domingo, 31 de maio de 2015

A Contribuição de John Darby à Escatologia Moderna



                                                             
                                                                            

                   
                          
                        Extraído do Livro: As Origens e a Evolução da escatologia, de Sandro Rogério


No início do século XIX, vários países europeus e a América do Norte ainda estavam enlevados pelo espírito das pregações de John Wesley e George Whitfield. Um grande reavivamento moral e espiritual havia acudido às igrejas evangélicas outrora dormentes, e a mensagem da cruz fazia acelerado progresso através do mundo devido à criação das juntas missionárias que enfim haviam se apercebido da verdadeira razão da existência da igreja como agência celeste.

       O despertamento espiritual dos cristãos, a rápida disseminação do Evangelho até os confins da Terra e as concomitantes revoluções por toda a Europa começavam a chamar atenção dos estudiosos para as profecias bíblicas, e não demorou para que estas coisas viessem a ser vistas como verdadeiros sinais dos tempos. O pensamento cristão predominante naqueles dias era o pós-milenismo, um conceito de interpretação das Escrituras que havia se tornado famoso através dos ensinos de Daniel Whitby, segundo o qual Cristo só retornaria ao mundo depois de um reinado espiritual da igreja sobre a Terra. Esse pós-milenismo de Daniel Whitby na verdade, era apenas outra forma do amilenismo, pois negava a existência de um Milênio literal onde Cristo reinará pessoalmente sobre o mundo, e, em vez disso, ensinava que o verdadeiro Reino de Deus era espiritual e que devia ser entendido como o progressivo avanço do Evangelho em todo o planeta seguindo pela conversão de todos os homens. Em outras palavras, essa linha de pensamento havia sido parte da herança que os nossos reformadores trouxeram do velho catolicismo.

       Assim, os ventos veementes trazidos pelo labor de Wesley e seus cooperadores também serviram para convencer a cristandade protestante de que a igreja logo cobriria o mudo inteiro e que então seria iniciado o Milênio espiritual de Cristo entre os homens. Na já menciona obra de I. M. Haldeman percebe-se o quanto este bom pregador se esforça para convencer os crentes acerca do engano escatológico proposto por Whitby.

       E muito mais agradável tornara-se esse pós-milenismo aos propósitos da igreja católica, conquanto seus mais antigos mestres também houvessem feito violência aos eternos desígnios de Deus ao negarem o máximo das promessas que fizera a Abraão, a Isaque e a Jacó. Porque devido à incredulidade em relação à verdadeira profecia bíblica e ao preconceito que tinham no tocante ao povo de Israel, estes pais católicos adotaram o método alegoricista de interpretar as Escrituras e passaram a ensinar que a grande pedra que aparece na visão de Daniel, da qual está escrito que crescerá e dominará o mundo, era a igreja católica, e, que, por conseguinte, a cristandade era o verdadeiro Israel de Deus, para quem estavam reservadas todas as promessas.

       Vale trazer à memória que desde os seus primeiros anos o pensamento católico romano havia sido conduzido pelo historicismo, ou conceito teológico que busca interpretar as visões de Daniel e as profecias do Apocalipse como eventos que já haviam começado a se cumprir a partir do retorno do cativeiro em Babilônia e que foram totalmente consumados até o final do primeiro século de nossa era. Deste modo, as igrejas protestantes também não conseguiram se libertar completamente dos malhos ideológicos do romanismo, uma vez que os primeiros reformadores continuassem apegados à escola preterista como se fora a única via para o estudo e a compreensão das profecias.

       E a despeito da grandiosidade da obra de Wesley e seus auxiliares, as igrejas evangélicas não estavam demonstrado o menor interesse por aquilo que devia ter sido o maior dentre todos os seus anelos, isto é, a bendita esperança do iminente regresso do Senhor Jesus Cristo para arrebatar a igreja. Os crentes da época não davam ênfase ao tema da segunda vinda de Cristo, e isso podia ser justificado, conquanto a idéia predominante e quase totalmente aceita entre todas as denominações cristãs era a de que o Filho de Deus só voltaria ao mundo depois de mil anos de um reinado espiritual do cristianismo e do Evangelho sobre a Terra.

      Mas analisemos os males trazidos por essa tendência teológica, porque o desinteresse do cristianismo protestante pela segunda vinda de Cristo condicionava a igreja ao mundo e a deixava alheia ao problema da grande apostasia e do aparecimento do Anticristo que resultaria numa perseguição de proporções mais ou menos mundiais. Havia aqui e ali uns poucos eruditos que não se acomodavam ao raciocínio de Whitby e que com a devida sapiência optaram pelo conceito do pré-milenismo histórico, ou seja, o ponto de vista adotado pelos pais do cristianismo nos dois primeiros séculos. Não sabemos especificar quem teria sido o primeiro pensador da época a dar o sinal de alerta e convocar o povo de Deus à consciência do repentino retorno do Senhor e do nosso encontro com Ele, mas temos em Edward Irving um dos mais influentes atalaias deste adventismo que fez dissipar a escuridão que até então havia mantido a igreja na ignorância do seu profético arrebol.

       Podemos de certa forma insinuar que Edward Irving foi o primeiro pregador evangélico a demonstrar real preocupação com a sonolenta condição das igrejas em relação à segunda vinda de Cristo, porque foi com palavras impregnadas de consternação e santo zelo que ele apresentou aos ingleses a sua tradução da obra de Manuel de Lacunza La Venida Del Mesías em Gloria y Majestad. Vamos ao que ele disse:

“Minha alma está profundamente aflita devido a presente sonolência e até condição de mortas de todas as igrejas em relação à vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual virá, e, como creio, não deve demorar. Mas havendo pela especial providência de Deus tomado conhecimento de um livro (a obra de Lacunza) em espanhol, o qual claramente expõe e demonstra através das Escrituras o engano da opinião (de Whitby?) quase universalmente aceita entre nós, isto é, que Ele não virá até que haja terminado o Milênio...”

       Seguramente, foi a partir de 1826 que as coisas começaram a mudar, porque a este exato tempo, na Inglaterra, vários renomados pesquisadores passaram a se reunir regularmente com o propósito de estudar determinados aspectos da escatologia cristã. Estas reuniões tornaram-se conhecidas como Conferências Proféticas de Albury Park, as quais se estenderam até o ano de 1830 e que foram assistidas e debatidas por pelo menos trinta eminentes defensores do pré-milenismo histórico. A reunião inaugural aconteceu em Surrey, na residência do Sr. Henry Drummond, cujas narrativas enriquecem a percepção que temos das preocupações compartilhadas por aquele grupo de estudiosos. Nas notas introdutórias da tradução de Irving já estavam expostos três dos principais temas a serem debatidos nas conferências: o chamado tempo dos gentios, a presente condição dos judeus no mundo e o seu futuro como povo de Deus, e por fim as trevas que pairavam sobre o assunto da segunda vinda de Cristo.

        A intenção inicial era a mais nobre de todas, porém, as Conferências Proféticas de Albury Park estavam fadadas ao insucesso devido à tendência que os seus participantes tinham pelo historicismo católico, isto é, eles insistiram em estudar e interpretar as profecias segundo o ponto de vista preterista. Mas seja como for, elas serviram como base para o lançamento do futurismo e do dispensacionalismo encabeçados por John Darby. Não devemos deixar de mencionar aqui que nas Conferências Proféticas de Surrey havia se destacado a pessoa de um jovem e apaixonado pregador chamado Edward Irving.

       Como os demais eruditos da época, Irving também defendia o historicismo, embora rejeitasse totalmente a idéia segundo a qual o Senhor Jesus voltará ao mudo não antes, mas depois do Milênio. Ele conseguia enxergar através das Escrituras Sagradas que o Senhor virá ao mundo não uma, mas duas vezes e que haverá um curto espaço de tempo entre estas duas vindas. Antes dele despontaram outros estudiosos que conseguiram perceber a necessidade de duas futuras vindas de Jesus a este mundo. Porém, esse é um ponto particular do nosso estudo e iremos retornar a ele mais adiante. Entretanto, não foi por acaso que Edward Irving veio a encontrar um verdadeiro tesouro da literatura cristã, produzido por um até então desconhecido pensador jesuíta da América do Sul, o sacerdote Manuel de Lacunza Y Días, cuja obra foi postumamente publicada sob o enigmático pseudônimo de Juan Josafat Ben-Ezra.

       Nascido em Santiago do Chile, em 1731, Manuel de Lacunza veio a falecer setenta anos mais tarde na Itália, mas não sem antes concluir a obra que o tornaria conhecido em todo o mundo cristão. Dedicara quatorze longos anos de sua existência ao minucioso labor de pesquisar e escrever o livro Lá Venida Del Mesías em Gloria y Majestad, uma obra erudita e profundamente arraigada na história do pensamento escatológico cristão. De acordo com o autor, as teorias do amilenismo e do pós-milenismo não deviam ser levadas em consideração, pois não contavam com o apoio dos mais antigos pais da igreja, os quais de fato haviam se certificado e ensinado que Cristo ainda virá ao mundo duas vezes, e que a despeito da atual posição da igreja católica, os primitivos e sábios doutores haviam lido e interpretado as profecias da Bíblia não como alegorias, mas no seu sentido próprio e literal. Como tal, Lacunza rejeitava o ensinamento católico de um Milênio espiritual, como também negava que o ministério da igreja fosse o verdadeiro Reino de Deus. Não era pré-tribulacionista, mas acreditava que antes de abater a arrogância da Besta e estabelecer a sua teocracia sobre este mundo, Cristo viria arrebatar os cristãos fiéis e assim os livrar da ira futura. Adiante externaremos o verdadeiro pensamento de Lacunza.

       Irving traduziu a obra de Lacunza, e os participantes das Conferências Proféticas de Albury Park a estudaram e tomaram como base para os seus debates. Dois dos principais pontos discutidos nestas reuniões diziam respeito a presente condição dos judeus no mundo e a possibilidade da sua futura restauração como genuíno povo da promessa e em seguida vinha o assunto principal, que era a iminência da segunda vinda de Cristo. Irving, que liderava uma grande e famosa igreja, exercia a mais decisiva influência sobre o grupo de estudiosos, porém, ele não era pré-tribulacionista como usam afirmar alguns dentre os seus acusadores. A crença que ele tinha acerca das duas fases da segunda vinda de Jesus não era originalmente sua, mas de Joseph Mede (1586-1638), que reconhecidamente fora o pai do pré-milenismo inglês. Outro importante pensador cristão a desenvolver a doutrina posteriormente difundida por Irving foi o francês Pierre Jurieu (1631-1713).

       Mas hei dito que o futuro das Conferências Proféticas de Albury Park estava comprometido por causa da simpatia que os seus membros tinham pelo historicismo que os nossos reformadores trouxeram da igreja romana. E não foi apenas isso, porque apesar dos esforços de Edward Irving, muito da sua teologia e ensinamentos expressava conceitos considerados absurdos mesmo em uma época onde campeavam as trevas e a verdade era obscurecida pelo comodismo. Em linhas gerais, o que pretendo dizer é que Irving produzia um jornal diário que usava para divulgar as suas idéias acerca das profecias e do glorioso futuro da igreja e que em não raros casos os artigos por ele publicados estavam impregnados de heresias e de muitas esquisitices teológicas. Era um cristão sincero e temente a Deus como poucos em sua época, todavia, o seu espírito totalmente aberto a todas as formas de cristianismos produziu um evangelho tortuoso e intolerável. Para se ter uma idéia das suas tendências e desvios doutrinários é suficiente lembrar que uma das denominações às quais se associara era conhecida como Santa Igreja Católica Apostólica. E não custa trazermos à memória que devido a este apelo “ecumênico”, até hoje Irving vem sendo criticado por aqueles que o detestam.

       Ademais, Irving, crente de que estivesse vivendo os últimos dias da igreja no mundo, aplicara-se a pregar e ensinar que de acordo com as profecias da Bíblia, Deus haveria de derramar o Espírito Santo sobre os fiéis, pouco antes do segundo advento do Salvador. De fato, ele se tornou precursor do movimento apostólico posteriormente trazido para o Brasil por Daniel Berg e Gunnar Vingren. Irving pretendia trazer de volta os tempos em que as igrejas eram lideradas por apóstolos e profetas, mas visto que ele mesmo jamais manifestara qualquer tipo de dom espiritual, tal como o falar em línguas e o profetizar, acabara caindo no descrédito. Hoje aqueles que o desprezam podem comemorar, pois com satisfação declaram que Edward Irving faleceu ainda jovem, sendo sepultado sob total miséria e desonra.

       Porém, nem tudo estava perdido. As Conferências Proféticas realizadas anualmente em Surrey vieram a servir de inspiração e modelo para a criação de um grupo de cristãos interdenominacionais que se passaram a reunir regularmente para estudar as profecias da Bíblia em Dublin, Irlanda, a partir de 4 de Abril de 1831. Antes disso, e provavelmente em antecipação àquelas reuniões em Albury Park, já alguns grupos de cristãos sinceros e inconformados com o secularismo de suas próprias igrejas passavam a se encontrar semanalmente para o estudo devocional das Escrituras em um culto bastante singelo. No geral eram jovens, vindos de diferentes denominações evangélicas, todos eles movidos pelo desejo de uma vida espiritual e profunda. Não se tratava de uma reunião de fanáticos desprovidos de genuína fé e os seus mais notáveis membros eram verdadeiros eruditos da Bíblia.

       Foi a partir de 1831 que as coisas tomaram a forma real, ocasião em que Lady Powerscourt, uma mulher da nobreza e então viúva, ofereceu o seu palácio para que os irmãos realizassem conferências sobre as profecias da Bíblia. Um jovem pastor inglês chamado John Nelson Darby era um de seus principais palestrantes e posteriormente ele e Lady Powerscourt se tornariam noivos. A primeira reunião ocorreu em 4 de Outubro de 1831 e ficou conhecida como  Conferência de Powerscourt. Nela ingressaram pelo menos trinta e cinco especialistas em assuntos da Bíblia, inclusive um que era erudito nas línguas originais das Escrituras. Porém, ficaria a cargo de Darby apresentar a proposta teológica que revolucionaria para sempre o pensamento e o sentimento dos cristãos e que modificaria completamente o modo de se aplicar a escatologia da igreja.

       De acordo com o que tem sido reportado, já em Outubro de 1827, estando John Darby se recuperando de um acidente que sofrera, valera-se da ocasião, aproveitando a temporária invalidez para se dedicar ao estudo aprofundado das Escrituras e foi impactado por duas impressionantes descobertas no campo das profecias. A primeira delas foi que os cristãos deviam estar preparados para o repentino encontro com o Senhor nos ares. A segunda descoberta era concernente à nação de Israel, sua restauração e a dispensação do reino que Deus lhe havia prometido. Sem que se façam as devidas considerações alguém dirá que não havia nada de especial nestas observações de Darby, mas a verdade é que estes conceitos nortearam a sua vida e desafiaram todas as teologias da época.

       A proposta de Darby era a de que tanto os pré-milenistas quanto os pós-milenistas estavam equivocados e que os cristãos não deviam estar preocupados com a aparição do Anticristo e a grande tribulação, uma vez que o arrebatamento da igreja devia acontecer antes da manifestação da ira de Deus. Como ele chegou a essa conclusão? Segundo as suas próprias palavras, teria sido pela fé, e de fato o creio. Porque Darby soube reconhecer o grande enigma da nossa escatologia, o qual de fato era recolocar o povo judeu no seu devido lugar, a saber, dentro do plano divino, algo que havia sido negligenciado pelas autoridades da igreja desde o entardecer do segundo século. A premissa inicial do bom pregador foi que Deus havia elegido não um, mas dois povos: Israel e a igreja, e que lhes havia reservado promessas, cuidados, esperanças e futuros distintos.

       Além do mais, Lacunza já havia salientado, e, do mesmo, modo as Conferências de Surrey especularam acerca da atual condição de Israel, todavia, a noção que eles tinham havia ficado embaçada pelo nevoeiro do alegorismo que pregava a substituição de Israel pela igreja como único povo de Deus. De fato, eles até discutiam algo a respeito do “tempo dos gentios”, mas não atinavam que tão logo a dispensação da igreja fosse consumada, Jeová outra vez chamaria Israel à cena e que a ele dedicaria toda a sua atenção.

       Darby, porém, era de outro parecer. Ele percebeu que Deus tem dispensado dois diferentes tratamentos para os dois povos da salvação. Foi ao ler na carta de Paulo aos Romanos que esse pai do dispensacionalismo moderno veio a se certificar de algo que até então parecia o avesso da escatologia paulina, isso é, que Deus não havia se esquecido de Israel e que futuramente o reintroduzirá no mundo como genuíno povo da salvação, porquanto as suas promessas sejam irrevogáveis. E, além disso, Romanos 11. 25 declara que Israel ficará temporariamente fora do plano de Deus a fim de que a salvação seja anunciada entre os nações, mas que quando a plenitude dos gentios for enfim atingida, Ele se ocupará com a restauração nacional e espiritual dos judeus.
       A visão futurista de Darby buscava interpretar o plano divino não alegoricamente, como o faziam os preteristas, mas de forma literal e prática. Seu dispensacionalismo impressionava, pois estava na rota de colisão das normas teológicas estabelecidas pela incredulidade daqueles que não podendo ou não querendo aceitar o literalismo das promessas divinas em relação à futura restauração de Israel, optaram por uma interpretação amena e tomaram os altos desígnios de Deus como alegorias ocas.

       Basicamente falando, uma dispensação é um período de tempo na história sagrada durante o qual Deus trabalha a salvação da humanidade. Cada dispensação tem propósito único, com uma aliança e especial tratamento divino. Paulo emprega a palavra pleroma em Romanos 11. 25 para se referir à dispensação da igreja, o que é bastante diferente de kairós, utilizada por Cristo em Lucas 21 24. Isto é óbvio, pois, exegeticamente falando, existe uma notável distinção entre a “plenitude dos gentios”, tal como mencionada por Paulo, e aquele “tempo dos gentios” do qual nos falou o nosso Mestre.

Numa aplicação deveras simples a expressão tempo dos gentios não tem nada a ver com o plano da redenção humana e muito menos com a dispensação da igreja, isto é, não se refere a uma dispensação dentro do plano divino, antes se aplica ao tempo da opressão e do domínio estrangeiro sobre Jerusalém, do ano 70 de nossa era até ao dia em que o Libertador dos judeus aparecer para restaurar o reino a Israel (Atos 1. 6) e reedificar o tabernáculo de Davi, que está caído (Atos 15. 16). Já a plenitude dos gentios, esta sim, se refere à dispensação da graça e ao tempo durante o qual Deus visitará as nações para tomar um povo para o seu Nome. Paulo com muito acerto faz uso da palavra pleroma, e isso é bastante emblema-tico, haja vista que no Novo Testamento o termo também possua uma aplicação incomum, podendo assim se referir a um “improviso”, algo como um remendo, uma escora, um “por enquanto”. Enfim, esta palavra pode ser também usada para se referir a algo que complementa, mas que não substitui. É possível que esta haja sido a razão pela qual no mesmo livro de Romanos o bom Paulo tenha se referido à dispensação dos gentios como sendo um zambujeiro enxertado na oliveira. Consultar Romanos 11. 17.

       Então Israel voltará a ocupar o seu lugar no mundo. Sem dúvidas esta foi a verdadeira causa do sucesso do dispensacionalismo de Darby. Antes dele ninguém estaria tão disposto a tomar tal afirmação ao pé da letra. Os estudiosos da época desprezavam uma interpretação tão literal e até o grande erudito R. H. Charles chegou a desdenhar dos textos bíblicos que faziam alusão à restauração nacional de Israel. Ele e outros acadêmicos daquele século alegavam que os escribas do período interbíblico haviam incluído nos registros dos profetas as supostas promessas de que no fim dos dias Deus voltaria a reunir os judeus em sua própria terra. Mas é uma pena que Charles não tenha vivido o suficiente para testemunhar o acordo internacional que oficializou a Independência do Estado de Israel durante a primeira metade do século XX.

       Porém, exatamente cem anos antes da declaração da Independência do Estado Judeu, John Nelson Darby havia concluído e publicado os seus estudos sobre as profecias de Daniel nos quais também sustentava que os judeus voltariam a ser estabelecidos como nação na sua própria terra. Ele descobriu e aceitou esta verdade pela fé, a partir de uma interpretação das setenta semanas de Daniel, onde já estavam previstas a destruição de Jerusalém no ano 70, seguida pela dispersão de Israel por todo o mundo e pela instauração da dispensação da graça para a salvação dos gentios, a qual será consumada no fim dos dias, quando este povo há de ser outra vez o centro da atenção divina.

       Ao colocar Israel outra vez dentro do plano divino, Darby quebrou os antigos parâmetros, promoveu uma reforma no pensa-mento escatológico e restaurou a genuína esperança da igreja cristã, ou seja, a certeza de que ela não passará pela grande tribulação. Isso se deve ao fato de que a restauração final de Israel só acontecerá depois que houver “entrado a plenitude dos gentios”, porque são distintas as promessas e esperanças que Deus tem reservado para estes dois povos da salvação e ambos devem cumprir diferentes papéis no mundo. Mas assim como Israel foi banido para que entrasse em vigor a dispensação dos gentios, da mesma maneira exigir-se-á que a igreja seja removida a fim de que Israel volte a assumir o seu lugar no mundo de acordo com o propósito divino.

       Acredito que ninguém há de questionar se afirmarmos que a dispensação dos gentios verdadeiramente só entrou em vigor depois que a religião do templo foi interrompida com a tomada de Jerusalém sob Vespasiano. Esse acontecimento profético foi igualmente o marco da interrupção da contagem das setenta semanas de Daniel e serviu para introduzir a plenitude dos gentios em definitivo. E da mesma forma que a dispensação da lei e a religião do templo foram interrompidos por um acontecimento profético, assim também deve acontecer quando a dispensação da graça atingir a medida do seu tempo. Darby acertadamente concluiu que esse grande acontecimento profético há de ser o repentino arrebatamento da igreja de Jesus Cristo.

       Como o livro de Daniel parece prever que o início da última semana profética há de ser marcado por um acordo diplomático entre as autoridades de Israel e a Besta, dá-se a entender que a igreja será arrebatada pelo menos sete anos antes da manifestação pessoal do Messias em Jerusalém. Isso equivale a dizer que ela não estará na Terra durante a grande tribulação. Decerto seja este o ponto mais saliente da proposta escatológica de Darby.

       Contudo, os defensores do conceito preterista de interpretação das profecias reagem à reforma escatológica de Darby e alegam que a doutrina de um arrebatamento pré-tribulação é diabólica e que não conta com o apoio da teologia da igreja antiga, posto que durante os dezoito séculos anteriores a ele os doutores da Bíblia jamais houvessem cogitado que Cristo viesse ao mundo em duas fases. Eles incredulamente e até forjando mentiras usam declarar que a doutrina do arrebatamento pré-tribulação não nasceu da profecia bíblica, mas das supostas visões proféticas de Margaret Macdonald, uma jovem crente que freqüentava a Santa Igreja Católica Apostólica, a qual teria recebido uma especial revelação de Deus em Port Glasgow, Escócia, no ano de 1830. Margaret de fato disse haver recebido a divina revelação acerca de textos como Mateus 24. 36-44 e Lucas 17. 26-36, cujo ponto forte seria a nova de que os crentes fiéis serão arrebatados pelo Senhor antes da aparição do Anticristo.

       A acusação levantada contra a doutrina do arrebatamento pré-tribulacional tem sido largamente explorada pelos autores Dave Macpharson e Brian Shwertley, notáveis opositores do dispensacionalismo de Darby. O problema é que Macpharson e Shwertley possuem a eloqüência dos desesperados e não aceitam o fato de que as suas alegações estejam cimentadas na ignorância que têm acerca da verdadeira esperança da igreja. Eles pertencem àquela mesma classe de pensadores que negavam o profético ressurgimento da nação de Israel e que por obstinação até hoje se recusam a admitir que Deus tenha reservado uma dispensação final para os judeus. Shwertley, por exemplo, não acredita na literal reconstrução do templo em Jerusalém onde o Anticristo iniciará a sua revolta.

       Macpharson, por outro lado, enche a boca de veneno quando vem declarar que Margaret Macdonald foi a primeira pessoa a ensinar que a segunda vinda de Cristo acontecerá em duas fases, e que Darby, havendo anteriormente anunciado que as supostas visões da moça eram de origem diabólica, acabara voltando atrás para se tornar o principal pregador desta nova doutrina. Uma declaração duas vezes enganosa! Primeiro porque Margaret Macdonald estava muitíssimo longe de ser a primeira pessoa a ensinar sobre as duas fases da segunda vinda de Cristo. Em segundo lugar, não teria sido através dela que John Darby chegaria ao conhecimento de um arrebatamento pré-tribulacional.

Na verdade, ele já havia pregado a respeito deste assunto quatro anos antes de Margaret começar a profetizar. Além do mais, estes difamadores precisam se decidir acerca do que dizem, porque entre eles existem os que tomam o caminho inverso e se contradizem ao insinuar que Margaret Macdonald havia sido influenciada pelo carismatismo de Edward Irving, que ele a manipulou como que por meio de transe hipnótico e que a fez pensar haver recebido uma revelação divina acerca do arrebatamento pré-tribulacional. Todavia, essa alegação é irresponsável e totalmente insustentável, porque está comprovado que apesar de haver defendido a doutrina das duas fases da segunda vinda de Cristo, Edward Irving jamais se mostrou favorável ao ensinamento de que a igreja seria arrebatada antes da grande tribulação. O que ele com clareza pregava era que Cristo viria buscar os seus escolhidos pouco antes da grande conflagração do universo, fato previsto pelo apóstolo em 3. 10 da sua segunda epístola. Mas em todo o caso, isso só aconteceria no final da grande tribulação.

       Quanto à alegação de que os antigos mestres jamais tomaram conhecimento das duas fases do segundo advento de Cristo, eis um engano tão grotesco que nem merecia ser rebatido, mas visto que o nosso trabalho tenha por meta esclarecer as origens e a evolução da escatologia cristã, hei de expor o que realmente aconteceu e a maneira pela qual os antigos abandonaram a doutrina das duas fases da vinda do Senhor. Principiemos por esclarecer que os primitivos expositores do Evangelho jamais possuíram real conhecimento no campo da escatologia, e que, salvo os apóstolos de Jesus Cristo, até os mais honrados mestres dos dois primeiros séculos estiveram entregues a muitas especulações no que concerne ao profético destino dos santos. De maneira geral podemos admitir que naqueles dias era comum acreditar que a igreja passaria pela grande tribulação e pelo ódio do Anticristo antes de ser tomada por Cristo nos ares.

       Na realidade da época esse ponto de vista era mais do que natural, visto que os cristãos vivessem sob constantes perseguições e estivessem acostumados a crer que o Senhor regressaria a qualquer momento para transportá-los ao reino do seu amor. Imaginem que eles tiveram de enfrentar pelo menos quatro perseguições brutais que certamente não podem ser consideradas em nada inferiores àquela que a Besta promoverá aos santos. Então, no contexto geral da época, a igreja já estaria passando pela grande tribulação. Quanto à Besta do Apocalipse, é suficiente lembrar que os imperadores Nero, Domiciano e Diocleciano, que promoveram as mais severas perseguições aos cristãos, foram ao seu tempo identificados como o Anticristo. Por motivos como estes, os cristãos primitivos passaram a crer que já estivessem vivendo o período sombrio da tribulação dos últimos dias. Não podia ter sido diferente.

       Ainda no segundo século surgiu o movimento adventista liderado por Montano, um líder cristão que conseguiu convencer a muitos acerca do exato tempo e local da descida do Filho e Deus pa-ra receber os escolhidos. É desnecessário dizer que na ocasião os mais notáveis bispos e presbíteros reagiram às loucuras de Montano e suas duas profetisas. Todavia, essa reação não aconteceu unicamente em virtude de haver Montano estabelecido o dia e o lugar da aparição do Senhor, mas também pelo fato de que naqueles dias os ventos do desgosto e da impaciência estivessem alojados nas mentes e corações de muitos cristãos que já não acreditavam na promessa de um breve e repentino retorno.

       Muitos haviam crido, vivido e morrido na doce esperança do iminente regresso de Cristo, mas passados mais de cento e cinqüenta anos desde a sua partida para junto do Pai, os cristãos, sem poderem negar a certeza da sua volta, começaram a rever os antigos conceitos e optaram por aceitar que as promessas feitas aos apóstolos não haviam sido bem interpretadas pelos mestres da igreja. Hoje pesquisadores sinceros usam atestar que em razão desse desengano uma crise se instalou no seio da cristandade e se agravou de tal modo que toda a expectação escatológica de outrora foi sendo aos poucos confinada ao passado. A esperança da segunda vinda de Cristo passava a ser um elemento secundário. Era a primeira forma de um conceito preterista que estava nascendo para subjugar a fé durante muitos séculos até que os espíritos de homens esclarecidos postulassem o retorno à genuína esperança do cristianismo gentio.

       Porém, até que a revolução da escatologia viesse a ser deflagrada, o cristianismo esteve conformado aos errôneos conceitos do historicismo e do pós-tribulacionismo cujas bases haviam sido lançadas bem cedo na história da igreja e que encontraram no célebre Hipólito de Roma um de seus primeiros edificadores. Ele devia ser ainda menino quando Montano e suas duas profetisas começaram a proclamar que o segundo advento do Senhor aconteceria na Frigia. Hipólito se tornara aluno do ilustre Irineu de Lion e mais tarde veio a ocupar a dignidade do episcopado na capital do império. Possuía verdadeira paixão pelo estudo das profecias e tanto insistiu nisso que chegou a produzir o mais volumoso tratado de escatologia da igreja antiga.

       Este destacado mestre foi um dos primeiros pregadores a se empenhar na negação do iminente retorno de Cristo e por conta disso veio a ser o construtor de uma interpretação que estabelecia a época da segunda vinda para além do ano 500 de nossa era. E para demonstrar como as coisas começaram a suceder, transcreverei algumas notas extraídas do seu Comentário Sobre Daniel.

“Porque como os tempos são anotados desde a fundação do mundo, e contados desde Adão, eles expõem claramente diante de nós o assunto com o qual se ocupa o presente discurso. Porque a primeira aparição do nosso Senhor na carne aconteceu em Belém, nos dias de Augusto, no ano 5500 desde a criação; e Ele padeceu aos trinta e três anos de idade. E seis mil anos devem ser trans-corridos até que venha o Sábado, o santo dia no qual Deus descansou das suas obras. Porque o Sábado é o tipo e emblema do futuro reino dos santos, quando eles reinarão com Cristo, quando Ele vier do Céu, como João diz no Apocalipse. Porque para o Senhor um dia é como mil anos. Deste modo, e visto que o Senhor fez todas as coisas em seis dias, segue-se que seis mil anos devem se cumprir. Mas eis que este número ainda não se cumpriu; porque João diz: cinco já caíram; um ainda é, ou seja, o sexto, mas o outro ainda não é vindo. João menciona “o outro”, se referindo assim ao sétimo, no qual haverá o descanso. Mas alguém pode questionar: Como hás de provar-me que o Senhor nasceu no ano 5500 desde a criação?”
   
   Para esclarecer a sua tese, Hipólito emprega o simbolismo do tabernáculo do deserto e se esforça para explicar como as medidas da arca sagrada podem indicar a exata época em que o Verbo de Deus se tornaria humano desde o ventre de uma virgem. No fim, o que fica realmente esclarecido é que já naqueles dias (160-233) a cristandade havia se acostumado com a idéia de que a segunda vinda do Senhor só iria acontecer depois de muito tempo. Hipólito, porém, foi mais cauteloso que Montano, seu contemporâneo, e cravou o tempo do segundo advento para depois do ano 500. Ele usava vários textos da Bíblia para alicerçar as suas argumentações, mas as especulações que elaborara são tão supérfluas que nem devem ser aqui declaradas.

       Temos então reconhecido que desde cedo os cristãos abandonaram a postura futurista que havia sido a grande força e esperança das pregações apostólicas, porque estes santos doutores da fé a uma voz anunciavam que o retorno do Salvador aconteceria a qualquer momento e isso obrigava os seus servos a viverem em constante expectativa, como se cada dia fosse o último. A escola apostólica de Jerusalém esperava testemunhar o segundo advento de Cristo ainda naquela geração e está igualmente comprovado que as primeiras comunidades cristãs creram que o bendito João estaria vivo na ocasião do retorno do Senhor. Quanto a Paulo, ele também tinha a esperança de ser arrebatado em vida, porquanto escrevera aos crentes em Tessalônica que “[...] Nós, os que ficarmos vivos para a vinda do Senhor, não precederemos os que dormem”.

       Eis então a prova de que os apóstolos sabiam reconhecer a necessidade das duas fases da segunda vinda de Jesus Cristo, pois o ensino de um regresso repentino e sem prévio aviso para arrebatar os santos surgia como uma quebra de regra que exigia uma lacuna no tempo entre o seu retorno para a igreja e aquela aparição em glória e majestade prevista para o dia do Armagedom. Paulo foi o grande expositor dessa doutrina e no capítulo 2 da segunda carta aos Tessalonicenses ele deixa muitíssimo claro que a igreja será retirada da Terra antes da aparição do Anticristo, e, por conseguinte, em antecipação à grande tribulação. Reparem que o referido texto nos apresenta uma comunidade cristã apreensiva e temerosa, como se estivesse vivendo os últimos momentos antes da volta do Senhor. Eles deviam estar alegres ante a aproximação do retorno de Cristo, mas, em vez disso, se afligiam. Que lastimável contradição!

       Entretanto, por que se desesperavam os tessalonicenses? Evidentemente que eles haviam se inquietado por meio de boatos (revelações?) que diziam que o arrebatamento e a ressurreição eram eventos proféticos já acontecidos e que desde então estavam vivendo os dias da grande tribulação. Assim, eles estavam preocupados não com a expectação da vinda de Cristo, mas com o boato de que Ele já viera. Ora, se acreditavam que Cristo já era vindo para arrebatar os escolhidos e que passados os tempos da ira de Deus o Senhor viria outra vez, sobre as nuvens, para esmagar o Anticristo, era porque possuíam o conhecimento das duas fases do segundo advento.

       Manuel de Lacunza defendeu esse parecer. Na verdade, e para o desgosto dos inimigos da escatologia darbiana, a doutrina das duas fases da segunda vinda de Cristo sempre fez parte da primitiva esperança da igreja, ainda que, para todos os efeitos, essa interpretação não implicasse num arrebatamento pré-tribulação. Antes de Lacunza, já Joseph Mede e Pierre Jurieu haviam se pronunciado a favor da idéia de que Cristo ainda virá ao mundo em duas ocasiões. Segundo eles, na primeira etapa desta segunda vinda o Senhor arrebatará a igreja a fim de que ela não pereça com os infiéis durante o derramamento dos juízos anunciados no Apocalipse. Na segunda etapa, Cristo julgaria os vivos e os mortos e estabeleceria o Milênio. Esse sistema interpretativo é conhecido como pré-milenismo histórico, defendido por pensadores como Justino, Irineu e Tertuliano. Na concepção conjunta de Mede, Jurieu e Irving, o rapto da igreja aconteceria pouco antes da conflagração do planeta, e, em linhas gerais, eles podiam concordar que o espaço de tempo entre uma fase e outra seriam os enigmáticos quarenta e cinco dias, providencialmente acrescentados à profecia de Daniel capítulo 11. 11, 12.

       Retrocedendo ainda mais no tempo, Lacunza apresentará as provas de que os antigos pais da igreja sempre souberam que o Senhor Jesus virá ao mundo duas vezes. Porque amenizando as refutações feitas a alguns aspectos das idéias milenistas de Nepos e Apolinário, eis que ele diz, se lamentando por ter de confrontá-los:

“Estes milenistas reconheceram bem através das Escrituras a substância do reino do Messias; conheceram que a sua vinda em glória e majestade, à qual todos nós esperamos, não havia de acontecer tão depressa, como se supõe comumente; conheceram que nem tão logo se hão de acabar todos os vivos e ignominiosos, nem tão logo há de suceder a ressurreição universal de todo o gênero humano; conheceram que Cristo há de reinar sobre a Terra, acompanhado de muitíssimos co-regentes, isto é, muitíssimos santos e ressuscitados; conheceram, enfim, que há de reinar sobre a Terra, sobre homens vivos e em seus corpos corruptíveis, os quais o haverão de crer e reconhecer como legítimo Senhor, e que se hão de sujeitar inteiramente a suas leis, em justiça, em paz, em amor, em verdade, como parece claro nas mesmas Escrituras”.

       Por aí se nota que Lacunza em parte concorda com as idéias escatológicas de Nepos e Apolinário em relação ao tempo e à forma da segunda vinda de Cristo e que igualmente aceita que esta segunda vinda há de ser consumada em dois atos, isto é, antes e depois do Milênio. Do ponto de vista bíblico esta acepção é errônea, pois a Escritura de nenhum modo ensina que o Senhor regressará ao mundo depois do Milênio, senão que estará na Terra e sobre o seu trono quando ocorrer a última rebelião de Satanás e eclodir a grande conflagração do universo. O que Lacunza está a dizer é que os antigos acreditavam que a segunda vinda de Cristo aconteceria em duas fases, sendo uma na abertura do Milênio, e, por instâncias, ao final da grade tribulação, ao passo que a outra fase, à qual se refere como sendo em glória e majestade, só aconteceria depois de mil anos de um reinado de paz, justiça, amor e verdade entre os homens. Lacunza se apóia nas concepções de Nepos e Apolinário porque julga que elas possuam resquícios da escatologia original dos apóstolos e as usa para confrontar as ideologias predominantes entre os católicos em sua própria época, os quais de fato interpretavam a Bíblia alegoricamente e criam na hipótese do progresso do Reino de Deus através da evangelização do mundo, aplicando assim uma interpretação na qual a possibilidade de uma vinda pessoal de Cristo era negada e o estabelecimento de um Milênio literal era totalmente non sequitur.

       Para eles, a igreja era o verdadeiro Israel de Deus e o chamado Reino dos Céus não era outro senão a progressiva hegemonia do cristianismo sobre as religiões e a política do mundo. Mas certamente não era este o alvo direto dos ataques desferidos por Manuel de Lacunza. O que ele pretendia mesmo era provar para os seus que a segunda vinda de Cristo acontecerá literalmente e antes da implantação de um Milênio literal. Pretendia no mesmo ensejo esclarecer que terminados estes mil anos de reinado pacífico de Cristo sobre a Terra o universo inteiro entrará em combustão e que todos os seres humanos deverão morrer, a fim de que venham a ressurreição geral e o juízo eterno.

       Alguns cristãos defensores do pós-milenismo ficam apavorados e com acrimônia viram o rosto se alguém faz menção da obra de Lacunza, pois alegam que os dispensacionalistas precisaram copiar as teorias de um padre católico a fim de darem forma sua à concepção das duas fases da segunda vinda de Cristo e à insinuação de um Milênio literal. Todavia, e além de estarem equivocados, estes pós-milenistas se esquecem de que ele não foi apenas um padre católico, mas um padre católico que ousou contrariar a milenar tradição escatológica de sua própria religião. Ademais, estes maldizentes que nos acusam de havermos recorrido aos métodos interpretativos de um padre católico são os mesmos que não raras vezes evocam a autoridade de Jerônimo e Agostinho em refutação à doutrina de um Milênio escatológico e literal.

       No caso de Shwertley, eis que dispara contra o dispensacionalismo ao afirmar que a doutrina do arrebatamento pré-tribulação nunca teria sido ensinada pelos mais antigos mestres da igreja e que por esta razão os cristãos de hoje devem trazê-la sob suspeita. Será?! No entanto, procurai saber qual a natureza da escatologia ensinada por Shwertley e descobrireis que os primitivos doutores do cristianismo a desconheceram totalmente.

       Mas a despeito de todas as alegações contrárias, a doutrina das duas fases da segunda vinda de Cristo fazia parte da escatologia original dos apóstolos. O que se discute de fato é se a primeira destas fases deve acontecer antes ou depois da grande tribulação, e, se, por outro lado, a segunda etapa será antes ou depois do Milênio. Lacunza explica que a primeira fase é anterior ao Milênio (não necessariamente antes da grande tribulação) e apresenta as provas históricas segundo as quais os antigos mestres teriam sido do mesmo parecer, e que acima de tudo, acreditavam no estabelecimento de um Milênio literal onde Cristo reinaria pessoalmente entre os homens. Ademais, Lacunza apresenta a data precisa em que a igreja cristã abandonou os princípios da escatologia original e explica os motivos pelos quais ocorreu a substituição das idéias.

       Em primeiro lugar, Lacunza percebe que com a aparente demora da segunda vinda de Cristo muitos doutores cristãos foram se tornando judaizantes ao extremo e acabaram substituindo muito da escatológica e evangélica esperança pelo grosso das mitologias e lendas dos judeus. Hei aqui antecipado que desde os primórdios a igreja não se deixou guiar pelo Apocalipse de João, mas pelas tradições escatológicas herdadas do judaísmo. É fato que sempre houve aqueles que sustentaram todas as promessas transmitidas pelo profeta de Patmos, mas a verdade é que o número destes era muito pequeno em relação àqueles que inicialmente se opuseram ao seu livro. Então, assim apegados a tantas fábulas do imaginário judaico, muitos crentes passaram a ensinar heresias gritantes, ainda que houvessem interpretado algumas verdades outrora negligenciadas por não poucos doutores ortodoxos. Fatos tais como o retorno de Israel a terra da promissão, seu restabelecimento como nação, sua futura restauração religiosa, a reconstrução do templo salomônico e a exaltação dos judeus sobre os povos do mundo eram tidos como insofríveis e qualquer cristão que as professasse era prontamente classificado como judaizante.

       Mas deixando de lado os abusos teológicos cometidos por aqueles que aceitaram todas as formas de lendas judaicas, os demais elementos relativos ao futuro de Israel bem como a sua completa exaltação sobre as nações do globo durante a dispensação do Milênio possuíam total apoio das Escrituras e não podiam deixar de cair na graça do povo. Acontece que a ortodoxia de muitos se recusava absorver o literalismo desta interpretação. Os judeus ensinavam que o Messias viria para exaltar Israel sobre o resto do mundo e submetê-lo à sua Lei; os mestres do cristianismo ortodoxo, por sua vez, pregavam que Cristo viria raptar a igreja para glorificá-la acima de todos os povos, inclusive os judeus. Ou seja, mais do que interpretar corretamente os propósitos divinos, o que se sobressaía mesmo era a existência de um confronto de interesses. Respeitados mestres como Clemente de Alexandria (150-220) e Orígenes (185-254) não simpatizaram com as novas idéias, e a fim de que os dogmas evangélicos não sucumbissem ante as inovações trazidas do judaísmo, optaram pelo alegorismo que interpretava principalmente os livros de Daniel e Apocalipse como meras simbologias.

      Nepos e Apolinário, dois importantes líderes cristãos daqueles anos, se tornaram profundamente afeiçoados pela tendência judaica de interpretar as Escrituras e foram confrontados por Dionísio e Epfânio, os quais atacaram os seus devaneios, mas sem deixar de reconhecer que existia um pouco de verdade no que eles ensinaram. Mas foi como uma faca de dois gumes, pois a o desfecho dos ataques contra Nepos e Apolinário acabaram desviando o cristianismo do verdadeiro sentido da Palavra de Deus, já que o resultado do embate levou os cristãos a assumirem que as profecias da Bíblia deviam ser interpretadas alegoricamente. Essa nova postura visava acima de tudo sobrepor a esperança da igreja à futura exaltação de Israel. O que já era de se esperar, porquanto o cristianismo da época estivesse vivendo da caridade do imperador Constantino, pelo que também não teria sido por coincidência se desde então os cristãos passassem a crer que a Besta do Apocalipse não mais surgiria de Roma, mas da “maldita” semente de Israel. Ou seja, os judeus estavam sendo completamente excluídos do plano divino através dos séculos. Segue-se, portanto, que a substituição de Israel pela igreja como único povo de Deus veio a marcar a época exata da adoção do alegorismo como via de interpretação das Escrituras.
       Manuel de Lacunza captou os males desta metodologia e nos faz saber que ela assumiu a definitiva forma devido às refutações levantadas contra as idéias de Nepos e Apolinário. Ele mesmo descreve como as coisas começaram acontecer:

“Com efeito, estas duas legiões de judaizantes, partidários de Nepos e Apolinário, e os livros que contra eles foram escritos tanto por Dionísio quanto por Epfânio, etc. parece que formam a época precisa da mudança inteira e total das idéias sobre a vinda do Senhor em glória e majestade. Até então se havia entendido a Escritura Sagrada tal como soa, segundo o seu próprio sentido, óbvio e literal. Por conseguinte se haviam crido fiel e singelamente todas as coisas que sobre esta vinda do Senhor nos anuncia a mesma Escritura Sagrada. E se havia ocorrido algumas disputas, estas não haviam sido sobre as mesmas coisas, mas sobre o modo indecente e mundano pelo qual se referiam os hereges e os judeus. Mas havendo depois destes aparecido as legiões de judaizantes, os quais tomaram muito de uns e de outros, e que eram muito mais doutos, ou mais eloqüentes que eles, tudo se desordenou e a verdade começou a ser obscurecida e confundida com o engano, e as Escrituras mudaram então de parecer. As coisas claras e límpidas, que antes se liam nelas com prazer, e que eram entendidas sem dificuldade, agora já não se entendiam nem se conheciam com a devida clareza, porque estavam mescladas com outras que haviam vindo de novo, as quais com razão pareciam ser intoleráveis”.

       Aqui Lacunza parece transferir a culpa da mudança para os pregadores judaizantes, mas a verdade é que se reconhece que a causa desta mudança foi a resolução tomada pelos ortodoxos perante os desafios propostos pelas “novas” doutrinas de Nepos e Apolinário. Mas Lacunza ainda admitirá que não foi possível detectar e corrigir este engano a tempo e deste modo evitar que se alastrasse entre o povo de Deus porque nesta época os santos doutores estavam deveras ocupados em escrever apologias e sermões  contra as heresias dos arianos, as quais, segundo ele, eram muito mais perniciosas que aquelas. Portanto, foi desta maneira que o preterismo e o alegorismo triunfaram sobre a santa e tradicional visão futurista que desde o começo havia determinado a conduta e esperança do cristianismo.

       Quando John Darby propôs o retorno ao dispensacionalismo e estabeleceu entre nós a doutrina das duas fases da segunda vinda de Cristo, ele, além de nos colocar de novo no rumo certo, também conseguiu corrigir uma injustiça que o cristianismo histórico havia praticado contra os judeus ao excluí-los do eterno propósito divino. E se perguntassem a Darby qual seria a razão pela qual a igreja não deveria passar pela grande tribulação, ele imediatamente responderia que Deus não nos destinou à ira, mas a aquisição da salvação em Cristo Jesus e que fomos por Ele libertados não para esperarmos pelo Anticristo, senão pela vinda do seu Filho desde o céu. Por fim, podemos sem receios afirmar que John Darby estava correto ao acreditar que a retomada da dispensação judaica há de ser marcado pelo cumprimento de uma grande previsão profética: a plenitude dos gentios, consumada no repentino arrebatamento da igreja.
      
      

Existem Apóstolos atualmente?






“Escreve ao anjo da igreja que está em Éfeso: Isso diz aquele que tem na sua destra as sete estrelas, que anda no meio dos sete castiçais de ouro: Eu sei as tuas obras, e o teu trabalho, e a tua paciência, e que não podes sofrer os maus; e que puseste à prova os que dizem ser apóstolos e não o são, e tu os achaste mentirosos”. (Apocalipse 2.1, 2).

O


Outro dia, reencontrei um irmão ao qual eu não via havia alguns anos. Como conhecesse o seu pastor, perguntei-lhe como o mesmo estava e me respondeu que estava bem, que estava em viagem pela Alemanha, mas que retornaria em dez dias para receber a “unção de apóstolo”. Por haver estranhado a sua colocação, indaguei-lhe:
_ Unção de apóstolo?!
 E ele, mui seriamente:
_ Sim. Porque apóstolo é o grau máximo na hierarquia da igreja.

Evitei dar velas àquela conversa, pois apesar de entender que o dito rapaz possuía pouca informação a respeito do assunto, optei por respeitar as suas “convicções” religiosas. Entretanto, pessoas há que são igualmente sinceras e que admitem ter dúvidas acerca desse tema, e é para responder à curiosidade de tais cristãos que venho agora esclarecer os inconvenientes dessa pretensão eclesiástica que tem se tornado febre na modernidade.
Primeiro irei explicar que o supramencionado irmão, embora instruído pelas lideranças de sua denominação, estava redondamente equivocado, conquanto à luz do Novo Testamento e da própria história do cristianismo, o apostolado nunca chegou a ser um “grau’ na escala hierárquica da igreja. E para quem ainda não sabe, a igreja cristã nasceu do judaísmo, e, como tal, teve na sinagoga o seu paradigma mais antigo. Deste modo, o modelo hierárquico de ambas as instituições era basicamente o mesmo, e obedecia à seguinte ordem: crentes, diáconos, presbíteros e bispos.

Uma coisa, porém, deve ficar bastante clara ao leitor, ou seja, que em o Novo Testamento há casos de pessoas que foram chamadas de apóstolos, mesmo sem o terem sido de fato. Tal é o caso de Barnabé em Atos 14. 14, e de Epafrodito, em Filipenses 2. 25, ressalvando que neste último caso, as versões em português omitem a palavra “apóstolo” e a substituem por “cooperador”. O mesmo ocorre em outros lugares de nossas Bíblias. Então? – Então responderei com as palavras do insuperável Orígenes, que escreveu a seguinte sentença: “Se uma pessoa é enviada por alguém, logo, esta pessoa é um apóstolo daquele que a enviou”.

Neste caso, como nos demais encontrados nas Escrituras do Novo Testamento, a palavra “apóstolo” tem um sentido meramente genérico, uma vez que ela significa: “enviado”. No entanto, casos há em que a Escrituras parecem dar relevância à palavra “apóstolo”, mesmo quando esta não está sendo aplicada às treze testemunhas do Cristo redivivo e isso se dá ao detalhe de que estes “apóstolos”, embora não o sendo de fato, o Estevam sendo por direito, pois que para todos os fins, estavam sendo “enviados” como legítimos representantes das lideranças da igreja.
Portanto, não há nada de errado se as Escrituras os chamam igualmente de apóstolos. Acontece a mesmíssima coisa em nossos dias, pois assim como o apóstolo é um enviado, da mesma forma é um presbítero ou mesmo um diácono chamado de pastor, o que, não o sendo de fato, o é ao menos por direito, porquanto também estejam a pastorear algum rebanho.

Mas retornando ao que dizíamos acerca do modelo original da hierarquia da igreja (tomado emprestado da sinagoga judaica), basta atentarmos um pouco para o documento apócrifo conhecido como O Apocalipse de Paulo, onde o autor da suposta revelação, ao descrever as cenas que teria testemunhado no inferno, nos apresenta o interessante quadro: Um diácono, um presbítero, um leitor (pregador) e um bispo sendo atormentados pelos anjos maus. A descrição é de extrema exatidão quanto à escala hierárquica da igreja; note-se, todavia, que o suposto grau de apóstolo não é mencionado. O que seria estranho, caso o apostolado houvesse feito parte da hierarquia eclesiástica. 

Isso posto, faz-se necessário que alguém interrogue: E o que dizer dos graus de evangelista e de pastor? E a resposta a esta questão não podia ser mais singela, ou seja, os “graus” de evangelista e ou de pastor não faziam parte da escala hierárquica da igreja primitiva, porquanto as suas funções não estivessem ligadas aos títulos, sendo, portanto, capacitações especiais concedidas indistintamente por Deus aos salvos de entre aqueles quatro graus hierárquicos ora mencionados. O mesmo pode ser dito em relação àqueles que foram separados por Deus para exerceram as funções de profetas, mestres e operadores de milagres.

Mas retornando à declaração segundo a qual o apostolado teria sido o grau máximo na hierarquia da igreja, nada mais enganoso e tolo, pois quanto a isso a Bíblia é bastante cristalina, principalmente quando expões que Filipe era apóstolo, diácono e evangelista. Confira esta informação, lendo os seguintes textos dos Atos dos Apóstolos: 1. 17; 6.5; 21.8. Como adendo à informação, lembremo-nos de que João Zebedeu também foi um dos mais destacados apóstolos, e ainda assim, ele mesmo se identifica como presbítero na introdução de sua Terceira Epístola. De onde surge então a concepção de que o apostolado seja o grau máximo da hierarquia eclesiástica?

Ainda assim, parece-me ecoar aos sentidos a bem formulada interposição: Mas em Efésios 4. 11, está escrito que o Senhor separou algumas pessoas para o ministério do apostolado!
 E eu observo que a colocação está corretíssima; é a sua interpretação que está equivocada. O texto ora mencionado não diz apenas que o Senhor Jesus separou certas pessoas para o ministério do apostolado; na verdade, ele é bem mais incisivo, pois assevera que foi o “próprio” Cristo quem separou alguns para serem apóstolos.

E o que isso quer dizer? Sumariamente, o texto quer dizer que ninguém a não ser o próprio Jesus Cristo possui a dignidade e o poder de separar alguém para o ministério apostólico. É por essa razão, entrementes, que ostentar ou mesmo ambicionar uma suposta “unção” de apóstolo pode ser uma pretensão tão descabida quanto jactante.

Eis que alguém dirá, então: Mas as Escrituras não dizem o mesmo em relação aos evangelistas, pastores, mestres e profetas? Certamente, porém, com um atenuante: os ministérios de evangelista e de pastor sempre foram reconhecidos pela igreja antiga, ainda que devamos trazer em mente que outrora o cooperador e o pastor podiam ser a mesma pessoa, e que não raro, o diácono também podia fazer a obra de um evangelista, de um doutor ou mesmo de um profeta. Em suma, não existia diferença entre ser um simples dirigente de igreja ou ser um pastor. Por outro lado, um apóstolo podia realizar a obra de um evangelista, mas o evangelista sabia que jamais chegaria a ser um apóstolo!

Ademais, levemos em consideração que a vocação para evangelista, pastor ou profeta, não tinha a ver com as habilidades intelectuais ou mesmo com o cabedal cultural do indivíduo. Longe disso. O ministério era espiritual, portanto, tais talentos só podiam ser concedidos pelo Espírito Santo (I Coríntios 12. 28 -31), nunca através de uma pretensa “unção”.

Onde estaria a diferença então? A diferença está no fato de que na atualidade não soa como ofensa saber que alguém recebeu o título de pastor ou mesmo de evangelista, porque, em todo o caso, reconhece-se que na igreja primitiva os que realizavam tais funções eram indivíduos de certa forma “irrelevantes” em relação à hierarquia. O Novo Testamento e a história eclesiástica dão conta de nomes de não poucas pessoas que se tornaram evangelistas e pastores, mas não mencionam sequer um incidente de alguém que (exceto os 13) haja se tornado apóstolo.

O que não acontecia em relação aos títulos de apóstolo e de profeta, e note-se que Paulo é enfático quando afirma que Deus estabeleceu primeiramente os apóstolos sobre o ministério da igreja e que os profetas vinham logo em seguida. Confira I Coríntios 12. 28. Assim sendo, fica óbvio que os apóstolos, os profetas e os doutores tiveram proeminência na administração da igreja, mas nunca na hierarquia da mesma.

E desde muito cedo os cristãos souberam reconhecer que a graça do apostolado deveria e seria concedida a um número reduzido de indivíduos. Bastante é recordar que Cristo possuía cerca de cento e vinte discípulos fiéis (Atos 1. 15), e que dentre estes Ele comissionou  a setenta com a tarefa de evangelizar as vilas e cidades de Israel (Lucas 10. 1.). Antes disso, o mesmo evangelista nos diz que o Senhor reuniu os seus discípulos em torno de si e dentre estes elegeu a doze, aos quais passou a chamar de apóstolos (Lucas 6. 13.). Logo em seguida, o médico amado nos apresenta a lista contendo os seus respectivos nomes.

Logo, Cristo escolheu e nomeou a doze apóstolos apenas. Essa escola apostólica não devia ultrapassar a casa dos doze membros, e é por isso que havendo Judas Iscariotes se entregado à morte pela angústia de sua traição, veio Pedro, pela iluminação do Espírito Santo e pela revelação das Escrituras e reconheceu que o seu lugar devia ser ocupado por outra pessoa. Confira as suas palavras em Atos 1. 20, e depois as compare com as profecias dos salmos 69. 25, e 109. 8.

A eleição de Matias para ocupar o apostolado de Judas tem muito a nos ensinar. Mas vamos à seguinte questão, pois é pertinente e exige a justa resposta: É possível negar que na igreja primitiva haja existido um número incalculável de apóstolos e profetas? – Para sermos francos, não é possível negarmos tal fato. Não sem fazermos ofensa à verdade. É fato que nos mais antigos tempos, algumas comunidades cristãs foram conduzidas por líderes intitulados de apóstolos.

O problema é que tais apóstolos, sendo eles cristãos sinceros ou condutores oportunistas, jamais foram oficialmente reconhecidos pelos genuínos representantes do cristianismo bíblico. No entanto, precisamos de mais espaço para esclarecer o assunto. Então vamos a ele.

É fato de todos bem conhecido que os primeiros cristãos levaram a sério a ordem que lhes deu o Senhor de irem pregar o Evangelho até os confins da terra. Eles assim fizeram, e o fizeram bem. A mensagem do Evangelho se espalhou para os quatro ventos da terra e alcançou regiões desconhecidas mesmo para o mundo civilizado. Como o Mestre havia observado, a seara era enorme, mas os ceifeiros eram poucos para o labor. As comunidades evangélicas que iam sendo formadas eram logo deixadas aos cuidados de algum crente nem sempre preparado para o serviço.

O missionário seguia adiante, abrindo novas frentes de trabalho e fundando outras igrejas, as quais eram outra vez deixadas sob a supervisão de membros que a despeito de serem verdadeiros cristãos, jamais estiveram qualificados para o pastorado, não estando assim habilitados para a obra de guiar o rebanho em toda a justiça e verdade. Por fim, aconteceu de inúmeras destas comunidades cristãs jamais manterem contato com qualquer resquício das Santas Escrituras, ou de serem supervisionadas por um bispo devidamente instruído.

Acontecia, então, que em não raros casos estas comunidades, desprovidas da divina orientação das Escrituras, acabavam sendo levadas ao cultivo das fábulas, crendices, mitos e filosofias que produziram evangelhos mutantes, imbuídos de verdadeiro desejo de servir a Deus, mas ao mesmo tempo sedimentados nas heresias. No geral, era em comunidades como estas que os cristãos adotavam o apostolado como modelo de liderança.

Os mais destacados pais da igreja parecem não haver rechaçado essa pretensa forma de liderança, mas o que sabemos ao certo é que eles jamais reconheceram a genuinidade de tais apostolados. E havendo eu consultado os escritos dos principais doutores e pais da igreja antiga, encontrei centenas, quiçá milhares de referências aos apóstolos do Senhor, e não me lembro de haver me deparado com sequer uma alusão a algum apóstolo que não tenha pertencido ao grupo dos treze por nós conhecidos.

Eles, inclusive, fazem questão de mencionar que Marcos foi apenas um evangelista, ao passo que Lucas havia sido não mais do que um discípulo e seguidor dos apóstolos. O que não deixa de ser interessante. No mais, as referências que eles fazem aos apóstolos estão sempre no passado, tais como: foram, eram, fizeram, faziam, ensinaram, ensinavam, pregaram, pregavam, resistiram, resistiam, e assim por diante. E por haverem desta maneira se referido à categoria dos apóstolos, fica evidente que aqueles santos pais não reconheceram qualquer apóstolo que não houvesse pertencido ao grupo dos mais notáveis e íntimos seguidores de nosso Senhor Jesus Cristo.

Por outro lado, caso o apostolado pudesse ser adotado como modelo permanente de liderança na hierarquia da igreja, quais deveriam ser os nomes mais qualificados para darem continuação à regra? Mas a esta questão não nos é difícil responder, pois sabemos quais eram os vultos mais destacados e qualificados para dar continuidade ao modelo apostólico. São eles: Clemente de Roma, Policarpo, Ignácio e Irineu de Lion. Mas vejam só que doce e solene decepção: estes santos homens nem de longe almejaram ostentar o posto de genuínos apóstolos de Jesus!

Clemente, inclusive, assim se declara em relação à destacada posição dos verdadeiros apóstolos: “Os apóstolos nos pregaram o Evangelho segundo a ordenação que receberam de Jesus Cristo, tal como Cristo o tem feito por ordenação do Pai”.
Quanto a Ignácio, foi ainda mais veemente, ao escrever: “Aconselho-vos a que aprendam todas as coisas em divina harmonia, enquanto o nosso bispo estiver presidindo em lugar de Deus, e os nossos presbíteros no lugar da assembléia dos apóstolos”.
E ao falar de sua própria condição frente à posição dos apóstolos, eis que Ignácio diz: “Eles eram apóstolos, ao passo que eu sou apenas um pobre homem...”

Além disso, Ignácio inclui os apóstolos na mesma categoria dos patriarcas e profetas, querendo com isso dizer que eles eram homens das Escrituras. Em contrapartida, e nas linhas seguintes, ele se opõe abertamente aos obreiros fraudulentos de sua época, aos quais chama de falsos profetas e falsos apóstolos.

E por que teriam eles evitado o apostolado como modelo contínuo de liderança cristã? – Isso, eles o fizeram por entenderem que perfeitamente que o apostolado só pode ser chancelado pela pessoa do próprio Senhor Jesus Cristo. Nenhum ser humano está autorizado a separar homens ou mulheres para o ofício de apóstolo. É por essa razão que nunca existiu nem existirá uma “unção” para apóstolo. Mas retornemos ao episódio da eleição de Matias para assumir o apostolado deixado por Judas Iscariotes.

Foi Pedro quem primeiro entendeu que o Senhor Jesus não escolhera doze apóstolos ao sabor do acaso. Na verdade, e que o diga o mestre Justino, foi a fim de que o simbolismo profético do Antigo Testamento fosse cumprido, uma vez que ali se exigiu que o sumo sacerdote usasse doze sinos presos à sua vestimenta (Ora, a função dos sinos era apenas a de anunciar aos homens que o sumo sacerdote permanecia vivo enquanto estava a ministrar na presença de Deus), que Cristo escolhera doze apóstolos para que se tornassem testemunhas de sua ressurreição. No entanto, Judas havia desistido do apostolado e fazia-se necessário que alguém viesse ocupar o seu posto. A questão então seria: quem? Ou melhor: que critérios deviam ser adotados para a eleição do sucessor de Judas?

Pedro, sempre ele, iluminado pelo Espírito Santo, reconheceu que a profecia do Antigo Testamento determinava que o posto de Judas fosse ocupado por alguém mais digno. Porém, como escolher esta pessoa? Mas o nosso apóstolo possuía a solução, e o método por ele empregado deve servir para demonstrar a razão pela qual não existem verdadeiros apóstolos na atualidade. O critério por ele adotado foi:

“É necessário, pois, que dos varões que estiveram conosco todo o tempo em que o Senhor Jesus entrou e saiu dentre nós, começando desde o batismo de João até ao dia em que dentre nós foi recebido em cima, um deles se faça conosco testemunha da sua ressurreição”. (Atos 1. 21, 22).

Estas breves palavras expõem os critérios básicos capazes de qualificar um indivíduo para o posto de apóstolo de Jesus. Em primeiro lugar, é necessário que o indivíduo tenha convivido diretamente com o Senhor por pelo menos três anos. Em segundo lugar, o candidato precisa ter se tornado discípulo pessoal de Jesus, ou seja, ele precisa ter recebido a sua doutrina diretamente dos lábios do Salvador. Em terceiro e último lugar, ele precisa ter visto e convivido com Jesus após a sua morte e ressurreição. Isso é, ele precisa ter testemunhado a ressurreição do Senhor! E convenhamos que, postas estas condições, além dos onze apóstolos que restaram, apenas outras duas pessoas se encaixaram no perfil exigido!

Que diremos então do apostolado de Paulo? E novamente aqui a mais severa prova de que os supostos apóstolos da atualidade não passavam de embusteiros. Talvez o leitor desconheça o fato, mas é verdade que devido aos critérios acima mencionados, o apostolado de Paulo foi muitas vezes contestado e durante todos os dias de sua dura vida de labores aos pés do Mestre. Mas quê! Paulo se tornara apóstolo sem jamais haver pertencido à escola apostólica de Jerusalém! Ele não andou com Cristo, não recebeu a doutrina da sua boca, nem foi testemunha da sua ressurreição!

Todas estas acusações foram levantadas contra Paulo, mas a verdade é que ele também cumpriu as exigências impostas para o apostolado. Ou quem não se recordará que Paulo, havendo se convertido ao Evangelho, esteve na presença de Cristo durante os anos de sua reclusão espiritual na Arábia? Confira o que ele diz em Gálatas 1. 15 – 17.
Ele também recebeu a sua doutrina diretamente dos lábios do Salvador. Veja ainda Gálatas 1. 11, 12; I Coríntios 11. 23 – 25; I Tessalonicenses 4. 15. Ademais, Paulo se tornou testemunha da ressurreição de Cristo, tal como lemos em I Coríntios 15. 3 – 10. Por todas estas razões, podemos sustentar que Paulo estava qualificado para o ministério do apostolado.

Em suma, o ministério apostólico não mais existe, mas isso não é porque não desejamos que ele haja se extinguido, e sim porque dentre todos os cristãos da atualidade nenhum há que corresponda às exigências básicas do apostolado. E ainda que alguém ostente estar habilitado para o exercício deste ofício, ele (o indivíduo) precisa ser separado pelo próprio Cristo Jesus, pois como temos frisado, não existe uma unção para apóstolo.
Que dizer então dos apóstolos da atualidade? – Diremos o que a Bíblia diz a respeito dos tais, ou seja, que são pretensiosos (Apocalipse 2. 2), pois, além de não cumprirem com as três exigências básicas ora mencionadas, eles sequer possuem o perfil e as obras de um verdadeiro apóstolo de Jesus. Sugiro então que o leitor faça uma breve comparação entre os apóstolos da atualidade e os santos apóstolos da igreja primitiva. Para tanto, apresentarei um quadro com um pouco do perfil destas verdadeiras testemunhas de Jesus.

1. Os apóstolos do Senhor compreendiam o verdadeiro sentido das Escrituras Sagradas, porquanto assim está escrito:

“E tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor; como também o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada; falando disto, como em todas as suas epístolas, entre as quais há pontos difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem, e igualmente as outras Escrituras, para a sua própria perdição.” (II Pero 3. 15, 16).
“Porque deste número são os que se introduzem pelas casas, e levam cativas mulheres néscias carregadas de pecados, levadas de várias concupiscências. Os quais aprendem sempre, mas nunca podem chegar ao conhecimento da verdade.” (II Timóteo 3. 6 – 9).

2. Os apóstolos jamais se associavam aos hereges, antes, os combatiam. Como está escrito:
“Ao homem herege, depois de uma e outra admoestação, evita-o, sabendo que esse tal está pervertido, e peca, estando já em si mesmo condenado.” (Tito 3. 10, 11).
“Se, como homem, combati em Éfeso contra as bestas, que me aproveita isso, se os mortos não ressuscitam? Comamos e bebamos, que amanhã morreremos.” I Coríntios 15. 32).
“Mas disse-lhe Pedro: O teu dinheiro seja contigo para perdição, pois cuidaste que o dom de Deus se alcança por dinheiro. Tu não tens parte nem sorte nesta palavra, porque o teu coração não é reto diante de Deus. Arrepende-te pois dessa tua iniqüidade, e ora a Deus, para que porventura te seja perdoado o pensamento do teu coração; pois vejo que estás em fel de amargura, e em laço de iniqüidade.” (Atos 8. 20 – 23).

3. Eles não usavam o Evangelho para ficarem ricos, pois assim lemos sob a sua conduta:
“Eis que estou pronto para pela terceira vez ir ter convosco, e não vos serei pesado, pois que não busco o que é vosso, mas sim a vós; porque não devem os filhos entesourar para os pais, mas os pais para os filhos”. (II Coríntios 12. 14).
“E olhou para eles, esperando receber deles alguma coisa. E disse Pedro: Não tenho prata nem ouro; mas o que tenho isso te dou. Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda.” (Atos 3. 5, 6).
“De ninguém cobicei a prata, nem o ouro, nem o vestido. Vós mesmos sabeis que para o que me era necessário a mim e aos que estão comigo, estas mãos me serviram.” (Atos 20. 33, 34).
“Curai os enfermo, limpai os leprosos, ressuscitai os mortos, expulsai os demônios: de graça recebestes, de graça daí.” (Mateus 10. 8).

4. Os apóstolos não eram materialistas e não conheciam o evangelho da prosperidade. Eis qual era a esperança que tinham:

“Sede também meus imitadores, irmãos, e tende cuidado, segundo o exemplo que tendes em nós, pelos que assim andam. Porque muitos há, dos quais muitas vezes vos disse, e agora também digo, chorando, que são inimigos da cruz de Cristo. Cujo fim é a perdição; cujo deus é o ventre; e cuja glória e para confusão deles, que só pensam nas coisas terrenas. Mas a nossa cidade está nos céus, donde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo.” (Filipenses 3. 17 – 20).
“Se alguém ensina alguma outra doutrina, e se não conforma com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo, e com a doutrina que é segundo a piedade, é soberbo, e nada sabe, mas delira acerca de questões e contendas de palavras, das quais nascem invejas, porfias, blasfêmias, ruins suspeitas, contendas de homens corruptos de entendimento, e privados da verdade, cuidando que a piedade seja causa de ganho; aparta-te dos tais. Mas é grande ganho a piedade com contentamento. Porque nada trouxemos para este mundo, e manifesto é que nada podemos levar dele. Tendo, porém, sustento, e com que nos cobrirmos, estejamos com isso contentes. Mas os que querem ser ricos (Através do Evangelho) caem em tentação e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e ruína.” (I Timóteo 6. 3 – 10).

5. Eles eram homens santos dedicados à oração, ao jejum e ao estudo das Escrituras:

“Lembrai-vos dos vossos pastores, que vos falaram a Palavra de Deus, a fé dos quais imitai, atentando para a sua maneira de viver.” (Hebreus 13. 7).
“Tu, porém, tens seguido a minha doutrina, modo de viver, intenção, fé, longanimidade, caridade, paciência, perseguições e aflições tais quais me aconteceram em Antioquia, e em Listra: quantas perseguições sofri, e o Senhor de todas me livrou.” (II Timóteo 3. 10, 11).

6. Eles não mentiam jamais, sendo sinceros em todas as coisas:

“Antes subjugo o meu corpo, e o reduzo à servidão, para que, pregando aos outros, eu mesmo não venha de alguma maneira a ficar reprovado.” (I Coríntios 9. 27).
“Porque nós não somos, como muitos, falsificadores da Palavra de Deus, antes falamos de Cristo com sinceridade, como de Deus na presença de Deus.” (II Coríntios 2. 17).
“Não são do mundo, como Eu do mundo não sou. Santifica-os na verdade; a tua Palavra é a verdade. Assim como Tu me enviaste ao mundo, também Eu os enviei ao mundo. E por eles me santifico a mim mesmo, para que também eles sejam santificados na verdade.” (João 1 . 16 – 19).

7. Os apóstolos eram homens de hábitos simples, no comer, no beber, no vestir, no dormir e em todo o viver:
“Ide; eis que vos mando como cordeiros aos lobos. Não leveis bolsa, nem alforje, nem alparcas; e a ninguém saudeis pelo caminho. E, em qualquer casa onde entrardes, dizei primeiro: Paz seja nesta casa. E se ali houver algum filho da paz, repousará sobre ele a vossa paz; e, se não, voltará para vós. E ficai na mesma casa, comendo e bebendo do que eles tiverem, pois digno é o obreiro do seu salário. Não andeis de casa em casa. E, em qualquer cidade em que entrardes, e vos receberem, comei do que vos puserem diante.” ( Lucas 10. 3 – 8).

Portanto, observem atentamente o viver dos pretensos apóstolos da atualidade, e se dentre eles despontar algum que corresponda a este pálido perfil, eu afirmarei que o tal já evoluiu bastante.