sexta-feira, 7 de março de 2014

Os Testamentos dos Doze Patriarcas - Simeão





1
       Cópia das palavras de Simeão acerca das coisas que ele falou aos seus filhos antes de morrer, no ano cento e vinte da sua vida, na mesma época em que morreu o seu irmão José. Porque se encontrando Simeão doente, seus filhos vieram para visitá-lo. E Simeão extraiu forças da sua fraqueza para se por de pé e beijar a cada um deles. Então começou a falar:
2
      Meus filhos, prestem bastante atenção ao que diz Simeão vosso pai, pois vou-lhes declarar os segredos que tenho no coração. Fui gerado por Jacó e sou o seu segundo filho, e Léia minha mãe, me chamou de Simeão porque o Senhor ouviu as suas orações. Eu me tornei forte e cheio de excelência. Nunca retrocedi diante de qualquer obstáculo e jamais me assustei com coisa alguma. O meu coração era duro, a minha mente inquebrantável, e as minhas entranhas insensíveis.

       Porque o Altíssimo também tem posto da sua coragem tanto no corpo quanto na alma de alguns homens. Mas houve uma época da minha mocidade em que eu senti inveja de algumas virtudes de José, principalmente porque Jacó meu pai o amava mais do que a todos os outros filhos. Então predispus o meu coração contra José e planejei destruí-lo; porque o príncipe do engano enviou-me o espírito da inveja e me cegou a mente de tal modo que eu já não o considerava como irmão, e não poupei nem mesmo ao meu pai Jacó.

     Mas o Senhor, Deus de seus pais, enviou o seu anjo antes de mim e o livrou das minhas mãos. Porque quando eu fui a Siquem, buscar ungüento para os rebanhos, e estando Ruben em Dotan, onde estavam todos os nossos pertences, o meu irmão Judá foi e vendeu José para os ismaelitas.

       Ao saber disso, Ruben ficou bastante aflito, pois desejava devolvê-lo ao seu pai. Quanto a mim, fiquei excessivamente irado contra Judá por ele ter deixado José escapar com vida, e por cinco meses evitei olhar nos seus olhos. Mas o Senhor reteve a força das minhas mãos, pelo que metade da minha mão direita ficou mirrada por sete dias. E eu sabia, meus filhos, que era por causa de José que isso me havia sobrevindo.

       Então com lágrimas me arrependi e supliquei ao Senhor nosso Deus para que a minha mão fosse restaurada, e para que eu pudesse me purificar de toda inveja e de toda insensatez que tinha praticado. Eu entendi que havia planejado uma coisa má perante o Senhor Deus, e perante Jacó nosso pai naquilo que dizia respeito a José e a toda inveja que sentia por ele.

3
       Então, meus filhos, ouçam-me com atenção e estejam de prontidão contra o espírito do engano e da inveja. Porque a inveja pode dominar completamente a mente de um homem, de modo a impedi-lo até de comer e beber e de praticar qualquer ato justo; ela nunca sugere que o homem se subverta ou que tenha inveja de si mesmo, ou que venha definhar continuamente.

       Durante dois anos, porém, eu castiguei a minha alma com jejuns, temendo pelo que o Senhor pudesse fazer comigo. Foi então que aprendi que apenas pelo temor do Senhor é que se pode estar livre da inveja.

4
       Meu pai me viu andar triste e quis saber o motivo do meu pesar; eu menti ao dizer-lhe que estava sofrendo com dores no fígado. Mas a verdade é que eu sofria mais do que os meus irmãos, pois foi por minha causa que José fora vendido aos ismaelitas. Pelo que quando nós descemos para o Egito, e ele declarou que eu era um espião, eu tinha a certeza de que iria sofrer com justiça; por isso não reclamei da minha sorte. Mas José era um homem nobre, e o Espírito de Deus estava sobre ele; era cheio de compaixão, se comovia facilmente e jamais guardou rancores contra mim. Ao contrário, ele me amava mais do que ao resto dos meus irmãos.

       Portanto, meus filhos, guardem-se do ciúme e da inveja, preferindo andar na simplicidade da alma e com um coração reto, mantendo na memória a José, esse grande irmão do vosso pai, para que o Senhor possa dar a cada um de vocês da mesma graça e glória, e, acima de tudo, determinar a bênção sobre as vossas cabeças, tal como Ele fez com José. Pois em todos os dias de sua vida ele nunca nos lançou em rosto o mal que lhe fizemos, antes nos amou como a sua própria alma, e diante dos seus próprios filhos ele nos dignificou, dando-nos riquezas, gado e muitos frutos.

       Façam o mesmo, meus filhos, amem-se mutuamente com boa consciência e o espírito da inveja se apartará de vossa tenda. Porque o espírito da inveja torna a selvagem a alma do homem, ao mesmo tempo em que lhe destrói o corpo; é ele que gera a ira e a guerra na mente das pessoas, fomentando os atos de sangue e conduzindo à fúria, sem permitir que a prudência se sobreponha aos atos dos homens.

       Além disso, a inveja tira o sono [causando tumulto na alma e tremor no corpo]. Porque até no sono o ciúme vem maliciosamente pra com enganos perverter a mente e corroer a alma, de modo que com espíritos perversos consegue perturbá-la, para causar distúrbios no corpo e confusão na mente. É como espírito pernicioso que ela se manifesta no homem.

5
       José era gracioso aos olhos e bondoso de aparência, pois não existia perversidade nenhuma nele. E ainda assim ele teve o espírito ferido por todos os tipos de agruras que desfiguram os homens. Assim também vocês, meus filhos, façam com que os vossos corações sejam cheios de bondade perante o Senhor e perante os homens, para que possam encontrar favor tanto diante de Um quanto do outro. Mas acima de tudo, estejam atentos contra a fornicação, pois ela é a mãe de todos os males, e é capaz de separar o homem do seu Deus e conduzi-lo ao seio de Belial.

       Li nos escritos de Enoque, e descobri que os vossos filhos serão corrompidos pela fornicação, e que levantarão a espada contra os filhos de Levi. Mas eles não poderão prevalecer, pois Levi está empenhado em uma guerra que é do Senhor, por isso as vossas hostes serão abatidas. Então vocês se tornarão em um pequeno número, e serão repartidos entre Levi e Judá, de modo que nenhum de vocês será escolhido para a primazia, tal como profetizou o nosso pai Jacó no dia em que nos abençoou.

6
       Eis que tenho predito todas essas coisas diante dos vossos ouvidos, pois quero estar limpo dos pecados das vossas almas. Porém, se vocês retirarem toda inveja obstinação do vosso meio, então os meus ossos serão como uma rosa em Israel, e como um lírio em Jacó, e o meu perfume será como o hálito do Líbano, e os cedros sagrados se multiplicaram para mim eternamente, e os seus galhos se estenderão para mui longe.

       Então perecerá a semente de Canaã, e não restará renovo para Amaleque. Todos os capadócios serão arruinados, e todos os hititas serão completamente destruídos. Então tropeçará a terra de Cão, e todos os seus habitantes perecerão. Assim, toda a terra descansará da sua destruição, e todo o mundo debaixo dos céus viverá sem guerra.

Nesse dia o Poderoso de Israel glorificará a Sem, pois o Senhor Deus aparecerá sobre a Terra, E Ele mesmo salvará os homens. Então todos os espíritos do engano serão esmagados sob os seus pés, e os homens terão poder sobre os espíritos maus. Nessa época eu saltitarei de prazer e louvarei ao Altíssimo por suas obras maravilhosas. Porque Deus se tornou homem e até comeu com eles, e os salvou.


7
       Agora, meus filhos, sejam obedientes a Levi e a Judá, e jamais se levantem contra essas tribos. Pois é através delas que a salvação do Senhor nascerá sobre vocês. Porque o Senhor surgirá como Sumo Pastor em Levi, mas em Judá Ele será um Rei [Deus-Homem]. Ele salvará todas as nações da terra e a todos os filhos de Israel. Por isso é que vos tenho dado todos esses mandamentos, para que também sejam ordenados aos seus filhos, para que possam observá-los de geração em geração.
8
       Então Simeão dormiu com os seus pais, depois de haver dado esses mandamentos aos seus filhos. E era ele da idade de cento e vinte anos quando morreu. Seus filhos então o puseram em um caixão de madeira e transportaram os seus ossos para Hebron. Mas o fizeram secretamente, durante uma das guerras do Egito. Os egípcios haviam depositado os ossos de José na tumba dos faraós, porquanto os seus magis dissessem que se os ossos de José fossem retirados de lá, as trevas e a escuridão cairiam sobre o Egito de uma extremidade a outra, e tão espessa seria essa escuridão que nem mesmo com o uso de uma lâmpada seria possível a um egípcio reconhecer o rosto do seu irmão.
9
       E os filhos de Simeão levantaram luto por ele. Mas permaneceram no Egito até ao dia do êxodo pela mão de Moisés.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Os Testamentos dos Doze Patriarcas - Ruben



1
       Cópia do Testamento de Ruben, o mesmo mandamento que ele deu aos seus filhos antes de morrer, no ano cento e vinte e cinco de sua vida, dois anos antes da morte de José.

       Quando Ruben se sentiu doente, seus filhos e os filhos de seus filhos se reuniram para visitá-lo. Então ele lhes disse: “Meus filhos, eis aqui como estou moribundo e vou seguindo pelo caminho de meus pais”.
       E vendo ali Judá, e Gade, e Aser, seus irmãos, ele lhes falou: “Ergam-me, para que eu possa dizer aos meus irmãos e aos meus filhos as coisas que trago no coração, porque finalmente compreendo que estou morrendo”.

     Então ele se levantou, e depois de beijá-los, disse:

       Escutem, meus irmãos, e vocês, meus filhos, dêem ouvidos a Ruben, vosso pai, nesses mandamentos que agora ordeno. Eis que neste dia eu tomo o Deus do céu como testemunha de que vocês não andaram nos pecados da mocidade nem na fornicação, na qual eu mesmo extravasei, quando desonrei o leito de meu pai Jacó. Porque lhes asseguro que Ele me castigou com uma dolorosa chaga em meus lombos por sete meses; e se de outro modo o meu pai não tivesse intercedido por mim diante do Senhor, então Ele teria me fulminado.

       Eu tinha trinta anos de idade quando pratiquei aquela coisa vil diante do Senhor, e por sete meses estive a beira da morte. Mas depois disso eu me arrependi com um firme propósito de alma por sete anos perante o Senhor. De modo que nem vinho nem bebida forte eu provei, nem carne entrou na minha boca, e não comi nenhum manjar agradável; em vez disso, lamentei o meu pecado, porquanto era grande, tal qual nunca houve entre nós.

2
       Agora, meus filhos, escutem as coisas que eu vi concernente aos sete espíritos do engano, porque as conheço desde que me arrependi. São sete os espíritos que estão designados contra a raça humana, e eles mesmos são responsáveis palas ações dos filhos da mocidade. Sete espíritos [ou sentidos] são gerados com o homem desde a sua criação, e é por eles que são consumados todos os desígnios humanos.

       O primeiro é o espírito da vida, por meio do qual todos os seres humanos são criados. O segundo é o espírito da visão, com o qual se acende o desejo. O terceiro é o espírito da audição, através do qual os homens são instruídos. O quarto é o espírito do olfato, com o qual se pode respirar. O quinto é o espírito da conversação, por meio do qual vem o conhecimento. O sexto é o espírito do paladar, com o qual podemos provar dos alimentos e das bebidas; e é por meio desse espírito que a nossa força é produzida, porque nos alimentos consiste a origem da nossa subsistência. Mas o sétimo é o espírito da procriação e da relação sexual, através do qual a luxúria é despertada no interior do homem; por essa razão é que ele é o último na ordem da criação, embora seja o primeiro na mente dos jovens. Porque pela ignorância tropeçam, e é por meio dessa ignorância que eles são conduzidos como cegos aos buracos, e como os animais para o precipício.
3
       Além de todos estes, existe ainda o oitavo, que é o espírito da sonolência, com o qual é gerado o fascínio da natureza do homem, bem como a própria imagem da morte.
       A estes espíritos se somam os espíritos do erro. O primeiro é o espírito da fornicação, que permeia a natureza e os sentidos. O segundo é o espírito da gula, que é a insatisfação do ventre. O terceiro é o espírito da briga, que é a contenda, e que jaz no fígado e no fel. O quarto é o espírito da bajulação e da astúcia; porque usando dessas coisas um homem ímpio poderá assumir uma falsa aparência de bondade. O quinto é o espírito do orgulho, o qual torna a pessoa presunçosa e arrogante. O sexto é o espírito da falsidade, cheio de perdição e ciúme para cometer fraudes, e para criar dissensões entre parentes e amigos. O sétimo é o espírito da injustiça, pelo qual são praticados os roubos e os furtos, e por ele o homem pode cumprir os [maus?] intentos do coração; porque a injustiça opera com outros espíritos por meio de artifícios.

       Aliado a todos esses, está o espírito da sonolência, que é o oitavo espírito, e que está unido ao engano e à fantasia. Assim vão perecendo todos os filhos da mocidade, tendo entenebrecido as suas mentes para não compreenderem a verdade, nem entenderem a Lei de Deus, ou mesmo para desobedecerem às admoestações de seus pais, tal como aconteceu a mim mesmo durante os dias da minha mocidade.

       Portanto, meus filhos, amem a verdade, pois ela libertará  vocês. E eu lhes conselho a que me ouçam. Não vale a pena atentar para a aparência de uma mulher, nem se envolver ocultamente com uma fêmea que está sob a autoridade do seu marido, nem se intrometer nos negócios femininos. Porque se eu não tivesse contemplado Bila se banhando em um lugar coberto, eu não teria cometido tão grande iniqüidade.

       Mas aconteceu que a minha mente, poluída pela beleza daquela mulher, não me deixaria dormir até que tivesse levado a cabo aquela abominação. Porque estando nosso pai Jacó ausente, com o seu pai Isaque, e nós estando em Gader, próxima de Belém, Bila se embriagou e se largou despida em sua câmara, onde também adormeceu. Assim, quando eu entrei e vi a sua nudez, cometi o tão impiedoso ato, pelo que a deixei adormecida e desapareci.

      Mas imediatamente um anjo de Deus fez saber a Jacó acerca da minha iniqüidade, pelo que ele veio e lamentou sobre mim, e desde aquele dia em diante não voltou mais a tocar em Bila.
4
       Portanto, não vale a pena se prender à beleza de uma mulher, nem ater a mente em seus negócios, mas andar na simplicidade do coração e no temor do Senhor, e passar o tempo lidando com boas ocupações, e no estudo, e com os seus rebanhos, até que o senhor dê a cada um de vocês uma boa esposa que Ele mesmo escolher, a fim de que não venham a padecer o que eu padeci. Porque até ao dia da morte de meu pai eu não tive coragem de encarar o seu rosto, ou de comentar esse assunto com qualquer dos meus irmãos, devido à minha vergonha e opróbrio. E em conseqüência desse pecado, a minha alma me aflige até hoje.

       Ainda assim meu pai me confortou, e ele mesmo orou a Deus para que a sua ira se afastasse de mim, só assim eu pude comparecer a sua presença. Agora eu estava amparado do pecado. Por isso, meus filhos, atentem para tudo quanto eu lhes ordeno, pois só assim vocês não cairão no pecado. Porque a fornicação destrói a alma e separa o homem do seu Deus, e o leva para junto dos ídolos, porque engana a sua mente e a sua compreensão, arrastando os jovens até ao inferno antes do seu tempo.

       A fornicação tem destruído a muitos, e mesmo que o homem seja maduro e tenha nobreza, sendo ele rico ou pobre, traz opróbrio sobre si com o escárnio de Belial. Vocês já ouviram a respeito de José e de como ele guardou a sua alma das investidas de uma mulher, porque purificou o seu pensamento de toda fornicação, pelo que alcançou graça diante dos olhos do Senhor e de todos os homens.

       Porque a mulher egípcia tinha preparado muitas coisas para ele, e até convocou os mágicos para que preparassem a poção do amor. Mas o propósito de sua alma não lhe permitiu nenhum desejo obsceno. Pelo que o Deus de seus pais o livrou de todos os males e o guardou da morte. Portanto, se a fornicação não estiver em suas mentes, nem mesmo o demônio Belial será capaz de vencê-los.

5
       Eu sei que as mulheres são más, meus filhos; e uma vez que elas não tenham poder sobre os homens, haverão de usar da astúcia e dos encantos da sua aparência para enfim atraí-los para os seus braços. Mas se algum deles não é vencido pelos encantos exteriores, há de ser, todavia, subjugado pela astúcia.

     Ainda no que a isso concerne, um anjo do Senhor me contou, para me alertar de que as mulheres são mais freqüentemente vencidas pelo espírito da fornicação do que os homens, sendo que elas mesmas armam laços contra os homens no oculto do seu coração; e é por meio dos seus atavios que elas iludem primeiramente as suas mentes, e através de um olhar lascivo injetam o veneno. É pela consumação de tais atos que elas conseguem escravizar os homens. Porque uma mulher jamais vencerá  um homem usando da sua força, mas em se comportando qual rameira, conseguirá iludi-lo com facilidade.

     Por isso, meus filhos, fujam da fornicação, e orientem as suas próprias esposas, e as suas filhas, para que elas jamais adornem as suas cabeças ou faces, de modo a enganarem as suas próprias mentes; mesmo porque qualquer mulher que usar destes artifícios há de ser reservada para a eterna condenação.
       Porque assim foram seduzidos os anjos antes do dilúvio. Porque de tanto observarem e admirarem as filhas dos homens, eles acabaram por cobiçá-las, de sorte que vieram a conceber um perverso intento; e foi assim que eles assumiram a forma dos humanos, e apareceram às mulheres como quando elas se encontram com os seus maridos. E as mulheres, sendo seduzidas por aquelas aparições, deram a luz aos gigantes; porque aos seus olhos parecia que os anjos eram tão grandes que chegavam aos céus.

6
       Portanto, sejam cautelosos com a fornicação, e se alguém deseja ser puro de coração, deve guardar os seus sentidos das mulheres. Da mesma forma, eu aconselho as mulheres a não se envolverem com os homens, a fim de que sejam igualmente puras em suas mentes. Porque em se encontrando constantemente, ainda que o ímpio ato não venha a ser consumado, para elas há de ser como uma moléstia irremediável, e, para nós, uma destruição de Belial e uma repreensão eterna.
       Porque na fornicação não existe nenhum entendimento ou piedade, ao contrário, todo ciúme consiste nessa concupiscência. Por isso eu afirmo que vocês sentirão inveja dos filhos de Levi, e desejarão ser exaltados sobre eles, ainda que jamais venham a suplantá-los. Porque Deus por eles agirá e vocês serão mortos de um modo terrível.

       O Senhor deu a soberania a Levi, e a Judá, e a deu igualmente a mim, e a Dan, e a José, a fim de que sejamos juízes. Por essa razão é que lhes digo que vocês devem escutar atentamente a Levi, é dele que sairá a Lei do Senhor, e as ordenanças para o juízo e para o sacrifício em todo Israel até a consumação dos séculos, como Ungido e Supremo Pastor a respeito do qual nos tem falado o Senhor; pelo que eu lhes suplico pelo Deus do céu que cada um de vocês seja sincero com o seu próximo, e que se conduza para perto de Levi com humildade de coração, a fim de que receba a bênção dos seus lábios. Porque Levi há de abençoar a todo Israel, e especialmente a Judá, porquanto o Senhor o tem escolhido como governador dos povos. Por isso devemos nos prostrar e adorar a sua Descendência, porque [Ele] morrerá por nós tanto na guerra visível quanto na invisível. Mas sobre nós será declarado Rei Eterno.

7
       E Ruben morreu, depois de haver dado esses mandamentos aos seus filhos. Eles o colocaram em um esquife e o fizeram subir do Egito, e o sepultaram em Hebron, na cova onde o seu pai já repousava.



terça-feira, 4 de março de 2014

A geneaogia de Jesus







      Dificuldades de se saber verdadeiramente quem era Jesus existiram mesmo na época em que Ele exerceu a vida pública a partir da sua aparição como pregador na Galiléia. Vez por outra até os seus mais íntimos amigos se perguntavam: “quem é este homem?” E outra vez o próprio Galileu indagou aos seus discípulos: 

  _Quem os judeus dizem que Eu sou?

      A surpreendente resposta nada podia esclarecer, pois para aqueles que o ouviam exortar as autoridades judaicas com ásperas palavras, o Mestre era Elias; mas havia alguns que o presenciaram pronunciando discursos de fé, paz, amor e misericórdia; para estes, Jesus só podia ser o profeta Jeremias ou qualquer outro dos mensageiros da antiguidade.  Foi apenas quando o Mestre se voltou para os seus assistentes e lhes perguntou sobre o que eles mesmos pensavam a seu respeito, que Pedro, tomando a palavra, respondeu: 

  _Tu és o Cristo, o Filho do Deus Vivo!

     E a despeito de toda a convicção demonstrada na resposta deste pescador, não apenas ele, mas todos os seus companheiros continuaram vivendo como se nada ou pouquíssima coisa soubessem sobre a genuína identidade do Mestre. E ocorreu que em outra oportunidade até João Batista, o último profeta da Lei, chegou a questionar a identidade do Mestre:

  _ És tu o Cristo, ou devemos esperar por outro?

     Para Michael Baigent o cúmulo desta ignorância se torna patente quando dois de seus biógrafos (Mateus e Lucas) apresentam duas distintas listas de possíveis parentes de Jesus. São as famosas genealogias, que tanta dor de cabeça tem dado aos estudiosos da Bíblia.

      Segundo os céticos, o inconveniente das genealogias, mais do que o fato de não haver compatibilidade entre ambas, está na própria existência destas, pois como se justificaria uma lista de ascendentes paternos de alguém que na condição de humano teve mãe, mas não teve pai? Como somos seres racionais, daremos assentimento a este argumento, mas só por enquanto
.
      Agora, se Lucas que certamente não conheceu Jesus pessoalmente, mas recebeu devido preparo para este labor, optou por abordar uma tábua genealógica inédita e bem diferente daquela já apresentada por Mateus, acabou gerando um desencontro que de certo não existiria, caso houvesse evitado o assunto. O impasse criado pela abordagem de Lucas pode ser notado mesmo por pessoas com pouca afinidade com as Escrituras Sagradas, e não poucas vezes tem desnorteado até mesmo a teólogos devidamente treinados.

      Médico de ofício e missionário por vocação, Lucas teve o cuidado de se informar minuciosamente dos principais fatos ocorridos na vida pública do Pregador Galileu, ele inclusive se esforça para dar ao seu evangelho um parecer mais histórico, associando episódios marcantes do ministério de Jesus a eventos seculares ocorridos em mesma época.

      Mas havendo produzido o seu evangelho posteriormente àquele já difundido por Mateus, ele bem poderia usar a mesma fórmula, e desta maneira evitar qualquer mal- entendido. E Lucas dá provas de que havia tomado prévio conhecimento das narrativas de seu colega. Por motivos como este, querem os céticos ver aqui razões para desconfiar daquilo que costumamos chamar de a divina inspiração da Bíblia. 

       O que acontece é que as pessoas não gostam de se ater às genealogias da Bíblia, mas atentando um pouco para as listas de Mateus e Lucas logo se perceberá que elas não se correspondem. Baigent acredita que isto só acontece porque se trata de documentos meramente humanos, muitas vezes trocando punhadas entre si. O primeiro faz uso do modelo descendente, indo de Abrão para José, já no segundo caso temos a fórmula ascendente, que vai de José até Adão. Mas em ambos os casos podemos notar que o objetivo é vincular a pessoa de Jesus ao histórico rei Davi. Segue-se que se fizermos uma comparação dos nomes citados nas duas listas em sentido ascendente de José para Davi, ficará exposto o flagrante impasse que as árvores genealógicas propõem.  Vejamos então o que temos.

A lista de Mateus:

José, Jacó, Matã, Eleazar, Eliúde, Aquim, Sadoque, Azor, Eliaquim, Abiúde, Zorobabel, Salatiel, Jeconias, Josias, Amom, Manassés, Ezequias, Acaz, Jotão, Ozias, Jorão, Josafá, Asafe, Abias, Roboão, Salomão, Davi.  
         
A lista de Luca: 
    
José, Eli, Matate, Levi, Melqui, Janai, José, Matatias, Amós, Naum, Esli, Nagai, Maate, Matatias, Semei, Joseque, Jodá, Joanã, Resa, Zorobabel, Salatiel, Neri, Melqui, Adi, Cosão, Elmodã, Er, Jesus, Eliezer, Jorim, Matate, Levi, Simeão, Judá, José, Jonã, Eliaquim, Melea, Mená, Matatá, Natã, Davi.

      Estando desta maneira exposta, é impossível não perceber que as duas tábuas genealógicas estão em desacordo. Primeiramente, na quantidade de nomes que aparecem na lista de Lucas e que não são catalogados por Mateus. No primeiro caso temos vinte e sete gerações que vão de Davi para José, no segundo, quarenta e dois nomes de gerações nos são apresentados. Depois vem outra dificuldade, já que nomes de pais e filhos foram trocados ou substituídos em ambas as listas. Se, Por exemplo, Mateus nos diz que o pai de José foi Jacó, Lucas atesta que era Eli. Para o cobrador de impostos o pai de Zorobabel era Abiúde, embora o médico tenha concluído que era Resa. Continuando com Mateus, a linhagem de Davi para Jesus é segundo Salomão, ainda que no caso de Lucas a linhagem messiânica proceda de Davi através de Natã.

       Com estes materiais em mãos não teriam os céticos razões de sobra para concluírem que pelo menos um dos biógrafos de Jesus estava enganado no que concerne às suas origens? Michael Baigent vai mais além, afirmando que os dois evangelistas estão errados. A Problemática então é reservada aos nossos teólogos, que há séculos tentam encontrar explicações que ponham um ponto final nesta colossal dificuldade.      

      Soluções diversas já foram apresentadas, ainda que algumas destas sequer mereçam ser aqui mencionadas. E a complexidade do assunto apela para explicações nem sempre convencionais, de modo que apenas umas poucas pessoas estarão abertas para aceitá-las. Mas vejamos o que podemos fazer, iniciando pelo problema dos nomes que foram acrescentados, e em seguida nos ocuparemos com aqueles que foram substituídos, e caso haja uma solução, tentaremos encontrá-la.             
     Primeiro citemos Orlando Boyer, escritor cristão prolixo que tanta contribuição deu na formação de novos teólogos, e que numa de suas enciclopédias bíblicas, tenta resolver a questão das genealogias ao concluir que “as duas listas dos antepassados de Jesus nunca foram contestadas”.                                                                                
     É respeitosa a memória deste nobre teólogo, mas duvidamos que realmente tenha sido sempre assim, até porque os mais antigos tratados sobre o assunto datam de épocas nas quais a igreja ainda era chamada de primitiva. Assim também quando Eusébio escreveu a sua famosa História Eclesiástica, lá pela metade do quarto século, a polêmica já era robusta. Inclusive foi o mesmo Eusébio quem nos fez saber da existência de um importante documentário escrito por Julius Africanus, historiador da igreja que se ocupou com a meticulosa investigação das genealogias de Jesus Cristo, contando com um trunfo infalível, já que disse haver consultado diretamente com genuínos parentes do Nazareno que ainda viviam, e que por uma espécie de nobre orgulho, mantinham intactas suas árvores genealógicas. Estas declarações de Africanus podem ser fundamentais para elucidação do nosso caso, mas com um agravante: a maioria de teólogos e líderes conservadores torce o nariz diante da exposição que para alguns é chocante. Mas é o nosso ofício investigar e extrair explicações cabíveis, mesmo que os resultados às vezes possam nos surpreender de uma maneira que não esperávamos.

      Convenhamos antes de tudo numa coisa, que nos dias em que Africanus escreveu o seu trabalho, ele, a despeito da oposição que alguns lhe possam fazer hoje, até onde sabemos não sofreu qualquer relutância por parte dos mais destacados pais da igreja. E assim podemos compreender por meio do tratado de Africanus que o leque de nomes apresentados por Lucas no seu evangelho, tal como conhecemos hoje, não é idêntico àquele que circulou entre os cristãos nos dois primeiros séculos da igreja.

      É fato bem conhecido entre os verdadeiros estudiosos das Escrituras, que existem inumeráveis variações, tanto nos mais antigos pergaminhos dos textos sagrados que chegaram até nós, quanto nas diversas versões da Bíblia que se propagam pelo mundo. Ainda assim, não são poucos os estudiosos que desconversam quando o assunto gravita em torno das alterações que os antigos, por motivos diversos, fizeram nos manuscritos que vieram a compor nosso Cânon. Seja como for, Africanus nos garante que pesquisou em registros aos quais chamou de fidedignos (ele cita as provas), e entre outras coisas ele nos diz o seguinte ao fazer comparações entre as duas genealogias:

     “Calculando (na genealogia de Mateus) as gerações desde Davi, passando por Salomão, descobre-se que o terceiro de trás para frente é Matã, e que gerou Jacó, pai de José. Mas calculando, como Lucas, desde Natã, o filho de Davi, descobrir-se-á que o terceiro é Melqui, cujo filho era Eli, pai de José”.

      Para que tenhamos melhor aproveitamento, vou sugerir a que o leitor consulte agora mesmo o referido texto, comparando as genealogias de Mateus e Lucas. Depois retorne à nossa leitura. Então, conseguiu perceber algo estranho ou diferente? Se a resposta for negativa, permita-me auxiliá-lo. É que em nossas Bíblias (e isso independe da versão e do idioma), na lista de Lucas o nome de Melqui é o quinto e não o terceiro, tal como afirmou Africanus! Ademais, ele segue declarando que tanto Matã quanto Melqui, embora sendo de famílias diferentes, eram avôs de José, pai adotivo de Jesus. Assim sendo, pode-se de cara eliminar dois nomes (Eli e Matate) da lista lucana, pois de acordo com Africanus, estes não faziam parte do documento original.
    
  Pode ocorrer de alguém argumentar: “Mas não poderia ser bem o oposto, tendo o velho Africanus eliminado estes dois nomes da lista lucana?” Faz sentido. Mas que motivos teria ele? Mesmo porque o historiador faz menção de documentos públicos e particulares que não eram desconhecidos em seu tempo, e caso alguém duvidasse da sua índole, prontamente poderia recorrer a estes. Considere-se que não seria difícil rebater os escritos de Africanus se eles estivessem em desacordo com a Escritura. Sobretudo, temos o aval de Eusébio, que sendo profundo conhecedor e defensor da pureza dos textos sagrados, não dá o menor sinal de repulsa ao citar as referências e conclusões que Africanus tira no tocante às genealogias do Nazareno. Portanto, se Eusébio não expressou relutância em aceitar que tanto Matã quanto Melqui eram os terceiros nas respectivas tábuas genealógicas de Jesus, temos razões para acreditar que o motivo era bem simples, ou seja: que a lista de Lucas que eles possuíam não era exata-mente idêntica à que conhecemos hoje. 

     Em outras palavras, fica óbvio que alguém, numa época que ignoramos, alterou o texto de Lucas. Mas muitos estudiosos não podem acatar estas conclusões que surgem como uma chave para se compreender o segredo das genealogias. 

      Admitindo-se que se que tenham feito acréscimos à genealogia de Lucas, teremos solucionado a primeira parte da questão, aquela que diz respeito ao número de nomes que diferem da lista de Mateus. Africanus cita apenas dois, mas nada obsta que se tenham acrescentado outros. Logo em seguida vem o problema dos nomes que foram substituídos, pois fica bem evidente a concordância entre as duas listas seguindo de Abraão até Davi, quando o elo se confunde, uma vez que Mateus toma a linhagem partindo da casa de Salomão, ao passo que Lucas segue o ramo oriundo de Natã, também filho de Davi. 
         
      Mateus foi o primeiro a organizar uma genealogia, e explica que o pai de Salatiel foi o rei Jeconias, que na árvore de Lucas é substituído pelo desconhecido Neri. Depois do caso de Salomão e Natã esta é a segunda substituição de nomes. Nas extremidades, lemos em Mateus que Jacó era avô de Jesus, embora Lucas nos diga que o pai de José se chamava Eli.

      Não negaremos que o fato de os biógrafos de Jesus terem escrito duas genealogias partindo de ramos diferentes (Salomão e Natã), pode gerar desconfiança em leitores de raciocínios mais exigentes, mas deixando a questão para posterior oportunidade, atentaremos para o rei Jeconias, cujo nome consta na lista de Mateus, e que representa a casa real na época da deportação sob Nabucodonosor, sendo apontado como filho do piedoso Josias. O que vem a ser outro ponto crítico, já que o rompimento da teia genealógica do Galileu parece ter ocorrido pouco depois dos seus dias.

      É Mateus, que em harmonia com o primeiro livro das Crônicas, nos diz que esse Jeconias foi o pai de Salatiel (I Crônicas. 3.17.), apesar de haver contrariado o mesmo livro ao afirmar que o pai de Jeconias era Josias, embora siga que tais registros indiquem que Josias tenha sido seu avô, e não pai (I Crônicas. 3.15,16). E aqui pode estar a pista para a solução do enigma, posto que se levarmos em consideração outros textos das Escrituras, concluiremos que o avô, um tio ou mesmo um irmão, podiam ser legalmente apontados como sendo pai de alguém, embora não o fosse em termos biológicos. Prova disto temos na conhecida lei do levirato. Mas é o caso de usarmos o clássico exemplo de Labão, sogro de Jacó, que reclamou os direitos sobre os netos, alegando que os mesmos eram seus filhos (Gênesis. 31. 43).

      Ainda no que tange a Jeconias, o profeta Jeremias, contemporâneo seu, foi implacável ao anunciar que jamais um descendente deste monarca haveria de subir ao trono da nação. Ver Jeremias. 22. 28-30. Isso determina um contundente rompimento na cadeia genealógica, de sorte que as posteriores gerações a Jeconias vão seguindo por Salatiel (que sendo herdeiro, jamais assumiu o trono), passam pelo cativeiro e continuam até que aparecem José e seu filho Jesus, que deveria ser o prometido Rei de Israel. 

       E entenda-se que Mateus, quando produzia seu evangelho, desejava impressionar os mais exigentes judeus, e esforçou-se para demonstrar que Jesus estava habilitado a ser o Messias vaticinado, tendo em seu favor todo um leque de ascendentes que o ligavam ao insigne rei Davi, a quem os profetas prometeram um Rei-Salvador.

      Sabemos, inclusive, por meio de documentos dos primeiros séculos da igreja, que Mateus redigiu a sua biografia originalmente na língua falada pelos judeus, quiçá obrigado pelo preconceito que estes tinham em desprezar qualquer comentário de cunho sacro que não fosse escrito segundo o idioma das Santas Escrituras.

      Retornando ao fio de nosso tema, o elo foi partido quando Deus rejeitou a descendência de Jeconias para sempre. Portanto, Jesus jamais poderia reclamar para si o título de Messias e ao mesmo tempo vincular suas origens ao um rei proscrito. Foi aqui então que o testemunho de Lucas entrou em evidência, pois segundo a sua investigação (da qual não posso duvidar), o pai de Salatiel, cuja descendência aponta diretamente para Jesus nas duas genealogias, era Neri, não Jeconias.

      A substituição dos nomes consiste, portanto, no fato de que Salatiel, sendo biologicamente gerado por Neri, foi depois adotado por Jeconias. Segue-se que embora fosse ímpio, Jeconias agiu providencialmente, uma vez que seus descendentes foram rejeitados para sempre a fim de que jamais subissem ao trono, e esta atitude que teve em tomar para si herdeiro de outro ramo davídico, deu a Jesus a condição de ser legítimo detentor das promessas referentes ao Messias. Lucas então lançará luz sobre este fato novo, e demonstrará que a sua genealogia, longe de contrariar a lista antes apresentada por Mateus, eliminará qualquer argumentação que eventualmente se fizesse contra a identidade messiânica de Jesus. Isso deveria fortalecer ainda mais a tese de Mateus, ao invés de provocar desconfianças quanto à sua capacidade em apresentar os fatos.

      Eis, portanto, a nossa explicação de como os nomes de Jeconias e Neri são trocados na passagem de uma genealogia a outra. Isso deve servir para os demais casos de substituição de nomes ocorrentes nas listas de Mateus e Lucas. 

     Mas estamos devendo um debate que envolve a maneira pela qual os evangelistas deram nomes diferentes ao pai de José, que foi esposo da mãe do Salvador. Uma das principais hipóteses tem parecer infantil, mas não negaremos a sua importância. Diz respeito ao evangelista Mateus, que querendo expor a veracidade da real ascendência de Jesus, declara-o fi-lho de José, que está diretamente ligado à raiz de Davi. Para os que assim pensam, Mateus teria apresentado uma genealogia paterna.

     Lucas de fato não escreveu o seu evangelho tendo em conta as crenças judaicas, e não estaria, portanto, preocupado com tais detalhes, e consciente de que Jesus não era filho biológico de José (ele realmente foi o único autor bíblico a declarar que Maria gerou a Jesus sendo ainda virgem. A referência que Mateus faz de um Messias nascendo de uma virgem pode ser entendido de outra maneira até por pesquisadores mais fundamentalistas), apresenta uma genealogia a partir do sangue materno. Por este motivo, e não outro, é que viriam a existir os desencontros que lemos ao comparamos as duas tá-buas genealógicas. Deveria ser esta a razão que levou Lucas a registrar que Eli (sendo na verdade pai de Maria), era genitor de José. Dentro dos termos da lei local isso era perfeitamente viável, e para os seguidores desta hipótese é interessante lembrar que Jesus não tinha o sangue de José. Daí que não sendo de sangue real, ele conseqüentemente não seria herdeiro de Davi.

      O mais incrível é que inúmeros pesquisadores, inclusive Eusébio de Cesaréia, são da opinião de que Maria é mesmo da linhagem de Davi, não considerando o testemunho da própria Escritura que claramente diz que Maria e Isabel, mãe de João Batista, eram de uma mesma parentela, sendo esta última descendente de Levi. Ora, logo importa que Maria seja igualmente levita! Isso deve esclarecer que Lucas de maneira alguma poderia organizar para Jesus uma genealogia de ascendência davídica baseando-se na linhagem materna.

      O mesmo Eusébio, embora erudito e defendendo sempre a pureza da doutrina cristã, imaginou ser curta a nossa memória, pois que afirma haver existido em Israel o costume de apenas casarem-se pessoas de uma mesma tribo a fim de que se mantivesse a respectiva identidade patriarcal. Mas é desnecessário lembrar que isso não é verdade, pois de outra maneira, como poderiam ser parentes Maria e Isabel, se uma fosse de Judá e a outra de Levi? Entretanto, é mesmo suspeito que Maria tenha sido descendente de Levi. Mas tudo o que temos são conjeturas, levando em conta que os únicos documentos que dispomos a dizerem qualquer coisa sobre a identidade de Maria, são fontes apócrifas, onde se lê que ela de fato vivia no templo, sendo inclusive uma de suas cantoras.

      Além do mais, existem evidências de que a herança no rito judaico apenas podia ser transferida em conformidade com a linhagem paterna, ou seja, se uma mulher dos hebreus tivesse filhos com um homem de outra nação, estes certamente não seriam contados na árvore genealógica. Mas em contra par-tida (e isso pode ser notado até mesmo na genealogia de Jesus), se um judeu tivesse filhos com uma mulher estrangeira, eles naturalmente entrariam na linhagem patriarcal. Em linhas gerais, portanto, o fato de ser Jesus filho apenas de Maria não o credenciava à herança real. Da mesma forma que os filhos de uma filha de Davi jamais subiriam ao trono por sucessão natural. É por isso que a genealogia de Jesus somente podia ser contada segundo a casa de José.

      Não obstante, Jesus nunca foi filho biológico de José! Felizmente os obstinados judeus não pensavam desta maneira, e por vezes fizeram questão de associar ao Galileu a alcunha de “filho do carpinteiro”, dando-lhe a entender que bem conheciam a sua humilde origem. 

      Isso sugere que Jesus não é de fato descendente de Davi? Ao que indica, ele não é. Mas historicamente, um filho adotivo também é legítimo herdeiro. O que ficará pendente, no entanto, é que o próprio Jesus deixou bem claro a sua condição em relação ao rei Davi, quando silencia os líderes das escolas religiosas de sua época, atestando com base nas Escrituras, que o profético Messias de Israel jamais poderia ser filho de Davi, já que o próprio rei o chamou de Senhor (Mateus. 22. 41- 46; Lucas. 20.41- 43).

     Sem contradições, sabendo de antemão que a palavra grega Cristo”, ou o hebreu “Messias”, possui peculiar significado, tanto na etimologia quanto em seus efeitos. Um Cristo necessariamente é um ungido, ou seja, alguém especialmente escolhido para uma determinada tarefa no labor divino. Mas profeticamente a palavra está vinculada ao futuro Rei e Libertador da nação dos judeus. Na prática todo cristão certamente sabe disso. O que não sabem, porém, é que um ungido literalmente se diz de alguém que foi banhado com santo óleo, e que isso geralmente só acontecia em Israel quando o próprio Deus Yaveh queria contrariar a ordem das coisas. No geral apenas reis, sacerdotes e profetas eram os que recebiam a unção, que apenas ocorria quando Deus interferia, quebrando a sucessão natural. Algumas vezes ele fez isso até em outros reinados.

      Por ordem natural o filho mais velho de um rei devia ser seu substituto, assim como o primogênito do superior sacerdote. Quanto ao profeta, geralmente tinha um fiel escudeiro que o seguia em cada passo e que certamente o sucederia ao findar do seu ministério. Mas se por algum motivo este sucessor natural desagradasse aos parâmetros divinos, o Senhor prontamente ordenava a que se ungisse alguém que com fidelidade cumpriria os seus propósitos. Foi por isso que Samuel ungiu a Davi; foi por isso que Elias ungiu a Eliseu. Um ungido é então uma pessoa que naturalmente não possui credenciais para o ofício ao qual está sendo chamado. Assim, portanto, Jesus é o Ungido, alguém que foi posto acima da ordem das coisas para cumprir os mais altos projetos de Yaveh. Como tal, ele não depende de laços consangüíneos para ser aclamado rei em Israel. Quanto a isso, ele mesmo deu o seu testemunho, quando nos textos supracitados de Mateus e Lucas (que curiosamente foram os únicos a traçar genealogias para o Messias), afirma que o Cristo de Deus de maneira alguma pode ser descendente de Davi. Mas como ele precisava ser contado na família de um judeu, coube a José a honra de ser seu pai adotivo. Mas existem provas de que Jesus verdadeiramente foi registrado segundo a linhagem davídica que par-tia da casa de um carpinteiro chamado José.

      Somente com a ajuda de Africanus é-nos possível imaginar uma solução final para a dificuldade proposta pela hipótese de haverem os evangelistas traçado duas diferentes genealogias para Jesus, sendo uma pelo ramo paterno e a outra pelo lado materno. Isso ocorre principalmente porque os estudiosos supõem que os nomes de Jacó e de Eli, identificados como sendo o pai de José, são na verdade alusivos à duas distintas pessoas. Um de fato é pai; o outro é sogro.

      De acordo com as pesquisas de Africanus, o que ocorreu foi o seguinte: tanto Jacó quanto Eli, que os biógrafos de Jesus disseram ser pais de José, eram na verdade irmãos, filhos de uma mesma mãe, mas de pais diferentes. Com muita segurança Africanus segue declarando que Matã, que segundo Mateus, descendia de Salomão, e que Melqui, descendente de Natã, de acordo com Lucas, foram casados com a avó de José, que viera a ser esposo de Maria. Indo além, Africanus registra que essa bisavó de Jesus se chamava Esta, a qual depois de haver dado a luz a Jacó, filho de Matã, ficou viúva, casando-se posteriormente com Melqui, de quem teve um segundo filho: Eli.

      E tendo Eli se casado, veio a falecer sem ter gerado filhos. Então, em conformidade com a lei do levirato, Jacó teve de assumir a viúva para perpetuar a semente do seu irmão. Aí nasceu José, mas esse filho devia ser registrado em nome de Eli, que morrera sem deixar descendentes. É assim que a genealogia de Lucas, não pugnando a lista de Mateus, como declarou Baigent, resgata detalhes importantes das terrenas origens de Jesus, as quais jamais seriam conhecidas de outra maneira.

      Outro detalhe muitíssimo importante nos é dado por Africanus, ao nos chama a atenção para uma pista deixada por Lucas no início da sua genealogia. Em nossas Bíblias a sentença aparece de modo impreciso, mas como nos afirma o historiador, a genealogia original de Lucas se iniciava assim:

       “Jesus era filho de José, que como se supunha, era filho de Eli...”

      Para Africanus, esta observação feita por Lucas no principio da tábua genealógica de Jesus, é significativa, pois permite suspeitar que o evangelista sabia perfeitamente que o pai biológico de José era Jacó, tal como Mateus havia esclarecido em sua genealogia. Não há, portanto, razão para duvidarmos que os dois biógrafos do Nazareno tivessem total consciência das verdades que estavam legando ao cristianismo, independente do tempo e do espaço.

      No fechamento de seu relato, Africanus, com palavras dignas de notoriedade, nos diz de como o nefasto Herodes, querendo ocultar suas próprias origens, lançou às chamas muitos registros oficiais das genealogias judaicas, mas algumas famílias conservaram intactas suas árvores genealógicas, entre as quais constavam os nomes de Matã, Melqui, Jacó e Eli. Confira algumas das palavras do próprio Africanus:

      “Os que saíram de Nazaré e Koshba, vilas da Judéia, para outras partes do mundo, explicaram que a mencionada genealogia retirada de registros diários era tão fidedigna quanto possível. Desse modo, quer o seja, quer não, como eu ou qualquer juiz imparcial diria, certamente ninguém poderia descobrir interpretação mais óbvia”.