sábado, 7 de dezembro de 2013

A Escatologia Judaica



Texto Bíblico Básico:

“Sim, eu gostaria de ser amaldiçoado e separado de Cristo em favor dos meus irmãos de raça e sangue. Eles são israelitas e possuem a adoção filial, a glória, as alianças, a legislação, o culto e as promessas; deles são os patriarcas e deles nasceu Cristo segundo a condição humana, que está acima de tudo. Deus seja bendito para sempre. Amém.” (Romanos 9. 3 – 5)
                                             


Redundância das redundâncias. A igreja cristã não possui uma escatologia que com razão possa ser chamada de sua, não lhe restando nada além de dois ou três elementos que por natureza são incomuns à futura esperança de Israel. Quanto aos judeus, tem sido argumentado que jamais possuíram uma escatologia original e que se eles algum tempo cultivaram quaisquer idéias religiosas de caráter metafísico foi por obra e graça do zoroastrismo ao qual vieram a conhecer durante os anos do cativeiro na Babilônia.
Que o zoroastrismo da Pérsia exerceu a mais decisiva influência sobre o pensamento judeu do período pós-cativeiro é um fato que não deve ser questionado, todavia, essa afirmação é apenas metade de uma grande verdade, porque embora eles houvessem estado até então alheios a qualquer possibilidade de uma esperança futura, hão de sobejar as mais concisas evidências de que todos os componentes da chamada escatologia Avesta já haviam sido revelados por Deus ao seu servo Moisés e que já haviam sido registrados nos livros sagrados dos judeus cerca de quinhentos anos antes da transportação de Israel para as terras da Caldéia.
E tem mais. Sabendo quem foi o verdadeiro Zoroastro e em que época ele viveu, temos motivos de sobra para desconfiar que tanto a escatologia do Avesta quanto a religiosa esperança de Israel procederam de uma e a mesma fonte. A influência da cultura persa sobre a Caldéia é muito antiga e suas marcas podem ser reconhecidas até aos dias de hoje. O Zoroastro que propagou a filosofia Avesta em Babilônia era o mesmo personagem a quem a Bíblia chama de Ninrode, um descendente do patriarca Noé, e ele mesmo foi o primeiro líder espiritual do mundo antigo. Esse fundador da Torre de babel de fato foi mais astuto e pernicioso do que normalmente se supunha e ousou fincar as bases da sua religião sobre o bendito solo das profecias de Enoque, o sétimo depois de Adão.
Os teólogos, quer sejam eles liberais ou conservadores, estão unidos no afã de reduzirem as visões proféticas de Enoque a um punhado de fábulas e crendices cimentadas pelo folclore judaico e não levam em conta que toda a escatologia pregada pelo Senhor Jesus esteja na mais estreita conformidade com as profecias do filho de Jarede. Dentre todos os autores do Novo Testamento o que mais menção fez dos livros de Enoque foi justamente o Senhor, chegando a recitar trechos inteiros no famoso Sermão Profético.
Deste modo, as visões proféticas de Enoque receberam a total chancela do Novo Testamento, pelo que tentar invalidá-las pode ser o mesmo que lançar dúvidas sobre os discursos de Jesus e sua escola apostólica. Mas não quero me estender com esta argumentação, o que pretendo na verdade é trazer à tona as provas de que as bases da original escatologia de Israel podem ser tão antigas quanto a própria civilização dos homens.
Não sendo isso bastante, chamo a atenção do leitor para o profetismo contido no impressionante calendário festivo dos Judeus, o qual foi ordenado por Deus e estabelecido como estatuto perpétuo sobre Israel. Ali estão descritos com riqueza de detalhes todos os componentes que mais tarde vieram a fazer parte do conjunto de idéias e doutrinas ao qual chamamos de escatologia judaica.
Estavam gravadas no livro de Levítico, mas a comunidade de Israel negligenciou por completo as determinações divinas e não celebrou nenhum dos sete festivais proféticos do Senhor até aos dias do cativeiro babilônico. Foi a partir dos dias de Esdras e Neemias que eles passaram a realizar as suas festas regularmente e desde então a luz da verdade se acendeu para Israel. Os entendidos dentre o povo foram aos poucos captando os símbolos por trás de cada ritual festivo e puderam associar os seus significados às várias etapas do plano divino para a redenção tanto individual quanto coletiva, primeiramente em Israel e depois em todo o mundo.
A escatologia Avesta contribuiu para abrir os olhos do judeu para uma nova e sublime realidade, a saber, que a soberania de Jeová se estendia para além das fronteiras de Canaã e que a responsabilidade humana perante Deus não estava limitada apenas a esta vida e a este mundo.
Com isso fica caracterizado que a igreja cristã não possui uma escatologia propriamente sua, e, que, exceto pelas doutrinas do arrebatamento, da ressurreição e do tribunal de Cristo, tudo o mais pertence à religiosa esperança de Israel. Há, porém, uma notável distinção entre a escatologia judaica e aquela que o apóstolo Paulo ensinou em todas as igrejas dos gentios que estiveram sob os seus cuidados. Mas trataremos desse assunto em outra oportunidade.

Davi e a Oração do Espírito Santo



Texto Bíblico Básico
“Não me lances fora da tua presença, e não retires de mim o teu Espírito Santo” 
(Salmo 51. 11).

                                                                            


Estudar a Bíblia nunca foi e jamais será uma tarefa fácil. Há um conjunto de qualidades que precisam ser agregadas e aperfeiçoadas antes que nos tornemos em verdadeiros e imparciais estudiosos das Escrituras. Eu particularmente tomo por regra primordial que o jovem amante das Sagradas Letras acima de tudo busque se libertar daquilo que uso chamar de “mania da viseira”. A viseira no sentido aqui empregado é aquele apetrecho de couro que os interioranos ajustam à cabeça dos animais de carga com o objetivo de bloquear-lhes a visão lateral de modo que este (geralmente um burro ou jumento) não se desvie do rumo desejado por aquele que o conduz.
Trazendo para o lado humano, essa “mania da viseira” consiste em limitar a visão do jovem candidato a teólogo, fazendo que ele esteja preso à mediocridade de uma compreensão imposta. E como funciona isso?  Em linhas gerais, a mania da viseira não permite um olhar periférico do assunto e conforma o neófito pesquisador a uma interpretação capenga e viciosa. O texto bíblico que tomamos como base para esse estudo é um bom exemplo do caso em apreço, já que a interpretação geral dada às palavras “o teu Espírito Santo” tende a provar o quanto as pessoas podem estar habituadas ao uso da “viseira”, que, por ironia, só devia ser usada por burros e jumentos (Sem ofensas).
Tenho assim me referido porque ao longo dos anos hei escutado e lido de importantes pensadores cristãos que afirmam que o anelo de Davi ao orar: “Não me lances fora da tua presença, e não retires de mim o teu Espírito Santo” é uma súplica para não perder a comunhão com o Espírito de Deus, como se o maior monarca de Israel de fato soubesse dar ao Consolador a mesma acepção que hoje lhe é dada, isso é, que existe uma terceira pessoa da divindade, mas essa é uma interpretação desprovida de qualquer apoio escriturístico.
Perguntai hoje qual o sentido que os judeus dão à expressão “Espírito Santo” tal como ocorrente no Antigo Testamento e sabereis que o rei Davi em nenhum momento estava se referindo a uma possível terceira pessoa da Trindade, até porque o monoteísmo da sua religião não permitia uma cogitação como essa. No Antigo Testamento, quer gostemos disso ou não, a forma composta “Espírito Santo” possuía dois sentidos e um deles se aproximava bastante daquela linha de raciocínio defendida pelas Testemunhas de Jeová, traduzindo-se então numa idéia de “força”, “inspiração”, “energia”. Isso está em harmonia com a compreensão do monoteísmo judaico, onde a atuação do Espírito Santo sobre os servos de Deus não devia ser imaginada como a fusão pessoal de Adonai no ser Humano, mas como a influência do seu poder e inspiração sobre as faculdades físicas e mentais do mesmo.
Ainda assim não era essa a idéia que acudia à mente do salmista ao orar: “e não retires de mim o teu Espírito Santo”. E quanto mais generalizada se torna a confusão quando nos obrigados a esclarecer que os que usam interpretar esse texto como sendo uma súplica pela permanência do Consolador sobre o aflito rei de Israel estão a cometer um grotesco engano, já que na verdade a expressão “Espírito Santo”, neste particular, se refere ao próprio espírito do ser humano!
Chocante? Nem tanto. Porque há uma diferença entre aquilo que a Bíblia diz e aquilo que as pessoas dizem que Ela diz. Vamos recitar o texto mais uma vez e peço ao leitor que esteja atento ao estilo do sagrado autor, a fim de que seja obtido o real sentido da sua oração:
“Não me lances fora da tua presença, e não retires de mim o teu Espírito Santo”.
Vamos analisar por partes. Primeiro nos prendamos ao recurso estilístico do sacro escritor, bem como ao hebraísmo por trás da composição da frase, não deixando escapar a sua inicial petição: “Não me lances fora da tua presença [...]” Regra número dois: o jovem candidato a teólogo deve estar sempre atento aos contextos históricos, religiosos e culturais de cada época bíblica. Em se tratando do Antigo Testamento, ou mais precisamente dos dias do salmista Davi, devemos nos inteirar acerca dos sentimentos e pensamentos que regiam a fé como num todo. Que significava então ser lançado fora da presença de Deus? Sem rodeios, era o mesmo que descer ao Sheol-Hades, significava morrer, ser cortado da terra dos viventes.
Que ninguém estranhe, mas até a época do cativeiro babilônico a religião dos judeus havia ensinado que a responsabilidade de cada israelita em relação a Jeová estava limitada apenas a este mundo, pois entendia-se que a jurisdição e os domínios de Deus não se estendiam para além das fronteiras físicas de Israel. Jeová era um deus tribal e a sua soberania dizia respeito somente à nação dos judeus. Por outro lado,a religião local, como em todos os países da circunvizinhança, pregava que o Inferno, para onde seguiam as almas de todos os mortos, fossem eles justos ou injustos, era governado por seus próprios deuses, e é justamente por esse motivo que noutra ocasião encontramos as seguintes palavras nos lábios do salmista:
“Porque na morte não há lembranças de ti (Jeová); no sepulcro quem ti louvará?” (Salmo 6. 5).
Então numa interpretação fiel do pensamento e do sentimento davídico a frase “Não me lances fora da tua presença [...]”, significa literalmente: “Não permitas que eu morra”. Na segunda parte da oração eis o estilo do salmista e a forma redundante com a qual alguns autores sagrados costumavam construir as suas sentenças: “[...] e não retires de mim o teu Espírito Santo”. Temos dito que a forma composta “Espírito Santo” nesse caso não deve aplicada à terceira pessoa da Trindade. E o que significaria então? Responderei a questão com outra pergunta: Nos dias do Antigo Testamento, que significava ficar sem o Espírito de Deus? – Significava simplesmente dar o último suspiro, morrer, era ser desamparado por Deus e ficar entregue ao anjo da morte. Deste modo, a oração de Davi está composta de duas partes e ambas possuem idêntico significado.
A regra número um da hermenêutica sugere que a Bíblia interprete a própria Bíblia, então encontramos no mesmo saltério de Israel a interpretação das já mencionadas palavras de Davi. Vamos ao Salmo 104. 29, 30:
”Escondes o teu rosto, e ficam perturbados; se lhes tira a respiração, morrem, e voltam para o seu pó. Envias o teu Espírito e são criados, e assim renovas a face da terra”.
Por aqui entendemos que “esconder o teu rosto” é o mesmo que “ser lançado fora da tua presença” e que “ lhes tiras a respiração” equivale a “retirar o teu Espírito Santo”. Porque ao nascer, o homem recebe um espírito, que no versículo 30 do Salmo 104 é chamado de Espírito de Deus.
O mesmo pensamento era compartilhado por Jó e seus contemporâneos, pois o jovem Eliú assim se referiu em Jó 33. 4:
“O Espírito de Deus me fez, e a inspiração do Todo-Poderoso me deu a vida”.
Assim também lemos através do Gênesis, quando Deus se refere ao homem com estas palavras:
“Não contenderá o meu Espírito para sempre com o home; porque ele também é carne”. (Gênesis 6. 3).
Aqui está esclarecido que “O meu Espírito” não tem relação nenhuma com a terceira pessoa da Trindade, mas notamos que devido ao “hábito da viseira” o nosso tradutor grafou a palavra espírito com um “E” maiúsculo e deu a sua contribuição para que o engano fosse perpetuado.
O Todo-Poderoso disse: “Não contenderá o meu espírito para sempre com o homem; porque ele também é carne”. Eis uma notável alusão à composição do ser total do homem com espírito e corpo. Esse texto possui um sentido mui profundo e nos faz refletir sobre as nossas tendências interiores – a contenda do espírito com a carne, e ainda consegue responder a questão que os pensadores do existencialismo há muito vêm tentando esclarecer: Possui o corpo um espírito, ou é o espírito que possui um corpo?
Em suma, quero recordar ao meu leitor que a oração de Davi no Salmo 51. 11 não tem nada a ver com o anelo pela permanência da terceira pessoa da Trindade sobre o sacro poeta. Diferente disso, o que ele traz nos lábios é uma súplica para que Adonai não o castigue com a morte como justo julgamento pelo assassinato do nobre Urias.