quinta-feira, 18 de junho de 2015

O Mistério das duas idades de Abraão






“Reza a lenda que tinha Abraão setenta e cinco anos ao emigrar de Harã, após a morte de seu pai Tareu, o oleiro. O mesmo Gênesis diz que Tareu, tendo gerado Abraão aos setenta anos, viveu até a idade de duzentos e cinco anos, e que Abraão só saiu de Harã após a morte de seu pai. Portanto, é claro, segundo o próprio Gênesis, que Abraão contava cento e trinta e cinco anos quando deixou a Mesopotâmia”  -Voltaire: Dicionário Filosófico

Elucidar problemas da Bíblia é como investigar um assassinato cujas testemunhas estão todas mortas; vemo-nos obrigados a lidar com ilações e só chegamos a uma conclusão racional quando nos é possível trilhar sobre informações que fortuitamente chagam ao nosso conhecimento. No meu caso, não era um fato novo, e, para todos os efeitos, o problema das duas idades de Abraão está bastante patente aos olhos de quem quiser enxergar. Ainda assim, fui apanhado de surpresa pela insinuação de Voltaire no primeiro verbete do seu Dicionário Filosófico, e até consegui imaginar seu costumeiro e sarcástico sorriso ao se deliciar com aquilo que poderíamos chamar de “grosseiro erro cometido pelo escritor sagrado”.
       Como poderia Moisés ter-nos fornecido duas conflitantes informações num tão curto espaço de tempo?
Porém, antes de nos aplicarmos aos pormenores desse caso, precisamos deixar bem clara uma coisa: a Bíblia foi escrita e dada a todos os homens, mas os seus segredos estão reservados apenas àqueles que Nela crêem. De certa forma, mesmo antes de tomar conhecimento desse impasse bíblico, eu já possuía metade da explicação, só não imaginava que o caso das duas idades de Abrão trouxesse no arcabouço uma série de conflitos que apesar de serem menores ainda assim podiam dar um nó no cérebro do investigador.
         Como em todos os casos detetivescos, eu precisava de uma base “sólida” a partir da qual pudesse principiar minha investigação. Conferi as poucas informações bíblicas de que dispunha e para começar tomei Gênesis 11. 23, e fiz daí a minha âncora; ou seja, Terah, pai de Abraão, vivera até aos duzentos e cinco anos e morrera em Harã, na Mesopotâmia. Em seguida, concentrei minha atenção em Gênesis 25. 7, onde os anos de vida de Abraão estão fixados em cento e setenta e cinco. Estes seriam, portanto, os pontos indiscutíveis da minha investigação e para eles concorreriam todas as possíveis pistas.
        Para começar, considerei que o centro de nosso problema estivesse em Gênesis 11. 26, onde se afirma que Terah contava com setenta anos quando gerou Abraão, Naor e Arã. Mas Terah viera a morrem na Mesopotâmia ao atingir a idade de duzentos e cinco anos, quando enfim o seu filho Abraão sai para peregrinar em uma terra desconhecida. E se é fato que o seu pai estava com setenta anos quando o gerou, deve ser igualmente indiscutível que o nosso patriarca já estivesse com cento e trinta e cinco anos de idade quando resolveu rumar para a terra de sua promissão; porque duzentos e cinco menos setenta, são cento e trinta e cinco.
       Acontece que no fio desta mesma narrativa o autor bíblico declara: “Então partiu Abraão (ou Abrão), em obediência à voz do Senhor, e Ló foi com ele; ora, Abraão estava com setenta e cinco anos quando partiu de Harã” Gênesis 12. 4. Uma informação que não pode ser levada a sério se considerarmos que Abraão só viera a nascer quando o seu pai contava com setenta anos de idade, e que a
sua partida para Canaã só aconteceu depois da morte deste, aos duzentos e cinco anos.
       Procurei me certificar de duas coisas, e para tanto eu tinha de consultar às “testemunhas mortas”. O primeiro indício do qual deveria me inteirar dizia respeito ao tempo de duração da vida de Terah. Se pudesse ficar comprovado que ele morreu aos duzentos e cinco anos de idade, então eu poderia descartar a possibilidade de haver Abraão partido para Canaã aos setenta e cinco anos.
       Mas se assim fosse, eu me veria obrigado a modificar a duração da vida de Abraão para duzentos e trinta e cinco anos e isso iria contrariar o texto de Gênesis 25. 7; ou seja, eu solucionaria o problema da idade de Terah, mas persistiria o impasse com relação a Abraão. Surpreendentemente, a minha investigação daria uma fantástica guinada ao consultar o historiador Flávio Josefo, pois ao escrever acerca da vida de Abraão, ele acentua que Terah de fato viveu até aos duzentos e cinco anos, e me chamou atenção ainda mais quando observou que o pai de nosso patriarca foi o último ser humano a atingir tão avançados anos de vida. Seu depoimento me convenceu e ainda me parece irretorquível, mas em vez de forçar a cravar a idade de Abraão em duzentos e trinta e cinco anos (como eu realmente temia), foi determinante para me fazer entender que ele de maneira alguma poderia ter ultrapassado a casa dos duzentos, pois como Josefo acertadamente observa, depois de Terah ninguém mais atingiu tão longos anos de vida. Disso deduzi que se realmente tivéssemos algum problema com a datação da Bíblia, não era em Abraão, mas em Terah que deveríamos procurá-lo.
       Estavam então lançados os alicerces de minha investigação: Terah vivera duzentos e cinco anos e Abraão morrera com cento e setenta e cinco, exatamente como está cravado no Gênesis. Mas restava-me algo que precisava ser passado a limpo. Eu devia me certificar de que a partida de Abraão da terra de Harã para a futura Palestina tinha se dado apenas depois da morte de Terah, que segundo as minhas conclusões só poderia ter acontecido aos duzentos e cinco anos de idade. Em Gênesis capítulo 11 está mais ou menos explícito, mas é em Atos 7. 4 que nos temos a seguinte afirmação: “Assim saiu da terra dos caldeus,e habitou em Harã. Dalí, depois de morto o seu pai, Deus o trouxe para esta terra em que hoje habitais”. Esta é também a versão apresentada tanto por Filo de Alexandria quanto por Josefo, judeus eruditos e profundos conhecedores da história de seu povo. A mim, isso também parece absolutamente irretorquível.
       Assim, e aparentemente, me restava apenas uma questão a ser respondida: como explicar que Abraão houvera nascido aos setenta anos da vida de Terah e ainda assim contasse com apenas setenta e cinco primaveras na época em que morrera seu genitor (cento e trinta e cinco anos após o nascimento de Abraão), aos duzentos e cinco anos? Mas agora que eu havia estabelecido os anos de duração da vida tanto de Terah como de Abraão, bastar-me-ia concentrar as atenções na época em que nascera o nosso patriarca, que, com toda certeza, não poderia ter sido no ano setenta da vida de Terah.
       Antecipei que esse era um caso para o qual eu já possuía metade da solução e vou explicar os detalhes. De início percebi e compreendi claramente que a chamada de Abraão para ir peregrinar na terra de Canaã só seria viável se tivesse acontecido mais de uma vez. Causou-me estranheza o fato de a Escritura afirmar que Terah, havendo tomado a Abraão e a Sara, partira de Ur dos caldeus para ir à terra de Canaã, mas que se estabelecera em Harã, na Mesopotâmia. Ora, ele pretendia ir para Canaã, que ficava ao sul da Caldéia, mas foi parar em Harã, ao norte!
       A explicação não tardou vir. O Gênesis me faz acreditar que Abraão deixou a Caldéia e saiu sem saber ao certo aonde haveria de chegar. O autor sagrado assim se expressa: “... Deixa a tua pátria... e vai para a terra que Eu te mostrar”. Atos 7. 3 corrobora esta informação, mas é em Hebreus 11. 8 que temos a confirmação: “Pela fé, Abraão, sendo chamado, obedeceu, indo para um lugar que havia de receber por herança; e saiu, sem saber para onde ia”.
       Terah não sabia que o destino de seu filho estava ligado à estreita faixa de terra que mais tarde viria a ser chamada de Palestina, mas ele tinha consciência de que Abraão havia sido chamado por Deus para uma missão especial. Portanto, quando o autor do Gênesis diz que Terah reuniu a família para ir peregrinar em Canaã, ele estava apenas antecipando os fatos.
       Outra coisa houve que não escapou à minha percepção e esta certamente foi a chave para a elucidação do nosso problema. A ordem divina era bastante clara: Abraão tinha de deixar não necessariamente a companhia de seus parentes, mas obrigatoriamente a casa de seu pai. Para um leitor de nossos dias pode parecer difícil o significado destas palavras, pois muito diferente do que se tem ensinado até mesmo em círculos teológicos, Deus não estava vetando a Abraão que levasse consigo alguns de seus parentes mais próximos.
       Se assim fosse, como haveríamos de explicar a presença de seu sobrinho Ló? Ademais, se Deus desejasse que Abraão rompesse todos os laços familiares, como iria ele dar uma esposa ao seu filho Isaque? Lembremo-nos ainda que posteriormente a isso, Jacó, em conformidade com o plano divino, foi à Harã para formar família entre os parentes diretos de Abraão, ao passo que Esaú, contrariando a regra, casou-se com as mulheres de Canaã.
       Abraão, para satisfazer os propósitos de Deus, precisava se libertar dos compromissos que tinha junto à casa de Terah. Era costume no mundo antigo, e historiadores o confirmam, que na primeira religião da humanidade os ícones venerados eram justamente os deuses familiares, aos quais os gregos chamavam de manes, mas que na Caldéia daqueles dias ficaram conhecidos como terafins. Sabemos que o pai de Abraão era idólatra (Josué 24.2) e pela tradição judaica temos conhecimento de que fora fabricante de deuses enquanto vivera na Caldéia. Também lemos no Gênesis que Raquel, uma das esposas de Jacó, ao fugir de Harã para Canaã levara consigo os terafins que pertenciam à casa de seu pai.
       Por tradição do patriarcado, o exercício religioso exigia que as mulheres, ao se casarem, rompessem todos os vínculos com o panteão de seus pais e que passassem a servir aos deuses de seus maridos, porque sobre estes repousava o dever de darem continuidade ao patriarcado. É por essa razão que tantas vezes lemos nas escrituras a expressão “servir a deuses estranhos”, que
equivale a dizer “adorar aos deuses aos quais seus pais não conheciam”. A transferência desse patriarcado era tão sublime que levou Raquel a furtar os terafins de Labão; não que ela pretendesse ou pudesse dar continuidade ao sacerdócio patriarcal, pois como a palavra já o diz, a dignidade estava reservada apenas aos homens.
       Ao levar consigo os deuses de seus pais, ela estava se apoderando do “penhor”, já que de acordo com a tradição, se alguém tomasse posse dos terafins de outrem, fazia-se por isso legítimo herdeiro de todos os seus bens. Raquel entendia que Labão, por haver sido tão injusto, tinha essa dívida para com Jacó.
       A honra desse patriarcado consistia principalmente em poder possuir seus próprios deuses, mas vivendo à sombra de seu pai, Abraão se via obrigado a dar continuação à veneração dos velhos ídolos. Jeovah havia escolhido esse filho de Terah para torná-lo pai (patriarca) de uma nação da qual Ele mesmo seria o Deus. Mas para isso Abraão precisava se livrar do jugo que o prendia ao sacerdócio familiar. As Escrituras deixam bastante cristalino que Deus ordenou que Abraão saísse de sua pátria e também da casa de seu pai para ir peregrinando pelo mundo até chegar à terra que lhe seria dada por possessão.
        E o que fez Terah? – tomou seu filho e mais alguns familiares e se lançou à mesma odisséia, embora isso não fizesse parte do plano original de Deus. Por aí pude entender que Abraão devia ser muito jovem quando lhe ocorreu esse chamado divino, e salta do texto sagrado a percepção de que ele ainda estava sob total sujeição paterna. As Escrituras não dizem que Abraão, sendo chamado, levou seu pai consigo, mas nos permitem entender que Terah, tomando conhecimento da divina vocação de Abraão, empreendeu com ele nessa peregrinação. Aliás, é muitíssimo possível que naquela ocasião Abraão fosse tão jovem que ainda não estivesse se casado com Sara. Gênesis 11. 31 de fato registra que Terah tomou a Abraão, a Sara, sua esposa, e a Ló, seu sobrinho, mas isso não significa que a esse tempo o grande patriarca já estivesse casado; aqui o autor sagrado outra vez antecipa os fatos.
       Meu passo seguinte foi perceber que a vocação de Abraão havia acontecido em duas ocasiões, e foi em Atos 7. 2-4, aliás, um texto de difícil compreensão, que a minha suspeita veio a ser fundamentada. O texto verdadeiramente confunde e tem complicado até mesmo a expositores de boa formação teológica. Eis o que diz: “E ele (Estevão) disse: Varões, irmãos, e pais, ouçam: o Deus da glória apareceu a nosso pai Abraão, estando ele na Mesopotâmia, antes de habitar em Harã, e disse-lhe: Sai da tua terra e da tua parentela, e dirige-te à terra que eu te mostrar. Então saiu da terra dos caldeus e habitou em Harã. E dali, depois que seu pai faleceu, Deus o trouxe para esta terra em que habitais agora”.
       Aos meus olhos a mensagem é bastante clara, mas praticamente todos os comentaristas que trabalham sobre o discurso de Estevão podem concordar que esse discípulo cometeu gritante gafe ao dizer que “Deus apareceu Abraão, estando ele na Mesopotâmia, antes de habitar em Harã.” Para estes comentaristas o engano de Estevão consiste em ignorar que Harã era uma cidade da Mesopotâmia. Se formos da suposição de que ao mencionar a Mesopotâmia o discípulo estivesse se referindo à cidade de Ur, lugar em que havia ocorrido a primeira vocação de Abraão, então o seu engano terá sido ainda maior, pois estará ele falando da Caldéia e da Mesopotâmia como se fossem uma e a mesma região, e evidentemente não são.
        Entretanto, não foi Estevão quem se confundiu; ao contrário, foram os seus interpretadores que fizeram confusão com as suas palavras. Na verdade, o que o velho mártir estava a dizer pode ser resumido da seguinte maneira: “O Deus da glória apareceu a Abraão quando ele estava na Mesopotâmia, mas antes de habitar em Harã, o Senhor lhe disse: sai da tua terra e da tua parentela, e vai para a terra que vou te mostrar. Então Abraão saiu de Ur dos caldeus, e foi habitar em Harã. Ali morreu seu pai, então Deus outra vez lhe apareceu e o mandou para esta terra em que agora estamos”.
       Esta exposição é perfeitamente plausível e está em total concordância com a narrativa de Gênesis capítulos 11 e 12. Note-se ainda que tanto em Gênesis 15. 7, como em Neemias 9. 7 está dito que a chamada de Abraão aconteceu quando ele estava em Ur dos caldeus, enquanto que Josué 24. 3 diz que Abraão foi chamado quando habitava além do rio (indiscutivelmente o Eufrates), ou seja, em Harã, na Mesopotâmia. Com isso fica ratificado que a vocação de Abraão aconteceu em duas ocasiões distintas pelo tempo e pelo espaço. Gênesis 12. 4 é bastante enfático e não permite margem à dúvida: Abraão tinha setenta e cinco anos quando saiu de Harã para peregrinar em terras desconhecidas. Mas a questão que realmente importa é: Com quantos anos estava Abraão quando o Senhor Deus o chamou pela primeira vez, lá em Ur dos caldeus? A primeira impressão que tive e que mantenho até hoje foi a de que ele tinha entre doze e quatorze anos de idade. E esta foi certamente a razão que obrigou Terah a acompanhá-lo quando de sua partida da Caldéia.
       O historiador Josefo parece desconsiderar a primeira fase da vocação abraâmica e prefere acreditar que Terah havia abandonado a Caldéia pelo desgosto de haver ali sepultado o seu filho Arã.
       É certo que não existam provas aparentes de que Abraão fosse muito jovem quando partiu da Caldéia, mas há uma velha tradição judaica que chegou até os nossos dias através de um documento conhecido como Apocalipse de Abraão. Flávio Josefo deve ter-lhe dado créditos, conquanto a sua narrativa sobre a vida desse patriarca reflita bem as declarações do mencionado apocalíptico a respeito de como o nosso patriarca se converteu dos ídolos familiares ao Deus Vivo e Verdadeiro. Pois bem, nesse documento lemos e vemos que Abraão ainda estava na primeira adolescência quando recebeu a revelação divina.
         Surge então a mais inquietante das questões: se é verdade que Abraão tinha cerca de quatorze anos ao deixar a Caldéia, como explicar que já tivesse um sobrinho, filho de Arã, seu irmão mais novo? A resposta tende a ser ainda mais inquietante, pois é bem possível que Abraão não tenha sido o primogênito de Terah. E de fato esta é uma opinião corrente entre vários eruditos judeus. De acordo com Josefo, Abraão teria nascido duzentos e noventa e dois anos após o dilúvio e seria a décima geração depois de Noé.
           Uma leitura no livro de Gênesis pode confirmar a voz deste historiador, mas ao lermos a genealogia de Jesus segundo o evangelista Lucas, notaremos que a informação de Josefo não pode ser sustentada; e eles escreveram seus respectivos livros mais ou menos na mesma época. Ao que nos parece, Abraão ganhou proeminência na casa de seu pai ao se tornar o grande patriarca dos hebreus. Alguns rabinos têm sustentado que na verdade Abraão era o filho mais novo de Terah e que as palavras de Gênesis 11. 35 não foram bem compreendidas. Isso é, Terah não estava com setenta anos quando gerou a Abraão, mas a Naor, seu filho mais velho.       Isso implica em dizer que Naor era sim o filho mais velho de seu pai e que nascera muitíssimos anos antes de Abraão. Essa possibilidade também está implícita no já mencionado Apocalipse de Abraão, onde lemos que o bom patriarca, embora menino, estava encarregado de cuidar dos deuses de Terah e também de Naor, seu irmão. Aqui somos obrigados a questionar como ele poderia ser um serviçal de Naor, se este, como se supõe, era-lhe inferior em idade? Na própria Bíblia há indícios de que Naor de fato tenha nascido antes de Abraão.
       Em primeiro lugar, devemos questionar a razão pela qual Terah deixaria Naor, seu filho mais jovem, em Ur dos caldeus e levaria consigo Abraão, sendo este mais velho que aquele. Vamos considerar que ele também levara consigo o seu neto Ló. Em minha opinião, se Terah não optou em levar consigo o seu filho Naor foi pelo simples fato de este já haver adquirido completa independência, ou seja, já era homem maduro.
       Em segundo lugar, chamarei a atenção para o registro feito por Flávio Josefo; foi ele que nos fez conhecer e me parece deveras razoável: Sara, que viera a se tornar esposa de Abraão, era irmã de Ló e, por conseguinte, sobrinha do mesmo patriarca. Aliás, não teria sido essa a razão pela qual ele afirmou que não havia mentido ao dizer que a fêmea era sua irmã? Em todo o caso, Sara era apenas nove ou dez anos mais jovem que Abraão, e ainda que não fosse sua sobrinha, pesaria o fato de Ló haver sido gerado por Arã, que supostamente foi o filho mais novo de Terah.
       Mas como poderia Abraão ter um sobrinho cuja idade se aproximava da sua, sendo esse sobrinho filho de seu irmão mais jovem? – Isso sim, seria improvável! Em terceiro lugar, é bem possível que Abraão fosse muito mais novo que Naor. Não devemos nos esquecer que Rebeca, uma neta de Naor, veio a se tornar esposa de Isaque, filho de Abraão; o que seria pouco provável se de fato Abraão fosse mais velho que o seu irmão.
         Os samaritanos plagiaram as Escrituras judaicas e formaram seu próprio Pentateuco; eles tentaram consertar o “erro” do autor do Gênesis e registraram nas suas “Escrituras” que Terah havia vivido cento e quarenta e cinco anos, os quais correspondem aos setenta anos que ele tinha ao gerar Abraão, com mais setenta e cinco, referentes à idade do patriarca na ocasião em que falecera seu pai.
       Todavia, é duvidoso que Terah estivesse com setenta anos de idade quando gerou Abraão, ao passo que é completamente provável que tenha morrido aos duzentos e cinco anos. Podemos enfim cravar que Abraão nascera no ano cento e trinta e cinco da vida de Terah, vindo a falecer aos cento e setenta e cinco anos de idade.
       Existem outras questões em torno deste caso, mas acredito que já discutimos o bastante.