sábado, 6 de agosto de 2016

As Regras Da Hermenêutica São Inúteis (?)







A Hermenêutica é a disciplina teológica que se ocupa com a consignação de um conjunto de regras aplicáveis à interpretação dos textos da Sagrada Escritura, porém, depois de alguns anos de estudos a fio a gente acaba percebendo que esse conjunto de regras não costuma ser aplicado ou respeitado nem mesmo pelos estudiosos mais conceituados. Por outro lado, hei observado que os nossos mais destacados mestres aplicam sim, as regras da Hermenêutica, mas apenas quando se dão a fazer juízo crítico sobre a interpretação de outros expositores, porque naquilo que eles mesmos ensinam ou escrevem pululam evidências das violências que usam fazer aos textos sagrados, e, no mais dos casos, eles agem como que no “piloto automático” e certamente nem se dão conta de que as famosas regras foram postas de lado.

       Seria então o caso mencionar o que me ocorreu quando estava estudando para escrever um comentário bíblico da Epístola aos Hebreus. Na ocasião, consultei praticamente todos os grandes teólogos que conheço. Pois bem. A quem tenciona compor estudos acerca da Epístola aos hebreus é inevitável se deparar com o desafio de “descobrir” quem foi o verdadeiro autor da referida obra. E eu também não escapei à regra, todavia, sempre possui uma opinião mais ou menos formada a respeito do assunto, mas quando resolvi mergulhar de cabeça na epígrafe acabei me deparando com um mar de informações que apenas se pugnavam mutuamente.
 
       Ora, segundo o raciocínio geral, jamais existiu consenso quanto à autoria da Epístola aos Hebreus, de modo que a sua identificação (salientavam os estudiosos) só se tornaria possível quando analisada segundo os testemunhos internos da obra. Por testemunho interno o leitor deve entender aquelas informações que o autor dá de si mesmo direta ou indiretamente. De acordo com essa regra aparentemente simples, o seleto corpo de estudiosos que hei consultado chegou à conclusões incrivelmente discordantes, porque um dizia que segundo as provas internas, o autor da Epístola é Paulo. Outro, porém, valendo-se das mesmas e legítimas provas afirma que o autor é Barnabé. Um terceiro grupo de expositores devidamente capacitados preferia se apegar à conclusão de que o escritor desta Epístola teria sido Apolo. Outra ala de pesquisadores apontava para Pedro como sendo o real autor da carta sagrada, e eles até apelaram para os recursos da filologia ao citarem paralelos hipoteticamente existentes entre a Epístola aos Hebreus e as cartas deste grande pescador. E ainda, como se pouco coisa parecesse, surgiu outra linha de pensadores que defendiam a hipótese de que a menciona obra não teria sido composta senão pela pena de ninguém mais ninguém menos do que a distinta Priscila, tantas vezes mencionada no Novo Testamento.

       Enfim, como puderam todos estes pesquisadores tão bem preparados chegar a tão distintas conclusões? Segundo afirmavam, todos eles tomaram como base as “evidências internas” da Epístola. No entanto, eu pergunto: Onde ficaram então as regras da Hermenêutica? E, para tanto, eu mesmo oferecerei uma resposta: - Elas foram postas de lado ou simplesmente ignoradas, o que, aliás, é próprio do procedimento de alguns teólogos que têm orientado as nossas gerações de estudantes da Escritura, os quais não raro se espelham em todos eles e acabam enraizados no solo da mediocridade.

       O exemplo acima aplicado tem a mera finalidade de demonstrar aos jovens teólogos que mais importante do que consumir muitos e exaustivos tratados de teologia é possuir uma mente livre e desbloqueada, e também munir-se sempre da capacidade que cada ser humano tem de duvidar. Só a prende de verdade o indivíduo que possui as maiores dúvidas e que descobre a maravilhosa arte de aprender a aprender.
O que estou pretendendo com isto dizer? Seria a Hermenêutica uma ciência tendenciosa? – Não! Longe disso! A Hermenêutica verdadeiramente é boa e útil, de modo que na prática é impossível que nos tornemos um bom expositor da Bíblia sem que façamos o devido uso das regras que regem uma interpretação concisa. Na verdade o problema está é na índole do teólogo, porque não costuma pensar por si mesmo, antes fala sempre em nome de uma junta de eruditos ou mesmo em concordância com uma convenção denominacional. Não que eu seja contrário a estas convenções, mas acontece que as convenções invariavelmente aprisionam. Restringem e bloqueiam a faculdade que as pessoas têm de pensarem por si mesmas. O vulgo costuma dizer que toda unanimidade é burra, e sinceramente acredito que o adágio possui muito a ver com a condição intelectual do teólogo em relação à denominação cristã à qual pertence ou à escola em que foi formado. Alguns expositores seguem á risca o princípio pelo qual acreditam que uma opinião pode ser verdadeira desde que esteja corroborada pelo parecer de meia-dúzia de estudiosos. Alguns dentre estes costumam fazer do resultado disso um dogma. A história geral mostrará, todavia, que se em determinadas épocas os velhos paradigmas não fossem quebrados para darem lugar a novas e arrojadas idéias, há muito que a sã teologia teria sucumbido no campo de alguma forma de inquisição.  
  
       Não direi isso com o propósito ofender a quem quer que seja, mas a verdade é que os teólogos (como todo acadêmico) são tendenciosos por natureza. Isso eu digo porque há casos nos quais eles podem ceder ao que lhes parece conveniente e quando isso acontece eles maiores provas dão de que não são tão confiáveis quanto supõem.

       Eu particularmente obedeço a duas regras básicas. A primeira delas consiste em jamais ceder ao apelo do convencional em detrimento daquilo que o meu entendimento me diz ser a verdade ou pelo menos o mais próximo dela. Acredito que é preferível ser sincero e estar enganado a respeito de um assunto a ser uma “Maria-vai-com-as-outras”, não possuindo assim uma opinião que seja propriamente minha. Certo pensador de nosso país declarou que “no Brasil não existe opinião pública e sim caixa de ressonância”. A mesma observação pode ser aplicada àqueles casos em que o estudioso da Bíblia fala em nome de um grupo ou de uma denominação evangélica. Isso porque o bom pensador é aquele que não abre mão do direito que tem de expor a sua própria impressão acerca do universo em que vive. As denominações cristãs, por mais nobres e bem intencionadas que sejam, estão de alguma forma fadadas a não poucos equívocos e propensões intelectuais. Não direi que isso seja necessariamente bom ou ruim, mas a verdade é que fomos condicionados a essa realidade.
       O mesmo vale para a minha própria denominação, porquanto aqui como lá, os teólogos também não se desvencilharam do hábito de “coar um mosquito e engolir um camelo”. Tratarei de exemplificar isso apelando para um texto da Bíblia ao qual os doutores mais diletos de minha igreja costumam interpretar segundo o método “automático” de pensar, isso é, sem fazerem qualquer tipo de consideração quanto as famosas regras da Hermenêutica tantas vezes evocadas por eles. Apocalipse 1.8 diz que o Senhor Jesus possui as chaves da morte e do inferno, mas expositores apressadinhos fizeram violência ao texto sagrado e acabaram popularizando a errônea tendência segundo a qual se pensa que Ele “tomou” as chaves do inferno das mãos de Satanás. E que não me venham dizer que apenas os ignorantes é que praticam essa forma de Hermenêutica, porque eu mesmo já testemunhei diversos casos em que teólogos importantes das Assembléias de Deus fizeram alusão a esta interpretação descabida. Aqui notamos do modo mais vulgar como as regras costumam ser desprezadas para darem lugar à imaginação do interpretador. 

       Noutro caso bastante comum encontro importantes mentores da minha igreja que citam II Timóteo 3. 16 quando pretendem realçar a doutrina da inspiração plenária da Bíblia. Eu realmente creio que a Sagrada Escritura seja fruto da inspiração divina, mas efetivamente o supracitado texto bíblico não pode de modo algum ser aplicado como uma referência interna à infalibilidade da Palavra de Deus. Isso ocorre porque o expositor, movido por sua tendência convencional, abandona as regras da Hermenêutica para dar lugar à intenção.

       Peço ao prezado leitor que atente agora para outro exemplo que apresentarei. Desta feita o teólogo do qual tratarei era de outra denominação e o caso serve para demonstrar como a Hermenêutica pode ser usada como mero instrumento da índole de um pensador. Em um destes programas de televisão onde as pessoas usam enviar perguntas ao apresentador (no caso um pastor) foi abordada a embaraçosa questão da descida de Jesus ao inferno durante a ocasião de seu sepultamento, quando foi e pregou aos espíritos em prisão, tal como narrada em I Pedro 3. 18-20. A respeito do assunto, eu já havia lido e escutado as mais escabrosas explicações, mas a verdade é que naquela oportunidade o doutor em teologia conseguiu se superar. Ele explicou o dilema ao dizer que o texto não faz a menor alusão à imortalidade da alma, mas que em vez disso, o apóstolo estava a afirmar meramente que o Senhor Jesus, na pessoa do Espírito Santo, veio ao mundo para pregar aos contemporâneos de Noé, os quais verdadeiramente estavam aprisionados pelo pecado. Uma interpretação estúpida e repugnante apresentada por alguém que não tem o menor respeito pela palavra de Deus. Mas por que se daria a uma explicação tão esdrúxula? O problema é que o referido doutor pertence à Igreja Adventista do Sétimo Dia e como tal ele não pode admitir a doutrina da imortalidade da alma tão evidenciada no texto de I Pedro 3. 18-20. Aqui, como em muitos casos, a intenção do teólogo é colocada acima das regras da Hermenêutica a fim de que se faça prevalecer um dogma. Em uma instância como essa é inevitável admitir a burrice da unanimidade.

       A minha segunda regra básica para interpretar a Bíblia é colocar a Escritura acima de qualquer convenção humana. A opinião de uma junta teológica pode ser importante, Mas não deve em hipótese alguma sacrificar a verdade pelo simples fato de esta não estar combinada com a posição de um corpo de eruditos. Os maiores sábios cometem os maiores erros.

       Em suma, o que torna um estudante da Bíblia em um expositor verdadeiramente sábio e eficiente é, acima de tudo, a sua independência intelectual, seu espírito investigativo e a sua capacidade de duvidar. Depois que o homem descobre a arte de questionar ele dificilmente se dobra à opinião da “maioria”, a não ser que esta tenha passado pelo crivo de uma teologia experimental, a qual verdadeiramente jaz no laboratório do entendimento presente em todo indivíduo.

       No mais, o que determina a diferença entre um teólogo medíocre o aquele verdadeiramente conhecedor é o uso que ele faz das fontes. Por isso, a recomendação que faço aos jovens aprendizes da Bíblia é que não adquiram ou consumam autores que não sejam efetivamente bons. Em breve tratarei de explicar quão inútil é ao estudante de teologia o costume de se importar com as famosas Bíblias de Estudo. Esse é outro mal ao qual o jovem teólogo precisa evitar. Até mais.