sexta-feira, 25 de março de 2016

Os Três Banquetes do Messias



       Em Mateus 24. 39 e Marcos 13. 32 está escrito que ninguém sabe o dia e a hora em que acontecerá a segunda vinda do Senhor, mas é possível que o Mestre estivesse se referindo ao arrebatamento da igreja e não à sua vinda propriamente dita, pois os judeus sabem muito bem em que mês e dia do ano o seu Messias virá ao mundo e quanto a isso eles não podem estar enganados. Não se pode afirmar em que ano isso acontecerá, mas a manifestação pessoal do Senhor está marcada para o décimo dia do mês judaico de Tishrei. Sabemos disso porque essa data foi cravada pelo próprio Deus quando nos legou o maravilhoso calendário profético da Bíblia tal como descrito no livro de Levítico.

         E não existe a menor possibilidade de erros, pois assim como a crucificação, a morte e o sepultamento de Jesus deviam acontecer aos quatorze dias do mês de Nisan, e o do mesmo modo o derramamento do Espírito Santo estava reservado para a Festa do Pentecostes ao sexto dia de Sivan, assim também o encontro de Israel com o Messias está determinado para o dia dez de Tishrei, uma data profética durante a qual os judeus celebravam o Dia do Perdão.

        Interpretando o texto de Isaías 60. 22, os sábios de Israel ensinavam que embora a vinda do Messias esteja marcada para o mês de Tishrei, ela poderá ser por Deus antecipada para Nisan, considerando-se que as Escrituras Sagradas e o apocalipsismo dos judeus também declarem que o tempo da salvação de Israel deverá ser abreviado. A tradição diz, colocando as palavras nos lábios do Senhor: “Se o meu povo merecer, eis que anteciparei a vinda do Messias, mas ao contrário, Ele só virá ao seu tempo.” Os mestres dessa religião ainda acrescentaram que se Israel for digno o Messias aparecerá em glória sobre as nuvens do céu, mas se não o forem então Ele virá montado sobre um jumento.

       Está óbvio que ambas as interpretações fazem parte da incompreensão dos judeus, porquanto os seus olhos ainda estejam vendados para que não vejam. Na verdade, a vinda do Messias sobre os lombos de um asno e reservada para o mês de Nisan diz respeito à época de sua humilhação, ao passo que a manifestação em glória esperada para o mês de Tishrei esteja ligada ao tempo de sua segunda vinda. Os judeus não compreenderam e não aceitaram o plano divino e assim fizeram confusão com as duas fases da profecia.

       Em outra profecia bastante destacada por judeus e cristãos notamos dois aspectos da vinda do Messias. Joel 2.23 diz: “[...] Ele vos dará Ensinador de justiça, e fará descer a chuva, a temporã e a serôdia, no primeiro mês”. Calvino negou a validade dessa tradução, mas o fato é que o velho mestre esteve deveras equivocado em sua compreensão. Primeiro porque a comunidade judaica realmente entende que esse texto de Joel se refere às duas possíveis vindas do Messias (sobre um jumento - primeira chuva; sobre as nuvens – segunda chuva). Em segundo lugar, Calvino não tinha como saber que a expressão “Ensinador de Justiça” era um título messiânico bastante divulgado pela comunidade de Qumran em plenos dias terrenos do nosso Senhor. Por outro lado, a afirmação “E fará descer a chuva, a temporã e a serôdia, no primeiro mês” é uma emblemática alusão às duas distintas aparições do Redentor; primeiro como o Messias pobre de Zacarias, e depois como o glorioso conquistador de Daniel. 

     O primeiro mês, tal como mencionado por Joel, pode apontar tanto para Nisan - a época da entrada triunfal em Jerusalém, quanto para Tishrei - a época da celebração do Yom Kippur, quando o Messias enfim se apresentará a Israel. Em ambos os casos, tanto Nisan quanto Tishrei são respectivamente os meses que abrem o ano nos dois calendários dos judeus, portanto, são igualmente chamados de o primeiro mês. Como bem frisou o profeta Joel, naquela parte da Palestina caem duas chuvas anuais, a temporã, referente ao aguaceiro que desaba em Tishrei (Outubro), e a serôdia, correspondente às tíbias águas que refrigeram a terra em Nisan (Abril). O profeta faz menção das chuvas temporã e serôdia, antecipando Outubro a Abril, mas isso só acontece porque ele estava se comunicando através do calendário civil da sua gente. No calendário religioso dos judeus o ano começa em Abril, quando de fato cai uma pacata chuva que refresca a terra, como que num perfeito emblema da primeira aparição do Salvador em Jerusalém na época de sua paixão, morte e ressurreição. Faça-se uma comparação de Joel 6. 3 com Atos 3. 18, 19 e será possível notar como a profecia se harmoniza com o calendário religioso dos judeus.

       O momento áureo da escatológica esperança de Israel está marcado por um dos rituais religiosos que compõem os grandes mistérios da Torah, porque a milenar sabedoria judaica encontrou cinco enigmas bíblicos para os quais afirma não existirem explicações racionais. É claro que estou me referindo ao ritual religioso que prescreve o sacrifício do bode expiatório durante as celebrações do Dia do Perdão. Há um grandioso mistério por trás desse sacrifício, mas antes de nos atermos aos seus pormenores precisamos retornar à batalha do Armagedom, já que existam vínculos entre esse grande conflito mundial e as solenidades religiosas dos judeus na ocasião do Yom Kippur. Surpreendentemente, o traço mais marcante entre estes dois acontecimentos escatológicos e a menção de um banquete que o Messias oferecerá na inauguração do seu reino milenial, um tema controverso ao qual tanto os judeus quanto os cristãos deram equivocado tratamento. 

       Muito relutei no afã de evitar essa discussão, por reconhecer que em abordá-lo estaria expondo a fragilidade das argumentações levantadas por respeitados teólogos e conceituados autores de nossa época, pois a despeito de toda a franqueza eles ajudaram a popularizar uma errônea concepção acerca do assunto. Entendi, entretanto, que o tema das bodas do Cordeiro, além de amplo, é por demais significativo para a compreensão da escatologia judaico-cristã, de modo que o meu trabalho não estaria completo se não o incluísse no bojo de sua investigação.

       Evitarei a banalidade das refutações teológicas, mas iniciarei a minha premissa esclarecendo que as Sagradas Escrituras não tratam apenas de um, mas de três distintos banquetes escatológicos e em todos os casos a figura do Messias tem proeminência. O primeiro banquete é chamado de A Grande Ceia de Deus (Apocalipse 19. 17). Ao segundo a Bíblia chama de A Ceia das Bodas do Cordeiro (Apocalipse 19. 9). Quanto ao terceiro banquete escatológico, é aquele a respeito do qual nos falou o Senhor na noite em que fora traído. Um dos textos chaves é Lucas 22. 14 – 16, mas sugiro ao leitor a que não faça antecipado julgamento e aguarde até que venha o momento em que nos ocuparemos com a sua explicação, porque desejo abordar o assunto por partes e segundo a ordem dos acontecimentos.

       O primeiro banquete do Messias, ou A Grande Ceia de Deus, é um tema constante na escatologia veterotestamentária, muitas vezes abordado nos Salmos e nos Profetas. Não se trata de uma festa propriamente dita, senão do júbilo do povo de Deus no dia do julgamento e destruição das nações ímpias, quando o Messias vier para livrar Israel das mãos daqueles que tramam o seu extermínio. Simbolicamente falando, a carnificina dos inimigos de Deus acontecerá no inverno (Conferir Mateus 24. 20), exatamente na estação da colheita das uvas, quando os lagares se enchem com o sangue da víndima (Ver Apocalipse 14. 18 – 20).

       Nos dias terrenos do Senhor a colheita das uvas era iniciada na segunda metade de Setembro e se estendia ao mês de Novembro, abrangendo assim as comemorações das festas das Trombetas, da Expiação e dos Tabernáculos. Os judeus não compreendiam os significados destas coisas, e, a despeito dos maus presságios, essa era a estação de maior alegria para o povo. Mas retomando o fio da nossa inicial asserção, será verdade que os judeus sabem que o seu Messias virá ao mundo durante as comemorações do Yom Kippur? Sim, eles o sabem. E não apenas isso, eles igualmente reconhecem que é nessa mesma época que lhes sobrevirá a maior de todas as tribulações, um tempo ao qual chamam de As Dores de Parto do Messias, e se alegram na fé e na esperança de que esta há de ser também a ocasião em que hão de receber o dobro dos favores divinos, uma vez que o profeta Zacarias tenha anunciado que Deus lhes dará duas alegrias para cada tristeza que eles passarem.

       Os mestres do judaísmo antigo estudaram esse assunto com o maior dos esmeros e entenderam que é por esse tempo que eclodirá a terrível batalha de Gogue e Magogue. Expositores modernos fizeram grande confusão com esse assunto e fixaram em nossas mentes a idéia de que a batalha de Gogue e Magogue há de ser uma prévia da guerra do Armagedom. Apesar da eloqüência e da paixão com que defendem as suas teses, não deixam de trilhar sobre um conceito errôneo, já que ambas as nomenclaturas são distintas formas de se referir a um e o mesmo conflito.

       O que ocorre é que não se tem levado em consideração o fato de que a expressão batalha do Armagedom seja um epígrafe exclusiva da escatologia cristã, e que, portanto, não pode ser aplicada em nenhuma instância pelo judaísmo conservador, embora siga que na atualidade alguns judeus estejam se familiarizando com a terminologia. Em todo o caso, a original escatologia de Israel costuma se referir à batalha entre Belial e o povo eleito como sendo uma guerra contra Gogue e Magogue, porquanto desde os mais remotos tempos essa tenha sido a forma pela qual identificam o último assalto dos gentios sobre Jerusalém.

       Os estudos judaicos em torno desse acontecimento são muito antigos e já era um tema freqüente nas discussões da comunidade de Qumran. Nos Rolos do Mar Morto há abundante material sobre a guerra de Gogue e Magogue e em todos os casos os mestres essênios costumavam se referir a esse confronto através de textos veterotestamentários aos quais nossos atuais teólogos usam recorrer quando querem abordar a guerra do Armagedom. Como em outros casos, esse elemento da escatologia cristã teve a sua origem no apocalipsismo judaico e só passou a ser conhecido como a batalha do Armagedom lá pelo início do segundo século, quando Ben Zakkai fez precipitar nas sombras a literatura apocalíptica de Israel e a Revelação de Patmos começou a criar novos parâmetros para a futura esperança da igreja. 

       Mesmo assim, o pensamento escatológico dos judeus ficou a exercer a mais avassaladora influência sobre o cristianismo dos primeiros séculos, pois por incrível que pareça, ou diferente do que se costuma imaginar, o Apocalipse de João não foi imediatamente aceito pelos mestres da igreja, mas apenas por aqueles que conheciam a sua verdadeira origem e autoria. De modo que num processo bem lento os cristãos foram se acostumando com as idéias de um Milênio e de umas possíveis Bodas do Cordeiro, porque embora (em tese) estas epígrafes já lhes fossem bastante familiares, era nova a forma com a qual João as introduzia. O mesmo pode ser dito a respeito batalha do Armagedom, dantes conhecida como a guerra de Gogue e Magogue.  

       Os organizadores do Talmude também nutriam especial respeito pela batalha de Gogue e Magogue e eles com muita clareza ensinaram que no fim dos tempos muitos gentios fingirão estar convertidos à Torah, mas que, vindo a guerra de Gogue e Magogue, lhes será indagado: “Com que propósito viestes a nós?”  Então eles se revelarão: “Para fazermos guerra contra Deus e seu Messias.” Em outra lugar lemos assim: “Mas a respeito de Gogue e Magogue, eis o que está escrito: Por que se amotinam as gentes, e os povos imaginam coisas vãs?  Curioso fato, se levarmos em conta que os expositores modernos garantem (e eles estão corretos) que  todo o Salmo 2 se refere ao Anticristo, ao Armagedom e à segunda vinda de Cristo. 

       Mas irei discorrer sobre um texto bíblico que confundiu a incredulidade de R. H. Charles e o levou a duvidar da honestidade dos profetas do Senhor. Está em Ezequiel capítulos 39 e 39, que certamente são as mais lúcidas referências da Escrituras acerca da profética batalha de Gogue e Magogue. O texto é deveras longo para ser aqui transcrito, então pedirei ao leitor que abra a sua Bíblia e a consulte com atenção antes de ingressar nessa parte do estudo. Contudo, ser-me-á necessário apontar o específico versículo que fez Charles desdenhar da milenar sabedoria profética:

“Assim diz o Senhor Jeová: Não és tu aquele de quem Eu disse nos dias antigos, pelo ministério se meus servos, os profetas de Israel, os quais naqueles dias profetizaram por largos anos, que te traria contra eles?” (Ezequiel 38. 17).

       Charles e sua companhia de criticistas estranhavam estas expressões, principalmente porque elas conduzem o leitor a uma profecia a qual, segundo afirma o próprio Deus, já era conhecida em Israel desde os mais antigos tempos, embora siga que as Escrituras Sagradas dos hebreus não a mencionem senão no livro de Ezequiel.

       Na opinião de Charles, essa guerra de Gogue e Magogue teria sido apenas um pretexto que os escribas dos judeus encontraram para através dos séculos irem protelando o cumprimento de uma profecia que jamais iria se realizar, porque julgavam (os escribas) que a referida batalha deveria ter ocorrido imediatamente ao retorno de Israel do cativeiro em Babilônia. E como se não bastasse a confusão, Charles acrescentou que o apóstolo João, não tendo mais o que fazer, adiaria a guerra de Gogue e Magogue para além do Milênio de Cristo.

      No entanto, Charles estava completamente enganado, porque se é verdade que antes de Ezequiel as Escrituras explicitamente não mencionam o escatológico conflito de Gogue e Magogue, temos ao menos a declaração dos rabis que ao longo dos séculos têm sustentado que os nomes de Gogue e Magogue apareceram cedo na história como inimigos mortais de Israel e que os judeus tomaram conhecimento dessa batalha profética muito antes de palmilharem as terras do cativeiro babilônico. Por ironia, e pelo menos mil anos antes de Charles vir ao mundo, já os sábios de Israel recorriam ao texto de Ezequiel 38. 17 para explicar as verdadeiras origens da guerra contra Gogue e Magogue.

       O supramencionado texto diz: [...] Não és tu aquele, de quem Eu disse nos dias antigos, pelo ministério de meus servos, os profetas de Israel, os quais naqueles dias profetizaram por largos anos, que te traria contra eles?” Charles estava correto quando insistia que tal vaticínio até então não havia sido inserido no contexto da profecia bíblica, porém, abusou de sua condição de erudito ao insinuar que os escribas de Israel haviam acrescentado a guerra de Gogue e Magogue à escatologia judaica como um artifício pelo qual pudessem justificar o engano cometido pelo profeta Ezequiel.

       Ademais, Charles não levou em consideração o fato de que nem todas as genuínas profecias de Israel conseguiram entra para as páginas das Escrituras Sagradas. Tal é o caso desta antiga profecia a respeito da futura invasão de Gogue e Magogue à terra dos judeus. Contudo, a tradição religiosa do povo eleito tem conservado as memórias históricas acerca desse escatológico confronto, pois os rabis do judaísmo há muito tempo ensinam que não estão totalmente corretas as interpretações construídas sobre o texto de Ezequiel 38. 17. De acordo com alguns destes antigos mestres, determinadas palavras não foram bem traduzidas e além do mais não foram postas na ordem adequada, porque Ezequiel não teria falado acerca de profetas que “profetizaram por muitos anos”, mas de “dois” específicos profetas que profetizaram nos dias antigos.

       O mestre dos hebreus então questiona: “Quais foram os dois profetas de Israel que nos antigos tempos profetizaram a vinda de Gogue e Magogue?” E ele mesmo responde: ”Eis que estes são Eldade e Modade, dois hebreus que profetizaram no deserto, embora não estivessem entre aqueles que se assentaram com Moisés ao redor da tenda quando Deus desceu na nuvem” (Números 11. 24 – 26).

      Que Eldade e Modade profetizaram é um fato contra o qual não adianta levantar dúvidas. E não menos verdadeira é a constatação de que as suas profecias não foram registradas na Bíblia hebraica. De acordo com a tradição de Israel, eles eram meio-irmãos de Moisés, frutos do segundo casamento de Joquebede. Porque historicamente falando, os pais biológicos de Moisés eram parentes muito próximos (tia-sobrinho), e, de volta à tradição, o legislador de Israel os orientou a se separarem. Até que Anrão faleceu e Joquebede pôde se casar de novo. Deste novo casamento teriam nascido Eldade e Modade. O livro que supostamente continha as suas profecias ainda existiam nos primeiros séculos do cristianismo e são mencionados em obras dos pais da igreja. Entretanto, o Talmude e o Targum nos contam a respeito do que estes dois servos de Deus teriam profetizado. E as suas palavras teriam sido estas:

“No fim dos dias um rei se levantará na terra de Magogue. Ele congregará os reis coroados com as suas coroas e capitães trajados para o combate. A ele todas as nações da Terra obedecerão e ordenarão a batalha na terra de Israel contra aqueles que houverem retornado do cativeiro. Mas já está determinado e nessa hora de tribulação todas as nações perecerão nas chamas do fogo que sairá de debaixo do trono da glória [...] No fim dos dias Gogue e Magogue e todos os seus exércitos se levantarão contra Jerusalém, mas serão abatidos pelas mãos do Rei-Messias.”
       Peço permissão para me desvencilh
ar de maiores explicações acerca da profecia de Ezequiel capítulos 38 e 39, devido o assunto já haver sido com esmero abordado em conceituadas obras tais como A Agonia do Grande Planeta Terra (Editora Mundo Cristão); Apocalipse Já (Editora Betânia); Israel, Gogue e o Anticristo; Escatologia – A Doutrina das Últimas Coisas; e O Calendário da profecia (As três últimas pela CPAD). 

       Em minha opinião, aqui no Brasil estes são os melhores trabalhos já produzidos sobre o tema e o leitor não terá dificuldade de encontrá-los nas livrarias. Faço questão de afirmar que no início das minhas pesquisas li cada uma destas obras pelo menos oito vezes, podendo assim testificar que concordo com praticamente tudo o que elas registram, não aquiescendo apenas com o que dizem acerca da época para a qual está reservado o cumprimento da profecia, porquanto os seus autores pareçam determinar que a guerra de Gogue e Magogue deva ocorrer pelo menos sete anos antes da segunda vinda do Senhor, ainda que para darem força aos seus argumentos eles apelem para Ezequiel 39. 9, 10, onde se diz que os judeus precisarão de sete anos para se desfazer de toda a parafernália bélica dos exércitos de Gogue. 

       Tenho sustentado uma opinião diferente porque todas as evidências por mim examinadas apontam para outra data. O contexto bíblico, os documentos da Biblioteca de Qumran, a literatura apocalíptica dos judeus e a tradição rabínica indicam que a guerra de Gogue acontecerá no fim dos dias, durante a grande tribulação do povo eleito e que essa guerra há de ser decidida pela intervenção pessoal do Messias.

       Isaías 63. 1 - 6 está no contexto da profecia contra Gogue e Magogue, aliás, uma passagem que o mesmo Charles jurava haver sido acrescentada pelo oportunismo dos escribas que organizaram a lista das Escrituras Sagradas dos hebreus. A visão do filho de Amós impressiona pela riqueza de detalhes:

“Quem é Este que vem de Edom, com os vestidos tintos de Bozra? Este que é glorioso em sua vestidura, que marcha com a sua grande força? Eu, que falo em justiça, poderoso para salvar. Por que está vermelha a tua vestidura? E os teus vestidos como os daqueles que pisam no lagar? Eu sozinho pisei no lagar, e dos povos ninguém houve comigo; e os pisei na minha ira, e os esmaguei no meu furor, e o seu sangue salpicou os meus vestidos, e manchei a minha vestidura. Porque o dia da vingança estava no meu coração, e o ano dos meus redimidos é chegado. E olhei, e não havia quem me ajudasse; e espantei-me de não haver quem me sustivesse; pelo que o meu braço me trouxe a salvação, e o meu furor me susteve. E pisei os povos na minha ira, e os esmaguei no meu furor; e a sua força foi derribada por terra.”

       O seu exato correspondente no Novo Testamento é Apocalipse 19. 11 – 21, onde lemos:

“E vi o céu aberto, e eis um cavalo branco e o que estava assentado sobre ele chama-se Fiel e Verdadeiro; e julga e peleja com justiça. E os seus olhos eram como chama de fogo; e sobre a sua cabeça havia muitos diademas; e tinha um nome escrito, que ninguém sabe senão Ele mesmo. E estava vestido de uma veste salpicada de sangue; e o nome pelo qual se chama é a Palavra de Deus. E seguiam-no os exércitos no céu em cavalos brancos, e vestidos de linho fino, branco e puro. E da sua boca saía uma aguda espada, para ferir as nações; Ele as regerá com vara de ferro; e Ele mesmo é o que pisa o lagar do vinho do Deus Todo-Poderoso. E no vestido e na sua coxa tem escrito este nome: Rei dos reis e Senhor dos senhores. E vi um anjo que estava no sol, e clamou com grande voz, dizendo a todas as aves que voam pelo meio do céu: Vinde e ajuntai-vos para a ceia do grande Deus: Para que comais a carne dos reis, e a carne dos tribunos, e a carne dos fortes, e a carne dos cavalos e dos que sobre eles se assentam, e a carne de todos os homens, livres e servos, pequenos e grandes. E vi a Besta e os reis da Terra, e os seus exércitos reunidos para fazerem guerra àquEle que estava assentado sobre o cavalo, e ao seu exército. E a Besta foi presa, e com ela o Falso Profeta que diante dela fizera os sinais, com que enganou os que receberam o sinal da Besta, e adoraram a sua imagem. Estes foram lançados vivos no ardente lago de fogo e de enxofre. E os demais foram mortos com a espada que saía da boca do que estava assentado sobre o cavalo, e todas as aves se fartaram das suas carnes.”

       Concernente à destruição de Gogue e Magogue, eis o que Ezequiel também profetizou no capítulo 39. 17 – 20:

“Tu, pois, ó filho do homem, assim diz o Senhor Jeová: dize às aves de toda espécie e a todos os animais do campo: Ajuntai-vos e vinde, vinde de toda parte para o meu sacrifício, que Eu sacrifiquei por vós, sacrifício grande nos montes de Israel, e comei carne e bebei sangue. Comereis a carne dos poderosos e bebereis o sangue dos príncipes da Terra, e dos carneiros, e dos cordeiros, e dos bodes, e dos bezerros, todos engordados em Basã. E comereis a gordura até vos fartardes, a gordura e o sangue do meu sacrifício, que sacrifiquei por vós. E vos fartareis à minha mesa, de cavalos, e de carros, de valentes, e de todos os homens de guerra, diz o Senhor Jeová.”

       Há uma infinidade de passagens bíblicas que descrevem a carnificina que o Senhor dos Exércitos promoverá no dia da guerra contra Gogue e Magogue, mas acredito que o cruzamento destes três textos seja suficiente para nos dar a idéia de como tudo deve acontecer. O leitor ainda deve notar que em todos os casos acima citados existe a mais clara afirmação de que a guerra de Gogue e Magogue há de ser também um holocausto, um banquete sacrificial. Compare ainda Isaías 63. 1 -6 com Apocalipse 14. 14 – 20 e 19. 13 – 15 para se certificar de como o Cordeiro de Deus há de esmagar todas as nações que naquele dia se ajuntarem contra Israel.

       E em todo o caso, este episódio é apenas a primeira parte da grande carnificina dos inimigos de Deus. Veja que Apocalipse 14. 20 prevê que o lagar será pisado fora da cidade de Jerusalém, enquanto que Isaías 63. 1 o profeta exclama: “Quem é Este que vem de Edom, com os vestidos tintos de Bozra?”  Agora compare Isaías 63. 3 com Apocalipse 19. 13, onde se diz que o Cordeiro, ao se apresentar em Israel, já estará com as roupas salpicadas de sangue. Isso significa que o Senhor promoverá uma matança em Edom e Moabe antes se manifestar sobre o Monte das Oliveiras em Jerusalém. Perceba-se ainda que a profecia de Ezequiel mui claramente menciona que as vítimas sacrificadas  no holocausto de Gogue e Magogue estão sendo engordadas em Basã e com isso concorda o grosso das profecias de Isaías.

       De fato um dos documentos da Biblioteca de Qumran conhecido como O Rolo da Guerra (por sinal um manuscrito de cunho extremamente teológico), diz que durante a batalha de Gogue e Magogue três históricos inimigos de Israel se aliarão às tropas do Anticristo, a saber: Edom, Moabe e Amom. Essa afirmação é importante para o nosso estudo, pois de acordo com Daniel 11. 41, estes três povos não se submeterão ao poder da Besta, e, semelhante a isto, Isaías 26. 20; Mateus 24. 16 e Apocalipse 12. 6 me levam a crer que as regiões de Edom, Moabe e Amom servirão como cidades de refúgio para alguns judeus durante a grande tribulação. Mas Apocalipse 12. 6 nos adverte que essa proteção deve durar por apenas três anos e meio, e desde então o remanescente fiel ficará exposto às atrocidades da Besta por algum tempo. Isso pode significar que ao final desse período Edom, Moabe e Amom se aliarão aos exércitos de Gogue, trazendo à tona a aversão que sempre tiveram aos filhos de Israel.

       Por esta razão, antes de descer sobre o Monte das Oliveiras o Messias irá socorrer o remanescente que fora traído pelos habitantes de Edom, cuja capital era Bozra. A Bíblia usa a alegoria da víndima e do esmagamento das uvas no lagar como símbolos da carnificina que o Cristo trará aos inimigos de Israel na região de Edom. Apocalipse 14. 20 afirma que o sangue dos mortos será como um rio de trezentos quilômetros e atingirá a altura das rédeas de um cavalo! Eis o lagar da Ira do Deus Todo-Poderoso.

      Os que discordam desta interpretação usam argumentar que a profecia de Ezequiel esclarece que Gogue e seus exércitos serão destruídos nos montes de Israel e não nas regiões de Edom, Moabe e Amom. Porém, o texto de Apocalipse acima mencionado permite entender que a matança cobrirá uma distância enorme, e isto pode estar combinado com a visão profética geral, já que aquelas regiões se tornarão pequenas para comportar a quantidade de exércitos que ali se ajuntarão. Além disso, O Rolo da Guerra prevê que haverá uma grande perseguição aos inimigos de Deus, os quais tentarão escapar da ira do Messias e serão literalmente massacrados pelos exércitos do Céu. Tal constatação se harmoniza rigorosamente com a narrativa bíblica que diz que naquele dia os reis da Terra se esconderão nos montes e nas cavernas com a intenção de escapar da ira do Cordeiro. 

       Mas irei discorrer um pouco sobre a Grande Ceia de Deus, e aqui farei nova observação, pois me parece que a tradição judaica assumiu uma interpretação bastante literal e fez com que os menos crédulos tivessem motivos para reduzir esse tema escatológico à categoria dos contos folclóricos. Hei dito que os textos bíblicos já mencionados tratam de um sacrifício de sangue no lagar da ira de Deus e também de uma ceia de cadáveres que o Messias oferecerá às aves de rapina quando Ele vier para massacrar os exércitos de Gogue. Entretanto, uma observação deve ser feita aqui, porque não nos parece que Gogue e o Anticristo sejam a mesma pessoa. As duas profecias devem se cumprir ao mesmo tempo e de certa forma elas podem mesmo ser confundidas, porém, o que salta das Escrituras é que Gogue e o Anticristo são inimigos mortais e que possuem em comum apenas o desejo de exterminar a nação de Israel.

       O profeta Daniel parece nos dizer que Gogue, quando vier do Norte para a Terra Santa, terá como objetivo refrear os ímpetos da Besta. Isso é, ele não descerá à Palestina com a intenção de fazer guerra aos filhos de Israel. Leiamos Ezequiel 38. 9 – 11, onde o profeta por duas vezes afirma que o inimigo “subirá” contra Israel. Mas esta pode ser uma colocação deveras enigmática, se levarmos em conta que Gogue e seu bando devem vir do Norte. O correto seria então dizer que Gogue “descerá” contra Israel, mas evidentemente não é o caso, e isso reforça a tese de que esse escatológico inimigo do povo escolhido além de não ser a temida Besta do Apocalipse, há de surgir como um poder paralelo e virá para a Terra Santa movido pelo propósito de fazer oposição aos macabros intentos do Anticristo. 

       Ezequiel ainda deixa supor que Gogue não possuirá reais motivos para desejar a ruína dos judeus, mas que estando acampado naquelas paragens despertará a cobiça pelas riquezas da sua terra.  Tenho uma teoria. Pura especulação. Fico a me perguntar se os exércitos do grande adversário não hão de ficar instalados nas terras do Egito, uma vez que Ezequiel 32. 2 – 6 pareça aliar a destruição de Gogue ao sacrifício do leviatã. E o leitor deve saber que a concepção judaica segunda a qual Gogue e Belial são a mesma pessoa não nasceu da literatura apocalíptica desse povo, mas da escola de Qumran, sendo mui posteriormente adotada pelos autores do Targum e pelos talmudistas. Talvez a interpretação comum não esteja correta, mas pode ser também que as três escolas supramencionadas tenham confundido as profecias.  

       A escatologia dos judeus expandiu o sentido da profecia de Ezequiel 32. 2 – 6, onde está escrito que Deus abaterá o leviatã e oferecerá a sua carne e o seu sangue às aves do céu e às feras do campo. O sacrifício desse monstro mitológico no fim dos dias foi explorado ao extremo pelos autores do apocalipsismo hebraico e a partir daí ficou estabelecido que o propósito da sua existência desde o quinto dia da criação (Gênesis 1. 21) não era outro senão servir de alimento para os eleitos de Deus durante o escatológico banquete que o Messias oferecerá na inauguração do seu reino. As mais importantes obras da literatura apocalíptica judaica acrescentam o beemote, outro animal mitológico que assim como o leviatã também é mencionado no livro de Jó.

       Não se trata do crocodilo e do hipopótamo, como tem sido salientado por alguns. Na tradição dos judeus o leviatã é um gigantesco animal aquático, a mais poderosa das criaturas de Deus, enquanto que o beemote é um animal do campo de porte tão descomunal que a grama de mil montanhas não lhe bastaria como ração diária. Parte da tradição reza que estes dois animais, tão logo criados, foram degolados por Deus e que as suas carnes estão sendo conservadas para o dia do simbólico banquete de casamento do Messias, porém, a literatura apocalíptica diverge dessa opinião e ensina que tanto o leviatã quanto o beemote estão vivos e que só serão revelados no momento certo, ou seja, quando o Messias enfim vier ao mundo. 

       A linguagem é digna do gênero apocalíptico, mas os céticos nos acusam de havermos acreditado nas fábulas do imaginário judaico. Em Os Testamentos dos Doze Patriarcas está esclarecido que o leviatã representa um rei impiedoso que abate e subjuga os povos inferiores, já o segundo Apocalipse de Baruque afirma que quando o Messias “começar a se revelar” então o leviatã subirá do abismo e o beemote surgirá do seu lugar. Ora, essa é a exata descrição que o apóstolo João faz quando se refere ao surgimento das duas bestas do Apocalipse. Afinal, não nos diz ele que o Anticristo subirá do mar e que o Falso Profeta virá da terra? Não é o leviatã a criatura mais poderosa do mar, e o beemote o ser mais excelente da terra? Estes dois seres diabólicos aparecerão no mundo ao mesmo tempo e juntos promoverão uma guerra contra o Messias.

       Mas verdade seja dita: o mito se confundiu com a verdade. Leviatã e beemote não serão sacrificados na batalha do Armagedom, mas os seus exércitos sim, e os seus corpos hão de ser literalmente oferecidos como alimento às rapinas da terra. Apocalipse 19. 20, 21 diz que as duas bestas não serão mortas durante o confronto em Armagedom, e isso está combinado com II Baruque 40. 1 – 3:

“O último líder daqueles dias será deixado vivo, quando todas as suas hostes forem mortas pela espada. Então ele será amarrado e conduzido ao topo do Monte Sião, onde o meu Messias o convencerá de todas as suas impiedades. As suas hostes também serão reunidas diante do Messias e Ele lhes exporá todas as suas obras. Em seguida, o meu Messias os entregará à morte, mas protegerá o remanescente do meu povo, o qual será guardado em um lugar que Eu já tenho preparado.”

       Nesse tempo o Anticristo e o falso Profeta estarão dominados e testemunharão a derrocada dos seus exércitos diante dos valentes do Cordeiro. O Rolo da Guerra diz: “Valorosos guerreiros das tropas angelicais estão entre os nossos homens de guerra; o Herói da guerra está conosco”. Esse interessante documento ainda assegura que Belial há de ser lançado no abismo e isso se aproxima bastante daquilo que foi declarado por João em Apocalipse 19. 20. 

       Até aqui a descrição do holocausto dos inimigos de Deus. Esse é então o primeiro banquete escatológico do Messias. Todavia, os redimidos não participarão dessa mesa, mas serão espectadores da ignomínia daqueles que na sua loucura ousaram desafiar o Filho do Deus Altíssimo.