sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

A Doutrina da Predestinação Versus Bondade de Deus

Enquanto me dedicava a escrever o livro Os Sete Pilares do Apocalipse, fui obrigado a contornar um considerável percalço e evitei me aprofundar no discurso daquilo que seria o oitavo fundamento da literatura apocalíptica. É claro que reservei um capítulo inteiro para esse assunto, mas limitei-me a tratar apenas das origens apocalípticas do termo e de como as idéias de uma predestinação, quer condicional, quer incondicional, estiveram enraizadas nas mentes das pessoas cujas comunidades nos legaram as escrituras da pseudepígrafa e também do Novo Testamento.

    Não me detive aos aspectos da problemática teológica porque tais não eram assuntos para aquela pauta, e, por outro lado, lembro-me de haver ali afirmado que cada um daqueles capítulos poderia se estender até assumir a forma final de um livro. Poso dizer o mesmo em relação à doutrina da predestinação. E agora, como um adendo ou apêndice ao capítulo homônimo de minha supracitada obra, dedicarei algumas linhas a essa epígrafe que apesar de estar tão profundamente arraigada tanto no solo da Bíblia quanto na patrística da cristandade, não deixará de ser a mais controversa, funesta e injusta de todas as doutrinas; tão impiedosa que ainda que houvesse nascido da mente de um Deus, nem por isso haveria de receber o meu respeito.

    Aliás, foi pensando exatamente desta maneira que certa ocasião, após haver encerrado um estudo sobre o Juízo Final, um jovem e intelectual membro da Igreja Batista me abordou em particular, e depois de preliminares questões indagou-me com as seguintes palavras:
_ Será que Deus está de “sacanagem” com a gente?!

   Eu tive uma leve suspeita a respeito das coisas que o haviam impulsionado a essa estranha, porém, justificável reação, mas precisava estar assegurado dos fatos. Então deixei que prosseguisse com o seu raciocínio.
_ Tenho me perguntado: Se Deus sabe de antemão quem há de se salvar e quem há de ser condenado, por que é que Ele permite que as pessoas O sirvam em vão?

    Foi então que me recordei de um fato ocorrido pouco antes de haver iniciado o meu discurso. O pastor que me houvera antecedido fizera uma declaração que acabara sendo mal compreendida. Eis o que ele disse: “Deus salva a quem Ele quer, e condena a quem Ele quer!” Meu interlocutor devia estar com esta declaração na mente, pois ao retomar a palavra ele usou mais ou menos estas expressões:

_ A Bíblia não deixa dúvidas que Deus criou algumas pessoas para serem salvas, e outras para serem condenadas, de modo que os salvos já foram escolhidos antes da fundação do mundo, e que isso não depende da vontade humana. Se isso é verdade, quem poderá com segurança afirmar que está salvo?
     Lamento não poder prosseguir com a narrativa, pois já não me recordo de como a nossa conversa terminou, mas diferente daquele moço, estou pronto para me concordar que se a doutrina da predestinação com todo o seu requinte de crueldade pudesse ser sustentada, então a nossa fé se tornaria nula e o amor e a misericórdia de Deus cairiam em contradição com o lúcido conceito que temos de Sua divina perfeição, e me atrevo a dizer que em vez de afirmarmos que Deus amou o mundo de “tal maneira”, deveríamos dizer que Ele amou a Si mesmo. A minha fé e o meu intelecto se recusam até em pensar que o Santíssimo Deus tem deliberado em criar alguns seres humanos com o único propósito de condená-los ao fogo eterno.
   
      Não obstante, e embora funesta, essa doutrina da predestinação está fundamentada em praticamente todos os livros do Novo Testamento; mais obrigatoriamente no livro do Apocalipse, onde o seu autor insiste em dizer que o destino da humanidade foi selado antes da fundação do mundo. Mas foi meditando acerca dessa doutrina determinista que o pensador Boécio se perguntou: “Como seria possível ao Deus de todo amor permitir tão injusto sofrimento ao homem que Ele criou?”

      O argumento a essa objeção, segundo o bendito Paulo, se fundamenta na soberana vontade de Deus, cujos atos não podem ser associados à injustiça (Romanos 9.14), pois Ele salva a quem quer salvar, e condena a quem quer condenar (v. 15) – Ou pelo menos é dessa maneira que as palavras do apóstolo têm sido interpretadas através dos séculos.

     Mais enfáticas e inexoráveis são as palavras de Paulo quando afirma que o ser humano não tem o direito de replicar a Deus, se Ele, na condição de sábio oleiro, criou alguns vasos (pessoas) para a salvação e outros tantos para a perdição (Romanos 9. 20-23). A tônica desse argumento, segundo Paulo, é o exemplo do êxodo hebreu, quando o Faraó resistiu à vontade de Deus e trouxe grande calamidade sobre a terra do Egito. Paulo resume o seu raciocínio nestas palavras:

“Porque diz a Escritura a Faraó: Para isso mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder, e para que o meu Nome seja conhecido em toda a terra” (Romanos 9. 17).

   De acordo com a interpretação lógica, e isso condiz com o próprio livro do Êxodo (4. 21), foi o próprio Deus quem não permitiu que o rei do Egito acreditasse nos milagres realizados por Moisés. Ainda de acordo com o argumento paulino, o mesmo Deus impulsionou o Faraó à incredulidade. Ele teria feito assim porque aquele regente egípcio seria um dos predestinados e infelizes vasos de desonra, ou seja, alguém cuja existência estava fadada à condenação.

    A considerarmos a força das palavras desse apóstolo, saltará um detalhe curioso e muito importante: aquele Faraó não seria responsável por seus atos, pois tudo o que fizera estava de acordo com os planos do Altíssimo. – Uma interpretação absurda, como ousaria dizer o mestre Orígenes, pois não seria justo um Deus que excita o homem à desobediência. Caso Orígenes esteja correto (como de fato o creio), e considerando-se que Paulo falava e escrevia por divina revelação, então é certo que devamos buscar outra interpretação para os argumentos do apóstolo.

    Escrevendo sobre Hermenêutica, que por sinal é uma disciplina que se ocupa com a justa interpretação dos textos da Bíblia, P. C. Nelson prefere tratar o tema do endurecimento do coração de Faraó com mais desvelo. De acordo com o seu ponto de vista, quando a Escritura diz que Deus endureceu o coração de Faraó para que não cresse nos milagres de Moisés, a ação final não teria partido de Deus, mas da própria arrogância do soberano egípcio. Assim sendo, Deus não teria endurecido o coração daquele homem e desta forma o induzido à desobediência; antes, ou contrariamente a isso, Deus apenas teria sido a causa da incredulidade do Faraó. Ou seja: desobediência obstinada e proposital.

    Infelizmente essa interpretação não se harmoniza com o óbvio raciocínio de Paulo. Ele afirma com todas as letras que Deus assim lidou com aquele “vaso de ira” a fim de mostrar o seu favor aos “vasos de misericórdia”, os quais seriam os filhos de Israel. Aparentemente, Orígenes em nada discorda no tocante à doutrina da predestinação tal como é apresentada por Paulo, mas dá a ela uma interpretação diversa e infinitamente amena em relação àquela que salta dos textos desse apóstolo.

    Para começar, Orígenes considera que o amor de Deus é tal que não permitirá que nenhum homem esteja de fora do plano da salvação. Mas é bom que se diga que segundo a compreensão do mestre Orígenes esse “não permitirá” é absoluto e definitivo. Ou seja, que no final todos os seres humanos serão salvos, quer pela pregação do Evangelho, quer pelas chamas purificadoras do Inferno.

     Mas Paulo segue dizendo que o critério divino pelo qual Deus separa uns para a vida e outros para a morte, consiste apenas na Sua vontade. Por aí podemos entender que o critério é exatamente não ter critérios, pois se compadece de quem Ele quer salvar, e vira as costas para quem Ele quer condenar. Simples e objetivo! Mas retornemos à teologia de Paulo::

“Direis-me então: do que é que Deus está reclamando? Nós não estamos fazendo apenas aquilo que Ele nos incitou a fazer? Mas, ó homem, quem é você para discutir com Deus? Porventura poderá a criatura reclamar do Criador, e dizer: Porque me fazes assim?” (Romanos 9. 19, 20).

     O que Paulo está aqui dizendo é que apesar de tudo ninguém pode acusar a Deus de injustiça. Em primeiro lugar, ele sustenta que o ser humano, embora sendo induzido à desobediência por determinação do mesmo Deus (o que, aliás, está em completa oposição aos ensinamentos do restante de Bíblia), não está isento de culpa, pois Deus o conduz ao pecado exatamente porque quer condená-lo. Em virtude disso, o homem poderia argumentar em seu favor diante do Grande Trono Branco no dia final: “Por que me condenas, se na verdade quando eu pecava estava fazendo exatamente o que Tu exigias de mim?” – Mas se tal procedimento “divino” não pode ser considerado injusto então eu devo renunciar tudo o que tenho aprendido sobre a bondade e o amor de Deus!

    Em segundo lugar, Paulo parece está sugerindo que o homem, arrastado ao fogo eterno, não teria o direito de questionar a razão pela qual está sendo condenado. Segundo Orígenes, cuja exposição ecoa bastante racional, tal procedimento não seria digno de um Deus justo, bom e perfeito. Sendo assim, ele apela para outra forma de interpretar. Se for fato que Deus usa apenas a Sua vontade quando deseja salvar ou condenar a alguém, então devemos nos ocupar em compreender o que afinal vem a ser essa vontade.

    A posição de Agostinho diverge daquela assumida por Orígenes; então levaria mais algum tempo até que João de Damasco viesse a entender que existem dois aspectos da vontade divina, sendo um passivo e o outro soberano. Ora, ninguém haverá de negar o testemunho escriturístico de que a “vontade” de Deus é que absolutamente todos se arrependam e sejam salvos. Mas isso jamais acontecerá, pois essa vontade é apenas passiva e não interfere na vontade dos homens, bem como no direito que cada um tem de tomar as suas próprias decisões. Tendo esse pensamento em mente João de Damasco argumenta que Deus não induz o homem ao erro, nem o obriga a ser virtuoso. A partir de idéias tão lúcidas os velhos conceito de “vasos de ira” e “vasos de misericórdia” vão tomando novos rumos.

     Os apressadinhos que se anteciparam em abraçar uma idéia de predestinação absoluta a partir da exposição paulina em sua carta aos Romanos, se esqueceram ou não quiseram considerar que a chave que encerra os destinos dos homens não é necessariamente a vontade de Deus, mas o livre-arbítrio que o Criador delegou a cada um de nós. João de Damasco foi infinitamente feliz ao observar que “Deus realmente anteviu e conheceu antecipadamente todas as coisas, mas não predestinou a nenhuma delas”.

     Vejamos o que o mesmo Paulo diz a respeito da responsabilidade que o ser humano tem por seus atos e de como ele pode ser conduzido à salvação ou à perdição. Estejamos atentos, pois estas coisas ele diz no desfecho dos capítulos que tratam da predestinação dos santos:

“Considera, pois a bondade e a severidade de Deus. Para com os que caíram severidade; mas para contigo, a benignidade de Deus, se permaneceres na sua benignidade; de outra maneira, também tu serás cortado. Assim também eles, se não permanecerem na incredulidade, serão enxertados; porque piedoso é Deus para os tornar a enxertar” (Romanos 11. 22, 23).

   Oh que maravilhosa controvérsia! Quão sábia e bondosa é essa loucura!

  Caso não usemos de critérios, seremos levados a concluir que aqui Paulo entra em contradição com tudo aquilo que dantes havia dito, pois tendo insistido que Deus criou uns para a vida e outros para a morte, ele muda o tom do discurso e já está disposto a garantir que aquele que agora está salvo ainda pode entrar em condenação, ao passo que aquele que está perdido também pode ser alcançando pela salvação. Essa conclusão é justa e digna do caráter do Deus da Bíblia, já que deixa evidente que a predestinação só pode ser condicional e que o homem pode decidir que destino final dará à sua alma.

     Em assim dizermos fica pendente que a predestinação não existe de fato. E realmente não existe. João de Damasco o compreendeu claramente, pois entendeu que tudo se resume no livre-arbítrio do homem. Mas se a predestinação de fato não existe, por que razão temos tantas e tão claras referências a ela em todo o Novo Testamento? A resposta não é difícil. Aqueles eram tempos nos quais a literatura apocalíptica atingia o apogeu de sua influência, e como tal ela permeava a mente de todo judeu. Segundo o grosso dessa literatura, tudo o que acontece na Terra, mesmo as coisas aparentemente mais efêmeras, obedeciam a um programa divino e só ocorriam porque Deus as permitia; isso é, já estavam predeterminadas pelo Criador “desde a fundação do mundo” Paulo, como os demais autores do Novo Testamento, não escaparam à regra, e embora soubessem que não era bem assim, proverbialmente podiam fazer uso das idéias que estavam constantemente na mente e nos lábios do povo. Esse é um vício do qual ninguém escapa. Mas ao atentarmos para os ensinamentos dos apóstolos podemos notar que em tudo a responsabilidade do homem está em evidência.

CONCLUSÃO

Não será estranho se o leitor ainda estiver interessado em saber a razão pela qual Deus havia endurecido o coração de Faraó. As palavras de Paulo a esse respeito são penetrantes e não permitem outra interpretação, o segredo, porém, está na ênfase da causa-efeito. Lembremo-nos de que segundo Paulo Deus conheceu aos homens de antemão, daí que Ele, conhecendo o coração de Faraó, e sabendo que aquele homem jamais viria a honrá-Lo, multiplicou a sua incredulidade, pois desejava com isso castigar a nação por todos os crimes cometidos contra o povo da promessa. Leia Gênesis 15. 13, 14. Sob esse novo ponto de vista somos levados a aceitar que verdadeiramente não houve nenhum ato de injustiça da parte de Deus.

   Mas quero sim atestar que existe um tipo de predestinação – a condicional, que valoriza, honra, e que é um penhor da fé. Ela é a mais perfeita garantia de que aquele que crê e permanece no amor de Deus jamais entrará em condenação, porquanto tal pessoa está predestinada em Cristo, ou seja, se fez participante das glórias que Deus tem reservado para o Seu Amado Filho.

     Cristo sim está definitivamente predestinado, e aquele que Nele permanece não tem o que temer. É por isso que
Nnenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus; é por isso que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que O amam; e é por essa razão que Nada nos separará do amor de Deus que está em Jesus Cristo.

     Orígenes quase desvendou o mistério da predestinação, mas foi João de Damasco quem conseguiu romper o nevoeiro para contemplar a tudo mais lucidamente. A verdade é que essa eleição dos santos está composta de cinco distintas etapas, as quais Paulo esclarece em Romanos 8. 29, 30. A saber, que Deus primeiramente e por sua onisciência conheceu aqueles que haveriam de se salvar por meio da aceitação do Seu amor. Somente depois de tê-los conhecido de antemão foi que Ele os predestinou (escolheu); depois de tê-los escolhido, Ele os chamou; e havendo-os chamado Ele os justificou; após tê-los justificado ele os glorificou. Na visão de Paulo, todas estas coisas já estão seladas no coração de Deus desde a fundação do mundo (Efésios 1. 4, 5), mas devido à responsabilidade algumas destas etapas ainda não foram em definitivo consumada individualmente no plano terreno. Isso é, se alguém não permanece em Cristo é imediatamente cortado das promessas (Romanos 11. 22).

    Quando dissemos que Deus na sua onisciência conhece a cada um daqueles que hão de herdar a salvação, imitamos tão somente a Orígenes e atestamos que o Senhor sabe de antemão quais as pessoas que aceitarão o Seu amor e perdão; isso é, Deus previu aqueles que dentre as multidões perdidas haverão de crer na pregação do Evangelho e que assim salvarão as suas almas. Deste modo, Ele se esforçará não para que o homem O aceite (pois se assim o fizer estará interferindo no seu livre-arbítrio), mas para que o mesmo ouça as boas novas da salvação em Cristo e venha ao arrependimento.


    Caso existisse uma doutrina da predestinação absoluta, não deveríamos nos preocupar com a evangelização do mundo, pois no final Deus acabaria salvando aos seus de qualquer jeito. Por outro lado, a idéia de tal predestinação invalidaria a fé dos santos, e como disse o moço do qual falei no começo de nosso diálogo: “Quem poderia com segurança afirmar que está salvo”? Mas o maior de todos os agravantes é que essa forma de predestinação é impiedosa e pretende rebaixar o nosso Bom Deus à categoria de implacável tirano. Estou acostumado com a maravilhosa revelação do Grande e Eterno Amor de Deus e não aceito nada que possa estar em oposição a isso. Se Deus é amor, como de fato o cremos, Ele certamente dará a todos os homens o direito de aceitar ou rejeitar a Sua eterna salvação. Caso o leitor esteja interessado em conhecer as verdadeiras origens da doutrina da predestinação sugiro que leia o meu Livro As Origens e a Evolução da Escatologia.