. Eu tenho me perguntado se o presidente Donald Trump é um grande homem, ou se, ao contrário, não passa de um grande irresponsável. Se a segunda opção é mesmo a mais adequada para o momento, deve então ter ficado claro que a sua escalada à Casa Branca já pode ser considerada como o maior engano político da democracia norte-americana.

       Enfim, de que se queixa o homem vivente? Não havia Trump, durante a sua campanha eleitoral, jurado que, se eleito fosse, reconheceria a cidade de Jerusalém como capital do Estado de Israel? Agora ele está pondo em prática o que havia prometido, e o mundo inteiro o está chamando de louco e inimigo da paz mundial. Mas quem esteve atento às promessa de Trump, há de se recordar também que ele afirmou que os conflitos no Oriente Médio devem ser considerados como um problema da segunda ordem, pois as milenares desavenças daquela região, ele as solucionaria com uns poucos telefonemas.

       Não sei se o seu poder e influência chegam a tanto, mas estou completamente convencido em que a paz entre israelenses e palestinos é algo que realmente  pode ser resolvido em meio a um diálogo “diplomático”. Os meus leitores podem estranhar essa minha colocação, mas a verdade é que a restauração de Jerusalém à condição de capital federal de Israel é do interesse de não poucos líderes mundiais. E que ninguém se engane, porque esse interesse é meramente político e não tem o menor traço de simpatia pelo Estado Judeu.

       Vemos então um mundo chocado e totalmente desconfiado mediante a decisão de Trump em reconhecer Jerusalém como capital de Israel, pois o que se alega é que a “irresponsável” atitude do mandatário americano acendeu o pavio de um barril de pólvora no Oriente Médio e pôs em risco a paz mundial.

       Nas ruas não cessam os protestos, e pelo mundo afora os governos aparentemente se recusam a aderir à decisão de Trump, de natureza que mesmo pessoas que dantes se diziam favoráveis à causa de Israel, doravante se mostram apáticas e teoricamente opostas à total independência do estado Judeu. O que vejo é a história se repetindo. Foi sempre assim, e a ainda o será. A Bíblia tem muito a dizer a respeito dessa questão, e os sagrados profetas que não mentem jamais, nos dão a entender que Jerusalém ainda há de ser restabelecida como capital política de Israel e que de nada adiantará a natural aversão que alguns países nutrem em relação ao povo escolhido de Deus.

       Logo, a exaltação de Jerusalém como capital federal de Israel deixa de ser um assunto meramente humano e passa a ser tratado como uma determinação do Deus que prevê o futuro e que faz a História. Se Donald Trump conseguirá sustentar a decisão que tomara em reconhecer a Cidade de Davi como capital política de Israel eu não tenho certeza, mas para aqueles que conhecem a Palavra de Deus e que nela acreditam, não há dúvidas de que tudo não passa de uma questão de tempo.

       Outrossim, caso haja chegado o tempo e a ocasião de se cumprirem as profecias que anunciam a restauração de Jerusalém e o seu mundial reconhecimento como capital da terra de Israel, deve o povo de Deus ficar de prontidão, abandonar o mundanismo predominante no qual está envolvido o cristianismo e se voltar inteiramente para Jesus, porque para o verdadeiro cristão não deve existir nada mais palpitante do que ter a certeza de estarmos presenciando o fiel cumprimento das sagradas profecias.

       É possível que Trump esteja apenas blefando. Talvez não passe de um ensaio apenas, mas a verdade é que cedo ou tarde aparecerá um chefe de Estado com astúcia suficiente para convencer os líderes mundiais acerca aprovação da causa judaica.
       Saibam, senhores leitores, que há quase dois mil anos a cidade de Jerusalém foi destruída e que esteve destituída de sua condição de terra adorada. Durante aqueles anos sombrios os inimigos de Deus zombaram do plano redentor e desdenharam de suas promessas em relação ao retorno dos judeus à pátria prometida. O Mestre Justino Mártir, que viveu no segundo século, muito confiava na Palavra dos Profetas, e se apegou à fidelidade divina para anunciar ao povo crente que de acordo com uma revelação (Apocalipse) confiada por Deus ao apóstolo João, a cidade de Jerusalém voltaria a ser habitada pelos judeus e que ainda seria a capital de Israel no final dos tempos. Céticos e intelectuais da época desdenharam da interpretação de Justino, mas o tempo provou que o pregador da Bíblia estava correto.

       Quem há de assinar a autorização para o reconhecimento internacional de Jerusalém como Capital Federal de Israel? A resposta é: o remanescente daquele governo que também destruiu a Cidade Sagrada de Davi. O homem que conseguir realizar essa façanha há de ser “assassinado” a mando de algum chefe terrorista, mas logo será “devolvido” à vida, e, atemorizado, o mundo democratizado e totalmente globalizado o aclamará governador geral. A nossa Bíblia o chama de anticristo. Ele deve surgir no início do verão escatológico, quando a Figueira começará a dar as suas primeiras flores. MARANATA!!!
      



quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Pilatos - O Procurador Romano na Judéia








No suposto Evangelho de Pedro, lemos desta maneira: “Dentre os judeus, porém, ninguém lavou as mãos; nem Herodes ou nenhum outro daqueles juízes. E por não quererem lavar-se, Pilatos se levantou. O rei Herodes mandou que se encarregassem do Senhor, dizendo-lhes: “Executai o que acabo de ordenar que façais com Ele.”

      Há quem diga que nas oportunidades em que o Evangelho menciona o nome de Pilatos, faz-se transmitir a impressão de uma boa imagem para aquele estúpido e desumano governador romano da Judéia. Não nego. Os evangelistas não se preocuparam em mencionar as atrocidades que esse Procurador loucamente autorizou entre os judeus, e, ao que parece, até fora de sua jurisdição. Lemos, porém, de um massacre de judeus cujo sangue “Pilatos misturou ao sacrifício”. Nada, além disso.

      Isso sugere que os apóstolos mantinham uma boa impressão acerca de Pôncio Pilatos? Negativo. A verdade é que só podemos conjeturar sobre os motivos que os levaram a deixar à parte do Evangelho as mais cruéis atividades do governador da Judéia, pois decerto Pilatos foi o mais odiado dentre todos os representantes imperiais na Terra Santa.

     Os críticos encontram novamente razões para desconfiar da veracidade dos evangelhos, considerando que historicamente a conduta de Pilatos era bem oposta às coisas que sobre ele se lê na escritura apostólica. Irascível, obstinado contumaz e desinteressado pela prática da justiça, ele foi odiado até de seus compatrícios, o que veio a ser determinante quando de sua substituição no governo daquela província. Assim, a imagem de um Pilatos nobre e quase piedoso, tal como às vezes se pode deduzir através do Evangelho, não corresponde aos fatos.
      É o que costumo chamar de desvio de atenção, pois havendo os judeus tratado o Mestre como escória, e Herodes o encarado com desdém, veio retumbante a voz de Pilatos (um homem incrivelmente estúpido) a declarar que Jesus é inocente e que pretende libertá-lo de suas acusações. Encarando assim, não há como não imaginar que esse governador romano tenha sido um bom homem e perfeito juiz.

     Essa imaginação, todavia, só deve ocorrer ao leitor comum, já que submetendo o comportamento que Pôncio Pilatos teve durante o julgamento de Jesus a um frio exame, concluir-se-á que ele não passou de um patife, e se revelará a grotesca caricatura de um governador débil, bajulador, oportunista, e de pusilânime caráter; alguém capaz de entregar à morte um homem cuja inocência estava a toda prova, e isso por puro e simples prazer de tentar agradar a gregos e troianos, visto que se destas coisas pudesse extrair vantagens.

     Em sua monumental obra “História dos Hebreus”, Flávio Josefo nos conta da aparição de Pilatos na Judéia com as seguintes e lacônicas palavras: “Valério Grato, após ter durante onze anos governado a Judéia, voltou a Roma, e Pôncio Pilatos o sucedeu.”

     Josefo testemunha contra Pilatos, asseverando que ele era de natureza violenta e teimoso ao extremo, e que o seu governo foi marcado por constantes turbulências, sempre ocasionadas por atritos contínuos que ele mesmo criava, provocando a turba dos judeus.

     Para piorar, Pilatos não tinha prestígios junto a Herodes, tetrarca de Roma na vizinha Galiléia. Quanto aos judeus, que deviam ser seus subalternos, o desprezavam ainda mais, pois ele era rude e não considerava as leis desta gente. Mas acima de tudo, o governador da Judéia era um fraco, e as classes representantes do judaísmo cedo aprenderam a manipulá-lo, pois o povo perdoará muitos defeitos em um governante, porém, nunca a fraqueza.

      Partindo da premissa mantida por muitos pesquisadores, Pilatos havia sido escravo antes de se tornar dignitário romano. A possibilidade existe e se pudesse ser comprovada, compreenderíamos que ele deve ter sido obrigado a conviver num desconfortável inferno moral, tendo-se em conta que em qualquer lugar do Império, a história demonstrará, explodia como o cúmulo dos insultos o ser alguém governado por um ex-escravo. Mas principalmente entre os obstinados judeus.

      Provas definitivas não existem e consenso geral jamais houve, mas acredita-se que esse governador foi escravizado antes de se tornar representante imperial no Médio Oriente. Isso, decerto, não quer significar que tenha nascido escravo, pois é fato comprovado que durante a época imperialista romana, muitos homens livres se vendiam espontaneamente como escravos se viam nesta condição a oportunidade de ficarem ricos.

      Acontecia de muitos cidadãos pobres ou falidos venderem seus dotes culturais a senhores ricos que mais tarde os nomeariam mordomos sobre os seus negócios, podendo, inclusive, mencioná-los em seus testamentos, ou na maior das venturas adotá-los como filhos e os transformar em legítimos herdeiros. O próprio nome “Pilatos” seria uma referência à sua antiga condição escravocrata. A despeito de outras interpretações que se tem dado, essa palavra deriva do latim “pileus”, uma espécie de boné ou viseira que servia para distinguir o escravo liberto do homem genuinamente livre.

      Verdade ou não, ficou evidente que Pilatos se apavorava ante a idéia de ter de prestar contas aos seus superiores. E foi justamente esse temor que o tornou débil perante a turba dos judeus, quando aos gritos o fizeram ceder, ameaçando-o:  
 
_Se libertares a Jesus não serás amigo de César!

       Igualmente irritante era a rapina, comum em todas as esferas do governo romano, encontrando-se no ofício a oportunidade de enriquecer a custa de seus governados. E no caso de estar atuando nas periferias do Império, podia-se surrupiar em dois anos o que jamais se conquistaria em toda uma vida de trabalho na Itália. Pilatos não seria a exceção.

      Apático governador de uma nação servil, e sem consideração pela vida alheia, Pilatos foi encarregado de presidir o julgamento de Jesus. E vejam quão digno de nota é o fato de pessoas, até então insignificantes, tornarem-se importantes na história unicamente por haverem cruzado a estrada do Nazareno.

      E qual não deve ter sido a sua exclamação quando tão cedo do dia os sinedritas apareceram em sua residência, levando-lhe um Galileu manietado. Pelas palavras com que o Procurador os recebe, é possível acreditar que os judeus faziam aquilo costumeiramente. E Pilatos já estava cansado disto.
 _ Que acusação trazeis contra este?
      Ao que lhes respondem:
 _ Se este não fosse criminoso não o traríamos a ti.

      Diante do governador da província eles foram expondo as acusações contra o Mestre:
 1_ Ele perverte a nação.
 2_ Ele é contrário aos tributos romanos.
 3_ Ele se declara Rei dos judeus.

      A tríplice acusação era bem séria e estava fundamentada em maquinações que visavam impedir que o Nazareno escapasse da severa condenação. E se antes disso Pilatos mostrara-se indiferente às querelas dos judeus, sugerindo inclusive a que eles mesmos se ocupassem de tal julgamento, já não podia encarar o assunto sem a devida seriedade.

      Não sabemos se lhe ocorreu com estranheza o fato de terem os judeus apresentado um homem para ser morto segundo o regime de Roma, pois ante a sugestão de eles mesmos executarem o acusado, eis que eles disseram: “A nossa Lei não nos permite matar a alguém.”

      A curiosa afirmação fez com que pesquisadores acreditassem que o sinédrio realmente não possuía autoridade para pronunciar a pena de morte, sendo assim obrigado a recorrer à voz do Procurador. Mas duvido que tenha sido assim. Todos sabem que para os judeus os preceitos de sua religião estavam muito acima das leis temporais, e Josefo se encarregará de expor que os representantes do judaísmo fizeram questão de deixar isso bem claro a Pôncio Pilatos.

     Em todo caso, Roma sempre permitiu que as nações por ela subjugadas continuassem a manter os princípios de suas leis e até de suas exigências religiosas. Os que defendem a hipótese da incapacidade do sinédrio em anunciar a pena de morte argumentam contra as execuções de Estevão e de Tiago o irmão de Jesus. Mas vejam bem se precisamos insistir com isso: pode-se imaginar Roma condenando, por exemplo, um judeu à morte por haver adorado a Júpiter? E se uma mulher fosse apanhada em adultério, quem deveria se encarregar da sua condenação? Imaginem ainda que os judeus aparecessem diante de Pilatos pedindo a pena de morte para um homem acusado de pederastia; não iria o governa-dor ordenar-lhes a que se encarregassem do assunto, posto que tal prática além de ser muito comum no mundo greco-romano, não constava na lista de crimes do código penal do império?

      As leis da Mishnah dão testemunho de que o Sinédrio podia, sim, pronunciar a sentença de morte em muitos casos e de várias formas. Portanto, a declaração dos judeus diante de Pilatos é emblemática e está maquiada de propósitos. O que aconteceu foi que embora a profecia mosaica já tivesse anunciado a morte do Messias sob o madeiro, a prática de penalizar um condenado com a cruz não era típica de Israel, apesar de existirem informações de que algumas vezes eles podiam pregar criminosos em estacas como penalidades de certos delitos.
      Amparados em suas leis, os judeus podiam sentenciar alguém à morte, por espada, por fogo, por apedrejamento, e, supõe-se, por enforcamento; mas nunca por crucificação. O apóstolo João explica que eles disseram a Pilatos que não podiam matar a alguém, dando-lhe a entender (em resposta à evasiva do governador) que queriam uma morte por crucificação. E para que não restasse a menor chance de absolvição, apresentaram-lhe queixas às quais não podia ignorar.

      Mas em meio àquele inquérito Pilatos ficou sabendo que Jesus era oriundo da Galiléia, fora de sua jurisdição, e como não estivesse mesmo interessado no caso, ordenou que o levassem a Herodes, a quem chamavam de rei, sendo ele apenas governador da Galiléia e possuindo residência muito próxima ao palácio do governo.

      Disseram-lhe que Jesus se proclamava Rei dos Judeus, e a família herodiana vivia em uma constante e silenciosa guerra particular pela supremacia desde o seu mais antigo representante, e uma vez que Roma dividiu o governo de Israel em dois (Judéia e Galiléia), retirando o título de rei da dinastia dos Herodes, orgulhos ficaram feridos. Muito antes disso, o primeiro Herodes havia lançado ao fogo os registros oficiais dos judeus, o que impossibilitaria a muitos provar as suas respectivas genealogias, evitando, sobretudo, que alguém pudesse aparecer a reclamar o trono que havia pertencido à casa de Davi.

      Não menos desconhecido é o fato de haver o atual Herodes se interessado pela impressionante pessoa do Pregador Galileu. Primeiro por acreditar que se tratava de João Batista, cuja cabeça ele fez decepar a pedido de Salomé. O tetrarca julgava que o filho de Zacarias havia retornado dos mortos. Além disso, Herodes ficou informado de que esse Jesus era um pretenso Rei dos Judeus; mui provavelmente aquele mesmo descendente de Davi a quem os magos do oriente foram homenagear no palácio herodiano, há cerca de trinta e três anos. Todos devem estar lembrados de que na época um decreto foi emitido no qual era ordenada a execução de todos os meninos de até dois anos de idade que morassem nas redondezas de Belém.

      O Herodes a quem Pilatos enviou Jesus chamava-se Antipas. Era neto de Herodes Magno e filho de Arquelau, o mesmo “rei” que havia ordenado a matança dos inocentes, da qual Jesus devia ter sido a principal vítima. Agora, por uma inusitada circunstância, os dois pretendentes ao trono estavam frente a frente. Herodes como senhor e juiz; Jesus como escravo e réu. Mas o governador da Galiléia fez pouco caso daquele que diziam ser o prometido Rei de Israel, e depois de humilhá-lo, mondou-o de volta a Pilatos.

      Nos evangelhos não lemos sobre a solução que Herodes tomou a respeito de Jesus. Se o considerava inocente, por que não o pôs em liberdade? Se encontrou nele culpa, por que não o condenou? Lemos, porém, que Pilatos quis se valer da suposta indecisão de Herodes, propondo dar-lhe alguns açoites e o deixar ir em liberdade. Mas no apócrifo de Pedro se diz que a intenção de Herodes em devolver Jesus ao Procurador romano era fazê-lo morrer na cruz. E ainda que essa informação não proceda, devemos atentar que depois daquele dia a amizade antes estremecida entre Herodes e Pilatos estava agora fortalecida.

     O problema, no entanto, permanecia nas mãos do pusilânime Pôncio, pois outra vez se via no encargo de decidir sobre a vida do Nazareno. Sendo a sua intenção libertar o acusado, foi coagido pelos judeus a reconsiderar, visto que o denunciassem como a alguém que se opunha ao poder do imperador. Por esse motivo foi que bradaram:

 “Se libertas a este, não és amigo de Tibério César!”
      Como fosse grave a acusação, Pilatos teve de interrogar o próprio Jesus:
 _ És tu o Rei dos Judeus?
      Ao que ele responde:
 _ Tu é que estás a dizê-lo.
 _ Mas foram os teus que te denunciaram!
 _ O meu reino não é deste mundo.
 _ Ah, então és de fato rei?  
 _ Tu insistes em dizer que o sou. Mas foi para isso que nasci, e vim ao mundo para dar testemunho da verdade. Todos os que amam a verdade escutam o que Eu digo.
     Pilatos exclamou:
 _ Quid est veritas? (Que é a verdade?)

      Mas Jesus não lhe dá explicações. Então ele se dirige aos acusadores, asseverando-lhes que o Galileu é inocente. Mas afinal, o que teria provocado essa repentina reação no insolente Procurador de Roma? Ou que impacto teriam aquelas palavras de Jesus causado em sua confusa imaginação? O Mestre apenas lhe disse ter vindo ao mundo para dar testemunho do que é verdadeiro, e isso deixou Pilatos deveras curioso.

      Seja como for, Pilatos se dirigiu aos que condenavam Jesus e fez-lhes uma proposta no mínimo irrecusável. Eles deviam decidir entre Jesus Cristo e um famoso bandido chamado Barrabás. Por se tratar de um criminoso de alta periculosidade, era de se esperar que optassem pela soltura do Mestre. Contudo, ainda que nem o mais pessimista dos homens pudesse duvidar, eles escolheram dar a liberdade a um temido inimigo público, e condenaram ao meigo Pregador da Galiléia.

      Certamente Pilatos ficou deveras decepcionado, pois acreditava que contra Jesus, Barrabás não teria a menor chance. Ele estava enganado! E deve ter sido por essa razão que a Escritura mais tarde declarará que o Procurador desejou libertar o Mestre, ainda que os judeus, contrariando a lógica, o condenaram a morrer em lugar do vil assassino chamado Barrabás.

      A revelação que o Evangelho faz sobre haver existido entre os judeus o costume de se libertar um preso durante a Páscoa tem gerado desconforto em muitos investigadores. Do ponto de vista ideal, semelhante costume não pode ser razoável, mesmo porque está escrito no Evangelho que a oferta se estendia a qualquer criminoso que os judeus decidissem libertar. Ora, é certo que a ninguém, em todo o império, era dado o poder de pôr em liberdade a determinados criminosos (dentre os se conta Barrabás) senão ao próprio César. Pilatos, por mais que quisesse, não possuía poder para tanto. E se por conta própria tomasse semelhante decisão, ficaria em apuros perante seus superiores. E como agravante em favor dos céticos, não existe prova histórica de que Roma algum dia tenha adotado a política de se libertar um criminoso anualmente entre os judeus. Mas isto é dito no que se refere ao plano ideal.

      Na esfera real nos perguntamos: “A troco do quê os evangelistas teriam mencionado essa resolução de Pilatos, se ela de fato não estivesse em conformidade com a história?” Para os que duvidam do Evangelho, a explicação é que os escritores do Novo Testamento pretendiam promover o ódio contra os judeus, culpando-os pela morte de Jesus. Essa explicação, entretanto, não pode ser sustentada, pois tanto o grande historiador Josefo, quanto os livros apócrifos, dão-nos testemunhos de que os judeus realmente pediram a crucificação de Jesus diante de Pilatos. Além do mais, na biblioteca de Roma existiu por muito tempo um documento (bastante conhecido nos primeiros séculos, mas que infelizmente foi destruído) no qual o imperador Tibério responsabilizava o Procurador Pôncio Pilatos por haver cedido à pressão dos judeus durante o juízo condenatório de Jesus Nazareno. E do mesmo modo, há ainda outros documentos antigos que asseguram que a condenação do Mestre só foi possível por que os judeus conseguiram deixar o governador Pilatos numa verdadeira saia-justa. Isso não é uma declaração anti-judaica; é o testemunho historicamente comprovado de que alguns judeus, incentivados ou enganados por seus líderes, pressionaram Pilatos para que Jesus fosse condenado. Em todo o caso, parte da intimação que Tibério fez ao Procurador romano no tocante à condenação de Jesus ainda pode ser lida nos fragmentos dos registros vulgarmente chamados de “Atos de Pilatos”.

      Explicar que o governador da Judéia negociasse a liberdade de criminosos com os judeus não é fácil, mas é possível. E mesmo que para alguns tipos de crimes não existisse perdão, o Procurador romano deve ter caído em sua própria teia ao propor para os judeus uma escolha entre Jesus e Barrabás. Foi como uma bola de neve, e quando se deu por conta, já era tarde. Contra a vontade ele teve de libertar um perigoso inimigo do Estado.

      Agora, lendo com atenção o julgamento segundo testemunhou João, percebe-se que Pilatos fez a seguinte observação, quando propôs a libertação de Jesus: “Vós estás acostumados a que vos solte um preso durante a Páscoa”. Vejam que Pilatos não diz que é um costume romano, e ainda nos deixa suspeitar que tal prática era recente, pois de outra maneira,ele teria dito: “Segundo o vosso costume, o governador deve libertar um preso durante a Páscoa”. Se essa forma de raciocinar pode ser aceita, então se entenderá a razão de os registros históricos não mencionarem que os romanos algum tempo adotaram uma medida legal pela qual criminosos podiam ganhar a liberdade entre os judeus. Além disso, em se tratando de um costume iniciado no governo de Pilatos, não é de se estranhar se antes ou depois dele jamais se tenha falado de sua existência. Outros governadores não tinham que observar tal acordo. Essa é a minha sugestão. E sei que os governos podiam, quando queriam, dar liberdade aos seus presos. Mas beneficiar Barrabás com esse favor certamente jamais havia ocorrido a Pôncio Pilatos. Em nossa gíria diríamos que ele atirou no próprio pé.

      Uma coisa, porém, ficou evidente neste julgamento: Pilatos tentou libertar Jesus. Mas por que apenas tentou, se podia fazê-lo? Talvez devêssemos acrescentar mais uma questão ao nosso rosário de indagações: O que Jesus representava para Pilatos? Decerto, nada além de um réu indefeso, sem o direito de sonhar com a possibilidade de escapar da condenação, já que de seus juízes não se podia esperar clemência. Além do mais, o governador era frio, inconseqüente e sem afeição à vida de seus súditos.

        Mesmo assim, lemos nos evangelhos que Pilatos se dirigia a Jesus chamando-o de Rei dos Judeus. E vejam só, mesmo aqueles pesquisadores que duvidam da boa intenção do Procurador, convencem-se de que ele realmente acreditava que o Nazareno era o legítimo herdeiro de Davi! É muito estranho, porém, que Pilatos pudesse acreditar na realeza de Jesus e ainda assim pretender livrá-lo da condenação iminente. O mais provável e lógico é que estando certificado das intenções do acusado, imediatamente ordenasse a sua execução.

      O Evangelho nos diz que Pilatos chamava Jesus de rei apenas para provocar os judeus; era como se estivesse aproveitando-se da ocasião para ensaiar uma pequena vingança. Sendo isso verossímil, não nos restará alternativa senão admitir que em vez de os evangelistas terem transmitido uma boa imagem de Pilatos, como afirmam muitos críticos, eles o caricaturaram ainda mais, fazendo-nos saber que mesmo perante um julgamento tão sério, esse Procurador romano se deixava levar por seus sentimentos mais mesquinhos. E, acima de tudo, conseguia desdenhar do próprio réu, chamando-o de rei, mas tratando-o como escória.

      Não. Pilatos não acreditava na realeza de Jesus. Logo, o que podia o réu significar para o seu juiz? Um santo homem? Um sábio? Um mágico? - Talvez um pouco de tudo isso. É evidente que não acreditando que o acusado fosse rei, ainda assim podia anunciar a sua morte, se por confissão própria Jesus ao menos dissesse ter interesse pelo reino da Judéia. Mas seu comportamento em tentar libertá-lo da condenação nos faz pensar que o Mestre de certo modo conseguiu despertar a curiosidade daquele ímpio juiz.

      Num apócrifo que o vulgo atribuiu a Nicodemos, está escrito que Jesus realizou milagres na presença de Pilatos. Sabendo-se que Ele havia feito o mesmo no momento de sua captura no Getsêmani, não vejo porque disto duvidar. Mas Pilatos havia sido de antemão advertido pelos líderes judaicos de que o Galileu era mágico e podia realizar coisas impressionantes aos olhos humanos. Se isto real-mente aconteceu, será compreensível que o governador tenha até certo ponto se interessado por Jesus.

      Mas acima de tudo, Pilatos não tinha dúvidas quanto à inocência do Rabbi de Cafarnaum. E daí? Não seria essa a primeira vez que os romanos condenariam um inocente à morte. Se os pesquisadores frisam sempre que Pilatos era frio e implacável, desconsideram que por trás de todo homem prepotente há um ser fraco e inseguro. Mesmo assim, não era ingênuo a ponto de não perceber a astuta manobra dos judeus, que, mesmo querendo ver Jesus morto, não desejavam ser seus executores.

      Ora, Jesus havia se tornado famoso em todo Israel e até fora dele, como podia então Pilatos ignorar a sua existência? Entendia que não era pretenso rei, mas notava nele um ser especial, e foi aí que tomou a medida desesperada de tentar substituir a sua morte pela de Barrabás, um ignóbil homem que por seus crimes alcançou notoriedade nacional na época. E é forte a suspeita de que não houvesse um sido criminoso comum, já que a palavra grega empregada no Evangelho para descrever a sua condição de bandido, é “lestes”, que para muitos é uma variação de “lestai”, vocábulo que as autoridades romanas usavam para identificar os extremistas judeus que tanto na Bíblia quanto em Josefo, são chamados de zelotas ou sicários. Então é compreensível que Barrabás tenha sido um criminoso ao qual Roma certamente não concederia perdão. E se estava reservado à morte de cruz, devia não se tratar de um bandido comum.

      Fato curioso encontra-se nos escritos de Michael Baigent, que se valendo de textos antigos que desconheço, informa-nos que no evangelho de Marcos o primeiro nome de Barrabás era Jesus. Sei que como ocorreu a mim, muitos desconfiarão desta informação de Baigent, entretanto, descobri posteriormente que o dicionário bíblico de James Strong confirma tal constatação. Se assim for, explicar-se-á que Pilatos tenha pronunciado a seguinte frase diante dos judeus: “Que farei de Jesus, a quem chamais de Cristo?” Como se a sua intenção fosse tão somente fazer distinção entre os dois possíveis “Jesus”.
      Ali Pilatos sofreu dupla derrota perante os judeus. Primeiro ele foi obrigado a pôr em liberdade um criminoso de índole inalterável; depois, teve de se colocar a mercê de seus súditos, como marionete, permitindo-lhes pronunciar a sentença que só a ele cabia:
 _ Mas, o que farei com Jesus? – inquiriu desnorteado.
     Ao que o povo exclamou:
 _ Crucificai-o!

      Como não lhe deixassem saída, ele pediu uma bacia com água e lavou as mãos, num gesto simbólico que de acordo com alguns, era típico do povo hebreu, e com isso demonstrou ainda mais a proporção de sua fraqueza como governador, pois estava assinando a condenação de um inocente apenas para satisfazer a vontade dos que queriam vê-lo morto. Assim, seu gesto de lavar as mãos diante do povo, ao invés de fazê-lo alheio àquela condenação, aumentou ainda mais a sua responsabilidade pela morte do Messias.

       E havendo ordenado a que o açoitassem, não com trinta e nove chibatadas, como nos é comumente ensinado, o entregou aos líderes do povo, dizendo-lhes:
 _ Aqui está o homem. Crucificai-o por conta própria.
      Nisso, os judeus gritaram:
 _ Nós temos uma Lei pela qual ele deve morrer, pois disse ser o Filho de Deus!

      Essa nova declaração provocou calafrios em Pilatos, fazendo-o conduzir Jesus para uma consulta em particular. Mas o Mestre não quis lhe dar outras explicações.
 _ Não vais te defender? Vê que tenho autoridade para te condenar e também para te absolver!
     Ao que Jesus lhe responde com um frêmito de sua voz:
 _ Não tens nenhum poder contra mim se meu Pai não o permitir.

      Reconhecendo a própria debilidade, Pilatos tenta provar a si mesmo que está no controle da situação. Iria ordenar imediatamente que o soltassem, mas foi coibido pela turba dos acusadores, que disseram:
 _ Ele disse que é o rei dos Judeus. Como podes ser fiel a César se o queres pôr em liberdade?
      Desorientado, Pilatos os deixou e voltou ao tribunal, a fazer sabe-se lá o quê. E ao retornar, perguntou-lhes:
 _ Desejais crucificar o vosso rei?!

      O mais incrível foi que aquele ajuntamento de judeus apostatou de sua fé e de toda a filosofia de vida que os tinha mantido como nação até àquele dia, quando inadvertidamente exclamaram:
 _ Tirai esse impostor daqui, pois só temos um rei, que é César!

      Na obra: “A História da Vida Privada (do Império romano ao ano mil)”, há um trecho que ilustra bem a situação de Pilatos frente à condenação de Jesus. Reza assim:

    “Libertar escravos constitui um mérito, mas não um dever. Um rei está em seu direito quando condena à morte um criminoso, e é adorável se o perdoa; contudo, o perdão é gratuito, e o rei não age errado se não perdoa.”

      Ficou comprovado que para Pilatos, condenar o Nazareno foi temerário, mas libertá-lo seria um erro ainda mais grave. Portanto, para o seu próprio bem e de todos aqueles que acusavam o Mestre, foi tomada a decisão que não sendo a melhor, era pelo menos a mais conveniente. E como o sacerdote José Caifás havia imaginado, era necessário a Jesus morrer em lugar do povo.



sexta-feira, 21 de julho de 2017

Reinterpretando os Sinais da Vinda de Cristo

Guerras, fome, peste terremotos tsunamis, multiplicação da ciência, evangelização mundial, são todas esta coisas sinais do arrebatamento da igreja? Não! Não necessariamente, porque se assim fosse, o Senhor já teria retornado há muito tempo. Há cerca de duzentos anos que os estudiosos da escatologia cristã vêm associando estes sintomas da vida social, cultural, política, religiosa e natural ao maravilhoso regresso de nosso Senhor Jesus Cristo. Tudo parece explicável e perfeitamente ajustável à expectação gloriosa da igreja, mas apesar disso, o estudo que alia estes “sinais dos tempos” à estação final dos labores evangélicos dos crentes em Cristo foi cimentado sobre uma interpretação equivocada acerca de seu retorno ao mundo em glória e majestade.

       Deve o meu leitor estar se lembrando daquele texto de |Mateus capítulo 24 onde os discípulos interrogam ao Senhor a respeito da época em que se cumprirão as profecias relativas à chamada “angústia de Jacó”, as quais estão perfeitamente vinculadas à vinda do Messias e também fim do presente sistema do mundo. Bem, todos nós sabemos que foi com intenção de satisfazer as expectativas de seus pupilos que o Senhor proferiu aquele mavioso sermão profético no qual aborda os acontecimentos ou “sinais” que deverão eclodir no mundo antes de sua segunda vinda. Cristo falou de sinais nos âmbitos político, social, geográfico, científico e também na esfera religiosa. Tudo bem especificado.

       Há cerca de duzentos, nossos teólogos tomaram estes sinais dos tempos e os interpretaram como sendo evidências da vinda de Cristo para arrebatar a igreja fiel. Eles fizeram isso com a melhor das intenções, mas em assim procederem acabaram popularizando um equívoco que, imagino, jamais há de ser completamente corrigido. Estes nobres expositores da Bíblia não levaram em conta que os sinais dos tempos, tal como apontados pelo Senhor, eram apenas uma porção da resposta que Ele deu à tríplice questão levantada pelos discípulos, a saber: “Quando serão estas coisas, e que sinal haverá da tua vinda, e do fim do mundo?”

       Cristo então lhes responde dentro do contexto de uma esperança escatológica que já era popular e muito bem definida entre os judeus. Ou seja, Ele falou de acontecimentos que devem ser presenciados no mundo durante a época que antecederá a sua segunda vinda, a qual de fato é apenas a primeira, de acordo com a expectativa escatológica dos judeus. Nossos teólogos esqueceram também que esta segunda vinda de Cristo não tem relação alguma com o arrebatamento da igreja, mas com o seu regresso em glória e majestade para a nação dos judeus a fim de cumprir as profecias e promessas de Deus aos pais.

       Para os que estão familiarizados com a escatologia judaica vigente nos dias do Novo Testamento, não existem dúvidas. Estes sinais dos tempos, exatamente os sinais mencionados pelo Senhor, já haviam sido discutidos nos apocalipses dos judeus e apontados como tendo relação com o aparecimento do Messias Glorioso. Isso é, eles já faziam parte do programa escatológico do povo judeus, ou pelo menos de algumas escolas farisaicas, e tinha relação com a sua esperança na vinda do Cristo-Libertador. Sem que haja necessidade de rodeios, o que estou querendo externar é que estes sinais dos tempos não têm relação alguma com a esperança escatológica da igreja cristã, ao que costumamos chamar de arrebatamento.

       Para simplificar, estes sinais dos tempos tratam de acontecimentos que devem sobrevir ao mundo em um curto espaço de tempo, mais precisamente durante a segunda metade da grande tribulação. Para termos a mais clara certeza disso é bastante atentarmos para o cenário descrito no Apocalipse de João. Os cristãos nunca devem estar preocupados com “os sinais dos tempos”, porque quando eles começarem a acontecer, a igreja já não estará aqui. Alguns crentes preferem acreditar de outra maneira e chamam de heresia a fé que temos de sermos arrebatados antes da grande tribulação, mas a verdade é que os chamados sinais dos tempos não possuem valor aplicável à vida e à esperança do crente em Jesus.
        Os sinais não têm relação com o arrebatamento, mas com a manifestação pessoal de Cristo desde as nuvens do céu. Noutra oportunidade hei de escrever um estudo sobre os “Dois Arrebatamentos Escatológicos”, tão evidentemente descritos na Bíblia, e darei explicações acerca de como a doutrina do arrebatamento da igreja foi desenvolvida e crida entre os primeiros cristãos. Como não posso me eximir do assunto, também pretendo chutar o balde e de uma vez por todas dar demonstrações de que a igreja não passará pela grande tribulação. Por enquanto, sugiro aos meus leitores que leiam com paciência e atenção a minha postagem sobre a “Contribuição de John Darby à Escatologia Moderna”.

       Fiquem com Deus Nosso Senhor, e até breve.