quinta-feira, 8 de maio de 2014

Apocalipse de Paulo - Parte IV



21 – Nisso o anjo me disse: Tudo o que eu te mostrar e tudo o que tu aqui escures não o deverás contar a ninguém sobre a terra. Então ele me levou me mostrou coisas inefáveis, a respeito das quais não estou autorizado a falar.  E outra vez ele me disse: Segui-me e te mostrarei as coisas a respeito das quais terás a perissão de falar.

      E ele me fez descer ao segundo céu e me pôs outra vez  naquele firmamento, e dali me mostrou os portões do paraíso. Ele me vez ver uma pequena abertura onde me foi possível contemplar o começo de suas fundações sobre um rio cujas águas desciam até a terra. Então perguntei ao anjo: Senhor, o que é este rio de água? Ao que ele me respondeu: Este é o Oceano. De repente, dirigi minha atenção ao céu e percebi que de lá emanava uma luz que iluminava a terra em baixo. 

     Entretanto, aquela terra era sete vezes mais brilhante do que a prata. E eu novamente me dirigi ao anjo e lhe perguntei: Senhor, que lugar é este?  Ele logo me respondeu: Esta é a terra da promessa. A caso tu ainda não leste o que acerca dela está escrito: “Bem-aventudados os mansos, porque eles herdarão a terra?” As almas dos justos, depois que elas saem do seu corpo,permanecem aqui durante algum tempo.

     Eu outra vez falei ao anjo: Enfim, a partir de quando esta terra há de ser revelada aos olhos dos homens?  E o anjo me respondeu: Quando o Cristo, cujo Nome vós proclamais, enfim vier para reinar, então a luz vinda de Deus detruirá a primeira terra e a dissolverá. Depois disso, a terra da promessa será revelada; ela descerá do céu tal como o orvalho que desce das nuvens. Nesse mesmo tempo o Senhor Jesus Cristo, o eterno rei, se revelará juntamente com os seus santos, para habitar sobre a terra e reinar ali durante mil anos. Estes hão de comer das delícias as quais hei de te mostrar logo mais.

   22-  Continuei admirando aquela terra e vi um rio que transbordava leite e mel. Nas margens deste rio cresciam árvores cheias de belos frutos. Cada árvore dava o seu fruto doze vezes por ano, sendo eles vários e diferentes. Também vi a obra da criação e todos os feitos de Deus. Ali eu vi palmeiras, algumas delas mediam vinte côvados e outras  mediam dez. E como eu já disse, aquela terra resplandecia sete vezes mais do que a prata refinada. As videiras deste país estão cheias de frutos, desde as raizes até ao topo. Cada uma delas tem até dez mil galhos e em cada galho dez mil cachos, em cada cacho dez mil uvas. Mas existem outros tipos de árvores ali.Milhares e milhares delas  e os seus frutos nascem na mesma proporção daqueles das videiras. Voltei-me para o anjo e lhe falei: Por que é que as árvore aqui dão tantos frutos?  A sua resposta foi: É porque o Senhor Deus da abundância distribui as suas dádivas abundantemente àqueles qua são merecedores, pois que estando eles no mundo, de tudo se privaram por amor ao seu  santo Nome.  

       Mas eu ainda insistia com o anjo: Senhor, são estas as promessas que o Senhor Deus tem feito aos santos?  E ele imediatamente respondeu: Não! Na verdade, existem promessas sete vezes maiores do que estas! Porque eis que te faço saber que todas as vezes que morre um santo e a sua alma vem a este lugar e contempla as promessas e todas estas boas dádivas que Deus tem preparado para os santos, ela  contempla,se emociona e chora, dizendo: “Como foi que eu pude abrir a minha boca  para pronunciar coisas irritantes ao meu próximo? (Não deveria, em vez disso, ter gasto o meu tempo falando destas coisas maravilhosas?)”.

    Voltei então a indagar do anjo: Estas são as únicas promessas de Deus?  A resposta logo veio: O que tu acabaste de ver são bênçãos reservadas ao marido que soube manter o seu casamento em pureza e castidade. Mas para as virgens e para aqueles que têm fome e sede de justiça, e aos que afligem a sua alma por amor ao Senhor, eis que Ele lhes recompensará com promessas sete vezes maiores do que estas que tu agora contemplas.

       Havendo ele me tomado do lugar onde  eu tinha visto estas coisas, eis  que surgiu um rio cujas águas eram branquíssimas, mais alvas do que o leite!

     Ao contemplá-lo, eu logo falei ao anjo: O que é isto?  E assim ele me respondeu: Este é o Lago Akerusian, onde está a cidade de Cristo, porém, a nenhum homem é dada a permissão para lá entrar.Este é o caminho que conduz a Deus, e se alguém,sendo fornicário ou ímpio, volta e se arrepende de suas obras más e produz frutos dignos de arrependimento, ao deixar o corpo, primeiramente ele é trazido para este lugar, para adorar a Deus, e o Senhor ordena ao anjo Miguel que o batize nas águas do Lago Akerusian. Assim, ele conduz esta alma à cidade de Cristo, onde já estão aqueles que o adoram sem pecados.
  
        Eu estava boquiaberto diante do que via, pelo que louvei ao Senhor por tudo o que Ele me havia mostrado.

23 – Mas outra vez o anjo me falou: Segue-me, pois irei te conduzir para dentro da cidade de Cristo. Então ele ficou de pé no Lago Akerusian e me pôs em um barco de ouro. Desde então eu vi três mil anjos que cantavam um hino diante de mim enquanto íamos nos aproximando da cidade de Cristo. Agora os habitantes daquela cidade se alegravam grandemente ao verem que  eu iam me acercando deles. Então entrei e contemplei a cidade de Cristo. E eis que ela estava totalmente edificada em ouro. Tinha doze muros e doze torres; uma torre em cada muro, mas no meio dela havia doze mil torres fortificadas. Cada torre distava da outra cerca de um estádio (180 a 220 metros). Então eu perguntei ao anjo: Senhor, quanto mede um estádio aqui no Céu?  Ele me responde e disse: é tão grande quanto a distância entre Deus e os homens quando estão na terra. Não te admires quanto a isto, pois a cidade de Deus é incomparavelmente grande.
      
      Em volta da cidade eu vi doze portões de rara beleza, e avistei quatro rios que a rodeavam. O primeiro rio era de mel. O segundo era de leite. O terceiro era de vinho e o quarto era de azeite. Fiquei grandemente admirado, e falei ao anjo: Que rios são estes que circundam a cidade? Ao que ele me disse: Estes são os rios que fluem abundantemente para aqueles que vierem morar nesta grande cidade. E estes são os seus nomes: O rio de mel se chama Phison; o rio de leite se chama Eufrates; o rio de vinho se chama Tigre e o rio de azeite se chama Gion. Os justos, quando estão no mundo, padecem muitas privações e voluntariamente se abstém destas coisas por amor ao Senhor. Portanto, quando eles aqui chegarem, hão de ser recompensados com bênçãos sem medidas.

24 – Ao passar por um dos portões eu vi diante da cidade umas árvores enormes as quais não davam frutos, mas apenas folhas. Vi alguns homens dispersos entre estas árvores e eles choravam muito ao verem alguém passar para dentro da cidade. Mas aquelas grandes árvores não se compadeciam deles, antes zombavam de sua dor. Eu me compadeci deles e chorei. Em seguida, perguntei ao ano que me conduzia:  Senhor, quem são estes que não recebem permissão para entrar na cidade de Cristo?  E o anjo me repsondeu: Estes são  aquelas pessoas que jejuavam dia e noite e que tinham grande zelo pela renúncia, mas que  nunca removeram o orgulho do coração. Eles viviam de aparência a  fim de receberem os elegios dos homens, porém, eram incapazes de fazer qualquer coisa em favor do próximo. Quando encontravam alguém pelo caminho, eles só o saudavam se este fosse um dos seus amigos. E para aqueles a quem queriam bem eles abriam a porta da sua casa, e se fizessem um pequeno favor a quem quer que fosse, eles logo saíam anunciando aos quatro ventos.

       Ao escutar este relato eu indaguei o anjo: Que será então, senhor?  O orgulho que praticavam foi capaz de privá-los de entrar na cidade de Cristo?  O anjo me disse: O orgulho é a raiz de toda a maldade. Acaso são eles melhores do que o Filho de Deus, o qual andou entre os judeus em grande humildade?
      
      Mas eu novamente lhe perguntei: Por que então aquelas grandes árvores os desprezam, acrescentando-lhes o infortúnio?  E o anjo com paciência me respondeu: Todo o tempo que estiveram sobre a terra eles serviam a Deus com jejuns fingidos e não se incomodavam de saber que todos conheciam o seu fingimento e que os reprovavam por isso. Eles não se importaram, não se arrependeram nem desistiram de ser orgulhosos. É por esta razão que as árvores agora zombam deles.
       
       Fiz outra pergunta ao anjo: Mas se foram orgulhosos, por que motivo receberam a permissão de adentrarem aos portões da cidade?  A esta questão o anjo me deu a seguinte resposta:  É por causa da grande bondade de Deus. Eles ficarão ali até ao dia da chegada de Cristo com todos os seus santos. 

     Quando o Senhor vier com todos os seus redimidos, então eles terão permissão para entrar na cidade santa. Mas por enquanto devem permanecer ali, até que Cristo, o Rei Eterno, venha com todos os seus santos e justos. Quando Ele vier, os santos pedirão por estes e o Senhor os ouvirá e permitirá que os tais entrem na cidade. Mas isto só deve acontecer depois que eles contemplarem aqueles que servem a Deus com jejuns sinceros e que levam uma vida de real santificação.

25 – Dali eu fui conduzido pelo anjo até o rio cujas correntes são de mel. Ali eu vi os profetas Isaías, Jeremias, Ezequiel, Amós, Mequéias e Zacarias. Enfim, todos os profetas, maiores e menores. Eles me saudaram quando ali cheguei. Então falei ao anjo: Que caminho é este que vejo?  Ele assim me respondeu:  Este é o caminho dos profetas. Todos aqueles que negam a si mesmos para fazer a vontade de Deus, ao saírem do mundo são trazidos para adorar na sua presença. Então o Senhor ordena a Miguel que os leve para dentro da cidade, a este lugar onde ficam os profetas. E os profetas os recebem com grande alegria como a verdadeiros amigos, pois eles também cumpriram a vontade de Deus.

As Misteriosas origens do Rei Davi



     
Ao publicar o meu post sobre as duas genealogias do Senhor Jesus, deixei no ar a insinuação de que em termos biológicos o nosso Salvador não possuía nenhuma ligação com a linhagem real de Davi. Isso porque, como ficou ali demonstrado, e tal como o próprio Evangelho esclarece, Jesus não era filho biológico do carpinteiro José, e que, por outro lado, Maria sua mãe não descendia de Judá, mas de Levi.

       Pois bem, essa é apenas uma parte da problemática, porque existe uma versão alternativa a respeito das “verdadeiras” origens do rei Davi e ao que parece ele não era descendente da tribo real de Judá, mas da casa sacerdotal de Levi. E por mais que esta insinuação possa parecer estranha e totalmente exeqüível, ela não é nova e de certa forma pode ser corroborada por alguns textos da Bíblia, os quais nos permitem conjeturar que Davi não era filho biológico de Jessé.

       Um bem conhecido documento judaico (Êxodo Rabbah) declara que Davi era da tribo de Levi, procedente da casa profética de Miriã, a irmã de Moisés. As Sagradas Escrituras não confirmam tal alegação, porém, há suspeitas de que Davi não era filho sangüíneo de Jessé, o qual de fato fora um legítimo descendente da Tribo de Judá. Para começar, ao lermos I Samuel 16. 5-10 ficamos sabendo que Jessé tinha sete filhos e que os fez passar um a um perante o profeta Samuel. Porém, Davi não é contado entre estes.

       Um pouco adiante, no capítulo 17.12, o texto bíblico afirma que esse Jessé já era bem adiantado em idade e que tinha não sete, mas oito filhos, incluindo Davi, que era bastante jovem.

       Entrementes, o livro de I Crônicas 2. 13-15 relata que Jessé houvera gerado sete filhos, sendo Davi o último deles. Bem, os textos acima citados nos fazem saber que de fato Jessé fora pai biológico de sete e não oito filhos homens. Se compararmos I Samuel 17. 13 com I Crônicas 2. 13, ficará esclarecido que o nome de Siméia, o terceiro filho de Jessé, fora excluído da lista e que Davi entrara para a soma dos sete.

       Mas Siméia de fato era o terceiro filho de Jessé, ao passo que Davi só é introduzido posteriormente. O texto da Bíblia nos faz lembrar de que na época do rei Saul, Jessé já era bem velho e que Davi não passava de um tenro menino. Isso pode diminuir ainda mais a possibilidade de ele haver sido o verdadeiro pai do futuro rei de Israel.

     Que aconteceu então? Parece pouco provável, mas se de fato Jesus teve alguma ligação com a casa real de Davi, esta só poderia ser possível através da família de sua mãe Maria, pois o Senhor, além de não ser filho biológico do bondoso José, também não podia descender da tribo de Judá, uma vez que o sangue que corriam em suas veias era segundo a herança genética de Maria, a qual, segundo o Evangelho, não pertencia à linhagem dos reis de Israel, mas à casa sacerdotal levítica.

       Agora, se Maria era da tribo de Levi, e Davi o houvesse igualmente sido, estaria então confirmada uma real ligação de sangue entre Jesus Nazareno e o grande rei de Israel. Acontece que não sendo Davi um descendente de Judá, como pôde ter se tornado rei sobre a nação, já que a profecia messiânica ligava o Ungido e prometido Rei, Filho de Davi, à casa patriarcal de Judá?

       Caso as supracitadas suspeitas pudessem ser comprovadas, haveria apenas duas maneiras de ligar a pessoa de Jesus ao histórico rei Davi e, por conseguinte, Davi a Judá. A primeira hipótese é deveras subjetiva e até certo ponto leviana, pois quer sugerir que Davi, não sendo filho biológico de Jessé, viera ao mundo como fruto de um relacionamento extraconjugal entre a sua mãe e um suposto descendente da tribo de Levi.

       O pastor Lucas do Espírito Santo contou-me haver consultado um post no blog do também pastor Nelson Rocha segundo o qual Davi teria sido gerado através de um relacionamento adulterino. Peço ao meu leito que me perdoe por não haver pessoalmente consultado a referida fonte, mas me foi informado que o pastor Nelson Rocha usou o texto do Salmo 51. 5 para enfatizar o seu raciocínio. O mencionado texto diz o seguinte:

“Eis que iniqüidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe”.

       Eu francamente não vejo aqui nenhuma insinuação acerca da possibilidade de a mãe de Davi o haver gerado a partir de uma traição conjugal, apesar de existirem elementos históricos capazes de viabilizara algo desta natureza. Mas eu não conheço as fontes que o pastor Nelson Rocha teria usado para desenvolver a sua tese e por esta razão evitarei comentários.

       A segunda hipótese me parece mais razoável. Ela diz respeito a uma possível adoção. Neste caso, Davi pode ter sido neto e não filho de Jessé. O que teria acontecido foi que o seu genuíno pai não era descendente da tribo de Judá, mas que sendo levita casara-se com uma das filhas de Jessé. Por se tratar de uma prática bastante comum em Israel e de estar perfeitamente corroborada com as narrativas genealógicas deste país, me disponho a levar a hipótese em consideração. 

       Em todo o caso, Davi não estaria habilitado a ser sequer candidato à monarquia de Israel, pois aparentemente essa dignidade estava restrita apenas aos descendentes de Judá, e como a ascendência de alguém só podia ser contada a partir da linhagem paterna, Davi seria contado entre os filhos de Levi, cuja esperança e ofício eram o sacerdócio. Mas se Jessé o houvesse adotado legalmente, e de fato pode ter sido este o caso, então ele automaticamente seria admitido na linhagem real de Judá.

       Porém, alguém com razão há de argumentar: Seria isto viável? E eu declaro que essa questão soa como armadilha aos pés daquele que a suscitou. Porque se é verdade que Davi não podia ser admitido na linhagem real de Judá por meio da adoção (embora esteja comprovado que o seu possível avô tenha sido um verdadeiro descendente deste patriarca), logo, o mesmo Jesus não podia reclamar para si o título de Rei dos Judeus, pois como todos nós bem sabemos, Ele era filho adotivo de José. Mas ao ser legitimamente adotado pelo carpinteiro de Nazaré, o Senhor imediatamente entrou para a descendência real de Davi, tal como o mesmo Davi houvera se tornado em um descendente de Judá.

       Existem fatos marcantes da vida de Davi que o associam muito à tribo sacerdotal de Levi. Davi era um homem profundamente ocupado com o estudo da lei de Deus. Ele compôs salmos que eram cantados na celebração do culto levítico. Produziu instrumentos musicais para serem adicionados à liturgia da religião nacional. Ele tinha particular preocupação com a Arca da Aliança. Fez os preparativos para a construção do Templo. Comeu os pães sagrados do santuário, destinados apenas aos sacerdotes levitas. Há até quem acredite que ele chegou a realizar os sacrifícios da Lei, os quais só podiam ser executados pelos oficiais da religião local.

       Afinal, de onde vinha todo esse interesse de Davi pelas ocupações oficiais dos levitas?  Também é fato recordar que durante a revolução religiosa do período interbíblico foram compostos vários documentos nos quais ficou registrado a crença judaica segundo a qual o Messias viria não de uma, mas de duas tribos de Israel: Judá e Levi. Será que eles sabiam alguma coisa a respeito das misteriosas origens do rei Davi?

O Testamento de Naftali



      Escutem, meus filhos, ouçam as palavras de vosso pai. Eu sou o filho de Bila, pois uma vez que Raquel concordou em que a minha mãe se deitasse com Jacó em seu lugar, ela concebeu, e me gerou sobre os joelhos dela (Raquel), e foi por essa razão que me chamou de Naftali. Ora, Raquel muito me amou por eu ter nascido sob o seu regaço, e sendo eu ainda jovem ela veio me beijar, e disse: Quem me dera pudesse te dar um irmão do meu próprio ventre! – De onde advém que José lhe tenha sido tão amado, pois era a resposta de todas as orações de Raquel.

       Mas eu sou filho de Bila, filha de Roteu, o irmão de Débora, uma criada de Raquel, a qual havia nascido no exato dia em que a própria Raquel nascera. Roteu era caldeu, da parentela de Abraão, temia a Deus, era bem-nascido e nobre, mas foi tomado cativo e vendido a Labão, que lhe deu a sua criada Euna como esposa. Euna gerou uma filha a quem chamou Zilpa, para recordar do vilarejo em que ela mesma foi feita escrava. Depois ela deu a luz a Bila, e disse: Minha filha tem atração por novidade, pois tão logo nascera foi logo me agarrando o peito para mamar.

2
       Meus pés eram velozes como os de uma corsa, pelo que meu pai Jacó me designou como seu mensageiro oficial e me deu a sua bênção. Porque assim como o oleiro conhece o vaso, o quanto ele comporta e o que ele pode conter, da mesma forma o Senhor sabe construir o corpo do homem de modo a comportar o seu espírito (já que o corpo abriga o espírito que ele merece). E ninguém se diferencia do outro nem pela terceira parte do cabelo, pois o Altíssimo foi perfeito em cada peso e medida de tudo o que Ele criou.

       E assim como o oleiro conhece a utilidade de cada vaso, e a maneira de utilizá-lo, da mesma forma o Senhor conhece o corpo, e quando ele se encurvará para o bem, ou quando se inclinará para o mal. Porque não existe nenhuma propensão ou pensamento que o Senhor não conheça, pois Ele criou o homem em conformidade com a sua imagem. Porque qual a força do homem, tal serão as sua obras; e qual a sua mente, tal a sua aptidão; e qual o seu propósito, tal a sua execução; e qual o seu coração, tal é a sua boca; e qual os seus olhos, tal é o seu sono; e qual a sua alma, tal a sua palavra, seja em conformidade com a Lei do Senhor ou com as obras de Belial.

       Assim como existe uma diferença entre a luz e as trevas, e entre a visão e a audição, assim também existe uma diferença entre homem e homem, e entre mulher e mulher. Isso não significa que alguém seja superior a outro tanto na aparência quanto na mente. Pois Deus criou perfeitas todas as coisas para cada propósito; os cinco sentidos estão na cabeça, mas Ele uniu a cabeça ao pescoço e acrescentou-lhe o cabelo como beleza natural, mas deu o entendimento ao coração, enquanto o excremento ficou para a barriga; o cálamo para a saúde, e o fígado para a ira, e o fel para a amargura, as costas para a força, e assim por diante.
       
 Portanto, meus filhos, sejam zelosos em tudo o que é bom, e temam a Deus, sem nada fazer desordenadamente, ou com desdém, ou que não tenha sentido, pois ninguém usa os olhos para ouvir. De outro modo, ninguém que anda nas trevas pode realizar as obras da luz.

3
       Portanto, não tenham pressa para vos corromper com a cobiça ou com palavras vãs que enganam a alma, pois se mantiverem o silêncio em pureza de coração, aprendereis a fazer a vontade de Deus e a lançar fora os desejos de Belial. O Sol, a Lua e as estrelas não se desviam da sua ordem; assim também vós não deveis converter a Lei de Deus em desordem por meio dos vossos feitos.
      
 Os gentios se afastaram do Senhor e mudaram a sua ordem natural, mas se preocupam em obedecer ao pau, à pedra e aos espíritos do engano. Vós, porém, não sereis assim, meus filhos, mas reconhecereis (ao Senhor) no firmamento, na terra e no mar, e em todas as coisas criadas, a fim de que não vos torneis como Sodoma, que mudou a ordem da natureza. Do mesmo modo que os vigias (anjos) também alteraram a sua natureza, aos quais o Senhor amaldiçoou durante o dilúvio, quando deixou a terra vazia e infrutífera.

4
       Tenho-vos dito essas coisas, meus filhos, porque tenho lido nos escritos de Enoque que há de vir o tempo no qual vos desviareis do Senhor para seguirdes após as impiedades dos gentios, e fareis conforme os habitantes de Sodoma. Então o Senhor fará vir o cativeiro sobre vós, de modo que aos vossos inimigos servireis e sereis humilhados em todas as aflições e tribulações, até que o Senhor vos tenha consumido.
        
Depois disso, quando já estiverdes reduzidos a um pequeno número, então tornareis ao Senhor e o reconhecereis como vosso Deus. E Ele vos fará voltar à vossa terra, segundo a sua grande misericórdia. E será que, depois que voltardes para a terra de vossos pais, outra vez vos esquecereis do Senhor e vos tornareis ímpios. Mas o Senhor vos espalhará sobre a face de toda a terra, até que venha a compaixão de Deus, um homem operando justiça e misericórdia para todos aqueles que estiverem longe ou perto.


5
       No ano quarenta da minha vida, eu tive uma visão na qual o Sol e a Lua estavam parados sobre o Monte das Oliveiras, ao Leste de Jerusalém. E contemplei Isaque, que estava a nos dizer: Lancem mão de todos eles, cada um segundo a sua força. Aquele que os agarrar possuirá o Sol e a Lua. Então nos precipitamos todos de uma vez, e Levi avançou à frente dos outros e agarrou o Sol, e Judá avançou e abraçou a Lua; e ambos foram erguidos, como o são o Sol e a Lua.
     
  Levi se tornou como o Sol, então veio um jovem e lhe entregou doze ramos de palmeiras. Judá se transformou em Lua, e sob seus pés estavam doze raios de luz. Assim correram Levi e Judá e se apoderaram dos outros. E eis que vi um touro com grandes chifres, e ele voava sobre a terra com duas grandes asas de águia às costas. Nós queríamos agarrar aquele touro, mas não o podíamos, pois José se antecipava a nós e o agarrava primeiro e ascendia com ele aos céus. Eu vi, pois estava lá, e eis que surgiu um livro santo no qual se lia: Assírios, Medos, Persas, Caldeus e Sírios hão de escravizar as doze tribos de Israel.

6
       E outra vez, passados sete dias, eu vi meu pai Jacó em pé sobre o Mar de Jamnia, e nós estávamos com ele. E eis que havia um barco a navegar, sem piloto ou marinheiros. E sobre esse barco estava escrita a seguinte legenda: “Barco de Jacó”. Então nosso pai nos dizia: Vinde, entremos no nosso barco. E quando ele abordou, eis que se levantou uma grande tempestade; uma forte tempestade de vento. E nosso pai, que estava segurando o timão, apartou-se de nós. 
       
     E nós, sendo arremessados pela tempestade, éramos arrastados sobre o mar, de modo que o barco se enchia de água, e era esmagado pelas fortes ondas, até que se rompeu.
       Mas José conseguiu escapar em um pequeno bote, e o resto de nós teve de se valer com nove tábuas, sendo que Levi e Judá ficavam unidos. E todos nós fomos levados até aos confins da terra. Mas Levi se vestiu de pano de saco e rogou ao Senhor por nós. E quando a tempestade se acalmou, o barco (ou que sobrou dele) se aproximou da terra em plena calmaria. Então reapareceu nosso pai, e com ele nos alegramos pela reconciliação.

7
       Eu contei essas duas visões (sonhos?) ao meu pai, e ele me disse: Essas coisas hão de se cumprir no seu determinado tempo, depois que Israel tiver suportado muitas aflições. E meu pai outra vez me disse: Eu creio em Deus, e sei que José está vivo, pois tenho notado que o Senhor sempre o inclui na conta dos meus filhos. E com lágrimas ele lamentou: Ai de mim, meu filho José! Tu vives, embora eu não possa te ver!

       Assim, Jacó me constrangia a chorar sob as suas palavras, e eu rasgava o coração, desejoso de lhe dizer que José tinha sido vendido aos ismaelitas, mas temia os meus irmãos.

8
       Portanto, vos tenho anunciado as coisas concernentes ao fim dos tempos, como tudo deverá acontecer a Israel. Digam aos vossos filhos que eles devem se unir a Levi e a Judá, pois é através de Levi que a salvação raiará sobre Israel, e em Judá será Jacó abençoado. E através dessas duas tribos Deus será visto habitando entre os homens sobre a terra para salvar a geração de Israel, pois Deus ajuntará todos os justos que forem encontrados entre os gentios. 

       Se vocês praticarem o que é bom, então os homens e os anjos serão abençoados em vós. E por meio de vós Deus será exaltado entre as nações, e de vós o mal fugirá, pois até as bestas selvagens vos hão de temer. Os anjos também terão afeição por vós. Porque se um homem der boa educação a uma criança, ela há de ter uma boa lembrança. Assim também Deus não se esquecerá de todas as boas obras que os homens fizerem.
       Mas se alguém não pratica o que é bom, então há de ser amaldiçoado pelos homens e também pelos anjos, e por meio dele Deus será escandalizado entre os gentios, pois o demônio fará dele o seu particular instrumento, de modo que as bestas selvagens o subjugarão, pois será odiado do Senhor.

       Porque existem dois mandamentos na Lei de Deus, e com prudência devem ser eles observados. Há um tempo determinado para que o homem se una à sua mulher, e há um tempo determinado para se abster da esposa e se dedicar à oração. Esses são os mandamentos, e caso não sejam cumpridos em sua devida ordem, trarão grandes pecados sobre o homem.

       Esse é um novo mandamento: sejam sábios em Deus e aprendam a ordem dos seus mandamentos e as palavras da Lei, a fim de que Deus vos ame.

9
       E tendo Naftali lhes anunciado todas essas palavras, exortou-os a que removessem os seus ossos até Hebron, a fim de que fosse sepultado junto de seus pais. Então ele comeu e bebeu com alegria, depois cobriu o rosto e morreu. Seus filhos foram obedientes e fizeram segundo o que ele lhes tinha ordenado.