quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Mas daquele dia e hora ninguém sabe (?)

Aquele Dia e Hora Ninguém Sabe (?)
Texto Bíblico:
“Porém daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, mas unicamente meu Pai” (Mateus 24. 36).

Li uma obra de Aquino na qual o bom teólogo tenta se desvencilhar da polêmica alegando que no texto original do Evangelho esse versículo não incluía o Filho de Deus entre os seres que ignoram o dia da sua vinda. Pelo que entendi, o mestre Aquino propunha que o motivo da questão havia sido suscitado por causa dos manuscritos que Jerônimo usara na confecção de sua Vulgata Latina e ele mesmo faz menção de outros exemplares do Evangelho se omite a expressão “Nem o Filho”.
Assumir uma posição como essa é contrariar a tradição de nossa própria teologia, conquanto hajam sobrevivido documentos do segundo e terceiro séculos nos quais os nossos mais honrados pais já lidavam com a questão da “ignorância” do Senhor acerca do dia da sua segunda vinda. Eis a prova de que se as nossas Bíblias contêm a controversa afirmação é porque o Mestre de fato pronunciou as supramencionadas palavras.
Eu jamais tive problemas com esse versículo. Sou crente incondicional na divindade plena do Senhor Jesus e não admito em hipótese nenhuma que um ser Todo-Poderoso possa estar alheio a tão elementar detalhe do plano de Deus. E não perderei tempo em fazer apresentação da interminável quantidade de textos bíblicos onde a plena divindade de Cristo é assegurada, pois isso seria como sugerir que os que lidam com o assunto não possuem intimidade com as Sagradas Escrituras. Fa-los-ei apenas que se recordem do seguinte: Cristo é Deus em ser e em essência, portanto, Ele possui os mesmos atributos pessoas do Eterno Pai, tais como onipresença, onisciência, onipotência e auto-existência. Isso deve implicar que Cristo não se tornou “Deus” depois de haver nascido, crescido, padecido, morrido, ressuscitado e retornado para o Céu. Ele é Deus; Ele sempre fora Deus e ponto final.
Então Jesus sempre teve onisciência? – Se dissermos que não, estaremos com isso admitindo que em algum tempo Ele deixou de ser Deus, mas evidentemente isso nunca aconteceu, nem mesmo na sua morte; porque se na condição de Deus Ele não precisava nascer, não seria menos certo afirmar que como Deus Ele também não poderia morrer. Em Cristo a divindade e a humanidade são indivisíveis.
A questão então surge: Como distinguir o humano do divino e vice-versa? Teológica e biblicamente falando, isso não é muito difícil, mas quando a isso nos aventuramos costumamos tropeçar em nossa própria compreensão. Primeiro nos concentremos nisso: nosso texto áureo tende a responder uma questão que os discípulos apresentaram ao Mestre no início do capítulo 24 de Mateus: “Dize-nos quando serão estas coisas, e que sinal haverá da tua vinda e do fim do mundo?”
O Mestre com paciência lhes relatou diversos sinais que evidenciariam a aproximação da sua segunda vinda, mas conclui a resposta afirmando que estes sinais serviriam para deixar os seus servos de prontidão quanto à iminência da sua chegada, mas que especificamente o dia e a hora permaneciam desconhecidos de todos, mesmo Daquele que lhes falava.
Mas Ele disse no tocante à sua humanidade, ou será que devemos estender a deixa à divindade igualmente? A mim está cristalino que apenas a sua humanidade fica em evidência, porque como Deus é (ou era) impossível que Cristo ignore o exato dia da sua segunda vinda. Eu não posso me incluir entre aqueles que concordam com essa forma de interpretação, pois esta é apenas outra maneira de negar a divindade do meu Senhor, já que Aquele que tudo pode, tudo sabe e tudo vê não deve ser imaginado como alguém de quem o Altíssimo escondeu algo. A coisa então se resume nisto: Se Cristo é Deus em potencial, logo é impossível que Ele desconheça qualquer detalhe do eterno plano divino.
Os hereges das eras primitivas se apegavam a esse texto para negar a divindade do Senhor. E me chama atenção que na presente era aqueles que se valem do mesmo argumento são exatamente os que afirmam que o texto de Mateus 24. 36 foi plasmado de um trecho do Evangelho de Marcos (mais especificamente o Sermão Profético) cuja autoria reconhecem ser espúria. Ou seja, eles mesmos asseguram que essa polêmica passagem do texto sagrado não fazia parte do Evangelho original, mas que fora acrescentadas nos dias posteriores à guerra de Bar Koba. Então nos perguntaremos: Por que motivo discutimos ainda esse assunto?
Mas esse texto é original e está em harmonia com o conjunto da obra. O Senhor de fato disse “Nem o Filho”, mas essa declaração não está vinculada com a sua divindade e o versículo seguinte bem pode aquiescer com a minha linha de raciocínio, porquanto faça clara ligação entre “aquele dia e hora” com “a vinda do Filho do Homem”. Logo, é a sua humanidade que está em pauta.
O Filho do Homem é o Messias dos judeus, e, ora, no âmbito da escatologia nacional de Israel nunca se cogitou que o Messias possuísse sequer um dedo da divindade. O Senhor Jesus se expressou com palavras e sentimentos peculiares à fé dos seus interlocutores e ouvintes e devemos buscar o significado da frase dentro do contexto religioso e cultural em que ela foi pronunciada e não segundo o posterior sentido que o cristianismo lhe conferiu.
Bom é que se acrescente a isso o fato de que quando essas palavras foram pronunciadas nenhum dos seus discípulos sequer imaginou que Ele estivesse se referindo à sua pessoa como o Eterno Filho de Deus, alguém que em tudo se assemelha ao Pai. O Messias também podia ser chamado de Filho de Deus, mas isso traduzia apenas o sentido de adoção. Leia o que as palavras dos saduceus em Mateus 26. 63 e confiram a resposta que o Senhor lhes deu no versículo seguinte. Filho de Deus e Filho do Homem possuem o mesmo sentido, e nos Evangelhos sinóticos se referem à humanidade do Senhor. Apenas no Evangelho de João essa expressão recebe um sentido amplo e crava como irretorquível o tema da divindade de Jesus.
Recapitulando: Jesus conhecia a exata época do seu retorno em glória?
Resposta: O Jesus profeta, certamente que não, porém, o Verbo de Deus sempre o soube. Depois de haver ressuscitado e ter instruído a sua escola de apóstolos acerca da escatologia do Reino, eis que eles outra vez lhe apresentaram a questão, porquanto imaginassem que manifestada a sua divindade Ele agora lhes responderia a contento: “Restituirás tu neste tempo o reino a Israel?” (Atos 1. 6).
O Senhor lhes respondeu, mas não da forma que eles esperavam: “Não vos pertence saber os tempos e as estações que o Pai estabeleceu pelo seu próprio poder.” (Atos 1. 7).
Notai que o Mestre não disse “não nos pertence”, mas “não vos pertence”. Portanto, está claro que Ele o sabia.

      

domingo, 24 de novembro de 2013

As Bodas do Cordeiro - Um Equívoco da Escatologia Moderna



As Bodas do Cordeiro:
Um Equívoco da Escatologia Moderna

Texto Bíblico:

Regozijemo-nos, e alegremo-nos, e demos-lhe glória; porque vindas são as bodas do Cordeiro, e já a sua esposa se aprontou. E foi-lhe dado que se vestisse de linho fino, puro e resplandecente; porque o linho fino são as justiças dos santos. E disse-me: Escreve: Bem-aventurado aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro. E disse-me: Estas são as verdadeiras palavras de Deus” (Apocalipse 19. 7-9).

       A expressão “bodas do Cordeiro” não é comum em nenhum documento sagrado quer dos judeus quer da igreja cristã. O apóstolo João foi o único autor sacro a fazer uso dessa fraseologia e isso pode ser bastante para explicar um erro que os nossos monitores costumam cometer sem nunca se darem por conta. Nos parâmetros da escatologia moderna se tem pregado que as bodas do Cordeiro são alusivas à uma festa que o Senhor Jesus oferecerá aos seus santos  tão logo se cumpra o arrebatamento da igreja. Esse tem sido um dos irremovíveis pilares da futura esperança da cristandade atual, mas não me evadirei de dizer que um equívoco será sempre um equívoco, mesmo que venha a ser defendido pela eloqüência e pela paixão de um pesquisador sincero.
       Primeiro vamos esclarecer que a chamada “ceia das bodas do Cordeiro” não faz parte daqueles elementos que compõem a escatologia cristã original. O tema nos remete à esperança religiosa dos judeus, onde o assunto é inúmeras vezes abordado como sendo um banquete que o Messias oferecerá a Israel durante a introdução do seu reino sobre a Terra. Esse tema é abundante em praticamente todos os gêneros da literatura judaica, e é com esse exato sentido que ele ocorre não poucas vezes nas páginas dos Evangelhos canônicos.
       Então, as bodas do Cordeiro não têm nada a ver com a igreja de Cristo? A questão é relativa. Podemos assegurar que esse banquete do Messias diz respeito apenas às promessas que Deus fez aos patriarcas de Israel, cujos descendentes a Bíblia chama de “filhos das bodas”. Não obstante, o Novo testamento também menciona aqueles que “são chamados à ceia das bodas do Cordeiro”. É nesse contexto que a igreja dos gentios está encaixada.
       Em segundo lugar, tanto a Bíblia quanto a tradição escatológica dos judeus prevêem não um, mas três específicos banquetes a serem oferecidos pelo Messias quando da sua manifestação. O assunto é amplo demais, pelo que deixaremos para nos ater a esse particular em outra ocasião. Por ora basta reconhecermos que a fraseologia “bodas do Cordeiro” e tudo o que a envolve está repleta de elementos que são exclusivos da escatológica esperança de Israel. Mas, quê! Então há distinção entre a escatologia de Israel e a futura esperança da igreja?  
       Evidentemente que sim; do mesmo modo como existem enormes diferenças entre a escatologia difundida pela igreja em Jerusalém e aquela que nos foi ensinada pelo apóstolo dos gentios. Ambas as linhas se coadunam e podem ser combinadas, mas a verdade é que foram pregadas com sentimentos e propósitos distintos. Você já se perguntou, por exemplo, por que o apóstolo Paulo jamais se refere a Jesus como Filho do Homem e (ou) Cordeiro de Deus? Já notou que os pais da igreja em Jerusalém nunca falam acerca do arrebatamento da igreja? – Eles de fato discorrem sobre a segunda vinda de Cristo, mas o fazem dentro de um contexto puramente judaico, apontando para o dia em que o Senhor aparecerá sobre as nuvens do céu.
       Em terceiro lugar, a própria idéia de bodas do Cordeiro é exclusivamente judaica e exclui a possibilidade de um simbólico casamento entre Cristo e a igreja. Digo isso porque foi-nos ensinado que espiritualmente Cristo e a igreja estão noivos, embora a Bíblia nada diga a esse respeito, apenas o bendito Paulo fez uma leve e despretensiosa insinuação em II Coríntios 11. 2. Mas vale dizer que Paulo se refere à igreja como a uma virgem pura e imaculada que se reserva para o seu marido, o que não acontece em relação a Israel. E o Apocalipse sem reservas se refere á “esposa” do Cordeiro, embora siga que num texto posterior venha deixar muito claro que essa esposa não é a igreja (Apocalipse 21. 9, 10).
       Por que é que a Bíblia se refere a uma esposa em vez de a uma noiva?  Certo é que existe um contexto cultural por trás da declaração, mas esse é um elemento do hebraísmo e do apocalipsismo comum dos judeus. Há um Targum de Cantares de Salomão que foi escrito por um rabi do terceiro século. Essa obra possui impactante apelo profético e o seu autor não se limita a dizer que a poesia salomônica foi apresentada para descrever o relacionamento entre Deus e Israel desde a saída do Egito até ao dia da aparição do Messias, quando as bodas desse casamento serão celebradas.
       Há igualmente um ramo do judaísmo que afirma que Deus já se casou com Israel durante a revelação da Lei no Sinai, mas que por infelicidade, quando Moisés descia do monte, trazendo nas mãos o contrato de casamento (leia-se as tábuas da Lei) para tomar a esposa, eis que ela havia traído o seu Marido e se prostituído diante do bezerro de ouro (eles dizem que historicamente aquele era o dia dez do sétimo mês, ou seja, o exato dia do Yom Kippur). Foi então que o legislador, furioso, literalmente destruiu o contrato original e deixou pendente o relacionamento entre os recém-casados. Não é sem motivos, então, que a Bíblia por tantas vezes se refira a Israel como sendo uma esposa infiel e adúltera.
       Mas teria sido por esse motivo que o bondoso Deus veio a determinar a celebração anual do Dia da Expiação (Yom Kippur- ver Levítico 23. 26 – 32), uma data carregada de simbolismo profético, haja vista todo judeu devoto com clareza compreender que o propósito dessa festa é apontar o ditoso dia em que o Messias virá para perdoar a infidelidade de Israel e recebê-lo como espiritual e legítima esposa.
       Quando acontecerá a ceia das bodas do Cordeiro? Nossos mestres ensinam que será imediatamente ao arrebatamento da igreja e que se estenderá por todo o período correspondente à grande tribulação. E outra vez temos a Bíblia a dizer o contrário. O texto sagrado com o qual introduzimos esse estudo deixa bastante claro que as bodas do Cordeiro só acontecerão no final da grande tribulação, exatamente como previsto na escatologia judaica. As bodas não acontecem imediatamente ao arrebatamento da igreja, mas na introdução do Milênio de Cristo, quando o Senhor regressará como prometido Libertador de Israel.


Curiosidade Bíblica - O Pastor e o Mercenário



Curiosidade Bíblica: O Pastor e o Mercenário

Texto Bíblico:

“Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas. Mas o mercenário, e o que não é pastor, de quem não são as ovelhas, vê vir o lobo, e deixa as ovelhas e foge; e o lobo as arrebata e dispersa. Ora, o mercenário foge, porque é mercenário, e não tem cuidado das ovelhas. Eu sou o bom Pastor, e conheço as minhas ovelhas, e das minhas ovelhas sou conhecido” (João 10. 11- 14).

     O Dicionário Aurélio define o mercenário como alguém que trabalha por soldo, ou só pelo interesse da paga. Etimologicamente não há nenhum problema em ser um mercenário, porque essa palavra é derivada de “mercê”, um substantivo que também exprime o sentido de “merecimento”, “equivalência”, tratando-se, portanto, de uma condição insuspeita e digna.
         Mas não foi sem propriedade que a expressão “mercenário” se tornou o principal antônimo da palavra “pastor”, e isso não é um mero caso de neologismo, pois para todos os efeitos sempre existiu alarmante diferença entre as categorias, que, apesar de cumprirem uma e a mesma atividade, e de laborarem pelo mesmo fim, usavam de distintos meios na execução de suas tarefas.
       O pastor era um homem decente, mas o mercenário não era necessariamente um indivíduo abjeto. O contrato de ambos era legítimo e o empregador não estava enganado acerca da conduta deste ou daquele. O mercenário tinha as mesmas obrigações que estavam reservadas ao pastor, exceto por um detalhe: ele não se via no dever e nem tinha a tendência de se afeiçoar pelo rebanho do qual cuidava.
       A diferença nos comportamentos que o pastor e o mercenário dispensavam ao rebanho tinha pouco a ver com o caráter de cada um, e contratualmente não havia nenhuma cláusula que os obrigasse a fazer nada além de conduzirem as ovelhas ao pasto e ao regato e de recolhê-las no aprisco ao final de cada tarde. Então, por que razão teria o Senhor Jesus exaltado o pastor em detrimento ao mercenário?
       A principal resposta a esta questão consiste em que o exercício do pastoreio exigia mais do que prover alimento, água e sombra para o gado. Não raro, fazia-se necessário encurralar o rebanho no aprisco ao cair da noite e com desvelo sair a procurar algum cabrito que se desgarrasse da grei; noutros casos, o animal podia ter caído em um buraco ou precipício; também havia o perigo representado pelas moscas do deserto, que podiam se enfiar nas narinas de uma ovelha e levá-la à loucura; mas acima de tudo, as ovelhas podiam estar sendo perseguidas por uma alcatéia de lobos...
       O mercenário podia sair a procurar uma ovelha desgarrada, mas não estava obrigado a estender a sua busca até o anoitecer; podia socorrer àquela que caíra em um buraco, mas também podia fingir que não a vira ali; as moscas do deserto podiam ser tratadas com azeite de olivas, mas ele também podia usar esse óleo para outros fins; quanto a enfrentar a voracidade dos lobos, nem pensar! – Ele não prestava contas das ovelhas todos os dias e mesmo que algumas delas fossem subtraídas do rebanho, ele certamente haveria de receber o soldo combinado.
       Quão diferente agia o verdadeiro pastor! Ele tinha afinidade com o rebanho, as suas vestes estavam impregnadas com o cheiro de suas ovelhas e ele as protegia como à sua própria família! E por que o fazia? Certamente não o era por puro heroísmo ou abnegação, mas em tudo havia um toque de amor ao rebanho e ao ofício que escolhera para a sua vida. O contrato do pastor não incluía um salário em dinheiro ou qualquer metal precioso; ele geralmente recebia a ração diária e uma ou duas peças de roupa a cada ano, no mais, haveria de ser pago com uma pequena (relativamente falando) porcentagem das ovelhas que nascessem sob os seus cuidados.
       Portanto, o rebanho seria a sua verdadeira recompensa, e, por isso, era imprescindível que nenhuma cabeça daquele gado se perdesse. Foi por essa razão que o pequeno Davi enfrentou leões e ursos e defendeu as suas ovelhas; por esse motivo, o bom pastor festejou com a sua família e vizinhos o fato de haver encontrado uma ovelha que se perdera do rebanho.
       Talvez não exista nenhum problema em ser um mercenário, mas com toda certeza há muita honra em ser um genuíno pastor. Jesus é o bom Pastor porque nos ama incondicionalmente e jamais desiste das suas ovelhas.