sábado, 4 de março de 2017

A Falência da Escola Dominical

O Pastor David Brito não se cansava de enfatizar: “A Escola Dominical é o seminário da igreja”, e ele estava completamente correto em sua maneira de raciocinar. Houve mesmo uma época em que os alunos verdadeiramente aprendiam, e não era raro ouvir alguém dizer que a Escola Bíblica Dominical era a mais gratificante reunião da igreja. O tempo passou e as coisas mudaram drasticamente. Eu, por convivência, conheci a EBD em cinco estados brasileiros e em todos eles a freqüência dos crentes nestas reuniões era massiva, sendo que pelo menos noventa por cento dos cristãos eram matriculados, e destes, cerca de oitenta por cento era freqüentadores assíduos da Escola Dominical.

       Hoje o que se testemunha é uma cena lamentável. As escolas estão cada vez mais vazias e existe até quem as considere como desnecessárias. Na região onde moro, por exemplo, existem pastores presidentes de campo, presbíteros e diáconos que nunca vão às reuniões da EBD. Não poucos líderes a submeteram ao completo descaso. Eles começaram evitando-as, depois as transferiram do Domingo para outros dias da semana, e mesmo assim, não é coisa rara eles marcarem outro tipo de atividade exatamente para aquele dia e hora, fazendo assim com que a reunião seja adiada ou simplesmente anulada. O descaso tem sido geral.

       O que se comenta nos bastidores é que os assuntos ali tratados são enfadonhos demais e que noutros casos a CPAD tem reprisado temas já estudados. Eu reconheço a validade desta alegação, mas o fato é que o problema vai além do apontado. Certo pastor, ao tratar do assunto comigo, me perguntou se o problema não está em que a nossa mentalidade evoluiu bastante em relação à mentalidade proposta pelos comentaristas de nossas Lições Bíblicas, porque, para todos os efeitos (pondera ele), o sistema de ensino deles não mudou muito desde que aceitamos a fé há cerca de trinta anos. Isso também é verdade, mas acho que não vem ao caso, pois eu continuo a freqüentar a Escola Dominical como sempre o fiz. Não obstante, a observação prevalece, porque alguns dos professores com os quais tenho lidado e que também são assíduos freqüentadores da EBD, também têm reclamado dos conteúdos de nossas Lições Bíblicas. Eles alegam que está sendo difícil trabalhar encima dos gabaritos produzidos pelos comentaristas e que às vezes estes escrevem sem levar em consideração o nível intelectual e o grau de exigência de alguns alunos. Eu mesmo já me deparei com lições às quais considerei tão supérfluas quanto evitáveis. Do mesmo modo, estes seletos professores costumam ensinar com a revista fechada, dando provas de que não dependem do conteúdo da lição. Isso é um péssimo sintoma.

       A CPAD parece estar se esforçando no sentido de inovar e de injetar ânimo no sistema educacional da instituição através de seminários e palestras. Pastores e outros mestres de várias partes do país também têm contribuído através de blogs e sites regularmente dão suporte as professores a cada nova lição. Isso é bom e útil, mas ao que parece, o cerne da coisa não está precisamente ou tão somente em ampliar o cabedal intelectual de nossos professores. Na verdade, a maior parte desse problema está é no material de ensino que dispomos. Precisamos ser francos e aceitar que os comentários de nossas lições dominicais são elementares e que não agregam conhecimento útil nem sabedoria proveitosa. Infelizmente não dá para crescer em conhecimento sendo nutrido segundo a cartilha da CPAD.

       Na verdade, e a fim de não sermos injustos, há apenas dois ou três comentaristas de Lições Bíblicas que regularmente escrevem coisas dignas da pena de um estudioso, e foi por reconhecer esse fato que num trimestre do ano passado eu fiz questão de escrever ao Pastor José Gonçalves, parabenizando-o pelos excelentes comentários  que fizera na edição da Lição Bíblica na qual tratara sobre a Carta de Paulo aos Romanos, o que considerei uma jóia do pensamento cristão moderno. Outros profissionais da área deviam pensar a respeito e igualmente se aplicar em produzir literatura de cunho verdadeiramente teológico, em vez de ficarem a discorrer sobre assuntos sem importância.

       Para alguns comentaristas pode parecer árdua tarefa esta de se colocar na condição dos alunos da EBD e experimentar de suas exigências intelectuais. Eles também estão insatisfeitos com o conteúdo de nossas lições. Quanto aos professores, muitos deles são obrigados a se virar como podem, já que em não raros casos, subsídios não há que os favoreçam. E não quero que o meu leitor imagine que estou a duvidar das capacidades de nossos comentaristas. Longe disso! O que estou a declarar é que os conteúdos de nossas Lições Bíblicas (salvo os casos supracitados) são superficiais e que se equipara à qualidade do ensino secular de nosso país, que, aliás, é paupérrimo.

       Me ponho a pensar, entrementes, quão frutífero seria o aprendizado se o grosso de nossos comentaristas escrevessem com a mesma desenvoltura de Alexander Balmain. Ele era brilhante, mas se tornou ainda mais eficiente porque conseguia ensinar teologia profunda sem se desvencilhar da graça e da devoção. Um dos profissionais da CPAD esteve em minha cidade há alguns anos e abertamente afirmou que a editora reprime a liberdade teológica e intelectual de seus contratados. Não me lembro de tê-lo ouvido pedir segredo a respeito, mas não é novidade. De minha parte, não discuto se isso é bom ou ruim, pois toda empresa possui alguma política interna, e, por outro lado, os contratos existem para que sejam respeitados, mas uma vez que a minha condição de educador da igreja me obriga a consumir os seus produtos, vejo-me no direito e na responsabilidade de externar a insatisfação com a qual tenho convivido.

       Outro pastor, cuja influência é bastante notável dentro da Convenção Estadual da AD na Bahia me disse que a CPAD é um “grupo fechado” e que novas mentalidades não são bem-vindas. Isso sim é uma perda lastimável! O time de comentaristas de Lições Bíblicas é composto por seis ou oito cabeças, e algumas delas estão a escrever as mesmas e infrutíferas coisas há anos. Se continuarmos assim, vai ser uma tarefa deveras hercúlea livrar da mediocridade as futuras gerações de pensadores cristãos no Brasil. O pior de tudo é que o meu pessoal pessimismo não me deixa acreditar que haverá melhoras nesse sentido, porque para que isso venha acontecer se fará necessário o abandono de velhos paradigmas, e já ficou comprovado que os amigos lá de dentro não estão dispostos a fazer semelhante sacrifício.
       Bom seria se eles se despertassem enquanto há tempo, porque se esse desinteresse pela Escola Dominical viralizar não haverá como reverter o quadro. E isso, caros publicadores, não tem a ver apenas com alguns “gatos-pingados” do interior da Bahia. Eu pessoalmente conheço ministérios inteiros que estão evitando as reuniões dominicais para aprendizado da Bíblia, e os rebanhos por sua vez, estão seguindo o triste exemplo. O número de revistas de Lições Bíblicas vendidas a cada trimestre não reflete a verdadeira freqüência dos crentes na Escola Dominical.

       Recentemente certo amigo usou o celular para gravar uma reunião dominical em sua igreja onde o número de membros ultrapassa a casa das duas centenas, e o que o vídeo mostra é a realidade nua e crua: menos de dez crentes estavam presentes, e, dentre estes, nem o pastor nem qualquer representante da liderança local. A cena se repete em outras igrejas e a impressão que fica é que apenas os “ignorantes” é que estão levando a escola Dominical a sério. Tem pastor que prefere passear no shopping com a família nas manhãs de Domingo. Presbíteros há que trocam a EDB pela praia ou pelo futebol. E não pensem que estou exagerando quando digo que existem até presidentes de ministérios que preferem ir à rinha ver briga de galos a se unirem ao rebanho aos Domingo para uma discussão sadia em torno da Palavra de Deus. Não seriam sintomas de falência espiritual? Que cristão, em sã consciência, abdicaria de ir à igreja na manhã de Domingo com a família para juntos aprenderem a Palavra da Verdade?

       Apesar disso, alguém desejará reagir a isso alegando que a frieza espiritual é um sinal dos tempos. Tudo bem. Que seja então! Todavia, isso não deve impedir que a CPAD e sua junta de educadores se ocupem em fazer a sua parte produzindo Lições Bíblicas com conteúdo verdadeiramente proveitoso. Não ficarei surpreso se alguns se levantarem para defender o atual estado das coisas; é em nome dos inconformados que estou a me pronunciar.


       Suplicarei então aos prezados irmãos da CPAD que não tomem estas minhas palavras como ofensas, porque afinal de contas somos todos servos de Deus e desejamos a saúde plena da igreja de Cristo. Ademais, vocês também sabem que é possível fazer melhor.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

A escatologia da Harpa Cristã

Ainda presos à questão suscitada em nossa postagem anterior, na qual abordei a premissa sustentada por certo pastor ao assegurara que “a escatologia não muda” desejo trazer ao lume outra demonstração de como a Doutrina das Últimas Coisas tem evoluído e se aperfeiçoado ao longo dos anos. Uma observação hei de fazer, porém, a saber: que ao mencionar a “evolução da escatologia”, estou a destacar apenas que a verdadeira evolução não ocorreu no campo dessa disciplina teológica, senão na maneira como a estudamos e compreendemos.
       
     Uma prova clara e irretorquível de que a escatologia muda e que pode ser “melhorada”, nós a temos nos dados que ora apontarei. Vamos então iniciar esse estudo indagando do leitor se ele sabe de fato o que cremos, nós que professamos o modelo de fé e esperança adotadas pelos membros das Assembléias de Deus. Mas eu a isso me refiro quanto à forma e à ocasião da segunda vinda de Cristo. Ora, como é do conhecimento de todos, no que se refere ao arrebatamento da igreja, tem se admitido os assembleianos adotam a opção pré-tribulacionista, ou seja, a explicação comumente aceita de que o Senhor Jesus virá como um ladrão na noite com o intuito de nos arrebatar secretamente antes do aparecimento do anticristo e da eclosão da grande tribulação.

      Explicação aceita sem relutâncias, mas que na verdade não reflete o original sentimento de nossa denominação quando de sua fundação e desenvolvimento. Isso porque, na época em que foi deflagrado o grande reavivamento espiritual da Rua Azusa, e a despeito da prevalecente expansão do Dispensacionalismo difundido por John Darby e seus companheiros, as idéias que os cristãos tinham acerca da forma e da ocasião da chamada segunda vinda de Cristo ainda não estavam perfeitamente delineadas, o que na opinião de alguns, não deixa de ser uma escandalosa deficiência, principalmente se considerarmos que naquela época o cristianismo já contava com quase 1900 anos de fundação.
As deficiências expressas na compreensão que aqueles nobres irmãos tinham acerca da forma e da ocasião do retorno de Cristo para buscar a sua igreja andam estão ainda são patentes e continuam ecoando na liturgia e nossas reuniões, principalmente através da composição de não poucos cânticos congregacionais que (graças a Deus) foram preservados na Harpa Cristã, que é o hinário oficial adotado não apenas nas Assembléias de Deus, mas também em outras denominações evangélicas.

       Em diversos e muito bem reconhecidos hinos dessa harpa Cristã, é comum percebermos como os santos de outras décadas fizeram confusão no tocante aos elementos que envolvem as “duas fases” da segunda vinda de Cristo, e respeito delas falavam como se na verdade o Senhor houvesse de vir uma vez apenas. Vejam por exemplo o que diz o compositor do hino de número 70:
“Nós aleluia daremos a Cristo, quando o virmos nas nuvens voltar, de esplendor e de glória vestido, Seus escolhidos vai arrebatar”.

       Atentem agora para o que diz as três estrofes do hino 74. Aqui transcreveremos a primeira delas apenas:
“Talvez Cristo venha ao romper da aurora, com santos arcanjos e com voz sonora; os mortos porá dos sepulcros pra fora; Jesus breve vem nos buscar”.

Já o hino 191 diz assim na última estrofe:
“Jesus do Céu há de voltar, em majestade e glória, então seus anjos irão cantar o hino da vitória. Jesus enfim vai suplantar o anticristo, e reinar, Jesus, Jesus, ó vem me arrebatar!”
Para finalizarmos, vamos observar a letra inicial do hino 442:
“Breve no Céu, Jesus há de aparecer em gloriosa luz; todos o hão de ver. Naquele dia, então, eu hei de receber de Cristo galardão; Oh! Que prazer!”


     Por aí podemos notar que aquelas gerações de cristãos, cuja sinceridade e fé devemos imitar, não possuíam claras noções acerca da escatologia que na atualidade havemos acatado. O que é uma pena, pois alguns destes sacros compositores partiram para estar com o Senhor há menos de quarenta anos, de modo que, se ocorreu alguma revolução no pensamento e no sentimento assembleiano em relação à nossa escatológica esperança, temo que isso só pode ter se dado em um tempo relativamente recente. O que não deixa de ser um avanço nesse sentido. Gostaria que acontecesse o mesmo em relação à errônea concepção que os nossos monitores têm sustentado no tocante às Bodas do Cordeiro. Mas isso deve ser assunto para outra oportunidade.

Donald Trump é o anticristo?

Existem postagens que a gente publica e depois se arrepende, mais em função do tempo que se encarrega de provar o quanto é possível estarmos enganados. A presente dissertação é um exemplo disso; eu a escrevi há cerca de dois meses e tenho estado relutante quanto à sua publicação por receios de que possa estar cometendo algum tipo de injustiça. Outros há que se aventuraram a fazer o mesmo, e hoje com resignação entendem que a eloqüência do silêncio podia ter sido a melhor das opções.
       Fato é que desde o início dos anos 70, tem-se dito e escrito que o palco está sendo preparado para que o anticristo seja apresentado ao mundo. Durante esse período de tempo tão curto não foram poucos os indivíduos que apareceram para assumir o posto daquele que aterrorizará o mundo em suas horas finais, e, apesar disso, temos notado como a opinião das massas vai mudando ao passo em que novos candidatos vão surgindo. Bush, Clinton, Obama, João Paulo II, Bento XVI, Papa Francisco e até Sadan Hussein já foram apontados como prováveis anticristos, porém, a obsessão do momento tem se concentrado em Donald Trump, o atual presidente dos Estados Unidos, e, convenhamos, esse polêmico mandatário dos norte-americanos para se esforça para atrair todos os predicados a si. Trump tem exagerado no estereotipo, e assim fazendo com que os mais atentos descubram nele alguns traços que correspondem em muito com as descrições que a Bíblia faz a respeito daquele que há de ser o Homem do Pecado e Filho da perdição, a famigerada Besta do apocalipse.
       Todas as atenções estão voltadas para ele; até as criancinhas inocentes estão temendo que Trump venha se tornar o monstro que provocará a Terceira e definitiva Guerra Mundial. Os “caçadores de anticristos” também estão eufóricos e certos de que finalmente encontraram o homem que há de virar o mundo de ponta-cabeça. Paulo, nosso apóstolo dos gentios por excelência, nos falou acerca da aparição do anticristo e disse que o espírito que o rege já está no mundo, mas que também existe algo ou “alguém” que impede a sua manifestação, até que seja tirado do caminho.
       Teólogos da atualidade acreditam que Paulo estava se referindo ao Espírito santo quando afirmou que existe “um que ainda o detém”, todavia, os primeiros pais da igreja interpretaram estas palavras de Paulo como sendo alusivas ao Império Romano, pois entendiam , à luz da perspectiva comum de Daniel e Apocalipse, que o anticristo deve aparecer primeiramente segundo a imagem de uma pessoa inexpressiva e que aos poucos se tornará tão proeminente (aliás, é esse o significado da palavra “Trump”) que eliminará os três principais sustentáculos do reino que estará dominando o mundo de então. Os mais afeiçoados à Teoria da Conspiração já se anteciparam em atestar que Trump, o chifre pequeno da profecia, já abateu aos três chifres maiores, a saber: Clinton, Hillary, e o próprio Obama.
       Eu não estou tão seguro quanto às posições assumidas por ambas as gerações de interpretadores da Bíblia. Talvez as duas escolas estejam parcialmente corretas, mas pode ser também que as estejam igualmente equivocadas. A interpretação que enxerga no Espírito santo um obstáculo ao aparecimento do anticristo quer que acreditemos que ele só se manifestará ao mundo depois do arrebatamento secreto da igreja, conquanto (acreditam eles) é o ministério do Espírito santo através da igreja que impede a aparição da Besta. Particularmente tenho considerado essa interpretação deveras presunçosa, porque na sua presente condição, o cristianismo está mais para aliado do que para adversário do anticristo, mas por outro lado, devo admitir que Deus não depende daquilo que creio ou deixo de crer. Em relação ao ponto de vista segundo o qual o Império Romano deve ser o verdadeiro obstáculo à manifestação da Besta, apesar de muitíssimo interessante, tem lá os seus percalços.
        Mas preciso me ocupar primeiramente com aquilo que há de favorável a esta interpretação, porque embora as pessoas entendam diferente, a verdade é que o Império Romano  jamais deixou de existir, e tão certo quanto a Bíblia declara que esse reino de opressões estaria reinando no mundo na ocasião da vinda de Cristo em gloria e majestade, assim também é certo que ele continua a exercer a sua opressão sobre as nações, principalmente por meio de seu principal instrumento, os Estados Unidos da América!
       O Império de Roma, sob o qual Cristo foi crucificado e sob cuja fúria foram perseguidos e martirizados incontáveis milhares de cristãos, nunca expirou, apenas se camuflou e migrou para o continente assim chamado de o Novo Mundo, e dali permanece a exercer a opressão sobre as nações.
Não será surpresa para ninguém se o anticristo surgir dos Estados Unidos da América. É bem certo que muitas dentre as famílias mais importantes da Roma Antiga ainda existam e que conservam puras as suas raízes genealógicas. Pois bem, o profeta Daniel assegura que a Besta do Apocalipse há de nascer do Império de Roma. Estas seletas famílias, todas elas detentoras do verdadeiro poder que oprimiu a Europa durante mais de dois mil anos, vieram para a terra à qual chamaram de América do Norte e a colonizaram com intenção de torná-la em um nova Europa, de onde também fomentaram a criação da etérea, porém, real a mal-afamada Nova Ordem Mundial. São estas as famílias que controlam as mais importantes empresas dos Estados Unidos e todas elas estão operantes em todo o mundo. A bolsa de valores, os bancos, as falsamente chamadas de “estatais”, as mídias, as agências de saúde, os institutos de educação, as redes de entretenimento em todos os seus segmentos, tais e tais... Não vamos ficar aqui a enxugar gelo, porque você também já está saturado de ouvir coisas desse tipo. O que pretendo com isso dizer é que se o anticristo viesse agora o mundo já estaria praticamente pronto para recebê-lo, mas principalmente se ele vier da América do Norte.
       Antes de ocorrerem as eleições para a presidência norte-americana, eu já havia comentado que Trump sairia vencedor. Minha ilação era absurda até para mim mesmo, mas eu a fiz por estar apegado à impressão de que havia “algo” por trás da cena a preparar as coisas de modo que ele saísse vencedor da disputa pela presidência. E como eu podia estar certo disso? – Eu simplesmente não estava certo de coisa alguma; apenas presumi que Hillary Clinton seria a peça ideal para competir com Trump e ser por ele “engolida”. Eu assim presumia porque me dava à ilação de que nas eleições norte-americanas praticamente não existem surpresas, mas que se havia alguma, esta seria, certamente, a doce ilusão de que uma mulher surgiria para ser indicada como a mais forte adversária à proposta política de Donald Trump. Eu realmente não acreditava numa vitória de Hillary, pois é do conhecimento de alguns especialistas que não é do interesse de “certas pessoas” que uma mulher seja eleita presidente da nação mais poderosa do mundo. Assim, pude tão somente supor que a escalada de Trump estava sendo programada pelos seus próprios “adversários’. A questão então seria: Com que propósito?
       Não muito depois, fiquei sabendo de rumores segundo os quais a Europa e outras partes do mundo estavam eufóricas com o anúncio da vitória de Trump. O que se falou de imediato foi que o novo presidente dos Estados Unidos enfim criará mecanismos capazes de sanar as sangrias econômicas que estão a provocar anemias por toda parte. O mesmo Trump afirmou diversas vezes que conhece as vias da cura e que com alguns telefonemas seus, médicos se prontificarão em auxiliá-lo nesse grande projeto de restauração que beneficiará o mundo inteiro.
       Devido ao meu compromisso religioso, não me é permitido insinuar que esse ou aquele cidadão do mundo é ou há de ser o anticristo, pois a Bíblia a isso chama de leviandade, e esse é um sentimento que não deve ser cultivado por um cristão. Por outro lado, eu faço uso do direito que tenho de julgar e de acreditar no que as evidências me apontam, mas até isso pode resultar em uma atitude desnecessária. O melhor é me concentrar nas minhas obrigações como cristão e convidar outros a se deliciarem com a fé e com a esperança de que quando o anticristo se manifestar, nós já não estaremos aqui.

       Quanto ao tempo, ele ainda há de demonstrar se estamos enganados ou não. O certo é que mesmo que Trump não venha a ser o anticristo, tragédias são esperadas em todo o mundo durante o seu mandato. E se ele de fato for a Besta, há de ser assassinado em público; isso causará comoção geral, mas ele logo há de ser devolvido à vida e desde então os homens hão de ter o seu anticristo. Porém, alguma coisa me diz que o demônio está brincando com a nossa inteligência, e que Trump ainda não é o homem que se transformará na Besta do Apocalipse. Quem sabe se ele ao menos não dará o golpe final na economia mundial e que arrastará o planeta para um caos financeiro capaz de convencer a todos os líderes globais acerca da necessidade de um governo único? Esse governo único nunca existirá de fato, todavia, é desse mar de desconforto financeiro que surgira o anticristo. Os poucos cristãos sinceros que ainda existem devem se unir em oração e vigilância. Jesus Cristo não tarda vir!

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

A Diferença entre O Tempo dos Gentios e A Plenitude dos Gentios



No ano de 1998 recebi em minha companhia um jovem que havia acabado de se converter ao Evangelho. Ele logo passou a pertencer ao meu restrito grupo de amigos e, agora, passados já vários anos, esse moço se tornou um mestre em assuntos teológicos e um arguto investigador das Escrituras. Recentemente ele me contou de sua experiência enquanto trocava “idéias” em um grupo de WhatsApp formado unicamente por pastores e pregadores de várias partes do país. O assunto da vez era o “atual” cumprimento das profecias, e no leme do barco estava um pastor de fama reconhecida ao qual não poucos cristãos têm considerado como o maior pregador de escatologia do Brasil.
      Entre uma observação e outra, certo pastor fez questão de ressalvar que a imagem e a pessoa do dito pregador deviam ser trazidas sob a mais venerável consideração, mas que a despeito disso, a opinião por ele sustentada devia ser reavaliada já que (ponderava o interlocutor) a premissa estava deveras desgastada. O reverendo, ainda que com carinho e educação, reagiu a esta observação alegando que “não há nada a ser reconsiderado, pois a escatologia não muda”.
       Infelizmente, e para dano do aprendizado cristão, eu tenho de admitir e lamentar que a escatologia não tenha mudado. Pelo menos não para aqueles que por preguiça ou bazófia têm se contentado com os rudimentos da Doutrina das Últimas Coisas. Eu, pelo contrário, tenho ensinado e insistido em que não poucas concepções formadas sobre a escatologia precisam ser abandonadas e completamente esquecidas a fim de que nos apropriemos de conhecimentos mais elevados e consistentes. Para a felicidade dos que amam a teologia eu posso assegurar que a escatologia mudou muito e para melhor.
       A fim de dar um claro exemplo de como estão ultrapassados alguns conceitos antigos e ainda aceitos como corretos no campo da escatologia, chamarei a atenção do meu leitor para um assunto há muito debatido nos círculos intelectuais do cristianismo no Brasil, o qual é a errônea concepção que alguns de nossos doutores têm sustentado acerca do chamado “tempo dos gentios”, tal como foi referido pelo Senhor em Lucas 21. 24: “E Jerusalém será pisada pelos gentios, até que os tempos dos gentios se completem”.
       Mas o que vem a ser esse tempo dos gentios? – Se você fizer essa pergunta a qualquer teólogo ou pregador das Assembléias de Deus, por exemplo, ele seguramente há de responder que o tempo dos gentios tem a ver com a Era da igreja, a chamada Dispensação da Graça. No entanto, eu afirmo que essa colocação está muito equivocada e que foi edificada sobre o nada; ou mais, que ela reflete bem o comodismo intelectual e a presunção dos que fazem a teologia em nossa nação. Aliás, não é de agora que venho chamando a atenção de nossos teólogos para uma consideração mais cautelosa e para uma investigação mais criteriosa sobre o nascedouro das doutrinas que compõem o arcabouço de nossa Teologia das Últimas Coisas. Tal é o caso da concepção formada sobre a expressão “Tempo dos Gentios”.
       Trata-se de um ingrediente constante na tradicional escatologia dos judeus, a qual devia receber mais respeito e atenção da parte de nossos estudiosos mais sinceros. A expressão, ainda que não seja corriqueira nas obras do apocalipsismo judaico, sobressai através das idéias ali desenvolvidas. O tempo dos gentios é, por assim dizer, a extensão do domínio pagão sobre a herança dos filhos de Jacó. Em outras palavras, ela diz respeito à opressão de Israel e à temporária anulação da monarquia davídica até que venha o Libertador de Sião na pessoa de seu Messias Glorioso. Não devia existir confusão sobre as palavras proferidas por Cristo, pois está muito evidente que os gentios ali referidos não são os povos evangelizados e adicionados à Igreja, mas as nações ímpias que pisam e profanam o solo sagrado de Jerusalém. Isso efetivamente não tem nada a ver com a Era da Igreja ou com a Dispensação da Graça.
       Em contrapartida, em Romanos 11. 25, o apóstolo Paulo menciona que “o endurecimento veio em parte sobre Israel, até que a plenitude dos gentios haja entrado”. Essa Plenitude dos Gentios tem certamente tudo a ver com a Era da Igreja e sua missão evangelizadora, pois na presente sessão Paulo se refere aos gentios como sendo aqueles que em função da incredulidade dos judeus em relação à obra redentora de Jesus, acabaram sendo aceitos na comunidade dos filhos de Deus. Notem que o apóstolo se refere a essa plenitude dos gentios como sendo um segredo, isso é, uma doutrina pouco difundida. Quanto a isso ele estava completamente correto. A expressão grega ali utilizada é pleroma, a qual significa literalmente “o complemento ou finalização de uma atividade” que, nesse caso, pode ser a obra evangelizadora da igreja.
       Então, antes de deixarmos ocorrer à nossa imaginação que a escatologia não muda, seria bom fazermos uma consulta mais criteriosa sobre as bases de nosso antigo e ultrapassado modo de entendermos a Doutrina das Últimas Coisas. Até breve.


Daniel 8.14: A profecia das 2300 tardes e manhãs



“Depois ouvi um santo (anjo) que falava; e disse outro santo àquele que falava: Até quando durará a visão do contínuo sacrifício, e da transgressão assoladora, para que seja entregue o santuário, e o exército, a fim de serem pisados? E ele me disse: Até duas mil e trezentas tardes e manhãs; e o santuário será purificado”.

       Observem os meus leitores como é possível à especulação humana transformar em um “mistério insondável” um texto bíblico cuja explicação e compreensão são bastante singelas. Começarei por explicar que tenho uma irmã que por haver perdido o encanto pelo cristianismo histórico, acabou se enveredando pelos ensinamentos das Testemunhas de Jeová. Certo dia estive em sua casa e, ela, assumindo um tom de voz que denotava espanto, afirmou que estava ficando maluca, pois o ancião que presidia no salão ao qual freqüentava estivera dando explicações acerca da profecia de Daniel 8. 13, 14 e dissera algo ao qual ela considerou ser o cúmulo dos absurdos. A razão de seu espanto estava em que o líder de sua organização dissera que as 2300 tardes e manhãs mencionadas na profecia de Daniel deviam ser interpretadas como se referindo a um período de dois mil e trezentos anos ao cabo dos quais o Reino de Deus seria iniciado no Céu e na Terra.
       A fim de resumirmos a questão, vamos explicar que segundo a computação feita e crida entre as Testemunhas de Jeová, os supostos dois mil e trezentos anos da profecia de Daniel seriam ou foram completados no ano de 1914, ocasião na qual Jesus teria feito a “purificação” do santuário celestial, dando assim início àquilo que usam chamar de Reino de Deus. Quanto à minha irmã, estava pasma por não conseguir acreditar que os mestres de sua religião pudessem ter a perfeita certeza de que Cristo fizera a purificação do santuário celeste no ano de 1914.
_ Como é que eles podem tomar conhecimento de algo que teria acontecido no Céu em 1914? – perguntava ela com incredulidade.  E não era para menos!
       No entanto, elaborar interpretações esdrúxulas sobre os números da Bíblia nunca foi um privilégio das Testemunhas de Jeová. Ou o meu leitor acaso não saberia que durante os séculos XVII e XIX era mania comum entre os cristãos fazerem as mais loucas previsões e interpretações encima do supramencionado texto do Livro de Daniel? O mais famoso dentre todos os casos já registrados é certamente aquele que foi estrelado por William Miller, quando ousou interpretar os números da profecia de Daniel 8. 13, 14, e por duas vezes cravou o que supunha ser a exata do retorno glorioso do Filho de Deus.
       Sem querer dar vazão à questão que considero tola demais, irei expor o sentido puro e simples da profecia das 2300 tardes e manhãs, e começarei afirmando que esse número não possui nenhuma interpretação especial e que não tem aplicação escatológica alusiva à esperança da igreja de Cristo. Cabe esclarecer, ademais, que a confusão formada em torno desta profecia só se tornou possível porque alguns expositores desprovidos de certas informações se deixaram enganar pela ilusão que os fez acreditar que esse texto e profecia estejam de algum modo relacionados àquela explicação das setenta semanas de Daniel, mormente à porção registrada no capítulo 9 e versículo 24. O que certamente não é o caso.
       Vamos então à explicação. Uma antiga e até certo ponto simpática interpretação dizia que as 2300 tardes e manhãs mencionadas em Daniel 8. 13, 14 diziam respeito à duração do reinado de Antíoco Epifânio, que é o principal personagem destacado na profecia. No entanto, isso dificilmente pode ser verdade; primeiro porque de acordo com a interpretação ali apontada, a soma de todas as tardes e manhãs daria seis anos, quatro meses, duas semanas e seis dias os quais seriam alusivos à totalidade do tempo pelo qual se estenderia o reinado do ímpio imperador. Mas infelizmente o depoimento da História contraria tal suposição.
       Em segundo lugar, a explicação não deve vir ao caso, porque a profecia diz respeito à duração da profanação do santuário sob a tirania de Antíoco, o que só veio acontecer por volta do quarto ano de seu reinado.
       Em terceiro lugar, as interpretações costumam estar equivocadas porque fazem uso indevido da contagem dos números apontados em Daniel. As duas mil e trezentas tardes e manhãs ali referidas não devem e não podem ser tomadas como relacionadas a determinado número de dias ao longo dos quais se estenderia a desolação do templo de Salomão. Para chegarmos ao exato cerne da questão é necessário que entendamos que as 2300 tardes e manhãs têm ligação não com dias especificamente falando, mas com o número de sacrifícios contínuos ou diários que deixariam de ser oferecidos no santuário em face da profanação causada por Antíoco IV. E visto que estes sacrifícios ocorriam duas vezes a cada dia, a forma correta de computar as tardes e manhãs de Daniel 8. 14 devia ser 1150 dias e não 2300, como se tem suposto.
       Essa forma de estudar o assunto está correta, pois foi exatamente assim que aconteceu. A fim de chegarmos a essa conclusão não precisamos inventar fórmulas mirabolantes ou sacrificarmos o texto bíblico. Suficiente seria fazermos uma consulta à História para vermos como as coisas se ajustam por si mesmas. Vejamos, por exemplo, o que o historiador Flávio Josefo tem a dizer a respeito do assunto:
“Referirei particularmente, com toda a exatidão que me for possível, a guerra que se travou no meu tempo e contentar-me-ei em tocar brevemente on que se passou nos séculos precedentes. Direi de que modo o rei Antíoco Epifânio, depois de tomar Jerusalém e de tê-la possuído durante três anos e meio, foi de lá expulso pelos filhos de Matatias...”

      Noutra porção da mesma obra ele torna a relatar, desta feita se referindo à morte de Alexandre Magno e como o seu reino foi dividido entre quatro de seus generais. Mais interessante de tudo é saber que na ocasião o historiador dos hebreus está fazendo a mais confiável exposição e interpretação das profecias de Daniel, pelo que, retornando ao reinado do iníquo Antíoco Epifânio, eis que ele escreve, ainda se referindo aos generais de Alexandre:

Eles reinaram durante vários anos, e de sua posteridade viria um rei que faria guerra aos judeus, aboliria todas as suas leis e toda a forma de sua república, saquearia o Templo e durante três anos proibiria que ali se oferecessem sacrifícios. Isso tudo aconteceu sob o reinado de Antíoco Epifânio”.

       O número de anos referidos por Josefo em ambas as porções de sua magistral obra representa a perfeita computação daquelas 2300 tardes e manhãs da profecia de Daniel 8. 14. Na primeira menção, o historiador aponta três anos e meio de profanação sobre o santuário, um período durante o qual 2300 sacrifícios deixaram de ser oferecidos. Na segunda menção, ele aponta apenas três anos, mas aqui não há contradição, pois o que se pretende é dar uma soma arredondada e aproximada do tempo ao longo do qual os sacrifícios diários ficaram interrompidos. Segundo a profecia descrita em Daniel 8. 13, 14, a desolação e profanação impostas por Antíoco Epifânio durariam 1150 dias, o que de fato, e conforme à moda que os judeus tinham de contar o tempo, não davam três anos (1080 dias) nem três anos e meio (1260 dias). Eis a solução do problema.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Melquisedeque, o fim de um mistério

Quem foi Melquisedeque? Esse tem sido um mistério tantas vezes solucionado, porém jamais elucidado a contento. Mas se dermos crédito às memórias históricas de Sankoníaton é provável que encerremos aqui a nossa busca pela resposta à questão que tem desafiado o nosso entendimento e curiosidade através dos séculos. Sankoníaton foi um sacerdote fenício contemporâneo de Abraão e ele mesmo compôs duas interessantes obras que ainda podem ser consultadas por pesquisadores de nossos dias. As referidas obras são A Cosmologia e o Livro das Gerações.
      O Livro das Gerações de Sankoníaton possui caráter hermético, mas quando estudado com persistência pode sem sacrifícios da fé ser interpretado à luz das genealogias do livro de Gênesis. Essa obra, pois, sendo traduzida para o grego por Filo de Biblos e conservada para nós pelo gênio de Eusébio de Cesaréia em sua Preparatione Evangelica, oferece uma solução para o enigma da identidade de Melquisedeque.
      Segundo a tradução de Filo de Biblos, a obra de Sankoníaton é marcada pela curiosa sentença: “No princípio existia apenas, Bel, o qual é Cronos, e dele nasceu outro Bel, e depois deste nasceu Canaã. E Canaã foi o pai de todos os fenícios”. Os escritos de Sankoníaton há muito vinham parecendo ser de um redundante mistério, mas desde que o Bispo Cumberland se propôs a estudá-los à luz da história bíblica as coisas começaram a fazer sentido e aos poucos outros eruditos de renome se uniram pela investigação minuciosa deste autor fenício até que se descobriu que os seus trabalhos não são senão outra versão daquilo que relatado nos primeiros capítulos de Gênesis.
      O primeiro Bel, do qual nos fala Filo de Biblos em sua tradução, é o mesmo que o Patriarca Noé. O segundo Bel é Cão, filho do mesmo Noé. Cão foi pai de Canaã, que, como sabemos pela Bíblia, foi o fundador da Fenícia. Noutra parte da obra de Sankoníaton está escrito que Cão (ao qual ele chama igualmente de Ham) foi pai de dois filhos: Misraim e Canaã. A cerca destes dois personagens a Bíblia nos assegura que eram filhos de Cão e netos de Noé. Acontece que Cão teve outros dois filhos: Cuxe e Pute.
     Ainda em outra passagem de Sankoníaton nós lemos que Cão, um habilidoso feiticeiro, foi pai de Osíris e de Sidique, sendo este último um homem que se destacara por sua justiça e também por haver sido o descobridor da utilidade do sal. Na opinião de alguns pesquisadores que tenho consultado, esse Osíris é o mesmo que Misraim e eles se apegam a essa hipótese porque Misraim de fato foi o fundador do Egito, ao passo que Osíris se tornou o seu mais excelente monarca.
Em relação a Sidique, quero destacar que o mui espetacular Faber, depois de ter feito exaustivas e frutuosas pesquisas sobre a obra de Sankoníaton, assumiu que essa personalidade tem tudo para ser identificada com o velho Noé.No entanto, o Bispo Cumberland, que foi o iniciador das investigações sobre Sankoníaton, chegou á conclusão de que esse Sidique era o Patriarca Sem e que ele mesmo (Sidique) teria sido o pai de Melquisedeque, que foi rei em Salém e sacerdote do Deus Vivo em Canaã.
     Escrevendo por volta do século I a.C. Diodoro se referiu a Osíris como sendo o mesmo que Cão, filho de Noé. Assim sendo, não estaria equivocada a interpretação pela qual se entende que Osíris é Cão e que Sidique é o mesmo que Sem, já que a Bíblia realmente afirma que Cão e sem eram irmãos. Vamos acrescentar a isso a opinião sustentada por célebres estudiosos que entenderam que Osíris, rei do Egito, teve um irmão chamado Sete, o qual era adorador de um Deus estrangeiro e que não reconhecia as divindades locais. Sete, acreditavam estes nobres biblicistas, era o mesmo que Sem, e os meus leitores hão de se recordar que historicamente falando, Sete foi inimigo mortal de Osíris e que foi declarado apóstata, sendo por isso perseguido e obrigado a fugir do Egito.
      O historiador Plutarco que desfruta da mais elevada estiva entre os acadêmicos, nos conta que quando Sete fugiu do Egito foi parar em uma terra onde fundara a Judéia e a cidade de Jerusalém. Embora não mencionando o nome de Sete, o historiador Flávio Josefo dos hebreus conta uma história que é basicamente a mesma versão daquela mencionada em Plutarco. Eis aí as suas palavras: 
“Temosis, filho de Alisfragmoutosis, tomou um exército de quatrocentos e oitenta mil homens para atacá-los (aos hicsos), mas ao perceber que seria impossível vencê-los, tratou de fazer um acordo com eles e permitiu que partissem do Egito para irem se instalar em qualquer parte que desejassem sem sofrer danos. O número deles era de duzentos e quarenta mil. Eles então partiram, levando tudo que possuíam e foram para fora do Egito, através do deserto da Síria, mas temendo os assírios que então dominavam em toda a Ásia eles se dirigiram a um país que atualmente se chama Judéia, onde construíram uma cidade capaz de conter toda aquela multidão de povos e a chamaram de Jerusalém” (Josefo contra Ápio).
      
     Está evidente que essa declaração de Josefo carece de minuciosa depuração e eu não pretendo aqui me prender aos pormenores, mas deixo em destaque o detalhe da época da colonização da terra que mais tarde veio a ser conhecida pelo nome de Judéia e da fundação da cidade de Jerusalém. Agora Plutarco nos diz que o fundador da cidade de Jerusalém foi Sete. A questão que fica então é: quem verdadeiramente foi Sete? Nós com toda segurança entendemos que ele não pode de forma alguma ter sido o mesmo que o Patriarca Sem. Primeiro porque está bastante claro que originalmente Sem não foi o colonizador das terras de Canaã, nem fundador da cidade de Jerusalém. Historicamente falando, os descendentes de Sem não foram os originais colonizadores da Palestina, mas ali chegaram apenas muito depois de os cananeus a terem possuído. Como lemos em Gênesis 10. 21-23, os países que originalmente brotaram de Sem foram: Elão (Pérsia), Assur (Partes da Assíria), Arfaxade (Caldéia), Arã (Síria) e Joctã (Península da Arábia). Daí inferimos que a informação de Plutarco na qual se diz que Sete fundou a Judéia e Jerusalém não deve ser tomada como uma decisiva alusão ao Patriarca Sem.
      Quem foi o colonizador das terras de Canaã (entenda-se Judéia)? Ora, foi Canaã, como sugere o próprio nome! Quem fundou a cidade de Jerusalém? Deixemos que a Bíblia o responda: “E partiu Davi e todo o Israel para Jerusalém, que é Jebus; porque ali estavam os jebuseus, moradores da terra” (I Crônicas 11. 4). Agora corrobore essa informação com Ezequiel 16. 3: “E dize: Assim diz o Senhor Jeová a Jerusalém: A tua origem e o teu nascimento procedem da terra dos cananeus; teu pai era amorreu e tua mãe hetéia”.
     Quão esclarecedores são esses textos bíblicos! No primeiro somos informados de que os primeiros habitantes de Jerusalém eram os jebuseus. Já no segundo nós somos esclarecidos quanto aos fundadores da cidade de Jerusalém: um era amorreu e o outro era heteu. Observem então à luz de Gênesis 10. 15,16 que jebuseus e heteus eram povos procedentes do Patriarca Canaã. Pronto. Agora sabemos quem era Sete, o famoso sacerdote de El-Shadday que foi peregrinar nas terras do Egito e que teve de fugir dali para uma terra distante na qual fundará a Judéia (que naturalmente tinha outro nome na época) e a cidade de Jerusalém. As evidências não nos deixam enganados. Sete era o mesmo que Canaã, a mesma pessoa que, de acordo com Sankoníaton, foi o original colonizador da Fenícia. Atentem então para o que escreveu G. Rawlinson em The Story of Phoenicia:

     “Os primeiros habitantes da costa marítima da Síria os quais através dos tempos vieram a ser conhecidos como fenícios eram os cananeus. Esse povo, de uma raça descendente de Cão, estava muito próximo dos egípcios, etíopes e dos primitivos babilônios”.
   
     Estamos então de acordo em que Sete e Canaã eram a mesma pessoa e que com tal essa pessoa procedeu da casa de Cão, aquele ímpio filho de Noé. Essa é a idêntica informação que encontramos em Sankoníaton. Ali também está escrito quer Sidique era irmão de Osíris, da mesma forma que Misraim era irmão de Canaã. No entanto, Sidique e Canaã eram a mesma pessoa, assim como Osíris equivalia a Misraim. Nós lemos em Diodoro de Sicília que Cão também foi conhecido pelo nome de Osíris, e, no entanto, o verdadeiro e mais celebrado de todos os Osíris foi um descendente de Cuxe biblicamente conhecido como Ninrode. Misraim a quem Sankoníaton também identifica pelo nome de Osíris foi o original fundador do Egito, porém, Ninrode, sendo seu sobrinho, conquistou aquela terra dantes chamada de Misor em homenagem ao seu fundador. Foi Ninrode que, assumindo o nome de Osíris, batizou aquela terra segundo o nome de seu filho Egito. Foi esse terceiro Osíris (Ninrode), portanto, quem perseguiu e obrigou a Sete, o qual na verdade era o seu tio Canaã a fugir para a região que mais tarde viria ser chamada de Judéia. E já tivemos a oportunidade de demonstrar segundo as Escrituras que os descendentes de Canaã foram os verdadeiros fundadores de Jerusalém.
       Rawlinson com muita propriedade nos conta que no princípio tanto a Fenícia quanto o Egito haviam sido nações monoteístas que serviam apenas ao Deus verdadeiro. Mas como teria sido possível a Canaã (Sidique) tornar-se sacerdote de El-Shadday? A resposta para essa questão não nos parece tão difícil de ser concedida. Afinal, a Bíblia diz que Canaã recebeu uma maldição divina devido ao pecado cometido por seu avô Cão. Essa maldição previa que Canaã seria feito escravo de Sem. Pesquisadores devidamente preparados concluíram que a maldição tinha a ver com a conquista de Canaã por meio do general Josué e pela expansão do domínio judaico iniciada por Davi e Salomão.       Eu também acredito nisso, mas está evidente que parte dessa maldição devia recair sobre a pessoa de Canaã. Eu realmente creio que ele se tornou servo do Patriarca Sem e que nesta condição acabou se tornando piedoso, justo e temente a El-Shadday. Com efeito, os povos que medraram de Canaã são chamados de semitas e não camitas (de Cão), como era de se esperar. Os especialistas observaram neste detalhe e entenderam que os cananeus se tornaram semitas porque falavam o idioma dos descendentes deste Patriarca e que igualmente adotaram a sua religião. Os habitantes de Canaã falavam a mesma língua que os hebreus.
         Reza a tradição que Sete (Canaã ou Sidique) era arauto de uma divindade estrangeira e que no Egito fora declarado inimigo dos deuses regionais. Ele então foge para a Palestina e ali funda a cidade de Jerusalém. Não muito longe dali (creio eu) ele funda outra cidade: Salém, na qual inicia os serviços do culto a El-Shadday, que era o mesmo Deus de Abraão. Não é sem motivo, portanto, que quando Abraão chega para peregrinar na terra da promessa vai se instalar exatamente às portas de Salém, já que era ali que o sacerdote Melquisedeque presidia sobre o santuário de Deus, o que não deixa de ser deveras inusitado. Salvo me falha a memória, deve ter sido no Dicionário Bíblico de William Smith que li que este Melquisedeque provavelmente tenha nascido da descendência de Cão. E não é apenas da semelhança entre os nomes de Sidique e Melquisedeque que depõe em favor dessa teoria. Sankoníaton também afirma que Sidique foi originador de um povo o dinastia chamada Cabiri.
       Diversos autores consagrados já discorreram acerca da identificação dos Cabiri. Faber, por exemplo, compôs uma obra em dois volumes sobre o assunto. Nós sabemos por meio de Heródoto que os Cabiri se instalaram e dominaram em diversas partes do mundo antigo, e as plaquinhas de argila descobertas em Tell-el-Amarna nos informam que um rei (ou uma linhagem de reis) chamado Cabiri estava dominando sobre a região que cobria cidades como Hebrom, Jerusalém e Salém. Pela Bíblia nós também sabemos que a dinastia de Sidique ainda dominava aquelas regiões quando Israel retornara do Egito sob a liderança de Josué, pois Adonisedeque, um de seus últimos representantes, era rei em Jerusalém. A meu ver, portanto, parece provável que Melquisedeque e Canaã tenham sido a mesma pessoa. Para saber mais, aconselho ao leitor que leia o meu livro Elias e a Revolução dos Profetas.