sexta-feira, 22 de maio de 2015

As Setenta Semanas de Daniel





Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo, e sobre a tua santa cidade, para extinguir a transgressão, e dar fim aos pecados, e para expiar a iniqüidade, e trazer a justiça eterna, e para selar a visão e a profecia, e para ungir o Santo dos santos”.
(Daniel 9. 24).


Tecnicamente falando, Daniel não se enquadra na categoria dos antigos pregadores aos quais chamamos de profetas. E apesar de existir um texto bíblico no qual o Senhor Jesus o identifica assim, não há razão para se discutir que a natureza de suas previsões futuríveis seja diferente daquela praticada por outros arautos de Deus no Antigo Testamento.

       Ocorre que Daniel, a exemplo do contemporâneo e igualmente exilado na Babilônia, Ezequiel, deram origem ao que posteriormente veio a ser chamado de literatura apocalíptica. Um gênero escriturístico que na essência difere em muito da tradicional prédica profética.
        Porque é notório que existe uma óbvia diferença entre o profeta e o apocalipsista. O primeiro é um idealista, pregador da justiça, da moral e da religião, cujas exortações, repreensões, ameaças e promessas estão quase sempre condicionadas às reações daqueles para quem as suas mensagens são dirigidas. Ou seja, se um profeta anuncia uma época de bênçãos e prosperidade sobre o povo, e esse vier a se afastar da vontade divina, tais promessas hão de ser transmutadas em juízos e condenações. Em contrapartida, quando um profeta, sob muitas ameaças, repreende e exorta o povo ao arrependimento, e esse prontamente o escuta, toda palavra de castigo há de ser convertida em bênção.
     O que não ocorre no caso do apocalipsista; porque enquanto aqueles falam e anunciam de um futuro “possível”, este vem transmitindo as imagens de um destino “selado”. Em outras palavras, não há como reverter ou condicionar o futuro previsto por um apocalipsista, a cuja classe pertence o nosso Daniel.

       Portanto, não é sem razão que o livro de Daniel chamado de o “Apocalipse do Antigo Testamento”. Daniel, porém, é um apocalipsista extremamente didático, e o simbolismo de suas “profecias” – malgrado estejam em grande parte circunscritas a acontecimento que já se tornaram históricos, hão de ser de uma compreensão não muito difícil. E bem pode ser o contrário, conquanto o fato de suas previsões estarem em grande parte ligadas ao passado, nos fornecerá subsídios e pontos de referências pelos quais nos é possível extrair o máximo de elucidação.

         Tal o caso do presente enigma das Setenta Semanas narrado a partir do capítulo 9 do seu livro, e que apesar de parecer um assunto complexo e bem entediante, há de se revelar bastante simples e empolgante. E tudo começará justamente pela recomendação do apóstolo Pedro, quando escreveu aos primitivos cristãos, orientando-os a estarem de contínuo atentos às palavras dos profetas, que como uma luz, nos auxiliarão a compreender o Eterno Propósito de Deus.
        Daniel explicará que o segredo das setenta semanas surgiu de uma descoberta que fizera ao consultar as profecias de Jeremias, onde se determinava que o cativeiro judaico em Babilônia devia durar por não mais que setenta anos. Segundo o mesmo Daniel, àquela época ocorria o primeiro ano do governo de Dario sobre o reino dos caldeus, o que significava que a iniqüidade de Babilônia havia sido cobrada e que o tempo de os judeus retornarem à sua terra era já vindo. Ou seja, os setenta anos de cativeiro que haviam sido preditos pelos profetas já haviam se passado, porquanto Ciro, o grande rei da pérsia, tal como fora anunciado por Isaías, cerca duzentos anos antes, tinha se apoderado do reino dourado dos caldeus, e Dario da Média assumiu a regência daquele país. E apesar de tudo isso, nada de novo havia ocorrido em relação ao retorno dos judeus à sua pátria.

       Foi aí que Daniel, apoiado pela divina promessa, recorreu a Deus com orações e súplicas, desejoso de saber o que estava acontecendo, bem como a razão de o seu povo ainda não ter voltado para a terra que mais tarde veio a ser chamada de Palestina, já que a profecia anunciava que passados os setenta anos de exílio, haveria de chegar o tempo da redenção para Israel.

       Em resposta à sua oração, um anjo foi enviado para esclarecer que de fato os descendentes de Abraão prestamente retornariam para a terra da promessa, mas que o processo para a real redenção do seu povo dizia respeito à aparição do Ungido Rei de Israel, que haveria de vir para extinguir a transgressão, dar fim aos pecados, expiar a iniqüidade, trazer justiça eterna, cumprir as visões e as profecias e ungir o Santo dos santos.
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       Conforme anunciado pelo anjo, essa redenção final e completa de Israel (que pouco tinha a ver com cativeiro em Babilônia) levaria setenta semanas de anos para ser concretizada. Ou seja, que o plano econômico e irrevogável de Deus para a exaltação de Israel sobre todas as nações, começaria em breve, mas só seria concluído depois de passados 490 anos. A dificuldade, no entanto, surgiu quando o anjo explicou que estas setenta semanas proféticas, ou 490 anos, seriam divididos em três períodos que a mente humana, sempre extasiada pela expectação de dias melhores, não conseguiria distinguir sem transtornos.
        E é justamente aí que entra o espírito didático de Daniel, pois ancorado nas palavras do anjo-intérprete, atestará que o ponto de partida para a contagem progressiva das setenta semanas de Daniel 9. 24, seria a ordem que haveria de surgir para que os filhos de Israel pudessem reconstruir os muros e a cidade de Jerusalém que estavam em escombros, tal como lemos em 9.25.

      Deve o leitor recordar que de acordo com o livro de Esdras 1. 1-4, tão logo Ciro da Pérsia se apoderou do reino da Babilônia, para que se cumprisse a profecia de Jeremias, o Senhor tratou de convencer o monarca a liberar todos os hebreus que estivessem
dispostos a retornar para a terra de sua herança. Isso implicava em que os mesmos podiam reconstruir o templo; o que era significativo, conquanto a vida e sobrevivência de Israel como povo só seriam possíveis à sombra desse santuário.

       Mas isso não tinha a ver com o início da contagem das setenta semanas. Porém, como é fiel a profecia, e bem frisou o apóstolo Pedro, devemos estar a ela atentos, veio Neemias e nos deu a data exata de quando as setenta semanas proféticas passariam a ser contadas. Foi cerca de oitenta anos após o decreto de Ciro em favor da reconstrução do templo levita. À época de Artaxerxes, sendo Neemias o seu copeiro, notou o rei que o semblante desse fiel servidor estava desfigurado pela tristeza. Quando explicou ao seu senhor que a sua angústia era referente ao calamitoso estado de Jerusalém, e que os judeus, mesmo depois de haverem retornado à terra da promessa, estavam vivendo entre escombros, o rei se dispôs a ajudá-lo.
        Naquele mesmo ano, Artaxerxes assinou um edito no qual determinava que os hebreus podiam iniciar a reconstrução da cidade santa. Assim, como lemos em Neemias 2.1, isso aconteceu no mês de Nisã (Março-Abril), durante o vigésimo ano do reinado de Artaxerxes, mais precisamente, em 445 a.C, já que a cronologia moderna define o ano 465 como sendo início do governo desse rei. Segue-se que as setenta semanas foram divididas em três períodos, que são: sete semanas = 49 anos; sessenta e duas semanas = 434 anos; uma semana = 7 anos. O primeiro período dizia respeito ao tempo que levaria para que a cidade fosse reconstruída, incluindo os seus muros. Depois disso, contar-se-iam mais 434 anos até o nascimento, morte e ressurreição de Jesus Cristo.

       Até aqui contamos sessenta e nove semanas, ou 483 anos, restando apenas uma semana (7 anos) para que a redenção final de Israel seja concretizada. Mas o calendário profético foi interrompido depois que Cristo ressurgiu e a cidade de Jerusalém foi outra vez destruída. Agora espera-se pelo ditoso dia em que o mesmo Senhor retornará para arrebatar à sua igreja, dando início ao negro período que a profecia chama de “angústia de Jacó”. Então a contagem das setenta semanas será reiniciada, e os últimos sete anos serão aderidos.

        Esses sete anos correspondem à simbólica semana durante a qual deve durar um acordo diplomático que os judeus assinarão com as confederações do Anticristo pela paz na Palestina, conforme foi anunciado por Daniel em 9.27. Mesmo esses sete anos devem ser divididos em duas partes, sendo que a última metade há de ser conhecida como a “grande tribulação”, e no Apocalipse de João 13.5 está dito que tão logo o Anticristo imponha a sua tirania ao mundo, ser-lhe-á permitido prevalecer por não mais que 42 meses, ou três anos e meio, ao final dos quais o próprio Senhor Jesus aparecerá nas nuvens para deflagrar a temível batalha em Armagedom, quando derrotará as forças do filho do diabo e estabelecerá o seu domínio. Nessa época será efetuada a redenção de Israel de uma vez por todas.

         Então estarão concluídas as setenta semanas das quais nos falou Daniel. Existem diversas maneiras de se montar o mosaico das setenta semanas de Daniel, mas a mais interessante que conheço foi elaborada por autor que me é anônimo. Segue o esquema tal como me foi apresentado, e no final demonstrarei com minhas próprias palavras que a fórmula para se resolver o mistério é mais singela do que se imagina.

       Somando os 49 anos do primeiro período, mas esses 434 formam exatamente 483 anos. Por meio de cálculos cuidadosos, os eruditos têm encontrado:
_ Que essas 62 semanas (434 anos) terminam com a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém;
_ Que essas 62 semanas (434 anos) somadas às sete semanas (49 anos) marcam a data exata da primeira vinda de Cristo e termina o período do reinado do Anticristo;
_ Para encontrar o final das sessenta e nove semanas temos de traduzi-las em dias. Desde que há 69 semanas de sete anos cada uma, e cada ano tem 360 dias, é igual a: 69 X 7 X 360 = 173. 880 dias;
_ Começando com o dia 14 de Março (dia de preparação da Páscoa, porém, a cronologia não é necessariamente minha), de 445 a.C. este total leva até o 6 de Abril de 32 a.D. Sir Robert Anderson em seu livro “The Coming Prince” (O Príncipe que há de Vir), nos oferece o seguinte:
_ De 445 a.C. a 32 d.C. – 476 anos.
_ De 1 a.C. a 1 d.C. é um ano.
_ 476 X 365, são 173.740 dias.

      Acrescente-se quanto ao ano bissexto – 116 dias (e menos em 4  séculos). Acrescente-se de 14 de Março a 06 de Abril – 24 dias inclusive 173.740 + 116 + 24 = 173.880 dias. Portanto, dividir (476 por 4 = 119 anos bissextos) porque 476 envolvem 4 séculos e subtrai-se de 119 para obter o número preciso de anos bissextos em 476 anos.14 de Março a 06 de Abril= 24 dias; total = 173.880 dias. Portanto, se somar 173.880 dias a partir de 14 de Março de 445 a.C. dará exatamente 06 de Abril de 32 a.D. (Zacarias 9.9: Lucas 19. 29-40).
        Porém, todo esse fraseado e cálculos numéricos só servem para fritar-nos o cérebro. A verdade é que a interpretação desse segredo é bem mais simples, pois sabendo-se que as setenta semanas de Daniel começaram a ser contadas a partir do vigésimo ano do reinado de Artaxerxes, e que a cronologia moderna aponta o ano de 465 a.C. como sendo o início do seu governo, ser-nos-á bastante recordar que o nosso calendário está cinco anos atrasado em relação à contagem do tempo, porquanto quando o abade Dionísio (século VI) lançou as bases do calendário que ora conhecemos, usou a idade de Roma como referência e se baseou no período de duração do reinado de cada imperador. Esqueceu-se, todavia, de incluir os quatro anos que Augusto, sendo imperador de Roma nos dias de Cristo, governou sob o nome de Otávio. Acrescente-se a isso o detalhe de que não costumamos contar o ano de transição entre os anos d.C. e a.C. Assim, a nossa habitual maneira de contar o tempo não inclui estes cinco anos extras. Quanto à supracitada fórmula de abordar as setenta semanas de Daniel, há um percalço, pois nela são usados anos bissextos e anos com 365 dias, o que seria inviável na época à qual os eventos se

       Então vejamos o que nos resta se traçarmos os fios de nossa investigação usando a data do vigésimo ano do reinado de Artaxerxes como referência para o início da contagem das setenta semanas de Daniel, lembrando-nos de acrescentar cinco anos à referida data de sua coroação, que, como se pensa, aconteceu em 465 a.C. Assim sendo, Artaxerxes teria iniciado o seu governo em 470 a.C. Em 450, vinte anos após, segundo se lê no livro de Neemias, esse monarca assinou o decreto que permitia aos judeus edificarem a cidade de Jerusalém. Essa construção, segundo a previsão profética, durou 49 anos, a partir dos quais seriam contados mais 434 anos até o nascimento, morte e ressurreição de Jesus, que, como sabemos, esteve entre nós por pelo menos 33 anos.
       Dessa forma, e segundo a própria cronologia, Jesus teria morrido 483 anos depois que Artaxerxes liberou a ordem para a construção de Jerusalém, em exata conformidade com a previsão do livro de Daniel. Porque, de 450 a.C. até o ano 33 d.C. são exatos 483 anos. Ou seja, sessenta e nove semanas proféticas!

       Mas se por outro lado, quisermos insistir em afirmar que o decreto de Artaxerxes ocorreu no ano de 445 a.C. ainda assim não nos será possível negar os cinco anos que foram esquecidos por Dionísio quando deu forma ao calendário que hoje conhecemos. Dessa forma, o ano da morte de Jesus 38 d.C. Mas 38 d.C. com 445 a.C. também dão 483 anos!

Conclusão

       Até aqui nos ocupamos com sessenta e nove semanas das setenta que foram anunciadas por Daniel. Resta-nos explicar coisas e fatos concernentes à 70ª, a qual engloba a aparição e elevação do Anticristo no cenário mundial, culminando na majestosa e visível volta de Jesus, o Ungido de Israel, que surgirá para implantar o seu Reino a partir de Jerusalém.