terça-feira, 10 de junho de 2014

Curso de Escatologia Estudo 1 A doutrina da Morte e o Universalismo de Jeová






Leitura Bíblica: Hebreus 2. 14, 15
“E, visto que os filhos participam da carne e do sangue, também Ele participou das mesmas coisas, para que pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo; E livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão”.
                                                                                                                         
INTRODUÇÃO

     A escatologia é resumidamente uma doutrina das últimas coisas, e do ponto de vista histórico, cultural, religioso e dogmático ela surgiu relativamente tarde entre os filhos de Israel. O primeiro e definitivo contato do povo de Deus com a escatologia universalista aconteceu apenas nos dias dos profetas Ezequiel e Daniel, na época em que os seus compatrícios estavam exilados nas terras de Babilônia. Antes disso, o povo da promessa havia se mantido totalmente alheio ao plano divino para o glorioso futuro do planeta Terra.

       A providência divina assim operou porque se exigia que o seu povo amadurecesse e viesse à consciência de sua verdadeira missão no mundo. O processo foi lento e o desenvolvimento religioso dos judeus só atingiu o pleroma depois que o primeiro santuário foi destruído sob Nabucodonosor e os filhos de Israel deixaram de pertencer à religião do templo para se tornarem em o povo do livro – a Bíblia. O objetivo do presente estudo será, portanto, demonstrar como a escatologia surgiu entre os hebreus e as formas pelas quais ela veio a se tornar o verdadeiro pilar da religião de Jeová e também da igreja de Cristo.

O Conhecimento de Deus

      Na religião patriarcal de Abraão, Isaque e Jacó não havia lugar para uma doutrina das últimas coisas, pois todas as expectativas religiosas do mundo antigo estavam condicionadas ao conhecimento que os seres humanos possuíam em relação ao seu deus. E há de ficar aqui demonstrado que na compreensão religiosa da época, o poder e a área de atuação de um deus se limitavam à geografia da sua própria religião. Isto é, existiam milhares de deuses, porém, nenhum deles possuía o total controle do mundo. Eram divindades tribais, cujos poderes estavam confinados a uma montanha, um vale, um rio, um deserto, uma cidade, uma nação...

       Essa religião primitiva não podia admitir a existência de um único Deus, Criador e Sustentador do universo, mas de várias divindades que viviam guerreando entre si. Também não havia lugar para um Deus Todo-Poderoso, posto que a soberania de um deus só durasse até ao momento em que o seu poder fosse desafiado e subjugado por outro deus. Em conseqüência disso, era inútil estabelecer uma doutrina das últimas coisas, pois o futuro da sociedade se confundia com a sorte do deus ao qual ela servia, sendo, portanto, oscilante e incerto. Por este motivo toda e qualquer profecia a ser anunciada tinha a obrigação de se cumprir durante os dias da vida daqueles que a escutavam, porque na arena dos deuses os combates jamais cessavam, e de um momento para o outro o destino da humanidade podia mudar para melhor ou para pior.
        
Adonai ou mesmo El-Shaddai, o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, também não passava de uma divindade tribal. Ele não era o Deus de toda a Terra, mas tão somente dos patriarcas aos quais escolhera para deles formar um povo para o seu Nome. E em todo o caso, os descendentes de Abraão viveram quase que em total ignorância acerca da real Soberania de Yahweh. Em parte, a deficiência que os judeus tiveram em relação ao conhecimento de seu Deus foi fruto do ostracismo cultural da nação e do exclusivismo da religião local.

A Religião Ancestral

     É possível que o traço mais marcante da religião do mundo antigo tenha sido a proeminência da imagem do patriarca - o principal fundador de uma família ou linhagem. Nos moldes da religião ancestral, o mundo dos mortos era tão somente um país além, onde as almas de todos os homens ficavam confinadas para sempre após a morte. Não se tratava de um inferno chamejante onde os pecadores estavam sendo punidos pelos crimes cometidos durante a vida, mas um reino do submundo onde os espíritos descarnados podiam levar uma existência mais ou menos parecida com aquela que tinham enquanto estiveram sobre a terra.

       De acordo com os conceitos de então, a imagem do patriarca sobressaía de tal modo que ele podia, no Hades, ser comparado a um pequeno deus em torno do qual eram realizados cultos regulares entre aqueles parentes que ainda viviam. Entre gregos e romanos essa espécie de culto era denominado de a religião dos “Manes”. No mundo do Antigo Testamento, porém, ela ficou conhecida como a religião dos “Terafins”, o qual nada mais era do que a adoração da estátua de um patriarca já falecido.  Esta forma de culto era terminantemente execrada na Lei de Deus, todavia, ela esteve em voga entre os hebreus até aos dias da deportação para a Babilônia, conquanto a religião da Torah houvesse se mostrado insuficiente quanto às respostas acerca da existência após a morte, enquanto que o culto dos Terafins oferecesse ao menos um pouco de alento em relação à vida no além.

O Mundo dos Mortos

      O Deus de Abraão, de Isaque e Jacó não possuía nenhuma autoridade no mundo dos mortos. O inferno, como hoje o dizemos, era um país independente e por isso mesmo tinha de ser governado por suas próprias divindades. Observem que o salmista Davi se expressa em tom de lamento no tocante à jurisdição de Jeová sobre aqueles que partem deste mundo: “Porque na morte não há lembrança de ti; no sepulcro quem te louvará?”. Salmo 6. 5.

       Davi assim dizia porque dentro do conceito geral da sua religião, o Sheol ou mundo dos mortos, estava fora dos domínios de Deus. Isso equivale a dizer que este não era um lugar de tormentos, reservado para a punição dos pecadores. Longe disso. No inferno não existia distinção moral, mas apenas social e tal prerrogativa excluía qualquer possibilidade de os seus habitantes serem ali punidos pelos delitos praticados em vida. Em outras palavras, essa forma primitiva de religião permitia ao homem imaginar que o seu compromisso para com Deus só tinha validade até quando durasse a vida sob o sol, já que com a morte todos os indivíduos acabavam se libertando das obrigações e responsabilidades existentes entre eles e Jeová.

O Universalismo de Jeová

       Historicamente falando, a escatologia nasceu para os judeus a partir do momento em que eles passaram a conceber a idéia de que Jeová não era apenas o Deus de Israel, mas que possuía total domínio sobre a Terra, o Céu e o Inferno. A revelação desse universalismo já havia sido antecipada pelo profeta Isaías, porém os hebreus só a aceitaram depois que a sua nação foi deportada para Babilônia. Ezequiel e Daniel foram os principais responsáveis pelo aparecimento da literatura apocalíptica, e por conta disso, eles inauguraram a esperança escatológica dos judeus. A Daniel, por exemplo, foi confiada a revelação da atuação e da interferência do poder de Deus sobre o governo dos homens. 
       O livro que leva o seu nome é, por assim dizer, um resumo da dança dos grandes impérios mundiais, os quais devem se erguer e cair um após o outro, até que venha o Messias Judeu para estabelecer o Reino de Deus sobre a Terra.

       Esse programa divino, tal como revelado a Daniel, nada mais é senão o panorama geral da escatologia, devidamente apresentado em suas distintas etapas. A profecia das Setenta Semanas, por exemplo, engloba o retorno dos judeus à terra da promissão, a restauração da religião do templo e da própria cidade de Jerusalém, o aparecimento do Messias, sua morte, ressurreição e retorno para junto do Pai, seguido por uma nova destruição do santuário, a diáspora geral dos judeus, a inauguração da era dos gentios simbolizada pelo nascimento da igreja, a vinda do anticristo, o retorno do Messias em glória, o julgamento das nações, a instauração do milênio, a ressurreição geral dos mortos e o juízo final.

 A Justiça Divina

     Devido à deficiência da religião primitiva, os filhos de Israel não puderam compreender o poder de Jeová e assim viveram em desobediência a Ele por acreditarem que depois da morte haveriam de se libertar dos compromissos que tinham perante o Deus nacional. A verdade é que este sentimento enganoso deu lugar à anarquia entre os judeus, pois se de fato todas as obrigações do homem para com Deus diziam respeito apenas ao tempo de duração da vida sob o sol, e que no Sheol-Hades não existia nenhum tipo de punição pelos pecados cometidos sobre o mundo, por que razão deviam eles se abster do mal? 
    A religião ensinava que a bênção e o castigo de Jeová alcançavam o homem apenas enquanto ele vivesse e mesmo assim era preciso que estivesse dentro do espaço geográfico da jurisdição do Deus nacional. Por outro lado, os anarquistas já haviam percebido que a piedade custa caro e que neste mundo o justo padece e sofre, enquanto o ímpio segue prosperando. Então, com total desdém eles podiam se voltar para o mensageiro divino e dizer: “Comamos e bebamos porque amanhã morreremos”. Isaías 22. 13.

     Quando, porém, os israelitas foram deportados para a Babilônia e ficou comprovado que Jeová é o Deus de todo o universo e que a sua justiça se estende para além do inferno, então eles se depararam com uma nova e surpreendente realidade, isto é, que os pecados praticados em vida hão de receber a merecida paga mesmo no mundo além. Desde então se despertava a consciência da justiça divina que pune os pecados dos ímpios e galardoa a retidão dos justos mesmo depois da morte. Agora o inferno deixava de ser uma habitação melancólica, porém, tranqüila para os falecidos, e já se tornava um assombro para os vivos.

O Seio de Abraão

     Enfim descobriu-se que no Sheol existia sim tanto a distinção social quanto a moral. Ali os ímpios eram castigados e os justos recebiam a recompensa. Então se entendeu que devia existir igualmente uma distinção geográfica entre o espaço reservado para o suplício dos impenitentes e aquele destinado à felicidade dos santos. Eis aí o princípio da revelação do Paraíso, o lugar de descanso dos homens piedosos. Os judeus do período interbíblico o chamavam de Seio de Abraão.

A Ressurreição dos Mortos

       Contudo, o profeta Isaías (26. 19) havia antecipado, e Daniel bem o ratificou, que haverá uma ressurreição geral para os mortos. Isso significava que aqueles espíritos descarnados e confinados no inferno deviam voltar à vida para serem julgados por Deus a fim de que fossem condenados ou justificados em seus próprios corpos.
     A nova realidade exigia a existência de um tormento ainda maior para os ímpios após a condenação, bem como um lugar de total e eterna felicidade para aqueles que temiam a Jeová. Foi então que entrou em evidência a necessidade do Lago de Fogo (para os impenitentes) e da Nova Jerusalém (para os que preferiram amar e obedecer a Deus). Mas em ambos os casos estas eternas moradas eram físicas e geográficas, devendo, portanto, serem habitadas por seres humanos compostos de espírito, alma e corpo.