segunda-feira, 27 de maio de 2013

A Profecia do Éden e a Semente da Mulher



       Para iniciarmos as postagens de nosso blog sobre estudos bíblicos e profecias, nada mais adequado que começarmos pelo começo, haja vista existir um consenso mais ou menos geral de que a primeira profecia a ser registrada nas páginas da Bíblia esteja em Gênesis 3. 15, onde se lê:

“E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.”

       Dentre cinqüenta estudantes da Bíblia, pelo menos quarenta e cinco deles estão dispostos a acreditar que o supracitado texto seja a mais antiga forma da profecia messiânica, e, por conseguinte, a primeira promessa da vinda de um Redentor para a humanidade. A esmagadora maioria dos pastores e mestres  que ensinam em nossas igrejas são de idêntica opinião, mas a meu ver, o fato de existir tamanha unanimidade em torno deste assunto vem a ser a mais notável prova de que os que assim pensam estão um tanto equivocados.

       Há anos venho pousando o olhar sobre o texto de Gênesis 3. 15, e tenho me indagado a respeito da causa que tem levado tantas pessoas bem-intencionadas a darem uma tão distorcida interpretação a uma passagem cujo significado tem sido muitíssimo óbvio. Aliás, foram os bons teólogos que me ensinaram que a principal regra para a interpretação de um texto escriturísco é estudá-lo à luz de seus contextos imediatos e remotos, ou seja, permitir que a Bíblia interprete a Bíblia. A regra básica consiste em que o leitor busque saber o que o restante das Escrituras tem a dizer concernente ao especificado assunto.

       Deste modo, tenho submetido o texto de Gênesis 3. 15 à peneira das Escrituras e a conclusão a que tenho chegado e a de que a Bíblia dá pouquíssima ou quase nenhuma importância a uma passagem que para muitos tem sido a chave do maravilhoso plano divino através dos séculos. Mas se o resto das Escrituras ignora o referido texto do livro de Gênesis, de onde então os nossos leitores extraíram a idéia da “semente da mulher que há de esmagar a cabeça da serpente?” Certamente não o foi das páginas do Antigo Testamento! Quanto aos autores do Novo Testamento, é bom que se saiba que fizeram uso de aproximadamente quinhentas profecias messiânicas veterotestamentárias que se cumpriram fielmente no nascimento, vida, ministério, morte e ressurreição do Senhor Jesus, e outras tantas que ainda devem se cumprir por ocasião de sua parousia e no reino milenial, mas eles em momento algum se referiram a uma possível promessa feita aos pais durante a queda lá no Éden. Isso mesmo, os santos apóstolos jamais se referiram a uma suposta profecia messiânica no Éden. Eles chamaram o Senhor de Filho de Davi, de Filho do Homem e de Descendência de Abraão, mas nunca se dirigiram a Ele como sendo a prometida semente da mulher!

       Entretanto, os mais estudiosos quiseram argumentar que a interpretação messiânica de Gênesis 3. 15 foi tomada emprestada dos célebres escribas e rabis do judaísmo primevo. Eu só quisera saber quem, onde e quando, pois tenho consultado praticamente todos os documentos do judaísmo antigo e o máximo que encontrei foi uma tíbia alusão ao Messias e a maldição da serpente como mencionada no terceiro capítulo do Gênesis. A referência está no Targum de Jerusalém, cujas palavras traduzirei:

“E disse o Senhor para a serpente: Porquanto tu fizeste isso, odiada serás mais do que qualquer animal ou besta do campo; sobre a tua barriga andarás, pois os teus pés te serão cortados, e a tua pele, tu a perderás uma vez a cada sete anos. O veneno da morte estará sempre na tua boca, e o pó te será por alimento por todos os dias de tua vida. Ademais, Eu porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a semente de teu filho, e a semente de seus filhos. Mas há de ser que quando os filhos da mulher guardarem os mandamentos da Lei, então eles estarão preparados para pisar-te a cabeça, mas quando eles abandonarem os mandamentos da Lei, tu estarás pronta para ferir-lhes o calcanhar. Todavia, para eles haverá uma cura, ao passo que para ti não haverá remédio; porque o calcanhar lhes será curado nos dias do Rei Messias.”

       Está muitíssimo cristalino que para o autor deste Targum a semente da mulher não é outra senão a própria descendência de Abraão, o povo hebreu, e que a ligeira referência ao Messias tem a finalidade apenas de destacar a época em que toda a criação será restaurada ao seu original estado, exceto pelas manchas que marcam a pele das serpentes, porque em uníssono com o Midrash, estas são as marcas de uma eterna maldição, a qual não será removida nem mesmo na obra realizada pelo Messias no dia da eternidade.

       O próprio Midrash é que deveria dar maior tônica a uma possível promessa messiânica em Gênesis 3. 15, mas ao contrário, quando lida com o episódio da queda de nossos primeiros pais lá no Éden, ele diz apenas que a semente da mulher é a raça humana e que o calcanhar ali mencionado é um emblema do povo de Israel, porque no idioma dos hebreus realmente existe uma semelhança muito grande entre as palavras “Yakev” – calcanhar, e “Yakov”- Jacó. Ademais, o Midrash nos ensina que o esmagar da cabeça da serpente se refere tão somente à natural aversão que o ser humano tem às cobras.

       Entre outras obras do judaísmo primitivo podemos destacar o livro dos Jubileus, ou O Pequeno Gênesis, como é igualmente chamado. Essa obra foi escrita em uma época de profunda expectação messiânica, mas ao narrar o capítulo da tentação, da queda e do tríplice julgamento no Éden, ela não dá a menor ênfase à promessa de um redentor. – Por que será? 

       Os mais antigos rabis de Israel desconheciam completamente a promessa da vinda do Messias além das palavras de Gênesis 3. 15; foi Irineu de Lion quem pela primeira vez propôs esta interpretação perante o cristianismo, embora ela jamais viesse a desfrutar da popularidade. Quanto a Justino Mártir, foi um exímio expositor das profecias messiânicas, e apresenta-nos um vasto leque de passagens do Antigo Testamento onde a messianidade de Jesus é destacada, inclusive no livro de Gênesis; mas quem diria, ele desconhece qualquer ligação do Senhor com a já mencionada “semente da mulher”. O professor Hengstenberg, que certamente é o teólogo que mais admiro, defende a doutrina da semente da mulher, mas eu me apego à autoridade do Novo Testamento.

        Na história mais recente, houve uma tentativa de conformar a interpretação da semente da mulher com a virgem Maria, mas vindo a Reforma de Lutero a pretensão ruiu, porquanto o mesmo reformador com dores tivesse de assumir que alguns pais católicos tiveram a nefanda ousadia de corromper as Escrituras ao ensinarem que a expressão “Ela te esmagará a cabeça” se referia à padroeira de sua religião. Por último, foi João Calvino quem deu os retoques finais e popularizou a interpretação na qual a semente da mulher que esmagará a cabeça da serpente é a Bendita Pessoa do Senhor Jesus Cristo. Para muitos esta é a mais perfeita conjetura, pois parece encerrar definitivamente a questão. A meu ver, ela é tão boa quanto qualquer outra e continuará sendo apenas isso: uma conjetura.