sábado, 28 de dezembro de 2013

Apocalipse de Paulo - Parte II

                                      

                                       Parte II

 
11 – E depois disso eu vi um dos seres espirituais que estavam ao meu lado, e ele me tomou em espírito e me levou ao Terceiro Céu. Então ele me disse: Segue-me, e eu te mostrarei o lugar para onde são trazidos os justos depois que eles morrem. Depois te levarei ao abismo e te mostrarei as almas dos pecadores e o tipo de lugar ao qual são conduzidos depois que eles morrem.
Então acompanhei o anjo e ele me levou ao Céu e me mostrou o firmamento e todos as suas potestades, e a negligência a qual engana  e seduz os corações dos homens, e o espírito da calúnia, e o espírito da fornicação, e o espírito da ira, e o espírito da presunção, todos eles estava ali. Os principados  do mal estavam ali. Eu os vi debaixo do firmamento do Céu.

E novamente olhei e vi anjos cruéis, espíritos vorazes; suas faces eram furiosas e das suas bocas sobressaíam os dentes; seus olhos flamejavam como a estrela da manhã que brilha no oriente, e dos seus cabelos e das suas bocas saíam faíscas de fogo. Então perguntei ao anjo que estava comigo: Quem são estes? E o anjo me respondeu: Estes são indicados para as almas dos ímpios quando eles mais precisam, pois não crêm que o Senhor seja o ajudador daqueles que Nele confiam.

12 – Nisso olhei para o alto e vi outros anjos cujas faces resplandeciam como o Sol; eles usavam grinaldas de ouro e tinham palmas em suas mãos e também possuíam o sinal de Deus. E eles usavam vestes nas quais estava escrito o nome do Filho de Deus; cheios de bondade e piedade. Então falei ao anjo que me conduzia: E estes, quem são? E por que possuem tanta beleza e piedade?

E o anjo me respondeu: Estes são os mensageiros da justiça. Eles são os que conduzem as almas dos justos na hora de sua maior necessidade, pois aceitaram o Senhor como ajudador das suas almas. Então eu lhe falei: Precisam os justos e os ímpios igualmente apresentarem as suas testemunhas depois que eles  morrem?  
que o anjo me respondeu: Não há nenhum meio pelo qual o homem possa escapar de Deus, todavia, os justos têm um santo Ajudador, pelo que não encontrarão problemas quando tiverem de comparecer perante Deus.

13 – Então novamente falei ao anjo: Eu desejo ver as almas dos justos e dos pecadores no momento em que elas são tiradas do mundo. Então o anjo me falou: Olhe para a Terra lá em baixo.
 E eu fiz como ele me ordenou e vi que o mundo inteiro era como nada perante a minha vista. E vi  quão banais são os filhos dos homens. Eu estava bastante admirado, pelo que falei ao anjo: É esta a grandeza humana?
 E ele me respondeu, dizendo: Sim, e esta é a sua vida desde a manhã até ao entardecer.
Então olhei novamente e vi uma grande nuvem de fogo que ia cobrindo toda a face da Terra, e disse ao anjo: O que é isto, senhor?  E ele me falou: Esta é a grande injustiça que vem sendo trabalhada para levar os homens à destruição.

14 – Ao oivir isso, eu suspirei e chorei; e falei ao anjo: Gostaria de esperar para ver as almas dos justos e as almas dos pecadores a saber que caminho elas tomam depois que deixam o corpo. O anjo me falou: Olhe outra vez para a Terra lá em baixo. Então olhei e vi toda a vastidão do mundo, e eis que os homens eram como nada perante os meus olhos. E continuei a obervar até que descobri um homem a um canto da Terra.

Então o anjo me falou: Este homem que vês é um justo. Eu continuei a olhar e vi todos os feitos que esse homem havia praticado em nome de Deus; e todos os seus desejos, os que ele se lembrava e os que ele já havia se esquecido; tudo estava perante ele no momento em que a sua alma abandonou o corpo. Eu notei que os justos prosperavam e encontravam refrigério nessa hora, e que tão logo eles deixavam este mundo os anjos do bem e os anjos do mal vinham estar juntamente ao lado deles.

Eu via todos eles, porém os anjos do mal não tinham nehuma autoridade sobre os justos, mas os santos anjos, sim, estes podiam conduzir as suas almas depois que elas abandonavam seus corpos. Eles apresentavam estas almas, dizendo: Alma, toma conhecimento do corpo ao qual tu deixaste, porque no dia da ressurreição deverás retornar a este mesmo corpo a fim de que recebas o que foi prometido aos justos.

 Então eles recebem a alma que deixou o corpo e a osculam como se fossem velhos conhecidos, e dizem-lhe: Eis que cumpriste a vontade de Deus durante o tempo em que estiveste no mundo, portanto, sê de um bom coração.

E o anjo que a assistia a cada dia veio encontrá-la, e disse-lhe: Sê de um bom coração, pois afirmo que me alegro sobre ti por haveres feito a vontade de Deus sobre a Terra. E eu mesmo tenho reportado quais têm sido as tuas obras.
 E do mesmo modo o espírito avançou para encontrá-la, e disse: Alma, não temas nem te perturbes, pois hás de ir a um lugar ao qual jamais conheceste, e eu serei o teu ajudador, visto que encontrei em ti um lugar de refrigério enquanto estive contigo sobre a Terra.

Então seu espírito se encheu de força e o anjo o tomou e o elevou ao Céu. Nisso o anjo lhe falou: Eis que a ti virão os espíritos do mal que povoam as regiões celestiais. São esíritos do engano que hão de dizer-te: Alma, que fizeste para mereceres o Céu? Espera, pois veremos se em ti não há alguma coisa de nós.

Assim, a alma ficou detida ali, pois houve uma grande luta entre os anjos do bem e os anjos do mal. Porém, quando os espíritos do engano examinaram aquela alma, eis que gritaram com forte voz: Eis que não encontramos nada de nós em ti! E além do mais, todos os anjos e espíritos saíram em teu socorro e não permitem que nos apossemos de ti, portanto estás livre para passares de nós.

Mas em seguida veio outro espírito, um espírito de calúnia e um espírito de fornicação, e eis que ficaram parados diante daquela alma. E quando a viram, choraram e disseram: Como puderam arrebatar esta alma das nossas mãos? Ela deve ter cumprido a vontade de Deus sobre a Terra e por isso os seus anjos a ajudam, permitindo que passe por nós sem ser incomodada.

Então todos as potestades do mal saíram a encontrá-la, mas não puderam evitar que ela subisse, pois não encontraram nenhum dos seus defeito sobre ela. Pelo que rangiam os seus dentes contra essa alma, dizendo: Como pudeste escapar de nós?

 Nisso o anjo que a conduzia lhes respondeu:  Tornai-vos em confusão, pois usastes de toda a vossa astúcia para arrastá-la ao mal; vós a tentaste de todas as formas enquanto esteve no mundo, mas ela não quis dar-vos ouvidos.

Então ouvi a voz de miríades de miríades de santos anjos que diziam: Alegra-te e exulta, ó alma, sê forte e não temas coisas alguma. E eles estavam muito admirados que aquela alma tivesse sustentado o sinal do Deus Vivo. Assim eles a econrajavam e chamavam-na bem-aventurada e diziam: Muito nos alegramos em ti, pois fizeste a vontade do nosso Deus.

Então eles mesmos a conduziram para que pudesse adorar a Deus em sua presença. E tão logo eles cessaram de adorar, eis que veio Miguel e todas as hostes de anjos, e se prostraram para apresentar a alma, dizendo: Este é o Deus de todos, o qual os fez a sua imagem e semelhança.
Nisso apareceu um anjo que se adiantou a dizer: Senhor, lembra-te dos seus feitos, pois esta é  a alma cujos feitos te foram reportados a cada dia, agindo segundo os teus juízos.

 E do mesmo modo outro espírito dizia: Eu sou o espírito da vivificação que lhe dava o fôlego. Eu tive refrigério enquanto habitei o seu corpo, de modo que pude me comportar segundo os teus santos preceitos.

Então se ouviu a grande voz de Deus que dizia: Assim como esta alma não me fez agravo, Eu também não a agravarei; ela usou de compaixão, então Eu serei compassivo com ela. Deixai então que Miguel, o anjo do concerto a conduza ao Paraíso da felicidade, a fim de que possa permanecer ali até ao dia da ressurreição.

Então escutei a voz de milhares de anjos, arcanjos e querubins, e os vinte e quatro anciãos que entoavam hinos a Deus, dizendo: Justo és tu, Senhor, e justos sãos os teus julgamentos. Em Ti não há aceitação de pessoas, pois retribuis aos homens segundo os seus feitos merecem.

Depois destas coisas o anjo me falou: Tens tu crido e compreendido tudo o que vos acontece depois que a alma abandona o corpo, e que e que Ele vos assiste nesta hora de necessidade?  E eu lhe respondi: Sim, senhor.
Continua...





domingo, 22 de dezembro de 2013

Os Oráculos Sibilinos







Os Oráculos Sibilinos

O meu sincero desejo era traduzir e publicar gratuitamente na internet uma edição integral de Os Oráculos Sibilinos, porém, a obra é extensa e de uma linguagem realmente difícil de ser compreendida e traduzida com fidelidade, e ainda que não o fosse, eu jamais poderia levar o empreendimento a cabo, pois as minhas ocupações são muitas e não sobraria tempo para me dedicar a esta tarefa.
     
    Decidi então presentear os meus leitores com uma edição condensada, publicando apenas os textos que compõem àquilo que os especialistas usam chamar de A Sibila Cristã. Trata-se de linhas e versos que os eruditos dizem haver sido produzidos por judeus e cristãos, acrescentados aos oráculos originais com o fim de responderem às críticas feitas por pensadores do paganismo greco-romano.
       A acusação que tem tudo para ser verdadeira é muito antiga, porém, a defesa também o é, e mesmo que ficasse comprovado que os primeiros cristãos não adulteraram as profecias das sibilas, uma fustigante questão pairaria no ar: Por que os santos pais do cristianismo primitivo admitiram estes versos como sendo verdadeiras profecias e lhe conferiram a mesma autoridade que repousava sobre as Escrituras Sagradas?

       Não pretendo responder a essa questão, mas para que o meu trabalho não induza o leitor à interpretações precipitadas, hei preparado uma introdução, buscando com isso familiarizá-lo com o assunto e desta maneira permitir que tire as suas próprias conclusões.

       Se me perguntam qual a minha opinião sobre os Oráculos Sibilinos, repondo apenas que sou um cristão conservador; aliás, o mais conservador de todos, porquanto não conservo as convenções de uma hierarquia religiosa nem me prendo aos temporais  interesses da minha própria denominação. Eu conservo a fé apostólica e não procuro adaptá-la às necessidades intelectuais da época em que vivo.

       A Bíblia com muita propriedade afirma que apenas Deus possui onisciência, portanto, apenas Ele tem o poder de desvelar o futuro da humanidade. Todavia, a palavra futuro nesse particular pode possuir um sentido diverso do usual, e, por outro lado, são abundantes e até certo ponto dignos de crédito os testemunhos da História em favor da autenticidade e da fidelidade de algumas predições sibilinas, o que nos obriga a darmos “o braço a torcer” e cogitar que às vezes é possível prever o futuro sem a devida autorização do Altíssimo. Pensemos por exemplo na pitonisa que previu a morte de Saul e Jônatas e também naquela moça que fazia oráculos na cidade de Filipos perante o apóstolo Paulo.

       E mais. Quem somos nós para colocarmos limites ao poder de Deus? Não nos esqueçamos jamais que foi o Deus dos hebreus quem derramou o Espírito Santo sobre Balaão, um famoso feiticeiro do mundo antigo e o autorizou a profetizar o futuro de Israel numa época em que o ministério profético ainda engatinhava entre as tendas de Jacó. 

       Mas para sintetizar a minha tão prolixa resposta afirmarei que não me impressionam  nem  interessam as origens ou a fidelidade dos Oráculos Sibilinos, porque procuro examiná-los sob o ponto de vista de um antropólogo, reconhecendo-lhe o valor e a importância que tiveram para a formação do pensamento social e religioso das civilizações antigas, principalmente se estas civilizações incluem o mundo greco-romano e a cultura judaico-cristã. Não creio que devam ser estudados segundo a perspectiva da teologia; eles até podem nos convidar à expansão do pensamento, mas não devem ditar os parâmetros. Porém, eu também não pretendo direcionar os passos do leitor para qualquer destes rumos. Vamos então à introdução de Os Oráculos Sibilinos.

       A Mitologia – irmã mais velha da verdadeira História, estabelece as nascentes da profecia sibilina já na era antediluviana. Enoque, o primeiro profeta bíblico, teria uma irmã que fazia previsão oracular, e assim também a esposa do patriarca Noé daria continuidade ao ofício depois que as águas do dilúvio esmaecessem e arca enfim repousasse sobre a Cordilheira do Ararat.

        Do ponto de vista histórico, os Oráculos Sibilinos apareceram pela primeira vez na Pérsia, podendo ter então firmado as suas raízes no solo original do zoroastrismo.

       Reverenciados desde sempre, estes oráculos eram transmitidos sempre por alguém do sexo feminino e apesar de haver existido uma infinidade de pitonisas em todas as partes do mundo antigo, apenas dez delas conseguiram galgar total respeito. Afirma-se que a primeira pitonisa surgiu na Pérsia; a segunda veio da Líbia; a terceira foi o famoso Oráculo de Delfos; a quarta foi a Cimeriana; a quinta foi Eritéia, também conhecida como a Babilônica; a sexta era a Samiana; a sétima e mais reverenciada de todas foi a sibila de Cumas, igualmente conhecida como Almatéia; a oitava apareceu no Helesponto; a nona vaticinou na Frigia, atual Turquia; a décima foi a Tiburina, também chamada de Albunéia.

       Até hoje há quem diga que a palavra sibila seja um nome próprio. Outros há que prefiram associar o termo ao suposto chiado que a sibila fazia quando entrava em transe antes de profetizar, mas também existem aqueles que imaginam que essa palavra tem a ver com o rugido dos ventos à entrada da caverna onde a pítia podia ser consultada. Porém, Varro e Lactâncio nos dão uma explicação verdadeiramente convincente. De acordo com eles, a palavra sibila vem da contração de dois termos do grego antigo: zeus – deus + boule – conselho. A pronúncia dos antigos diferia da nossa, portanto, não diziam theous zeus, mas sios; também não diziam boule, mas bile, daí: sibila, ou conselho de deus.

        Oráculos Sibilinos eram compostos de quinze livros e vários fragmentos. Destes quinze livros, três se perderam para sempre. Conta-se que Almatéia, a reverenciada pitonisa de Cumas, apresentou os livros sibilinos ao rei Tarquínio Prisco de Roma, exigindo por eles a fantástica soma de trezentas moedas de ouro, mas o rei, julgando que estivesse louca, riu-se da mulher, que em resposta destruiu três dos livros na sua presença. E outra vez lhe apresentou a oferta: trezentas moedas de ouro pelos livros que restaram. 

        Como na primeira vez, Tarquínio preferiu acreditar que Almatéia estivesse louca e isso lhe custou outros três livros, pois a pitonisa os destruiu sem pestanejar, deixando bem claro que se o rei não a atendesse todos os escritos sagrados restantes teriam o mesmo fim. Tarquínio enfim entendeu que ele seria o verdadeiro louco naquela sala se permitisse à pitonisa destruir todas aquelas preciosidades na sua presença. Então ordenou que lhe pesassem o ouro e recebeu do Oráculo os livros que sobreviveram.

        A mais antiga versão sobre o Oráculo de Cumas reza que o deus Apolo havia se enamorado de Almatéia e sugeriu que lhe pedisse qualquer coisa que desejasse. A moça teria tomado um punhado de areia em uma das mãos e pedido que os seus dias fossem tantos quantos aqueles grãos de pó. Ele concedeu o desejo da fêmea, mas Almatéia negou-lhe o seu amor. Infelizmente, a pitonisa havia pedido apenas vida longa e não a juventude eterna. Sobreveio-lhe então a vingança de Apolo que a castigou com uma longa e enfadonha velhice. Diz-se que estava com setecentos anos de idade quando chegou à Itália acompanhada do herói Enéas. Ali se instalou em uma caverna perto de Nápoles e continuou a profetizar o destino de indivíduos, cidades e reinos.

       Os oráculos de nove sibilas podiam ser lidos e cantados por qualquer indivíduo, mas os versos da pitonisa de Cumas eram mantidos na mais alta estima e apenas o Quindemciviri (uma escola composta de quinze sacerdotes) é que podia consultá-los. Tais livros eram tão reverenciados que praticamente nenhuma decisão importante devia ser tomada pelo governo de Roma sem a sua prévia consulta. Mas por volta do ano 80 a.C. o Capitólio romano sofreu um incêndio e os textos originais de Os Oráculos Sibilinos se perderam. Uma nova compilação foi ordenada a partir de documentos existentes na Ásia Menor, mas já a esse tempo os livros haviam sido corrompidos pela influência alheia.

       A culpa pela corrupção dos escritos sibilinos recaiu principalmente sobre Aristóbulo, um judeu-alexandrino que viveu na corte de Ptolomeu VII por volta do ano 160 a.C. Aristóbulo alegava que a magna literatura da Grécia estava em dívida com a inspiração judaica. Ele queria convencer o paganismo acerca do zelo divino em prol de Israel e para tanto teria apelado para o prestígio que os Oráculos Sibilinos desfrutavam em todo o mundo helênico. Antes disso, ele teria adulterado importantes obras de autores clássicos, incluído nelas vários elementos da fé judaica e até citações dos profetas de Israel. Daí seria apenas um passo até criar a nova edição dos versos sibilinos, agora totalmente impregnada de pensamentos e sentimentos peculiares à religião de seus ancestrais.

       Se esse foi de fato o propósito de Aristóbulo, pode-se dizer que ele obteve o melhor dos êxitos, pois os Oráculos Sibilinos caíram imediatamente na graça do povo judeu, contribuindo em muito para o desenvolvimento religioso de Israel durante o período interbíblico. Na opinião de R. H. Charles, esse teria sido o passo fundamental para o nascimento das literaturas apócrifas e apocalípticas entre os judeus.

       Não existem indícios de que algum autor do Novo Testamento tenha se inspirado em Os Oráculos Sibilinos, todavia, há quem diga que a escatologia de Pedro contenha elementos compatíveis apenas com os livros das sibilas e Clemente chegou a afirmar que Paulo fez uso destes versos proféticos nas suas cartas. Nem uma coisa nem outra pode ser confirmada, mas Clemente, querendo dar força aos argumentos em favor da autoridade das sibilas, e assim poder justificar o seu corrente uso entre os cristãos, apelou para a autoridade do Apóstolo dos Gentios.

       De uma coisa, porém, podemos estar certos: os cristãos primitivos criam piamente na divina inspiração das sibilas e podiam recitar os seus versos com a mesma ênfase e reverência cabíveis apenas à palavra dos profetas de Israel. Justino Mártir chega a lamentar que as autoridades romanas tenham sob pena de morte proibido a leitura dos Oráculos Sibilinos, das Profecias de Histaspes e das Escrituras Hebraicas, e faz questão de esclarecer que apesar disso os cristãos continuavam a fazer uma coisa e outra.

       Quanto a Orígenes, foi questionado por Celso pelo fato de os cristãos fazerem uso freqüentes dos escritos da sibilas e ele mesmo insinuou que tais cristãos haviam adulterado os escritos originais para conformá-los à sua fé. Orígenes sai em defesa dos irmãos e afirma existirem provas de que os livros das sibilas permaneciam tão inviolados quanto sempre, dando assim testemunho de que todas as suas profecias haviam sido inspiradas pelo Verdadeiro Deus. Outros vultos sagrados da igreja antiga que advogaram a autoridade das sibilas são: Atenágoras, Teófilo, Tertuliano, Lactâncio e Ambrósio.

       Não faço parte dessa escola, pois está muito claro que alguns versos das sibilas são espúrios, mas nem por isso posso deixar de reconhecer a importância do estudo desses escritos para a compreensão do pensamento escatológico dos primeiros cristãos. Também não estranharei se puder ficar comprovado que algumas daquelas profecias cujos elementos se relacionam diretamente com a nossa fé tenham nascido no coração de qualquer pitonisa. 

 Estejam então atentos, porque a qualquer momento estarei publicando a primeira parte da Sibila Cristã. Até breve. 
 

O Sinal do Filho do Homem




Texto Bíblico Básico:
“Então aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; e todas as tribos da terra se lamentarão, e verão o Filho do Homem, vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória”. (Mateus 24. 30)

Prosseguindo com o nosso estudo sobre a segunda vinda de Cristo, iremos fixar a atenção em um ponto que tem causado estranheza e que desde os primitivos anos do cristianismo vem sendo abordado de modo meramente especulativo, ou quando muito, tratado sem a devida segurança, mas com algumas reticências.
Foi o Senhor quem disse que a sua segunda vinda há de ser precedida por um sinal no céu. A palavra grega ali empregada é “semeion”, que numa acepção corriqueira traz o sentido de “símbolo”, uma marca distintiva, um brasão etc. Perdoem-me se estou sendo repetitivo, mas a idéia aqui transmitida é a de um selo pessoal, uma forma de associar determinada imagem a alguém em particular e desta maneira torná-lo identificável.
Grandes autores do cristianismo primitivo partiram dessa acepção etimológica e concluíram que nenhum outro símbolo há que possa mais rapidamente direcionar-nos a Cristo senão a cruz. Uma asserção bastante razoável, mas que deve ser tratada com restrições, porque nos parece que a força dessa interpretação consistiu mais na suposta visão do imperador Constantino do que na exegese do Evangelho ou na idéia que a própria palavra “sinal” possa exprimir.
Assim, o livro de Clemente diz: “Então haverá sinais no céu: um arco-íris será visto, uma trombeta e um relâmpago”.
A História Judaica de Daniel: “E aparecerá o estandarte do Messias”.
Os Oráculos Sibilinos, referindo-se à segunda vinda de Cristo: “Desde então Deus realizará um grande sinal, porque como refulgente coroa uma estrela brilhará no céu ...
Lactâncio escreveu: “De repente uma espada descerá do céu, para que os justos possam saber que o líder dos santos exércitos está por aparecer”.
Outras manifestações foram descritas em importantes obras do cristianismo antigo, tal como a visão de uma carruagem de fogo, porém, o símbolo que mais força exprimia era a aparição de uma grande cruz, como se a imagem do madeiro fosse suficiente para dar aos moradores da Terra a mais concisa certeza acerca Daquele que está para descer. O Apocalipse de Elias, todavia, inclui outros elementos nessa aparição, quando diz:
“Porque quando vier o Cristo, há de aparecer como uma pomba, e rodeado por uma coroa de pombas, descendo sobre as nuvens do céu precedido pelo maravilhoso sinal da cruz. O mundo inteiro O verá, pois surgirá como o sol, de modo que será visto desde o Oriente até ao Ocidente. Eis que virá e todos os seus anjos com Ele”.
Eu, porém, lanço um demorado olhar sobre a Bíblia e concentro toda a minha atenção no único motivo que levou o Senhor Jesus a incluir “o sinal do Filho do Homem” no seu Sermão Profético. E antes de dar a real interpretação quero explicar que a palavra “semeion” não raro ocorre no Novo Testamento com outros sentidos. Em Apocalipse 12. 1, por exemplo, ela serve para descrever todo um conjunto de símbolos que compõem a visão do profeta. Mas o verdadeiro foco da nossa investigação é outro e devemos buscá-lo no imediato contexto das palavras do Senhor.
A mesma palavra “semeion” ocorre exatamente na abertura do Sermão Profético de Jesus e foi ela a real causa do maravilho discurso de Nosso Senhor. Vamos relembrar? Então leiam comigo o texto de Mateus 24. 3:
“E, estando assentado no Monte das Oliveiras, chegaram-se a Ele os seus discípulos em particular, dizendo: Dize-nos quando serão essas coisas, e que sinal (semeion) haverá da tua vinda e do fim do mundo”.
Como me admira que mais uma vez a escatologia judaica tenha largado na frente! É impressionante como os alucinados autores do apocalipsismo intertestamentário conseguiram perscrutar as profundezas do Conselho de Deus. Porque as questões suscitadas pelos discípulos não estavam edificadas sobre o vácuo. Já naquele tempo (ou mesmo antes dele) existia uma bem-estruturada doutrina acerca dos sinais que antecederiam a vinda sobrenatural do Messias, e a maneira consciente pela qual a questão foi apresentada deve provar que aqueles rudes pescadores da Galiléia não eram tão ignorantes quanto se supunha.
Notem que eles não perguntam necessariamente pelos “sinais”, mas pelo único e específico “sinal” da vinda do Senhor, e com sapiência sabem associar esse sinal com o fim do mundo, que outra coisa não é senão uma alusão geral ao fim do governo humano e a conseqüente implantação do Reino de Deus. Então quando o Senhor faz menção do “sinal do Filho do Homem” Ele está apenas respondendo à inicial preocupação dos discípulos.
Em linhas gerais podemos dizer que os sinais da segunda vinda de Cristo, tal como anunciados pelo mesmo Senhor, não acrescentaram nada ao conhecimento escatológico dos apóstolos, pois todos aqueles indícios proféticos lhes haviam sido transmitidos através dos sermões na sinagoga e eram bastante populares graças à abundante literatura apocalíptica da época. Mas acontecia de existirem diferentes ordens na cadeia dos acontecimentos, de modo que pairava sempre a dúvida sobre qual o sinal que definitivamente precederia a parousia do Salvador.
Eles queriam saber “que sinal haverá da vinda do Messias e do fim do mundo”. Esse detalhe é de particular importância, conquanto represente uma crença corrente naqueles dias segundo a qual se imaginava que o advento do Messias também seria o início do Juízo Final. Portanto, “o sinal do Filho do Homem” tem a ver com “  Que sinal haverá da tua vinda e do fim do mundo”.
Enfim, que vem a ser esse sinal? São duas as respostas à questão e ambas estão interligadas. Em primeiro lugar, devemos ter em mente que tanto o Antigo quanto o Novo Testamento falam de um curto período de tempo durante o qual vários sinais ocorrerão simultaneamente. O Senhor Jesus sintetizou as visões dos profetas em um só versículo: Mateus 24. 29:
“E logo depois da aflição daqueles dias, o sol escurecerá, e alua não dará a sua luz, e as estrelas cairão do céu, e as potências do céu serão abaladas”.
Em segundo lugar, imediatamente a estes acontecimentos de ordem natural (?) aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem. Esse sinal, lamento desapontar os meus colegas, não será nenhum símbolo pessoal de Cristo, mas uma visão universal da majestade de Jesus, anunciada pelo estarrecedor toque da shofar de Deus, a qual há de ser ouvida em toda a Terra. Estejamos atentos à pista que o Nosso Senhor nos deu ao declarar:
“Então aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem”.
Mas dois versículos antes Ele havia dito:
“Porque assim como o relâmpago sai do Oriente e se mostra no Ocidente, assim será também a vinda do Filho do Homem”. (Mateus 24. 27.).
E outra vez:
“Disse-lhe Jesus: Tu o disseste; digo-vos, porém, que vereis em breve o Filho do Homem assentado à direita do Poder, e vindo sobre as nuvens do céu” (Mateus 26. 64).
Apocalipse 1. 7 também diz:
“Eis que vem com as nuvens, e todo o olho o verá, até mesmo os que o traspassaram; e todas as tribos da Terra se lamentarão sobre Ele. Sim. Amém”.
Já expliquei que a palavra grega “semeion” traduzida em nossas Bíblias como “sinal”, também ocorre em Apocalipse 12. 1 com o sentido de “uma visão no céu”. O sinal do Filho do Homem é então uma parousia, ou manifestação universal, e isso não tem nada a ver com transmissões via satélite, pois a Escritura atesta que a sua aparição há de ser testemunhada até no Inferno!
Mas caso o leitor ainda não esteja convencido desta nossa exposição, eis o que o Apocalipse de João tem a nos dizer:
“E, havendo aberto o sexto selo, olhei, e eis que houve um grande tremor de terra; e o sol tornou-se negro como um saco de cilício, e a lua tornou-se como sangue. E s estrelas do céu caíram sobre a terra, como quando a figueira lança de si os seus figos verdes, abalada por um vento forte. E o céu retirou-se como um livro que se enrola; e todos os montes e ilhas foram removidos dos seus lugares. E os reis da terra, e os grandes e ricos, e os tribunos, e os poderosos, e todo o servo, e todo o livre, se esconderam nas cavernas e nas rochas das montanhas; e diziam aos montes e aos rochedos: Cai sobre nós,e escondei-nos do rosto Daquele que está assentado sobre o trono, e da ira do Cordeiro.”
Esse quadro é a explicação dada pela própria Bíblia para a profecia de anunciada por Cristo em Mateus 24. 29, 30. Mas o texto de Mateus 26. 64 resume todo a complexidade da visão em poucas e esclarecedoras palavras. E como em todas as passagens correspondentes, fica claro que o sinal do Filho do Homem há de ser uma visão mundial da pessoa de Jesus Cristo assentado à direita de Deus. Apesar de tudo, a cena apavorante será “apenas” uma visão daquilo que estará acontecendo em Jerusalém quando o Messias vier na sua glória. É por isso que é chamada de o sinal do Filho do Homem.