sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

A Doutrina da Predestinação Versus Bondade de Deus

Enquanto me dedicava a escrever o livro Os Sete Pilares do Apocalipse, fui obrigado a contornar um considerável percalço e evitei me aprofundar no discurso daquilo que seria o oitavo fundamento da literatura apocalíptica. É claro que reservei um capítulo inteiro para esse assunto, mas limitei-me a tratar apenas das origens apocalípticas do termo e de como as idéias de uma predestinação, quer condicional, quer incondicional, estiveram enraizadas nas mentes das pessoas cujas comunidades nos legaram as escrituras da pseudepígrafa e também do Novo Testamento.

    Não me detive aos aspectos da problemática teológica porque tais não eram assuntos para aquela pauta, e, por outro lado, lembro-me de haver ali afirmado que cada um daqueles capítulos poderia se estender até assumir a forma final de um livro. Poso dizer o mesmo em relação à doutrina da predestinação. E agora, como um adendo ou apêndice ao capítulo homônimo de minha supracitada obra, dedicarei algumas linhas a essa epígrafe que apesar de estar tão profundamente arraigada tanto no solo da Bíblia quanto na patrística da cristandade, não deixará de ser a mais controversa, funesta e injusta de todas as doutrinas; tão impiedosa que ainda que houvesse nascido da mente de um Deus, nem por isso haveria de receber o meu respeito.

    Aliás, foi pensando exatamente desta maneira que certa ocasião, após haver encerrado um estudo sobre o Juízo Final, um jovem e intelectual membro da Igreja Batista me abordou em particular, e depois de preliminares questões indagou-me com as seguintes palavras:
_ Será que Deus está de “sacanagem” com a gente?!

   Eu tive uma leve suspeita a respeito das coisas que o haviam impulsionado a essa estranha, porém, justificável reação, mas precisava estar assegurado dos fatos. Então deixei que prosseguisse com o seu raciocínio.
_ Tenho me perguntado: Se Deus sabe de antemão quem há de se salvar e quem há de ser condenado, por que é que Ele permite que as pessoas O sirvam em vão?

    Foi então que me recordei de um fato ocorrido pouco antes de haver iniciado o meu discurso. O pastor que me houvera antecedido fizera uma declaração que acabara sendo mal compreendida. Eis o que ele disse: “Deus salva a quem Ele quer, e condena a quem Ele quer!” Meu interlocutor devia estar com esta declaração na mente, pois ao retomar a palavra ele usou mais ou menos estas expressões:

_ A Bíblia não deixa dúvidas que Deus criou algumas pessoas para serem salvas, e outras para serem condenadas, de modo que os salvos já foram escolhidos antes da fundação do mundo, e que isso não depende da vontade humana. Se isso é verdade, quem poderá com segurança afirmar que está salvo?
     Lamento não poder prosseguir com a narrativa, pois já não me recordo de como a nossa conversa terminou, mas diferente daquele moço, estou pronto para me concordar que se a doutrina da predestinação com todo o seu requinte de crueldade pudesse ser sustentada, então a nossa fé se tornaria nula e o amor e a misericórdia de Deus cairiam em contradição com o lúcido conceito que temos de Sua divina perfeição, e me atrevo a dizer que em vez de afirmarmos que Deus amou o mundo de “tal maneira”, deveríamos dizer que Ele amou a Si mesmo. A minha fé e o meu intelecto se recusam até em pensar que o Santíssimo Deus tem deliberado em criar alguns seres humanos com o único propósito de condená-los ao fogo eterno.
   
      Não obstante, e embora funesta, essa doutrina da predestinação está fundamentada em praticamente todos os livros do Novo Testamento; mais obrigatoriamente no livro do Apocalipse, onde o seu autor insiste em dizer que o destino da humanidade foi selado antes da fundação do mundo. Mas foi meditando acerca dessa doutrina determinista que o pensador Boécio se perguntou: “Como seria possível ao Deus de todo amor permitir tão injusto sofrimento ao homem que Ele criou?”

      O argumento a essa objeção, segundo o bendito Paulo, se fundamenta na soberana vontade de Deus, cujos atos não podem ser associados à injustiça (Romanos 9.14), pois Ele salva a quem quer salvar, e condena a quem quer condenar (v. 15) – Ou pelo menos é dessa maneira que as palavras do apóstolo têm sido interpretadas através dos séculos.

     Mais enfáticas e inexoráveis são as palavras de Paulo quando afirma que o ser humano não tem o direito de replicar a Deus, se Ele, na condição de sábio oleiro, criou alguns vasos (pessoas) para a salvação e outros tantos para a perdição (Romanos 9. 20-23). A tônica desse argumento, segundo Paulo, é o exemplo do êxodo hebreu, quando o Faraó resistiu à vontade de Deus e trouxe grande calamidade sobre a terra do Egito. Paulo resume o seu raciocínio nestas palavras:

“Porque diz a Escritura a Faraó: Para isso mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder, e para que o meu Nome seja conhecido em toda a terra” (Romanos 9. 17).

   De acordo com a interpretação lógica, e isso condiz com o próprio livro do Êxodo (4. 21), foi o próprio Deus quem não permitiu que o rei do Egito acreditasse nos milagres realizados por Moisés. Ainda de acordo com o argumento paulino, o mesmo Deus impulsionou o Faraó à incredulidade. Ele teria feito assim porque aquele regente egípcio seria um dos predestinados e infelizes vasos de desonra, ou seja, alguém cuja existência estava fadada à condenação.

    A considerarmos a força das palavras desse apóstolo, saltará um detalhe curioso e muito importante: aquele Faraó não seria responsável por seus atos, pois tudo o que fizera estava de acordo com os planos do Altíssimo. – Uma interpretação absurda, como ousaria dizer o mestre Orígenes, pois não seria justo um Deus que excita o homem à desobediência. Caso Orígenes esteja correto (como de fato o creio), e considerando-se que Paulo falava e escrevia por divina revelação, então é certo que devamos buscar outra interpretação para os argumentos do apóstolo.

    Escrevendo sobre Hermenêutica, que por sinal é uma disciplina que se ocupa com a justa interpretação dos textos da Bíblia, P. C. Nelson prefere tratar o tema do endurecimento do coração de Faraó com mais desvelo. De acordo com o seu ponto de vista, quando a Escritura diz que Deus endureceu o coração de Faraó para que não cresse nos milagres de Moisés, a ação final não teria partido de Deus, mas da própria arrogância do soberano egípcio. Assim sendo, Deus não teria endurecido o coração daquele homem e desta forma o induzido à desobediência; antes, ou contrariamente a isso, Deus apenas teria sido a causa da incredulidade do Faraó. Ou seja: desobediência obstinada e proposital.

    Infelizmente essa interpretação não se harmoniza com o óbvio raciocínio de Paulo. Ele afirma com todas as letras que Deus assim lidou com aquele “vaso de ira” a fim de mostrar o seu favor aos “vasos de misericórdia”, os quais seriam os filhos de Israel. Aparentemente, Orígenes em nada discorda no tocante à doutrina da predestinação tal como é apresentada por Paulo, mas dá a ela uma interpretação diversa e infinitamente amena em relação àquela que salta dos textos desse apóstolo.

    Para começar, Orígenes considera que o amor de Deus é tal que não permitirá que nenhum homem esteja de fora do plano da salvação. Mas é bom que se diga que segundo a compreensão do mestre Orígenes esse “não permitirá” é absoluto e definitivo. Ou seja, que no final todos os seres humanos serão salvos, quer pela pregação do Evangelho, quer pelas chamas purificadoras do Inferno.

     Mas Paulo segue dizendo que o critério divino pelo qual Deus separa uns para a vida e outros para a morte, consiste apenas na Sua vontade. Por aí podemos entender que o critério é exatamente não ter critérios, pois se compadece de quem Ele quer salvar, e vira as costas para quem Ele quer condenar. Simples e objetivo! Mas retornemos à teologia de Paulo::

“Direis-me então: do que é que Deus está reclamando? Nós não estamos fazendo apenas aquilo que Ele nos incitou a fazer? Mas, ó homem, quem é você para discutir com Deus? Porventura poderá a criatura reclamar do Criador, e dizer: Porque me fazes assim?” (Romanos 9. 19, 20).

     O que Paulo está aqui dizendo é que apesar de tudo ninguém pode acusar a Deus de injustiça. Em primeiro lugar, ele sustenta que o ser humano, embora sendo induzido à desobediência por determinação do mesmo Deus (o que, aliás, está em completa oposição aos ensinamentos do restante de Bíblia), não está isento de culpa, pois Deus o conduz ao pecado exatamente porque quer condená-lo. Em virtude disso, o homem poderia argumentar em seu favor diante do Grande Trono Branco no dia final: “Por que me condenas, se na verdade quando eu pecava estava fazendo exatamente o que Tu exigias de mim?” – Mas se tal procedimento “divino” não pode ser considerado injusto então eu devo renunciar tudo o que tenho aprendido sobre a bondade e o amor de Deus!

    Em segundo lugar, Paulo parece está sugerindo que o homem, arrastado ao fogo eterno, não teria o direito de questionar a razão pela qual está sendo condenado. Segundo Orígenes, cuja exposição ecoa bastante racional, tal procedimento não seria digno de um Deus justo, bom e perfeito. Sendo assim, ele apela para outra forma de interpretar. Se for fato que Deus usa apenas a Sua vontade quando deseja salvar ou condenar a alguém, então devemos nos ocupar em compreender o que afinal vem a ser essa vontade.

    A posição de Agostinho diverge daquela assumida por Orígenes; então levaria mais algum tempo até que João de Damasco viesse a entender que existem dois aspectos da vontade divina, sendo um passivo e o outro soberano. Ora, ninguém haverá de negar o testemunho escriturístico de que a “vontade” de Deus é que absolutamente todos se arrependam e sejam salvos. Mas isso jamais acontecerá, pois essa vontade é apenas passiva e não interfere na vontade dos homens, bem como no direito que cada um tem de tomar as suas próprias decisões. Tendo esse pensamento em mente João de Damasco argumenta que Deus não induz o homem ao erro, nem o obriga a ser virtuoso. A partir de idéias tão lúcidas os velhos conceito de “vasos de ira” e “vasos de misericórdia” vão tomando novos rumos.

     Os apressadinhos que se anteciparam em abraçar uma idéia de predestinação absoluta a partir da exposição paulina em sua carta aos Romanos, se esqueceram ou não quiseram considerar que a chave que encerra os destinos dos homens não é necessariamente a vontade de Deus, mas o livre-arbítrio que o Criador delegou a cada um de nós. João de Damasco foi infinitamente feliz ao observar que “Deus realmente anteviu e conheceu antecipadamente todas as coisas, mas não predestinou a nenhuma delas”.

     Vejamos o que o mesmo Paulo diz a respeito da responsabilidade que o ser humano tem por seus atos e de como ele pode ser conduzido à salvação ou à perdição. Estejamos atentos, pois estas coisas ele diz no desfecho dos capítulos que tratam da predestinação dos santos:

“Considera, pois a bondade e a severidade de Deus. Para com os que caíram severidade; mas para contigo, a benignidade de Deus, se permaneceres na sua benignidade; de outra maneira, também tu serás cortado. Assim também eles, se não permanecerem na incredulidade, serão enxertados; porque piedoso é Deus para os tornar a enxertar” (Romanos 11. 22, 23).

   Oh que maravilhosa controvérsia! Quão sábia e bondosa é essa loucura!

  Caso não usemos de critérios, seremos levados a concluir que aqui Paulo entra em contradição com tudo aquilo que dantes havia dito, pois tendo insistido que Deus criou uns para a vida e outros para a morte, ele muda o tom do discurso e já está disposto a garantir que aquele que agora está salvo ainda pode entrar em condenação, ao passo que aquele que está perdido também pode ser alcançando pela salvação. Essa conclusão é justa e digna do caráter do Deus da Bíblia, já que deixa evidente que a predestinação só pode ser condicional e que o homem pode decidir que destino final dará à sua alma.

     Em assim dizermos fica pendente que a predestinação não existe de fato. E realmente não existe. João de Damasco o compreendeu claramente, pois entendeu que tudo se resume no livre-arbítrio do homem. Mas se a predestinação de fato não existe, por que razão temos tantas e tão claras referências a ela em todo o Novo Testamento? A resposta não é difícil. Aqueles eram tempos nos quais a literatura apocalíptica atingia o apogeu de sua influência, e como tal ela permeava a mente de todo judeu. Segundo o grosso dessa literatura, tudo o que acontece na Terra, mesmo as coisas aparentemente mais efêmeras, obedeciam a um programa divino e só ocorriam porque Deus as permitia; isso é, já estavam predeterminadas pelo Criador “desde a fundação do mundo” Paulo, como os demais autores do Novo Testamento, não escaparam à regra, e embora soubessem que não era bem assim, proverbialmente podiam fazer uso das idéias que estavam constantemente na mente e nos lábios do povo. Esse é um vício do qual ninguém escapa. Mas ao atentarmos para os ensinamentos dos apóstolos podemos notar que em tudo a responsabilidade do homem está em evidência.

CONCLUSÃO

Não será estranho se o leitor ainda estiver interessado em saber a razão pela qual Deus havia endurecido o coração de Faraó. As palavras de Paulo a esse respeito são penetrantes e não permitem outra interpretação, o segredo, porém, está na ênfase da causa-efeito. Lembremo-nos de que segundo Paulo Deus conheceu aos homens de antemão, daí que Ele, conhecendo o coração de Faraó, e sabendo que aquele homem jamais viria a honrá-Lo, multiplicou a sua incredulidade, pois desejava com isso castigar a nação por todos os crimes cometidos contra o povo da promessa. Leia Gênesis 15. 13, 14. Sob esse novo ponto de vista somos levados a aceitar que verdadeiramente não houve nenhum ato de injustiça da parte de Deus.

   Mas quero sim atestar que existe um tipo de predestinação – a condicional, que valoriza, honra, e que é um penhor da fé. Ela é a mais perfeita garantia de que aquele que crê e permanece no amor de Deus jamais entrará em condenação, porquanto tal pessoa está predestinada em Cristo, ou seja, se fez participante das glórias que Deus tem reservado para o Seu Amado Filho.

     Cristo sim está definitivamente predestinado, e aquele que Nele permanece não tem o que temer. É por isso que
Nnenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus; é por isso que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que O amam; e é por essa razão que Nada nos separará do amor de Deus que está em Jesus Cristo.

     Orígenes quase desvendou o mistério da predestinação, mas foi João de Damasco quem conseguiu romper o nevoeiro para contemplar a tudo mais lucidamente. A verdade é que essa eleição dos santos está composta de cinco distintas etapas, as quais Paulo esclarece em Romanos 8. 29, 30. A saber, que Deus primeiramente e por sua onisciência conheceu aqueles que haveriam de se salvar por meio da aceitação do Seu amor. Somente depois de tê-los conhecido de antemão foi que Ele os predestinou (escolheu); depois de tê-los escolhido, Ele os chamou; e havendo-os chamado Ele os justificou; após tê-los justificado ele os glorificou. Na visão de Paulo, todas estas coisas já estão seladas no coração de Deus desde a fundação do mundo (Efésios 1. 4, 5), mas devido à responsabilidade algumas destas etapas ainda não foram em definitivo consumada individualmente no plano terreno. Isso é, se alguém não permanece em Cristo é imediatamente cortado das promessas (Romanos 11. 22).

    Quando dissemos que Deus na sua onisciência conhece a cada um daqueles que hão de herdar a salvação, imitamos tão somente a Orígenes e atestamos que o Senhor sabe de antemão quais as pessoas que aceitarão o Seu amor e perdão; isso é, Deus previu aqueles que dentre as multidões perdidas haverão de crer na pregação do Evangelho e que assim salvarão as suas almas. Deste modo, Ele se esforçará não para que o homem O aceite (pois se assim o fizer estará interferindo no seu livre-arbítrio), mas para que o mesmo ouça as boas novas da salvação em Cristo e venha ao arrependimento.


    Caso existisse uma doutrina da predestinação absoluta, não deveríamos nos preocupar com a evangelização do mundo, pois no final Deus acabaria salvando aos seus de qualquer jeito. Por outro lado, a idéia de tal predestinação invalidaria a fé dos santos, e como disse o moço do qual falei no começo de nosso diálogo: “Quem poderia com segurança afirmar que está salvo”? Mas o maior de todos os agravantes é que essa forma de predestinação é impiedosa e pretende rebaixar o nosso Bom Deus à categoria de implacável tirano. Estou acostumado com a maravilhosa revelação do Grande e Eterno Amor de Deus e não aceito nada que possa estar em oposição a isso. Se Deus é amor, como de fato o cremos, Ele certamente dará a todos os homens o direito de aceitar ou rejeitar a Sua eterna salvação. Caso o leitor esteja interessado em conhecer as verdadeiras origens da doutrina da predestinação sugiro que leia o meu Livro As Origens e a Evolução da Escatologia.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

A Festa de Pentecostes e o seu significado dentro do plano escatológico









              ( Extraído do livro O Significado Profético do Pentecostes, De Sandro Rogério)
    O Pentecostes é uma visão transcendental do Reino de Deus, um acontecimento histórico-profético que evidenciou a declaração universal do senhorio de Deus e da maravilhosa graça com a qual Ele tem trabalhado a redenção do gênero humano. A magna revelação além da narrativa bíblica há de demonstrar o quanto Ele nos amou, e esteve, desde o princípio, operando a nossa eterna salvação.

 A histórica data (6 de Sivan) não foi escolhida aleatoriamente pelo Altíssimo, pois desejando Ele nos ensinar posteriormente os mistérios do seu maravilhoso plano de redenção, trabalhou para que nesta incrível data houvessem ocorrido o nascimento e o arrebatamento do profeta Enoque, bem como a  inefável revelação e entrega da Lei no Sinai. A Festa do Pentecostes possui um significado escatológico, e compreender o seu simbolismo equivale a nos orientar e mostra a que altura do plano de Deus estamos.

Há um conjunto de elementos que saltam das palavras de Moisés e que abrangem uma sabedoria há séculos escondida nas páginas da Bíblia e na bruma da história. São detalhes de uma revelação que apenas mui recentemente passou a fazer parte dos nossos estudos acerca das últimas coisas, fazendo assim ampliar os horizontes da compreensão da nossa bem-aventurada esperança.

Que é o Pentecostes, e qual o seu significado para Israel e para a igreja de Cristo? Em primeiro lugar, o pentecostes é, sem dúvidas, o marco por excelência da história nacional dos judeus, maior até que a sua partida da terra do Egito e que a travessia do Mar Vermelho. A data marca o nascimento de Israel não como povo, mas como nação sacerdotal sobre a terra.

Os judeus negligenciaram o Pentecostes desde os dias dos Juízes até ao final da monarquia davídica, todavia, depois que eles retornaram do cativeiro em Babilônia, assumiram para sempre que essa data (o Pentecostes) devia ser celebrada regularmente, pois que havia sido o dia da revelação da lei de Deus no Sinai. O acontecimento descrito na Bíblia e na história como havendo sido um dia de espanto e terror sobre Israel e sobre o mundo expõe um cenário carregado de mistérios que retumbam como os próprios trovões ali testemunhados, e que repercutem através das Escrituras como ecos de um segredo que Deus pelo Espírito Santo quer compartilhar com os herdeiros das suas promessas.

A narrativa começa no capítulo 19 de Êxodo e sugiro ao leitor que tome a sua Bíblia e leia todo o texto com redobrada atenção antes de ingressar no estudo que ora apresentamos. Ali está declarado que os hebreus acamparam diante do Monte Sinai no terceiro mês. O referido mês e Sivan. A tradição judaica mais coerente tem cravado que Moisés subiu ao monte para receber a revelação da lei no dia 6 de Sivan, cinqüenta dias depois de haver Israel atravessado o Mar Vermelho. A Enciclopédia Bíblica de Orlando Boyer também concorda que o Pentecostes era comemorado no dia 6 do mês de Sivan.

Essa data se harmoniza com perfeição à exigência divina que prescrevia a celebração do Pentecostes sete semanas depois da comemoração das Primícias, ou seja, quarenta e nove dias depois da apresentação da oferta de movimento. Como está escrito em Levítico 23. 15,16:

"Depois para vós contareis desde o dia seguinte ao sábado, desde o dia em que trouxerdes o molho da oferta movida; sete semanas inteiras serão.
Até ao dia seguinte ao sábado, contareis cinqüenta dias; então oferecereis nova oferta de manjares ao Senhor".

Se o meu leitor tomar o dia 6 de Sivan e o fizer retroceder até ao 17 de Abibe, há de notar que a conta se fecha em exatos cinqüenta dias. Mas qual seria a importância desta abordagem? Ela é importante não pela história em si, mas pelo fato de demonstrar como as encenações proféticas deviam se cumprir nos seus mínimos detalhes. Para explicar, vamos recorrer à milenar sabedoria dos judeus. Ela nos conta que tanto o Pentecostes do Sinai quanto a travessia do Mar Vermelho aconteceram em um dia de sábado. Ora, estas coisas foram escritas para nos servir como exemplos e estão gravadas para nos declarar a multiforme sabedoria de Deus. A posterior e até pretensa tradição do cristianismo católico romano estabeleceu a data do Pentecostes da igreja em Jerusalém em um domingo, pois desejava ajustar a ressurreição do Senhor a um domingo, igualmente.

Contudo, o simbolismo da lei, o Evangelho de Mateus e a própria história do judaísmo concordam em que a ressurreição de Cristo só pode ter acontecido em um dia de sábado. Para iniciar a nossa refutação, basta que o leitor tome a data do Pentecostes de Jerusalém, supostamente ocorrido em um domingo 6 de Sivan, e retroceda cinqüenta dias no calendário. 

É óbvio que em assim fazendo, a ressurreição de Cristo cairá em um domingo, dia 17 de Abibe, mas não sem um flagrante percalço, já que essa maneira de datar colocaria a Páscoa do Senhor em uma quinta-feira. Porque retrocedendo do domingo 17 até ao dia 14, teremos uma quinta-feira. Mas a pretensa tradição herdada do romanismo tem jurado e sustentado que o Nosso Senhor foi morto e sepultado em uma sexta-feira! De contradição maior não precisamos. Descartemos então essa tradição cristã.

A profecia anunciada através da Festa das Primícias previa que Cristo ressurgiria numa tarde de sábado. Temos anotado que de acordo com a tradição judaica, a travessia do Mar Vermelho (emblema da ressurreição do Senhor) aconteceu em um sábado. Para se certificar disso, basta que o leitor retroceda do sábado 6 de Sivan até ao 17 de Nisan e descobrirá como a previsão se confirma. E a tradição dos judeus realmente atesta que o Pentecostes do Sinai se deu em um dia de sábado.

O Êxodo então previa que Cristo haveria de ressuscitar ao entardecer de um sábado, pois a travessia do Mar Vermelho foi iniciada numa tarde deste dia. Vejam que a Bíblia registra que ainda era dia quando os hebreus avistaram as tropas de Faraó. A Bíblia ainda afirma que Deus deu luz para os hebreus, mas estendeu as trevas sobre os egípcios. Também lemos que os exércitos inimigos não alcançaram os filhos de Israel durante toda a noite. Para finalizar, a Escritura diz que foi ao amanhecer que os israelitas notaram os cadáveres dos seus perseguidores estendidos ao longo da praia.

No tocante a isso, o Evangelho de Mateus 28. 1-6 conta-nos com todas as letras que o Senhor Jesus ressuscitou no final de um dia de sábado, ou seja, ao entardecer, quando já despontava o primeiro dia da semana. Porquanto o dia judeu se iniciava sempre ao entardecer.

E há entre os judeus algumas comunidades que creem na messianidade de Jesus Nazareno. Pois bem, há entre os seus mestres aqueles que tomam o salmo 47. 5 como referência da ressurreição do Messias prometido. O texto em questão diz:
"Deus subiu com júbilo, o Senhor subiu ao som de trombeta".

Reparem que o texto diz que Deus subiu. Mas se Ele está acima, o mais correto seria afirmar que "Deus desceu". Entretanto, os judeus convertidos atestam que a palavra "subiu", na presente sessão, também significa "ascendeu, ressuscitou". De sorte que quando o salmista diz que o Messias subiu ao som de trombeta ele estava a prever a sua ressurreição não ao amanhecer, mas ao final do dia. Eles usam como base aquela trombeta que era tocada no templo ao amanhecer e ao entardecer de cada dia, pois não existiam relógios e os trabalhadores (bem como os turnos sacerdotais) precisavam saber o momento certo de começar e terminar a jornada diária.

O primeiro toque desta trombeta era ouvido às seis da manhã, quando se iniciava o "dia do jornaleiro". A mesma trombeta volta a soar às seis da tarde, anunciando aos trabalhadores que era já a hora de parar. Sabemos que o Senhor não ressuscitou ao amanhecer, já que Lucas capítulo 24 declara que as mulheres foram ao sepulcro durante a madrugada (o texto acrescenta que era ainda muito escuro) do primeiro dia da semana, mas que a esse tempo o Mestre já havia ressuscitado. Então o texto de Mateus 28. 1-6 vem ao caso quando esclarece que a ressurreição aconteceu no final do sábado (à tarde). Isso explica a profecia poética a prever que o Messias ressurgiria dos mortos ao som da trombeta.

Há uma grande confusão quanto ao dia exato em que o Senhor ressurgiu dos mortos, e em todo o caso o que se tem levado em conta é a visita que as discípulas de Jesus fizeram ao sepulcro na madrugada do primeiro dia da semana. Porém, quando acatamos as informações concedidas pelo evangelista Mateus, fica cristalino que as mulheres fizeram não uma, mas duas visitas ao sepulcro quando da ressurreição. A primeira visita, Mateus o garante, foi no entardecer do sábado. A segunda visita, Lucas o diz, foi na madrugada do dia seguinte. Mas elas não testemunharam a ressurreição do Senhor. Ele havia retornado dos mortos no final da tarde do sábado, como já estava previsto nas profecias do Abodah.

O Êxodo 20 é bastante conhecido entre os cristãos por ser o capítulo que expressamente registra os dez mandamentos do Senhor. Porém, é a partir do capítulo 19 que temos a impressionante narrativa de como Deus preparou o povo para receber a revelação da lei.

 A mesma narrativa expõe fatos extraordinários que se descortinaram perante os sentidos dos hebreus durante a manifestação divina no alto do Sinai. Façamos uma breve leitura nesse texto a fim de imbuirmos a alma no ambiente de sensações experimentadas pelos israelitas ao sopé da montanha. Porque se desejamos entender o excelso sentido do Pentecostes, teremos de aprender a importância deste evento para os judeus, já que naquele dia 6 de Sivan, no deserto de Sinai, deu-se o nascimento de Israel como nação. Aquele foi também o primeiro Pentecostes da história. Vamos à narrativa bíblica de Êxodo 19. 16-19:

"E aconteceu ao terceiro dia, ao amanhecer, que houve trovões, e relâmpagos sobre o monte, e uma espessa nuvem, e o sonido de uma buzina mui forte, de maneira que estremeceu todo o povo que estava no arraial.

E Moisés levou o povo para fora do arraial ao encontro de Deus; e puseram-se ao pé do monte.
E todo o Monte de Sinai fumegava, porque o Senhor descera sobre ele em fogo; e o seu fumo subiu como o fumo dum forno, e todo o monte tremia grandemente.
E o sonido da buzina ia crescendo em grande maneira; Moisés falava, e Deus lhe respondia em alta voz".

Êxodo 20. 18-21 acrescenta ao acontecimento:
"E todo o povo viu os trovões e os relâmpagos, e o sonido da buzina, e o monte fumegando; e o povo, vendo isso, retirou-se e pôs-se de longe.

E disseram a Moisés: Fala tu conosco, e viveremos; e não fale Deus conosco, para que não morramos.
E disse Moisés ao povo: Não temais, que Deus veio para provar-vos, e para que o seu temor esteja diante de vós, para que não pequeis.
E o povo estava em pé de longe; Moisés, porém, se achegou à escuridão, onde Deus estava".

O Altíssimo desceu pessoalmente sobre o Sinai, e o seu séquito com Ele, no estupendo e primeiro dia de Pentecostes. Todo Israel o presenciou através do fogo, dos raios, dos trovões, da fumaça e do estonteante sonido de uma trombeta feita com o chifre de um cordeiro. Tão apavorante experiência não seria esquecida pelos hebreus enquanto existissem como povo sobre a terra. Aparentemente, as Escrituras pouco têm a dizer sobre o Pentecostes do Sinai. A tradição religiosa dos judeus, entretanto, manteve viva a memória das coisas que o povo presenciou ali, naquele dia 6 de Sivan.

Não poucos pesquisadores cristãos quiseram desacreditar o testemunho da sabedoria judaica através dos séculos, porém, existem certos aspectos desta tradição que antecedem em muito a época do advento da igreja, os quais também encontram ecos até mesmo no testemunho do Novo Testamento. E há traços de coerência na tradição judaica, pois a insistência do judaísmo em manter viva uma crença tão antiga me leva a crer que apesar de todo o floreio as narrativas estão corroboradas pela verdade.

Então tomemos nota do que disseram os sábios de Israel no tocante a tudo o que aconteceu no Sinai no dia em que Deus desceu para lhes comunicar a lei. Êxodo 19. 17 diz que Moisés conduziu o povo para fora do arraial ao encontro com Deus. O texto ainda explica que os hebreus estavam ao pé da montanha. O Rabi Abidmi se referiu a esse fato explicando que o Santo Deus estendeu a montanha sobre o povo como se fosse um tabernáculo, e lhes propôs: "Se receberdes a minha lei, vivereis, mas se fordes rebeldes este monte há de servir-vos de sepultura". 

Considero inútil a tentativa de querer desacreditar toda a tradição do judaísmo, pois o testemunho da Bíblia Sagrada nos assegura que Deus falou muitas coisas aos ouvidos dos hebreus no Sinai. Eles escutaram cada uma das suas palavras e foi por esta razão que o temor e o pavor lhes sobreveio de tal maneira que tiveram de fugir. Êxodo 20. 18 diz que houve raios, trovões, fogo sobre o monte e o som ensurdecedor de uma Shofar. Eles temeram principalmente porque sabiam que não era comum existir um elemento reconhecidamente humano naquele culto divino. Segundo a tradição religiosa, a trombeta que escutaram era feita com um dos chifres daquele cordeiro que Abraão sacrificou a Deus em lugar de Isaque no Moriah.
A respeito da voz de Deus e de como os israelitas reagiram, eis que o Rabi Josué nos informa que em pronunciando o Senhor cada um dos mandamentos da lei com seus próprios lábios, os filhos de Israel se afastaram do lugar em que Moisés os havia deixado e recuaram doze milhas. Mas então vieram os anjos ministradores (conferir Hebreus 1. 14) e os fizeram tornar ao primeiro posto.

 Além do mais, é a partir da tradição que temos a mais impressionante descrição daquilo que julgo ser a chave para a compreensão do simbolismo do Pentecostes. Digo, a afirmação rabínica de que naquele dia o Senhor havia falado aos filhos de Israel não em hebraico, mas em setenta idiomas diferentes. Essa parte da tradição, tão veemente no Midrash, decerto é a que mais tem se repetido ao longo da história religiosa de Israel. Não poucos dentre os autores judaicos que hei consultado sustentam a afirmação e, acreditem, ela é bastante antiga.

Israel Abrahams, por exemplo, diz: "Cada um dos dez mandamentos foi pronunciado no Sinai em setenta idiomas, de modo que todo o mundo pudesse ouvir e entender a divina revelação da lei". (Festival Studies p.86). Rabi Moshe Weissman confirma a declaração e Rabi Eliezer vai além e dar ao Pentecostes um sentido mais abrangente ao sustentar que Deus havia comunicado a lei em setenta idiomas porque não estava falando apenas aos hebreus, mas a todas as nações da terra. Ele emprega alguns textos poéticos da Bíblia para assegurar que o pronunciamento divino foi escutado em todas as partes do mundo.

Num dos Apocalipses dedicados a Enoque, esse profeta interroga o anjo Metraton acerca do seu nome, e ele lhe diz : "Por que me perguntas acerca do meu nome? Eis que tenho setenta nomes, um em cada idioma que Deus deixou sobre a terra".

E ainda há algo de especial que pretendo compartilhar com o meu leitor. Os Escritos Poéticos dos hebreus estão permeados de sabedoria milenar, pois não raro nos contam detalhes e segredos pouco explorados pelos não-judeus. Eles conservam vivas as memórias de acontecimentos bíblicos que não podem ser compreendidos senão sob a luz e a orientação do Espírito de Deus. E Espírito Santo esteve em evidência naquele Pentecostes do deserto. 

Observe o salmo 8, por exemplo. Ele é uma narrativa poética daquela manifestação divina sobre o Monte Sinai. O salmista começa engrandecendo a Deus por Ele haver manifestado a sua glória desde os céus. E foi exatamente isso que aconteceu no deserto. Em seguida, ele menciona o Senhor a suscitar força e louvor dos lábios das criancinhas. Mas que queria ele dizer com isso? A tradição dos rabis diz que depois que os anjos fizeram Israel retornar ao pé do monte e Deus lhe comunicou toda a sua vontade, o povo aceitou a lei e jurou obediência. Então Deus lhes perguntou: "Que garantia me dareis de que guardareis os meus mandamentos?" Ora, Deus não queria aceitar os juramentos de um povo que certamente não cumpriria com a sua palavra, daí que Ele mesmo o manteve calado e fez com que viessem as criancinhas ainda em fase de amamentação e pôs a palavra em seus lábios. Então elas disseram: "Nós seremos a tua garantia!" Foi por isso que o salmista havia dito que Deus suscitou louvor e força dos lábios dos inocentes para fazer calar os murmuradores.

Mais além, no versículo 4, vem a indagação: "Que é o homem mortal para que te lembres dele? E o filho do homem, para que o estimes?" Aqui o poeta estaria se referindo a um questionamento que os anjos apresentaram a Deus quando Ele se propôs a revelar a lei aos homens por meio de Moisés.

 A tradição registrou que no instante em que Moisés subiu ao monte para ser o portador da Torah, eis que vieram os anjos e disseram perante Deus: "Ó Senhor de toda a terra, este (Moisés) que é nascido de mulher, há de tomar parte nos nossos negócios?" Ao que Deus lhes teria respondido: "Ele está aqui para receber a Torah." Então os anjos replicaram: "Hás então de tomar estes tesouros que foram acumulados desde seiscentos e sessenta e quatro gerações antes da criação do mundo, e as entregarás à carne e ao sangue?”.

De acordo com a tradição rabínica, essa teria sido a razão pela qual o salmista teria questionado: "Que é o homem mortal para que te lembres dele? E o filho do homem, para que o visites?" E logo, o mesmo salmista responde: "Contudo, pouco menor o fizeste do que os anjos, e de glória e de honra o coroaste”.

 No capítulo seguinte, estudaremos o significado do Pentecostes e como ele deve ser aplicado no plano do Reino de

Anjos - A História Secreta





                                                                                   

                                                                                   






     A Bíblia é o meu livro de cabeceira. Amo-a e a defendo com todas as minhas forças e com todo o meu entendimento, e apesar disso, a minha humana compreensão me leva a tomar um rumo que me põe na rota de colisão com o tradicional pensamento das escolas teológicas fundamentalistas.
    
    Agora estamos diante de um mistério aparentemente insondável, conquanto os seres humanos, que sabem tão pouco a respeito de si mesmos, às vezes ostentem a bazófia de imaginarem-se conhecedores dos maravilhosos segredos que incluem a origem e a criação dos mundos, quer no âmbito físico, quer na esfera espiritual.

     Não temos chegado sequer a uma visão conjunta sobre as origens do Universo, e mesmo os cristãos que crêem em Deus e na Bíblia de todo o coração, podem, sem grandes esforços, se questionar se a história da humanidade de fato foi iniciada com o aparecimento de Adão. E tal cogitação deve ser emblemática, já que o próprio livro do Gênesis parece dar ambíguas declarações (ou mesmo revelações) tanto a respeito da origem do Universo, quanto da chegada do homem a este mundo.

     Pesquisadores há, e sejam eles cientistas, teólogos, filósofos, jornalistas, antropólogos ou mesmo esotéricos especuladores, entendem perfeitamente haver existido um mundo pré-adâmico, e, que, ao contrário do que tem dito a compreensão tradicional, a odisséia humana transcende em muito a casa dos cinco ou seis mil anos. O que vem a ser compreensível, caso aceitemos as inquestionáveis evidências de que alguma coisa (senão muitas delas) não está correta em nossa maneira de apresentar a linha do tempo e os eventos marcantes que nos servem de mirantes para a consolidação dos conceitos que temos sobre as origens do Planeta Terra e da própria raça humana.
     Evidentemente, existem verdades que a ciência vem tentando converter em mitos, e há fatos a respeito dos quais os teólogos evitam falar, e se o fazem é sempre de uma maneira pejorativa, a fim de desencorajar o espírito investigador de quem não almeja nada que não seja a mais cristalina verdade, ou, no mínimo, algo que se aproxime bastante da mesma.

     Os homens da ciência estão aptos para determinar que de uma forma ou de outra, a história da humanidade nada mais é do que a história de uma evolução natural, e que a versão bíblica da criação é folclórica e enganosa. Todavia, existem fortes e incontáveis indícios de que esses cientistas têm se fundamentado em provas que eles mesmos forjaram por meio de convenções “criteriosas”, uma vez que estejam apegados apenas às evidências que tendem favorecer as hipóteses de antemão elaboradas.

     No que concerne aos teólogos, não é diferente, pois estão divididos em escolas que pronunciam epígrafes que se antagonizam, embora siga que todos eles permaneçam sustentando as suas verdades. Mas essas verdades são meramente subjetivas; de sorte que as certezas de uns são as heresias de outros e vice-versa.

     Se no geral, eles concordam com a Bíblia e admitem que a origem da raça humana esteja circunscrita à criação de Adão, ainda assim, podem tranquilamente torcer o nariz e dar um passa atrás caso lhes perguntemos a respeito da época em que o nosso planeta era habitado pelos homens das cavernas. 

     O que a meu ver não vem a ser um dilema absolutamente insolúvel, e segundo o doutor Francis Colin, que foi um dos criadores do Projeto Genoma, o sábio e respeitado teólogo Santo Agostinho trazia essa resposta na ponta da língua. Alguns mestres cristãos, porém, ignorantes de suas próprias origens, julgam-se conhecedores das dimensões metafísicas, mas principalmente da essência dos anjos e de tudo o que ao assunto concerne. 

     Mas ouso-me a pergunta: o que eles realmente sabem a respeito da natureza dos anjos? – Se tivermos de julgar a partir de todos os tratados que eles escreveram sobre o assunto, concluiremos que o grau de conhecimento que possuem nessa área é equivalente a tudo o que eu sei no âmbito da engenharia genética. – Ou seja: absolutamente nada!

     Isso não é uma insinuação, e não desejo que tomem a coisa como se fosse uma afronta, mas é fato que muitos de nossos teólogos têm fechado os olhos para as evidências que exigem um veredicto. Eles querem por meio de mil argumentações ocas, e sem bases genuinamente bíblicas, sustentar que aquele episódio do capítulo 6 do livro de Gênesis onde se diz que os filhos de Deus se enamoraram das filhas dos homens seja uma mera alusão à união natural entre os descendentes de Sete (último filho de Adão?) com as descendentes do famigerado Caim.
  
      Nada é tão forçoso. Esse é um típico argumento de quem está desesperado, conquanto o conceito seja fruto da opção tendenciosa dos que formulam a opinião teológica. Contra esses existe o depoimento do profeta Enoque, que foi contemporâneo de Adão e escreveu um legado sobre o assunto, sendo ele mesmo testemunha dos fatos que ocorreram durante a sua vida.

     Segundo Enoque, em um trecho do livro que corresponde perfeitamente ao capítulo seis do Gênesis em seus mínimos detalhes, foram os anjos e não os descendentes de Sete que se envolveram sexualmente com as filhas dos humanos.

     Nossos teólogos, embora atestem estar defendendo a Bíblia e a própria pureza angelical, dizem ser impossível aos seres espirituais qualquer envolvimento sexual com humanos. Mas eu já tenho questionado: O que eles realmente sabem a respeito dos anjos? – Não sabem muita coisa, e no pouco que conhecem há bastante especulação e preconceito acadêmico. Para ser franco, admito não haver a menor importância em saber se os anjos podem ou não podem se unir sexualmente a uma mulher, mas acontece que o testemunho de Enoque é contundente e não admite isenção.

     Está claro que o livro que leva o seu nome não é um documento original, e até existem óbvias provas de que ele foi adulterado através dos séculos. Ainda assim, ele mantém traços de sua originalidade, pelo que considero inútil toda e qualquer tentativa de reduzi-lo à categoria dos escritos espúrios ou heréticos.

     Teólogos podem até relutar, mas tenho constatado que os relatos enoquianos transcendem à capacidade humana e que para a surpresa de todos quantos amam os estudos proféticos, eles são as verdadeiras bases da maravilhosa escatologia apocalíptica, tanto do judaísmo conservador, quanto da igreja cristã.

     Além do mais, tenho comparado estes relatos enoquianos com as Santas Escrituras e cheguei à surpreendente conclusão de que em praticamente todo o Novo Testamento existem pelo menos cem referências ao livro de Enoque, seja de forma direta ou indireta. Isso significa que para os apóstolos e talvez para o próprio Cristo, as profecias de Enoque deviam ser levadas a sério. Mas pareço ouvir alguém a argumentar que o Enoque do qual os antigos tanto falaram na verdade era um personagem homônimo da história mais recente de Israel.

     Tal insinuação encontra oposição em Judas, irmão de Jesus, pois ele dá testemunho de que o Enoque a cujas profecias fazia referências era o sétimo homem da geração adâmica; exatamente do modo como se apresenta o autor do livro de Enoque que ora enfatizamos. Portanto, inútil nos será se insistirmos em ignorar a importância do seu depoimento.

     De volta ao episódio que narra o envolvimento dos anjos com as humanas, é de imprescindível relevância que enfatizemos o parecer dos apóstolos de Jesus. Nossos colegas da Comunidade Teológica outra vez hão de torcer o nariz para mim, mas posso afirmar com total segurança que os autores do Novo Testamento (ou pelo menos alguns dentre eles) acreditavam na versão enoquiana sobre os anjos que desistiram do Céu para viver com as filhas dos homens. Ouçam o que nos diz o apóstolo Pedro em sua segunda carta (2,4):

“Porque se Deus não perdoou aos anjos que pecaram, mas havendo os lançado no inferno, os entregou às cadeias da escuridão, ficando reservados para o juízo”.
   
  Agora comparemos as suas palavras com as declarações de Judas versículo 6:

“E aos anjos que não guardaram o seu principado (outras versões dizem: estado original), mas deixaram o lugar da sua própria habitação, reservou na escuridão, e em prisões eternas até ao dia daquele grande juízo”.
    
    É fácil notar que ambos os apóstolos estão tratando do mesmo assunto e que conscientemente fazem referência ao livro de Enoque. Observem que Pedro diz: “Deus não perdoou aos anjos que pecaram”. Ao passo que Judas escreve: “Os anjos que não guardaram o seu principado”.

     É significante, pois no que concerne à citação de Pedro, onde se diz que Deus vetou o seu perdão aos anjos que pecaram, há duas considerações a serem feitas. A primeira é que foi Enoque quem nos escreveu que os anjos rebeldes buscaram o perdão divino logo depois de haverem contra Ele se rebelado, e, evidentemente, o Grandioso Deus o negou. Então, quando Pedro diz que Deus não perdoou aos anjos que pecaram, ele indubitavelmente está citando o texto de Enoque.

     A segunda consideração a ser feita é que Pedro vai assinalando que os anjos pecaram... Ora, ninguém jamais se questiona acerca da natureza deste “pecado” angelical, e é compreensível, já que os nossos teólogos, apegados às suas idéias fixas, sem reconsiderar, associam esse pecado à original rebelião de Lúcifer e seus anjos. Mas obviamente não era nisso que os apóstolos estavam pensando quando se deram a discorrer sobre a desobediência angelical.

     E uma vez que estivessem aludindo aos relatos enoquianos (alguém ainda tem dúvidas?), vale lembrar que esse filho de Jarede, na condição de primeiro profeta e escritor sagrado, deixa bem claro que o pecado dos anjos, pelo qual Deus os lançou no abismo, outra coisa não foi senão o fato de terem eles abandonado o seu estado original de santidade (e o texto de Judas nos permite semelhante interpretação) para se envolverem sexualmente com as filhas dos homens.

     Não hei de negar que tal relacionamento pareça inconcebível e que aos espíritos mais racionais essa abordagem deva soar como funesta heresia. Mas não esqueçamos que isso não se trata de um fato novo e que desde a primeira infância da história da bruxaria, ou mesmo nos círculos mais secretos das sociedades satanistas, é marcante o interesse e a atração que os espíritos decaídos têm demonstrado pelo sexo feminino. E são inumeráveis os depoimentos de pessoas que garantem haver mantido relações sexuais com os demônios.

     Pode até parecer impossível, mas ainda não se provou o contrário. O que sei com certeza é que os próprios pais do cristianismo primevo tinham particular apreço pelos escritos de Enoque. Isso deve servir para nos fazer recordar que o filho de Jarede também foi um santo profeta do Deus Altíssimo. Mas se atentarmos bem, notaremos que mesmo entre as teologias mais conservadoras do cristianismo, existem, imbutidamente, traços de uma interpretação em favor da relação sexual entre os seres espirituais e as representantes humanas.
  
      Essa missiva é uma prévia do meu livro: A História Secreta Dos Anjos, que foi escrito há alguns anos e que neste momento está sendo reeditado e acrescentado. Tratarei mais detalhadamente do assunto neste trabalho. Esperem os leitores até que ele esteja pronto.