quarta-feira, 17 de setembro de 2014

O Mistério da Novilha Vermelha



Outro dia, depois de haver ministrado em um seminário de escatologia, fui abordado por um moço que me fez a intrigante indagação: "Qual a relação existente entre o sacrifício da décima novilha vermelha e a profecia da segunda vinda de Cristo?".

Eu sabia aonde ele pretendia chegar, mesmo assim tratei de responder: - Nenhuma! Ele então reagiu, como que desejando me colocar contra a parede: "Você está enganado, porque li um livro do pastor fulano de tal, onde ele dá todas as explicações sobre a estreita ligação do sacrifício da décima novilha vermelha e a promessa da segunda vinda de Jesus!"

Por coincidência, eu possuo o referido livro e, por vez, trago o seu autor sob o merecido respeito. Mesmo assim, devo explicar que a relação do sacrifício da bezerra vermelha com o cumprimento da profecia do retorno do Senhor é praticamente nula. E os meus leitores mais persistentes devem ter percebido que o estudo da religião judaica com toda a sua sabedoria, tradições e lendas tem sido uma ocupação constante para mim.

Pois bem, o tema acima suscitado está profundamente arraigado na tradição dos judeus, da qual sou contumaz pesquisador e defensor. No entanto, e esforçando-me para evitar que o meu leitor seja conduzido ao erro, devo esclarecer que o estudioso da área precisa ser criterioso quanto à aplicação das tradições judaicas na interpretação da Bíblia bem como na associação teológica.
Isso porque a despeito de sua milenar sabedoria e riqueza, a tradição dos judeus se divide em pelo menos três ramos distintos, a saber: a tradição religiosa, a tradição folclórica e a tradição mística. Quando o bom investigador souber fazer a devida distinção entre estas três classes de tradições judaicas ele certamente estará habilitado a aplicá-las na exegese bíblica.

E em qual destas três classes se encaixa a tradição que liga o sacrifício da novilha vermelha a profecia da aparição do Messias? - Isso, nos o explicaremos logo mais, porque primeiro precisamos saber o que vem a ser sacrifício da bezerra vermelha.

Os inimigos do judaísmo deviam reconsiderar, pois apesar de a ordenança bíblica ter sido prescrita por Moisés em Números capitulo 19, as Escrituras Sagradas pouco dizem quanto ao significado do sacrifício, sua importância e extensão. Logo, o máximo que podemos extrair, nós o devemos à tradição religiosa de Israel. E ainda assim, até os mais renomados doutores do judaísmo tiveram de trilha na bruma do segredo, conquanto sem o capitoso pedantismo admitiram através da longa história ignorar o real significado do sacrifício da novilha vermelha, afirmando, enfim, que este é um dos cinco grandes mistérios da Torah para os quais não existem racionais respostas. Tais mestres judaicos, inclusive, apelaram para o gênio do rei Salomão, no afã de esclarecerem que mesmo o homem mais sábio do mundo havia estagnado diante de tão insondável segredo.

Mas a suposta ligação do sacrifício da bezerra vermelha com a promessa da vinda do Senhor tem mais a ver com o folclore nacional do que com a verdadeira tradição religiosa de Israel. Os que defendem essa idéia tomam como base a alegação segundo a qual apenas sete ou nove bezerras vermelhas foram oferecidas em sacrifício ao Senhor durante toda a história sagrada dos judeus. E nesse ponto o folclore pretende se aproximar bastante da genuína tradição, pois atesta que a primeira novilha foi oferecida por Moisés, a segunda por Esdras, e que as demais cinco ou sete teriam sido sacrificadas desde a reforma religiosa de Esdras até aos dias do ministério terreno de Cristo.

A primeira parte da alegada interpretação procede e é perfeitamente justificável, conquanto esteja comprovado que os hebreus negligenciaram o grosso do simbolismo religioso e ritualístico da sua lei desde a morte de Moisés até à época da reforma de Esdras e Neemias. Entrementes, permitir-se supor que apenas cinco ou no máximo sete novilhas desta natureza tenham imoladas desde os dias de Esdras até à época da destruição do templo sob Vespasiano é por demais temerário e extrapola as raias do que se permite à especulação.

Primeiro porque o sacrifício da novilha vermelha, aliado à imolação do bode expiatório, era, por assim dizer, o mais importante dentre todos aqueles prescritos pela lei local. Em segundo lugar, a história dá conta de que os anos entre a reforma de Esdras e a destruição do templo salomônico sob a máquina romana haviam sido marcados por um zelo religioso jamais visto em Israel, somando-se a isso o fato de que o judaísmo daquele período possuía verdadeira mania em relação aos rituais de purificação, dos quais o sacrifício de uma novilha ruiva era o principal. Em terceiro lugar, tanto a Epístola aos Hebreus quanto a Carta de Barnabé, falam do sacrifício da novilha vermelha como de algo que era praticado com freqüência.

Mesmo assim, os defensores desse conceito afirmam que o fato de haverem sido sacrificadas tão poucas novilhas vermelhas estava justificado pela raridade da espécie. Mas não é o que nos parece. Moisés não teve dificuldades para encontrar uma bezerra vermelha em pleno deserto, e Esdras não precisou contar com a sorte para obter o mesmo. E ainda que o encontrar uma bezerra de pêlos ruivos não fosse uma tarefa fácil, os lideres de Israel, dada a importância do sacrifício, podiam produzir os seus rebanhos a partir da seleção natural.

Outrossim, e admitindo-se que a novilha ruiva fosse uma espécie rara, que relevância teria o seu sacrifício consoante à profecia messiânica?  - Para ser sincero, nenhuma! E vou explicar a razão, pois acontece que a tradição do suposto profetismo em torno do sacrifício da décima novilha vermelha é folclórica e só existe porque os rituais da lei acabaram sendo interrompidos pela destruição do templo levítico. Em outras palavras, ela não existiu enquanto o santuário esteve de pé!

Por outro lado, é perfeitamente compreensível que com a futura e profética restauração do templo de Salomão, e com o retorno dos rituais da lei, o sacrifício da novilha vermelha volte a ser observado. E sabendo-se que a restauração do templo tem perfeita e real ligação com a aparição do Messias (em glória e majestade), a imolação desta novilha, seja ela a décima ou a centésima, deverá preceder à sua parousia. Não obstante, esta há de ser uma conseqüência natural do retorno às praticas da lei com todos os seus rituais sagrados, mas não um anúncio profético da imediata aparição do Salvador.
Fiquem com Deus!