quarta-feira, 9 de abril de 2014

Os Testamentos dos Doze Patriarcas - Dan



Cópia das palavras de Dan, as quais ele falou nos seus últimos dias, aos cento e vinte e cinco anos de sua vida. Porque ele chamou os seus filhos para perto de si e disse-lhes: Atentem para as minhas palavras, ó filhos de Dan; dêem ouvidos às palavras de vosso pai. Eu tenho experimentado no meu coração e durante toda a minha vida que a verdade e a justiça são boas e agradáveis diante de Deus, e que a mentira e o furor Lhe são abomináveis, pois ensinam os homens a praticarem a iniqüidade.

       Hoje vos confesso, meus filhos, que no meu coração me alegrei a respeito da morte de José, um homem bom e leal. Fiquei deveras contente quando ele foi vendido, porquanto Jacó o amasse mais do que a nós. O espírito do ciúme e da bazófia me tinha sussurrado: Tu também és filho de Jacó. E outra vez um espírito da parte de Belial me incitou, dizendo: Tomarás a tua espada e com ela matarás a José. Então o teu pai te amará tanto quanto amou a ele.

       Esse foi o espírito do ódio que me incitou a destruir a vida de José, da mesma forma que um leopardo despedaça a um menino. Mas o Deus de meus pais não permitiu que José padecesse em minhas mãos, de sorte que não encontrei maneiras de lhe dar um fim. Assim também se evitou que duas tribos viessem a ser extirpadas de Israel

2
       Agora, meus filhos, se aproxima a minha morte, pelo que com franqueza vos digo: Apartai-vos dos espíritos da mentira e do ódio e amem a verdade com longanimidade, pois se assim não fizerdes é certo que perecereis. O ódio é cego, e o homem irascível não respeita a ninguém que seja leal. 

Porque ainda que esse lhe seja como um pai ou uma mãe, ele o terá como inimigo, e ainda que lhe seja como irmão, ele o desconhecerá; se for um profeta do Senhor, ele o desobedecerá; se for um homem justo, ele o aborrecerá; e mesmo que seja o seu melhor amigo, ele não o considerará, porquanto, o espírito do ódio o tenha envolvido com o seu malho de engano e lhe cegado os olhos com as trevas da mente para que veja apenas o que lhe é conveniente. Logo, com que se satisfarão os seus olhos, senão com a ira alojada no coração? – Por isso ele tem inveja do seu irmão.

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       A ira é coisa maléfica, pois atormenta a alma daquele que no coração a alimenta. O corpo do homem iracundo é possuído pelo ódio, pois já tem a alma dominada. A ira concede ao corpo todo o poder de que precisa para obrar a impiedade, e depois a alma trata de justificar todos os atos reprováveis que se tem operado. Portanto, se aquele que está irado é um homem poderoso, ele terá tríplice poder odioso. O primeiro poder é para o socorro de seus servos; o segundo é para o seu enriquecimento, pelo qual ele persuade e obra com todo engano; e o terceiro, é que tendo essa influência natural, ele pode trabalhar todo o mal que imaginar.

       Mas se o homem iracundo é um fraco, ele terá duplo poder que também lhe é natural; porque em matéria de ilegalidade a ira pode ser bastante útil. Esse é um espírito que procede sempre da destra de Satanás, trabalhando com toda crueldade e engano para que os seus intentos prevaleçam.

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       Portanto, compreendam que é vã a força do ódio. Porque primeiramente a ira causa provocações com as palavras, enquanto os atos do homem irascível vão se fortalecendo em ira e a sua mente vai sendo perturbada com danos irreparáveis, até que a sua alma esteja completamente cega pelo furor. Portanto, caso aconteça de alguém vos tratar com descaso, não vos deixeis dominar pelo ódio.

       No começo a ira soa agradável aos ouvidos, depois torna a mente capaz de perceber os motivos da provocação. Quando enfim o homem estiver dominado pelo ódio, ele se deixará imaginar que está apenas com raiva. Se algum de vós cair em dano ou ruína, não se aflija, pois esse é o mesmo espírito que faz com que o homem venha a ambicionar as coisas perecíveis da vida, a fim de que seja enganado pelo desejo. Se vos sobrevierem danos voluntários ou involuntários, não vos inquieteis, porque da inquietação surgem a ira e a mentira. Além disso, é duplo prejuízo o ter a ira e a mentira, e elas se revezam na tarefa de perturbar o coração; e uma vez que alma esteja totalmente perturbada, o Senhor se retirará. Então vem Belial e se aloja no homem.

5
       Portanto, estejais atentos aos mandamentos do Senhor e guardeis a sua Lei; evitai a ira e a mentira, para que Deus possa habitar no meio de vós. Pois somente assim Belial fugirá da vossa presença. Cada um fale apenas a verdade ao seu companheiro, e assim não caireis na ira e na confusão, mas habitareis em paz e tereis a Paz de Deus, e a guerra não existirá entre vós. Ao Senhor deveis amar por toda vida, e uns aos outros cordialmente.

       Mas eu sei que nos dias finais vós vos apartareis do Senhor e havereis de provocar a ira a Levi, e contra Judá vos amotinareis, ainda que não prevalecereis contra eles, pois o Anjo do Senhor é quem os guarda, e é por meio deles que Israel subsiste. E será que ao tempo em que vos apartardes do Senhor para operardes todos os tipos de pecados e abominações dos gentios, vos desviando com as mulheres dos ímpios, o espírito do engano virá e em vós habitará com toda malícia.

       Semelhantemente, tenho lido nos escritos de Enoque, e sei que havereis de adotar a Satanás como vosso senhor, de modo que todos os espíritos de fornicação e orgulho se tornarão assunto entre os levitas, e isso será como laço para os filhos do sacerdócio, e os conduzirá a pecar contra o Senhor nosso Deus. Meus filhos também se aliarão aos descendentes de Levi e participarão de todos os seus pecados. Quanto aos filhos de Judá, se tornarão rapaces e saquearão os bens dos homens como os leões que arrebatam a presa.

       Por isso mesmo vós também ireis ao cativeiro e incorrereis nas pragas que sobre o Egito presto hão de vir. Mas quando vos voltardes para o Senhor, então obtereis a sua misericórdia, pois outra vez erguerá o vosso santuário, determinando a paz sobre as vossas cabeças. Ali a salvação do Senhor será levantada sobre vós, pois brotará desde Levi e Judá. Deus fará vir a guerra sobre Belial; porquanto na praia[?] haverá uma vingança e uma vitória. O cativeiro de Belial há de ser saqueado e todas as almas dos santos escaparão, e se converterão ao Senhor aqueles cujos corações são rebeldes, porque Ele dará a Paz Eterna a todos quantos o invocarem.

       Enfim os santos no Éden descansarão e os justos se alegrarão com a Nova Jerusalém, pois será para a eterna glória do Altíssimo. Jerusalém nunca mais há de ser devastada, nem Israel voltará para o cativeiro; porque o Senhor estará no meio deles e entre os homens fará a sua habitação, até que o Santo de Israel reine sobre todos em humildade e pobreza. E aquele que Nele crê também reinará em verdade.

6
       Agora, meus filhos, sejam tementes ao Senhor, e estejam atentos contra Satanás e contra todos os seus espíritos e vos achegueis para Deus e para o Anjo que intercede por vós, porque Ele é o Mediador entre Deus e os homens pela paz de Israel. Ele se levantará contra o reino do inimigo. Esse inimigo está sempre pronto a destruir a todos quantos invocam ao Senhor, e o maligno sabe que no dia em que Israel se converter ao Senhor, o reino do mal será de todo destruído. 

       E o próprio Anjo da paz fortalecerá Israel a fim de que ele não chegue ao extremo da iniqüidade. Porquanto, esse será o tempo da impiedade de Israel, mas o Senhor não se afastará dele, antes o transformará em uma nação que fará a sua vontade como nenhuma outra nação jamais o fez.

       Portanto, mês filhos, evitem as obras do mal, e lancem para longe toda mentira. Amem a verdade e sejam longânimos. Executem todas essas coisas que vos tenho dito e ainda as compartilhem com os vossos filhos. Fujam da injustiça e sejam fiéis a Deus e assim sereis salvos para sempre. Quanto a mim, quero que me sepultem junto a meus pais.

7
       Havendo Dan proferido essas palavras, beijou a cada um dos seus filhos. Então dormiu no Senhor, tendo atingido uma boa idade. Seus filhos o enterraram, e depois de haverem transportado os seus ossos para Hebron, eles o depositaram junto de Abraão, Isaque e Jacó. Antes de morrer, porém, Dan lhes profetizou que eles haveriam de abandonar os caminhos do Senhor, e que seriam cortados da sua herança em Israel, de modo que a sua tribo não mais seria contada com as famílias de Jacó.

O Apocalipse de Esdras



APRESENTAÇÃO

Diferente do livro de IV Esdras, o qual de fato é uma obra prima da literatura apocalíptica judaica, O APOCALIPSE DE ESDRAS é um produto do pensamento cristão do segundo século. Não possui a mesma e relevante importância da primeira obra, mas ainda assim, é de leitura útil e o bom pesquisador há de saber reconhecer-lhe o valor. Boa leitura e até logo.



 No trigésimo - segundo ano, no vigésimo dia do mês, eu estava em minha casa, quando me dirigi ao Altíssimo e pedi-lhe: Senhor, permita-me ver a tua Glória e  conceda-me o privilégio de conhecer os teus segredos. E, vindo à noite, apareceu o arcanjo Miguel e me disse:

“Ó, Esdras, a partir de amanhã deverás te abster de alimentos por setenta dias.”

E eu fiz tal como fui ordenado. E logo veio o arcanjo Rafael e me deu uma um incensário. E eu jejuei cinco semanas duas vezes. E desde então pude ver os mistérios de Deus e seus santos anjos.

Então eu disse-lhe: Eu gostaria de estar diante de Deus para poder pedir pelos cristãos, pois ao homem seria melhor não ter nascido do que ter vindo ao mundo. Assim, fui levado ao céu, e ali, no primeiro céu, eu vi um grande séquito de anjos, e eles me levaram para os julgamentos. E ouvi uma voz a dizer-me:
“Tem misericórdia de nós, ó Esdras, pois de Deus és um escolhido!”

 Nisso, eu comecei a dizer: Ai dos pecadores, quando eles vêem um justo que está acima dos anjos! Pois eles estavam nas chamas do inferno!

Então Esdras disse: Tenhas piedade das obras de tuas mãos, oh tu que És cheio de bondade e de misericórdia! Em vez de castigares as almas dos pecadores, por que não me julgas e condenas a mim? Pois melhor seria se uma só alma fosse punida do que ver o mundo inteiro sendo destruído.

Então o Senhor me respondeu:
“Os justos no Paraíso descansarão, pois com estes hei de usar de misericórdia.”

Esdras, porém insistiu, e disse: Senhor, por que aos justos concedes os teus favores? Pois, tal como o jornaleiro que é contratado e que recebe pelo dia que trabalhou, está novamente livre para ir embora, podendo voltar a servir como escravo ao seu antigo senhor, assim também o justo recebe a sua recompensa nos céus. Tu, porém, tende piedade dos pecadores, pois assim saber-se-á que És misericordioso.

Porém, o Senhor lhe disse:

 “Não vejo como Hei ser misericordioso com estes.”

Então Esdras disse: Como então hão de suportar tua ira?

      E Deus respondeu:

“Eis que eles causam a própria ruína.”
 
Em seguida, acrescentou:

“Comprazer-me-ia de te receber como já tenho recebido Paulo e João, basta que me concedas o tesouro incorruptível que não se pode minar, jóias da virgindade e fortaleza dos mortais.”

  E Esdras disse: Bom seria se o homem não tivesse nascido. Bem-aventuradas os seres irracionais, pois estão numa situação melhor do que a do homem, já que eles não têm nenhuma punição. Quanto a nós, eis que Tu nos apanhaste e ao juízo nos conduziste. Ai dos pecadores que ainda estão para vir ao mundo! Porque o Juízo sobre eles é eterno, e a chama que os espera não se apaga jamais!

  E estando eu ainda a falar, eis que vieram Miguel e Gabriel, e todos os apóstolos, que me disseram:

“Alegra-te muito, ó escolhido de Deus”

  E eis que Esdras disse: Levanta, e entra em juízo comigo, ó Senhor. E o Senhor me disse:

“Vê, eis que faço um pacto entre Mim e ti, se é que o queres aceitar.”
 
  E Esdras disse: Conceda-me interceder perante Ti em juízo. E o Senhor disse:

 “Pergunta a Abraão, teu pai, se pode um filho contender com Aquele que o gerou; depois disso, vem e entra em juízo Comigo.”

 Então Esdras respondeu: Tão certo como vive o Senhor, assim também eu não deixarei de contender Contigo em favor dos cristãos. Pois de outro modo, onde estariam as tuas antigas misericórdias, ó Senhor? Ou onde estaria a tua longanimidade?

 E o Senhor lhe respondeu:

 “Eu fiz a noite e o dia, o justo e o pecador, mas ele deveria ter vivido como o justo.”

E o profeta disse: Quem fez Adão, o primeiro a ser criado? Ao que o Senhor respondeu:

“Minhas mãos o fizeram. E eu o coloquei no paraíso para guardar a árvore da vida, até que ele estendeu a mão à desobediência e transgrediu contra Mim.”

Mas o profeta indagou: Acaso ele não estava protegido por um anjo? E não estava a sua vida sendo vigiada por um querubim, a fim de que entrasse para a eternidade? E como pôde ser enganado aquele que era protegido pelos anjos?  Mandamento específico não lhe deste, nem ordenaste que observasse a tua voz. E além do mais, Tu lhe deste Eva, e sem ela a serpente não o teria enganado. Mas isso aconteceu por que a quem Tu queres Tu salvas, e quem Tu queres Tu destróis.

 E o profeta prosseguiu, dizendo: Permita-me ainda chegar a um segundo Juízo, ó, Senhor.

 Ao que Deus lhe disse:

“Pelo meu decreto, Sodoma e Gomorra foram destruídas pelo fogo.”

 E o profeta disse: Senhor, Tu não nos tratas de acordo com o que merecemos.

 E Deus lhe disse:

“Os vossos pecados excedem à minha paciência.”

 O profeta então retorquiu: Dizem as Escrituras, meu Pai, que Tu não julgaste a Jerusalém segundo as suas iniqüidades. Portanto, tem misericórdia, ó Senhor, daqueles que pecam; apieda-te das obras das tuas mãos.

 Então Deus se lembrou daqueles que Ele tinha criado, pelo disse ao profeta:

 Como hei de me apiedar deles? Vinagre e fel me deram para beber, e nem assim eles se arrependem.”

 E o profeta disse: Revela ao teu querubim, e permita-nos irmos juntos ao Juízo, a fim de que eu veja como há de ser.

  E Deus disse:

 “Estás enganado Esdras, pois o Juízo há de ser como aquele dia em que não cai nenhuma chuva sobre a terra. porque, comparando-se os horrores daquele dia, tudo quanto tu já viste é suave e misericordioso.”

   E o profeta disse: Ainda assim, hei de contender Contigo até me mostres o Dia do Juízo Final.

  E Deus lhe falou:

“Conta as estrelas do céu e a areia do mar, se disto és capaz. Se o fizeres, então poderás contender com o teu Criador.”

  E o profeta disse: Senhor, Tu sabes que sou um mero mortal; como hei de contar as estrelas do céu e a areia que está na praia?
 
  E Deus disse:

“Meu profeta e escolhido, ninguém há que possa conhecer aquele grande dia, nem a revelação que precederá o julgamento do mundo. Por amor de ti, meu profeta, Eu tenho declarado o dia, porém a hora não te poderei revelar.”

  E o profeta disse: Senhor ao menos diga em que ano isso acontecerá.

  E disse Deus:

"Se eu vir que a injustiça do mundo tem diminuído, então hei de ter paciência com eles, mas se ao contrário, hei de estender a minha mão, e apanharei o mundo pelos seus quatro cantos; os farei descer ao Vale de Josafá e ali hei de aniquilar a raça dos homens, de modo que o mundo deixe de existir.”

 E o profeta disse: Como então a tua destra há de ser glorificada?

E disse Deus:

“Meus anjos me glorificarão.”

  Ao que o profeta falou: Se resolves assim agir, por que então fizeste o homem? Afinal, não foste Tu mesmo que disseste a nosso pai Abraão que haverias de multiplicar sobremaneira a sua descendência como as estrelas do céu e como a areia da praia? Onde estará agora a promessa que lhe fizeste?

  E disse Deus:

“Primeiro, eu farei que haja um terremoto tal que destruirá bestas e homens, e quando vires que um irmão entrega à morte o ser irmão, e que os filhos se levantam contra seus pais, e que mulheres e homens mutuamente se divorciam, e que as nações estão se armando para a guerra, então hás de saber que se aproxima o fim. Porque há de ser que nesse tempo um irmão não se compadecerá de outro irmão, e marido  perderá a afeição por sua esposa, os filhos desobedecerão aos pais, e existirá ódio até mesmo entre amigos, e o escravo aborrecerá ao seu mestre. Porque eis que naquele tempo, o adversário dos homens subirá do abismo e realizará coisas espantosas aos olhos de todos. Que hei Eu então de fazer a ti, ó Esdras? E por que queres tu ainda contender comigo?”

 Esdras respondeu: Senhor, nem por isso deixarei de contender contigo.

 Então o Senhor lhe disse:

“Experimenta contar as flores do campo. Se fores capaz de contá-las, então poderás questionar Àquele que te criou.”

 E o profeta disse: Senhor, eis que não as posso contar, porquanto homem sou; mesmo assim, não deixarei de defender os humanos diante de Ti. Eu desejo, Senhor, que também me mostres as partes mais baixas do abismo.

Deus então lhe falou:

“Desce então e vê.”

Então Ele me enviou Miguel e Gabriel e mais trinta e quatro anjos, e eu desci oitenta e cinco passos, e eles me fizeram descer mais quinhentos passos para baixo, onde me foi permitido ver um trono de fogo e um ancião que se assentava sobre ele, e eis que os seus juízos eram sem misericórdia. Nisso, eu perguntei aos anjos: Quem é este? E qual foi o pecado que ele cometeu?

E eles me responderam:

“Este é aquele Herodes que reinou por um pouco de tempo; o mesmo homem que sentenciou à morte as crianças de até dois anos de idade.”

E eu disse: Ai da alma deste! Então eles me fizeram descer mais trinta passos, de modo que pude ver as grandes protuberâncias de fogo, e eis que ali havia uma multidão de pecadores; eu realmente podia ouvir a voz de seus lamentos, mas as suas formas não as vi. E eles me conduziram ainda para uma região tão baixa que eu não pude medir. Ali vi alguns velhinhos, e pregos de aço em fogo ardente que lhes perfuravam as orelhas. Ao vê-los assim, perguntei: Quem são estes? E qual é a culpa que lhes pesa?

Eles então responderam:

“Estes são os que foram impenitentes.”

 Dali, descemos mais quinhentos passos, e vi o bicho que jamais morre, nem mesmo no fogo que abrasa os pecadores. Então eles me levaram ao fundo do poço do abismo, e ali vi as doze pragas do Tártaro. Eles ainda me levaram para o sul, onde vi um homem pendurado pelas pálpebras enquanto era punido pelos anjos. Então perguntei: Quem é este? E por que recebe tal punição? E Miguel, o grande príncipe, me disse:

“Este é o homem que se deitou com a própria mãe, e por ter praticado um tão abominável ato ele é punido, como tu vês.”

Então fomos para o norte, e lá vi um homem preso em cadeias de ferro. E perguntei: Quem é este?

E Miguel me disse:
“Este é aquele que dizia: Eu sou o Filho de Deus, o qual transformou pedras em pão e água em vinho.”
                                           
 E o profeta disse: Deixe-me ver qual é a sua aparência, para que também o contar aos homens, a fim de que não sejam enganados por ele.

Mas o anjo me disse:

“Eis que o seu semblante é como o de uma besta selvagem, seu olho direito é como a estrela da alva, mas seu olho esquerdo é estrábico; a sua boca tem um côvado quando se abre e cada um de seus dentes mede um palmo. Seus polegares são garras que cortam como uma foice, e seus pés têm um côvado de comprimento; na sua fronte está escrito: ANTICRISTO. Ele se exaltou acima do céu, mas foi abatido até ao Inferno. Num momento ele pode se tornar uma criança, e no momento seguinte, pode parecer muito velho.”

 E o profeta disse: Senhor, como podes permitir que ele engane a raça humana?

Ao que Deus me disse:

“Ouça, meu profeta, hoje ele se transmuta de menino a um velho, mas não há ninguém que acredite que ele é o meu Filho Amado. Porém, depois que a trombeta tocar, e os túmulos se abrirem, e os mortos ressuscitarem incorrup-tíveis, então, o Inimigo de Deus, ao ouvir o alarido, deverá se esconder nas trevas. Nesse tempo o céu, a terra e o mar hão de ser destruídos. Eu incendiarei oitenta côvados para os céus, e oitocentos côvados para o centro da terra”.

E o profeta disse: E que pecado se tem praticado no céu?
 Deus assim falou:

"Quando [...] existe o mal.”

 E o profeta disse: Quanto a terra, qual é o seu pecado?

E Deus disse:

"No dia em que o Inimigo ouviu a sentença de sua condenação, foi e se escondeu nas partes mais baixas da terra; é por causa disso que hei de derreter a terra em uma fornalha, e com ela o Inimigo dos homens.”

 O profeta disse: Acaso não te apiedarás dos que acreditam em Ti?

 E eu vi uma mulher pendurada enquanto quatro bestas mamavam em seus peitos. Então os anjos me disseram:

“Esta mulher não só desejou saciar estas bestas com o seu leite, como também invejava àquelas que atiravam seus recém-nascidos nos leitos dos rios.”

 Nisso, contemplei uma escuridão horrível, e uma noite na qual não há estrelas nem lua. Ali não há jovem nem velho, nem irmão com irmão, nem a mãe com o seu filho, nem mulher com o marido. Então chorei, e disse: Soberano Deus, compadece-te dos pecadores! E havendo eu dito isto, eis que veio uma nuvem que me envolveu e me fez retornar para o céu. Ali presenciei vários julgamentos. Nesse momento, eu chorava com amargura. Pelo que lamentei: Melhor seria se o homem não tivesse saído do ventre de sua mãe! Mas aqueles que estavam sendo atormentados gritaram, dizendo:

“Um pouco de alívio nos sobreveio desde o momento em que chegaste aqui, ó escolhido de Deus!”
 Ao que o profeta disse: Bem-aventurados aqueles que choram por seus pecados.

Porém, Deus assim replicou:

“Ouve, ó amado Esdras, pois assim como o semeador lança a semente de trigo na terra, também o homem lança a sua semente no campo de uma mulher. Durante primeiro mês, tudo é como antes, mas no segundo mês já começa a surgir. No seguinte mês vem nascendo o cabelo, no quarto mês aparecem as unhas, no quinto mês já o leite se torna em alimento. No sexto mês já está se preparando para receber a alma. No sétimo mês está completa as estruturas, no nono as entranhas da mulher são abertas, então o seu fruto nasce são e salvo sobre a terra.”

  Aí o profeta disse: Ainda assim, Senhor meu, melhor lhe seria se não tivesse nascido. Ai da raça humana no dia em que Tu te levantares para julgá-la!

 Eu disse mais: Senhor, por que criaste o homem, para em seguida entregá-lo ao juízo?

 E esta foi a resposta que me deu o Senhor com a muita veemência:

“Eis que não serei piedoso com aqueles que transgredirem contra a minha Lei.”

  E o profeta disse: Mas a tua bondade, Senhor, onde está?

 Deus, porém, disse:

“Eu tudo criei para a raça dos homens, mas eles abandonaram o meu conselho.”

 Então o profeta sugeriu: Senhor, revela-me os juízos e o Paraíso. Então vieram os anjos e me levaram para o Oriente; ali eu vi a árvore da vida. E lá estavam Enoque, Elias, Moisés, Pedro, Paulo, Lucas, e Mateus, e todos os justos, e os patriarcas. E vi a condenação do ar, e o sopro dos ventos, e os tesouros da saraiva, e os juízos eternos. E ali estava um homem pendurado pelo crânio. E eles disseram-me:

“Este homem removeu os limites da terra”

 Lá eu presenciei  muitos juízos cruéis. Então falei ao Senhor: Soberano Deus, que homem há que tenha vindo ao mundo e não tenha cometido pecados? Eles então me levaram às partes mais baixas do Tártaro e me fizeram ver todos os pecadores lamentando e chorando amargamente. E eu também chorei ao ver a raça humana sendo atormentada daquela maneira. E foi aí que Deus me disse:

“Acaso sabes tu, ó Esdras, os nomes dos anjos da consumação? Miguel, Gabriel, Uriel, Rafael, Gabuthelon, Aker, Arphugitonos, Beburos e Zebulon?”

  Então ouvi uma voz a me dizer:

“Vem e morre, amado Esdras, devolve-me o espírito que te foi confiado.”

E o profeta disse: E como havereis de tomar-me a minha alma?
Ao que os anjos responderam:

 “Nós a podemos extrair através da tua boca.”

 Esdras, porém falou: Eis que boca a boca tenho falado com Deus, portanto, por aí ma tirareis.
Mas os anjos disseram:
“Então pelas tuas narinas a extrairemos.”

 Mas o profeta ainda retrucou: Com o meu nariz tenho aspirado a glória de Deus.

 E os anjos outra vez disseram:

“Nós podemos extraí-la através de teus olhos.”

 E o profeta disse: Por aí não ma tirareis, pois com os meus olhos tenho contemplado as costas de Deus.

Os anjos, porém, não desistiam:

“Nós a extrairemos pelo topo da tua cabeça.”

 E o profeta disse: Eu caminhei com Moisés no topo do monte, pelo que por aí ela também não me deixará.

 E os anjos ainda disseram:

“Nós podemos arrancá-la pelos dedos de teus pés.”

 Ainda assim Esdras não se entregava: Era com os meus pés que eu me dirigia ao altar.

 Desde então os anjos se ausentaram e foram embora sem tirar-lhe a alma, pois diziam:

“Senhor, não nos foi possível extrair a sua alma.”

Então Deus falou ao seu Unigênito Filho:

  “Desce, meu Filho Amado, com um exército de anjos, e traga-me a alma do meu amado Esdras.”

 Havendo, pois o Senhor descido com um grande exército de anjos, disse ao profeta:

“Entrega-me agora o espírito que te tenho confiado, porquanto, uma coroa te tenho preparado.”

 Mas o profeta insistiu: Senhor, se tomas a alma, quem há de ficar para interceder pela raça humana?

Porém o Senhor lhe disse:

“Lembra-te de que és mortal, e de que foste formado do pó terra; não podes contender Comigo.”

 Mesmo assim, o profeta disse: Eu não deixarei de contender contigo.

E Deus disse:

“Desiste agora mesmo e devolve-me o fôlego de vida que pus em teu corpo, pois uma coroa de glória está a tua espera. Portanto, vem e morre, para que possas possuí-la.”

 Desde então o profeta começou a dizer entre lágrimas: Ó Senhor, que vantagem hei eu de ter em minha contenda contigo, se no final hei de descer à terra? Ai de mim, ai de mim, pois hei de ser devorado por vermes! Chorai por mim, vós todos santos e justos, que tanto supliquei, e que agora estou sendo entregue à morte. Lamentai por mim, todos os santos e vós justos, porque agora vou pelas sendas do Inferno!

Deus então lhe disse:

“Ouve, Esdras, meu amado. Eu, sendo imortal, tive de passar pela cruz, e provei vinagre e fel, e fui sepultado. Mas eis que ressuscitei e trouxe comigo os meus escolhidos. Eu mesmo chamei Adão para fora do Inferno, a fim de que pudesse livrar raça humana do temor da morte. Portanto, aquela parte do ser humano que saiu de mim, isso é, a sua alma, há de ser salva no céu, mas aquela parte que foi feita do pó, ou seja, o corpo, terá de retornar a terra de onde foi tomada.

 Ao escutar isso profeta disse: Ai de mim! Que hei de fazer? Eu não sei. Então o bendito Esdras começou a dizer: Ó Deus eterno, Criador de todas as coisas, que tens medido o céu a palmos e que sustentas a terra na palma da mão, que cavalgas sobre um querubim, e que tomaste o profeta Elias ao céu em uma carruagem de fogo, que dás o alimento de toda a carne, cujo poder toda a natureza teme e diante de Quem todos tremem; atentai para mim, pois te suplico que garantas que todos aqueles que transcreverem este livro, e que o possuírem hão de se lembrar do meu nome e honrar a minha memória. Assim, dê-lhes uma bênção do céu e abençoe-os em todos os negócios, tal como abençoaste o final da história de José, de modo que não Te lembres de seus pecados no Dia do seu Juízo. Quanto àqueles que não acreditarem neste livro, que sejam queimados como foram Sodoma e Gomorra.

Então veio a ele uma voz, que dizia:

“Esdras, meu amado, tudo quanto Me pediste hei de dar a cada um que crer no teu livro.”

E imediatamente ele entregou a sua preciosa alma com muita honra. E eis que era o décimo - oitavo dia do décimo mês. E eles o sepultaram com as devidas cerimônias; e seu honrado e santo corpo tem sido uma inesgotável fonte de força tanto para a alma quanto para o corpo daqueles que visitam o seu túmulo. Àquele a Quem pertencem a glória, a força, a honra e a adoração, - ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo, agora e sempre. Amém.