quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Pilatos - O Procurador Romano na Judéia








No suposto Evangelho de Pedro, lemos desta maneira: “Dentre os judeus, porém, ninguém lavou as mãos; nem Herodes ou nenhum outro daqueles juízes. E por não quererem lavar-se, Pilatos se levantou. O rei Herodes mandou que se encarregassem do Senhor, dizendo-lhes: “Executai o que acabo de ordenar que façais com Ele.”

      Há quem diga que nas oportunidades em que o Evangelho menciona o nome de Pilatos, faz-se transmitir a impressão de uma boa imagem para aquele estúpido e desumano governador romano da Judéia. Não nego. Os evangelistas não se preocuparam em mencionar as atrocidades que esse Procurador loucamente autorizou entre os judeus, e, ao que parece, até fora de sua jurisdição. Lemos, porém, de um massacre de judeus cujo sangue “Pilatos misturou ao sacrifício”. Nada, além disso.

      Isso sugere que os apóstolos mantinham uma boa impressão acerca de Pôncio Pilatos? Negativo. A verdade é que só podemos conjeturar sobre os motivos que os levaram a deixar à parte do Evangelho as mais cruéis atividades do governador da Judéia, pois decerto Pilatos foi o mais odiado dentre todos os representantes imperiais na Terra Santa.

     Os críticos encontram novamente razões para desconfiar da veracidade dos evangelhos, considerando que historicamente a conduta de Pilatos era bem oposta às coisas que sobre ele se lê na escritura apostólica. Irascível, obstinado contumaz e desinteressado pela prática da justiça, ele foi odiado até de seus compatrícios, o que veio a ser determinante quando de sua substituição no governo daquela província. Assim, a imagem de um Pilatos nobre e quase piedoso, tal como às vezes se pode deduzir através do Evangelho, não corresponde aos fatos.
      É o que costumo chamar de desvio de atenção, pois havendo os judeus tratado o Mestre como escória, e Herodes o encarado com desdém, veio retumbante a voz de Pilatos (um homem incrivelmente estúpido) a declarar que Jesus é inocente e que pretende libertá-lo de suas acusações. Encarando assim, não há como não imaginar que esse governador romano tenha sido um bom homem e perfeito juiz.

     Essa imaginação, todavia, só deve ocorrer ao leitor comum, já que submetendo o comportamento que Pôncio Pilatos teve durante o julgamento de Jesus a um frio exame, concluir-se-á que ele não passou de um patife, e se revelará a grotesca caricatura de um governador débil, bajulador, oportunista, e de pusilânime caráter; alguém capaz de entregar à morte um homem cuja inocência estava a toda prova, e isso por puro e simples prazer de tentar agradar a gregos e troianos, visto que se destas coisas pudesse extrair vantagens.

     Em sua monumental obra “História dos Hebreus”, Flávio Josefo nos conta da aparição de Pilatos na Judéia com as seguintes e lacônicas palavras: “Valério Grato, após ter durante onze anos governado a Judéia, voltou a Roma, e Pôncio Pilatos o sucedeu.”

     Josefo testemunha contra Pilatos, asseverando que ele era de natureza violenta e teimoso ao extremo, e que o seu governo foi marcado por constantes turbulências, sempre ocasionadas por atritos contínuos que ele mesmo criava, provocando a turba dos judeus.

     Para piorar, Pilatos não tinha prestígios junto a Herodes, tetrarca de Roma na vizinha Galiléia. Quanto aos judeus, que deviam ser seus subalternos, o desprezavam ainda mais, pois ele era rude e não considerava as leis desta gente. Mas acima de tudo, o governador da Judéia era um fraco, e as classes representantes do judaísmo cedo aprenderam a manipulá-lo, pois o povo perdoará muitos defeitos em um governante, porém, nunca a fraqueza.

      Partindo da premissa mantida por muitos pesquisadores, Pilatos havia sido escravo antes de se tornar dignitário romano. A possibilidade existe e se pudesse ser comprovada, compreenderíamos que ele deve ter sido obrigado a conviver num desconfortável inferno moral, tendo-se em conta que em qualquer lugar do Império, a história demonstrará, explodia como o cúmulo dos insultos o ser alguém governado por um ex-escravo. Mas principalmente entre os obstinados judeus.

      Provas definitivas não existem e consenso geral jamais houve, mas acredita-se que esse governador foi escravizado antes de se tornar representante imperial no Médio Oriente. Isso, decerto, não quer significar que tenha nascido escravo, pois é fato comprovado que durante a época imperialista romana, muitos homens livres se vendiam espontaneamente como escravos se viam nesta condição a oportunidade de ficarem ricos.

      Acontecia de muitos cidadãos pobres ou falidos venderem seus dotes culturais a senhores ricos que mais tarde os nomeariam mordomos sobre os seus negócios, podendo, inclusive, mencioná-los em seus testamentos, ou na maior das venturas adotá-los como filhos e os transformar em legítimos herdeiros. O próprio nome “Pilatos” seria uma referência à sua antiga condição escravocrata. A despeito de outras interpretações que se tem dado, essa palavra deriva do latim “pileus”, uma espécie de boné ou viseira que servia para distinguir o escravo liberto do homem genuinamente livre.

      Verdade ou não, ficou evidente que Pilatos se apavorava ante a idéia de ter de prestar contas aos seus superiores. E foi justamente esse temor que o tornou débil perante a turba dos judeus, quando aos gritos o fizeram ceder, ameaçando-o:  
 
_Se libertares a Jesus não serás amigo de César!

       Igualmente irritante era a rapina, comum em todas as esferas do governo romano, encontrando-se no ofício a oportunidade de enriquecer a custa de seus governados. E no caso de estar atuando nas periferias do Império, podia-se surrupiar em dois anos o que jamais se conquistaria em toda uma vida de trabalho na Itália. Pilatos não seria a exceção.

      Apático governador de uma nação servil, e sem consideração pela vida alheia, Pilatos foi encarregado de presidir o julgamento de Jesus. E vejam quão digno de nota é o fato de pessoas, até então insignificantes, tornarem-se importantes na história unicamente por haverem cruzado a estrada do Nazareno.

      E qual não deve ter sido a sua exclamação quando tão cedo do dia os sinedritas apareceram em sua residência, levando-lhe um Galileu manietado. Pelas palavras com que o Procurador os recebe, é possível acreditar que os judeus faziam aquilo costumeiramente. E Pilatos já estava cansado disto.
 _ Que acusação trazeis contra este?
      Ao que lhes respondem:
 _ Se este não fosse criminoso não o traríamos a ti.

      Diante do governador da província eles foram expondo as acusações contra o Mestre:
 1_ Ele perverte a nação.
 2_ Ele é contrário aos tributos romanos.
 3_ Ele se declara Rei dos judeus.

      A tríplice acusação era bem séria e estava fundamentada em maquinações que visavam impedir que o Nazareno escapasse da severa condenação. E se antes disso Pilatos mostrara-se indiferente às querelas dos judeus, sugerindo inclusive a que eles mesmos se ocupassem de tal julgamento, já não podia encarar o assunto sem a devida seriedade.

      Não sabemos se lhe ocorreu com estranheza o fato de terem os judeus apresentado um homem para ser morto segundo o regime de Roma, pois ante a sugestão de eles mesmos executarem o acusado, eis que eles disseram: “A nossa Lei não nos permite matar a alguém.”

      A curiosa afirmação fez com que pesquisadores acreditassem que o sinédrio realmente não possuía autoridade para pronunciar a pena de morte, sendo assim obrigado a recorrer à voz do Procurador. Mas duvido que tenha sido assim. Todos sabem que para os judeus os preceitos de sua religião estavam muito acima das leis temporais, e Josefo se encarregará de expor que os representantes do judaísmo fizeram questão de deixar isso bem claro a Pôncio Pilatos.

     Em todo caso, Roma sempre permitiu que as nações por ela subjugadas continuassem a manter os princípios de suas leis e até de suas exigências religiosas. Os que defendem a hipótese da incapacidade do sinédrio em anunciar a pena de morte argumentam contra as execuções de Estevão e de Tiago o irmão de Jesus. Mas vejam bem se precisamos insistir com isso: pode-se imaginar Roma condenando, por exemplo, um judeu à morte por haver adorado a Júpiter? E se uma mulher fosse apanhada em adultério, quem deveria se encarregar da sua condenação? Imaginem ainda que os judeus aparecessem diante de Pilatos pedindo a pena de morte para um homem acusado de pederastia; não iria o governa-dor ordenar-lhes a que se encarregassem do assunto, posto que tal prática além de ser muito comum no mundo greco-romano, não constava na lista de crimes do código penal do império?

      As leis da Mishnah dão testemunho de que o Sinédrio podia, sim, pronunciar a sentença de morte em muitos casos e de várias formas. Portanto, a declaração dos judeus diante de Pilatos é emblemática e está maquiada de propósitos. O que aconteceu foi que embora a profecia mosaica já tivesse anunciado a morte do Messias sob o madeiro, a prática de penalizar um condenado com a cruz não era típica de Israel, apesar de existirem informações de que algumas vezes eles podiam pregar criminosos em estacas como penalidades de certos delitos.
      Amparados em suas leis, os judeus podiam sentenciar alguém à morte, por espada, por fogo, por apedrejamento, e, supõe-se, por enforcamento; mas nunca por crucificação. O apóstolo João explica que eles disseram a Pilatos que não podiam matar a alguém, dando-lhe a entender (em resposta à evasiva do governador) que queriam uma morte por crucificação. E para que não restasse a menor chance de absolvição, apresentaram-lhe queixas às quais não podia ignorar.

      Mas em meio àquele inquérito Pilatos ficou sabendo que Jesus era oriundo da Galiléia, fora de sua jurisdição, e como não estivesse mesmo interessado no caso, ordenou que o levassem a Herodes, a quem chamavam de rei, sendo ele apenas governador da Galiléia e possuindo residência muito próxima ao palácio do governo.

      Disseram-lhe que Jesus se proclamava Rei dos Judeus, e a família herodiana vivia em uma constante e silenciosa guerra particular pela supremacia desde o seu mais antigo representante, e uma vez que Roma dividiu o governo de Israel em dois (Judéia e Galiléia), retirando o título de rei da dinastia dos Herodes, orgulhos ficaram feridos. Muito antes disso, o primeiro Herodes havia lançado ao fogo os registros oficiais dos judeus, o que impossibilitaria a muitos provar as suas respectivas genealogias, evitando, sobretudo, que alguém pudesse aparecer a reclamar o trono que havia pertencido à casa de Davi.

      Não menos desconhecido é o fato de haver o atual Herodes se interessado pela impressionante pessoa do Pregador Galileu. Primeiro por acreditar que se tratava de João Batista, cuja cabeça ele fez decepar a pedido de Salomé. O tetrarca julgava que o filho de Zacarias havia retornado dos mortos. Além disso, Herodes ficou informado de que esse Jesus era um pretenso Rei dos Judeus; mui provavelmente aquele mesmo descendente de Davi a quem os magos do oriente foram homenagear no palácio herodiano, há cerca de trinta e três anos. Todos devem estar lembrados de que na época um decreto foi emitido no qual era ordenada a execução de todos os meninos de até dois anos de idade que morassem nas redondezas de Belém.

      O Herodes a quem Pilatos enviou Jesus chamava-se Antipas. Era neto de Herodes Magno e filho de Arquelau, o mesmo “rei” que havia ordenado a matança dos inocentes, da qual Jesus devia ter sido a principal vítima. Agora, por uma inusitada circunstância, os dois pretendentes ao trono estavam frente a frente. Herodes como senhor e juiz; Jesus como escravo e réu. Mas o governador da Galiléia fez pouco caso daquele que diziam ser o prometido Rei de Israel, e depois de humilhá-lo, mondou-o de volta a Pilatos.

      Nos evangelhos não lemos sobre a solução que Herodes tomou a respeito de Jesus. Se o considerava inocente, por que não o pôs em liberdade? Se encontrou nele culpa, por que não o condenou? Lemos, porém, que Pilatos quis se valer da suposta indecisão de Herodes, propondo dar-lhe alguns açoites e o deixar ir em liberdade. Mas no apócrifo de Pedro se diz que a intenção de Herodes em devolver Jesus ao Procurador romano era fazê-lo morrer na cruz. E ainda que essa informação não proceda, devemos atentar que depois daquele dia a amizade antes estremecida entre Herodes e Pilatos estava agora fortalecida.

     O problema, no entanto, permanecia nas mãos do pusilânime Pôncio, pois outra vez se via no encargo de decidir sobre a vida do Nazareno. Sendo a sua intenção libertar o acusado, foi coagido pelos judeus a reconsiderar, visto que o denunciassem como a alguém que se opunha ao poder do imperador. Por esse motivo foi que bradaram:

 “Se libertas a este, não és amigo de Tibério César!”
      Como fosse grave a acusação, Pilatos teve de interrogar o próprio Jesus:
 _ És tu o Rei dos Judeus?
      Ao que ele responde:
 _ Tu é que estás a dizê-lo.
 _ Mas foram os teus que te denunciaram!
 _ O meu reino não é deste mundo.
 _ Ah, então és de fato rei?  
 _ Tu insistes em dizer que o sou. Mas foi para isso que nasci, e vim ao mundo para dar testemunho da verdade. Todos os que amam a verdade escutam o que Eu digo.
     Pilatos exclamou:
 _ Quid est veritas? (Que é a verdade?)

      Mas Jesus não lhe dá explicações. Então ele se dirige aos acusadores, asseverando-lhes que o Galileu é inocente. Mas afinal, o que teria provocado essa repentina reação no insolente Procurador de Roma? Ou que impacto teriam aquelas palavras de Jesus causado em sua confusa imaginação? O Mestre apenas lhe disse ter vindo ao mundo para dar testemunho do que é verdadeiro, e isso deixou Pilatos deveras curioso.

      Seja como for, Pilatos se dirigiu aos que condenavam Jesus e fez-lhes uma proposta no mínimo irrecusável. Eles deviam decidir entre Jesus Cristo e um famoso bandido chamado Barrabás. Por se tratar de um criminoso de alta periculosidade, era de se esperar que optassem pela soltura do Mestre. Contudo, ainda que nem o mais pessimista dos homens pudesse duvidar, eles escolheram dar a liberdade a um temido inimigo público, e condenaram ao meigo Pregador da Galiléia.

      Certamente Pilatos ficou deveras decepcionado, pois acreditava que contra Jesus, Barrabás não teria a menor chance. Ele estava enganado! E deve ter sido por essa razão que a Escritura mais tarde declarará que o Procurador desejou libertar o Mestre, ainda que os judeus, contrariando a lógica, o condenaram a morrer em lugar do vil assassino chamado Barrabás.

      A revelação que o Evangelho faz sobre haver existido entre os judeus o costume de se libertar um preso durante a Páscoa tem gerado desconforto em muitos investigadores. Do ponto de vista ideal, semelhante costume não pode ser razoável, mesmo porque está escrito no Evangelho que a oferta se estendia a qualquer criminoso que os judeus decidissem libertar. Ora, é certo que a ninguém, em todo o império, era dado o poder de pôr em liberdade a determinados criminosos (dentre os se conta Barrabás) senão ao próprio César. Pilatos, por mais que quisesse, não possuía poder para tanto. E se por conta própria tomasse semelhante decisão, ficaria em apuros perante seus superiores. E como agravante em favor dos céticos, não existe prova histórica de que Roma algum dia tenha adotado a política de se libertar um criminoso anualmente entre os judeus. Mas isto é dito no que se refere ao plano ideal.

      Na esfera real nos perguntamos: “A troco do quê os evangelistas teriam mencionado essa resolução de Pilatos, se ela de fato não estivesse em conformidade com a história?” Para os que duvidam do Evangelho, a explicação é que os escritores do Novo Testamento pretendiam promover o ódio contra os judeus, culpando-os pela morte de Jesus. Essa explicação, entretanto, não pode ser sustentada, pois tanto o grande historiador Josefo, quanto os livros apócrifos, dão-nos testemunhos de que os judeus realmente pediram a crucificação de Jesus diante de Pilatos. Além do mais, na biblioteca de Roma existiu por muito tempo um documento (bastante conhecido nos primeiros séculos, mas que infelizmente foi destruído) no qual o imperador Tibério responsabilizava o Procurador Pôncio Pilatos por haver cedido à pressão dos judeus durante o juízo condenatório de Jesus Nazareno. E do mesmo modo, há ainda outros documentos antigos que asseguram que a condenação do Mestre só foi possível por que os judeus conseguiram deixar o governador Pilatos numa verdadeira saia-justa. Isso não é uma declaração anti-judaica; é o testemunho historicamente comprovado de que alguns judeus, incentivados ou enganados por seus líderes, pressionaram Pilatos para que Jesus fosse condenado. Em todo o caso, parte da intimação que Tibério fez ao Procurador romano no tocante à condenação de Jesus ainda pode ser lida nos fragmentos dos registros vulgarmente chamados de “Atos de Pilatos”.

      Explicar que o governador da Judéia negociasse a liberdade de criminosos com os judeus não é fácil, mas é possível. E mesmo que para alguns tipos de crimes não existisse perdão, o Procurador romano deve ter caído em sua própria teia ao propor para os judeus uma escolha entre Jesus e Barrabás. Foi como uma bola de neve, e quando se deu por conta, já era tarde. Contra a vontade ele teve de libertar um perigoso inimigo do Estado.

      Agora, lendo com atenção o julgamento segundo testemunhou João, percebe-se que Pilatos fez a seguinte observação, quando propôs a libertação de Jesus: “Vós estás acostumados a que vos solte um preso durante a Páscoa”. Vejam que Pilatos não diz que é um costume romano, e ainda nos deixa suspeitar que tal prática era recente, pois de outra maneira,ele teria dito: “Segundo o vosso costume, o governador deve libertar um preso durante a Páscoa”. Se essa forma de raciocinar pode ser aceita, então se entenderá a razão de os registros históricos não mencionarem que os romanos algum tempo adotaram uma medida legal pela qual criminosos podiam ganhar a liberdade entre os judeus. Além disso, em se tratando de um costume iniciado no governo de Pilatos, não é de se estranhar se antes ou depois dele jamais se tenha falado de sua existência. Outros governadores não tinham que observar tal acordo. Essa é a minha sugestão. E sei que os governos podiam, quando queriam, dar liberdade aos seus presos. Mas beneficiar Barrabás com esse favor certamente jamais havia ocorrido a Pôncio Pilatos. Em nossa gíria diríamos que ele atirou no próprio pé.

      Uma coisa, porém, ficou evidente neste julgamento: Pilatos tentou libertar Jesus. Mas por que apenas tentou, se podia fazê-lo? Talvez devêssemos acrescentar mais uma questão ao nosso rosário de indagações: O que Jesus representava para Pilatos? Decerto, nada além de um réu indefeso, sem o direito de sonhar com a possibilidade de escapar da condenação, já que de seus juízes não se podia esperar clemência. Além do mais, o governador era frio, inconseqüente e sem afeição à vida de seus súditos.

        Mesmo assim, lemos nos evangelhos que Pilatos se dirigia a Jesus chamando-o de Rei dos Judeus. E vejam só, mesmo aqueles pesquisadores que duvidam da boa intenção do Procurador, convencem-se de que ele realmente acreditava que o Nazareno era o legítimo herdeiro de Davi! É muito estranho, porém, que Pilatos pudesse acreditar na realeza de Jesus e ainda assim pretender livrá-lo da condenação iminente. O mais provável e lógico é que estando certificado das intenções do acusado, imediatamente ordenasse a sua execução.

      O Evangelho nos diz que Pilatos chamava Jesus de rei apenas para provocar os judeus; era como se estivesse aproveitando-se da ocasião para ensaiar uma pequena vingança. Sendo isso verossímil, não nos restará alternativa senão admitir que em vez de os evangelistas terem transmitido uma boa imagem de Pilatos, como afirmam muitos críticos, eles o caricaturaram ainda mais, fazendo-nos saber que mesmo perante um julgamento tão sério, esse Procurador romano se deixava levar por seus sentimentos mais mesquinhos. E, acima de tudo, conseguia desdenhar do próprio réu, chamando-o de rei, mas tratando-o como escória.

      Não. Pilatos não acreditava na realeza de Jesus. Logo, o que podia o réu significar para o seu juiz? Um santo homem? Um sábio? Um mágico? - Talvez um pouco de tudo isso. É evidente que não acreditando que o acusado fosse rei, ainda assim podia anunciar a sua morte, se por confissão própria Jesus ao menos dissesse ter interesse pelo reino da Judéia. Mas seu comportamento em tentar libertá-lo da condenação nos faz pensar que o Mestre de certo modo conseguiu despertar a curiosidade daquele ímpio juiz.

      Num apócrifo que o vulgo atribuiu a Nicodemos, está escrito que Jesus realizou milagres na presença de Pilatos. Sabendo-se que Ele havia feito o mesmo no momento de sua captura no Getsêmani, não vejo porque disto duvidar. Mas Pilatos havia sido de antemão advertido pelos líderes judaicos de que o Galileu era mágico e podia realizar coisas impressionantes aos olhos humanos. Se isto real-mente aconteceu, será compreensível que o governador tenha até certo ponto se interessado por Jesus.

      Mas acima de tudo, Pilatos não tinha dúvidas quanto à inocência do Rabbi de Cafarnaum. E daí? Não seria essa a primeira vez que os romanos condenariam um inocente à morte. Se os pesquisadores frisam sempre que Pilatos era frio e implacável, desconsideram que por trás de todo homem prepotente há um ser fraco e inseguro. Mesmo assim, não era ingênuo a ponto de não perceber a astuta manobra dos judeus, que, mesmo querendo ver Jesus morto, não desejavam ser seus executores.

      Ora, Jesus havia se tornado famoso em todo Israel e até fora dele, como podia então Pilatos ignorar a sua existência? Entendia que não era pretenso rei, mas notava nele um ser especial, e foi aí que tomou a medida desesperada de tentar substituir a sua morte pela de Barrabás, um ignóbil homem que por seus crimes alcançou notoriedade nacional na época. E é forte a suspeita de que não houvesse um sido criminoso comum, já que a palavra grega empregada no Evangelho para descrever a sua condição de bandido, é “lestes”, que para muitos é uma variação de “lestai”, vocábulo que as autoridades romanas usavam para identificar os extremistas judeus que tanto na Bíblia quanto em Josefo, são chamados de zelotas ou sicários. Então é compreensível que Barrabás tenha sido um criminoso ao qual Roma certamente não concederia perdão. E se estava reservado à morte de cruz, devia não se tratar de um bandido comum.

      Fato curioso encontra-se nos escritos de Michael Baigent, que se valendo de textos antigos que desconheço, informa-nos que no evangelho de Marcos o primeiro nome de Barrabás era Jesus. Sei que como ocorreu a mim, muitos desconfiarão desta informação de Baigent, entretanto, descobri posteriormente que o dicionário bíblico de James Strong confirma tal constatação. Se assim for, explicar-se-á que Pilatos tenha pronunciado a seguinte frase diante dos judeus: “Que farei de Jesus, a quem chamais de Cristo?” Como se a sua intenção fosse tão somente fazer distinção entre os dois possíveis “Jesus”.
      Ali Pilatos sofreu dupla derrota perante os judeus. Primeiro ele foi obrigado a pôr em liberdade um criminoso de índole inalterável; depois, teve de se colocar a mercê de seus súditos, como marionete, permitindo-lhes pronunciar a sentença que só a ele cabia:
 _ Mas, o que farei com Jesus? – inquiriu desnorteado.
     Ao que o povo exclamou:
 _ Crucificai-o!

      Como não lhe deixassem saída, ele pediu uma bacia com água e lavou as mãos, num gesto simbólico que de acordo com alguns, era típico do povo hebreu, e com isso demonstrou ainda mais a proporção de sua fraqueza como governador, pois estava assinando a condenação de um inocente apenas para satisfazer a vontade dos que queriam vê-lo morto. Assim, seu gesto de lavar as mãos diante do povo, ao invés de fazê-lo alheio àquela condenação, aumentou ainda mais a sua responsabilidade pela morte do Messias.

       E havendo ordenado a que o açoitassem, não com trinta e nove chibatadas, como nos é comumente ensinado, o entregou aos líderes do povo, dizendo-lhes:
 _ Aqui está o homem. Crucificai-o por conta própria.
      Nisso, os judeus gritaram:
 _ Nós temos uma Lei pela qual ele deve morrer, pois disse ser o Filho de Deus!

      Essa nova declaração provocou calafrios em Pilatos, fazendo-o conduzir Jesus para uma consulta em particular. Mas o Mestre não quis lhe dar outras explicações.
 _ Não vais te defender? Vê que tenho autoridade para te condenar e também para te absolver!
     Ao que Jesus lhe responde com um frêmito de sua voz:
 _ Não tens nenhum poder contra mim se meu Pai não o permitir.

      Reconhecendo a própria debilidade, Pilatos tenta provar a si mesmo que está no controle da situação. Iria ordenar imediatamente que o soltassem, mas foi coibido pela turba dos acusadores, que disseram:
 _ Ele disse que é o rei dos Judeus. Como podes ser fiel a César se o queres pôr em liberdade?
      Desorientado, Pilatos os deixou e voltou ao tribunal, a fazer sabe-se lá o quê. E ao retornar, perguntou-lhes:
 _ Desejais crucificar o vosso rei?!

      O mais incrível foi que aquele ajuntamento de judeus apostatou de sua fé e de toda a filosofia de vida que os tinha mantido como nação até àquele dia, quando inadvertidamente exclamaram:
 _ Tirai esse impostor daqui, pois só temos um rei, que é César!

      Na obra: “A História da Vida Privada (do Império romano ao ano mil)”, há um trecho que ilustra bem a situação de Pilatos frente à condenação de Jesus. Reza assim:

    “Libertar escravos constitui um mérito, mas não um dever. Um rei está em seu direito quando condena à morte um criminoso, e é adorável se o perdoa; contudo, o perdão é gratuito, e o rei não age errado se não perdoa.”

      Ficou comprovado que para Pilatos, condenar o Nazareno foi temerário, mas libertá-lo seria um erro ainda mais grave. Portanto, para o seu próprio bem e de todos aqueles que acusavam o Mestre, foi tomada a decisão que não sendo a melhor, era pelo menos a mais conveniente. E como o sacerdote José Caifás havia imaginado, era necessário a Jesus morrer em lugar do povo.



sexta-feira, 21 de julho de 2017

Reinterpretando os Sinais da Vinda de Cristo

Guerras, fome, peste terremotos tsunamis, multiplicação da ciência, evangelização mundial, são todas esta coisas sinais do arrebatamento da igreja? Não! Não necessariamente, porque se assim fosse, o Senhor já teria retornado há muito tempo. Há cerca de duzentos anos que os estudiosos da escatologia cristã vêm associando estes sintomas da vida social, cultural, política, religiosa e natural ao maravilhoso regresso de nosso Senhor Jesus Cristo. Tudo parece explicável e perfeitamente ajustável à expectação gloriosa da igreja, mas apesar disso, o estudo que alia estes “sinais dos tempos” à estação final dos labores evangélicos dos crentes em Cristo foi cimentado sobre uma interpretação equivocada acerca de seu retorno ao mundo em glória e majestade.

       Deve o meu leitor estar se lembrando daquele texto de |Mateus capítulo 24 onde os discípulos interrogam ao Senhor a respeito da época em que se cumprirão as profecias relativas à chamada “angústia de Jacó”, as quais estão perfeitamente vinculadas à vinda do Messias e também fim do presente sistema do mundo. Bem, todos nós sabemos que foi com intenção de satisfazer as expectativas de seus pupilos que o Senhor proferiu aquele mavioso sermão profético no qual aborda os acontecimentos ou “sinais” que deverão eclodir no mundo antes de sua segunda vinda. Cristo falou de sinais nos âmbitos político, social, geográfico, científico e também na esfera religiosa. Tudo bem especificado.

       Há cerca de duzentos, nossos teólogos tomaram estes sinais dos tempos e os interpretaram como sendo evidências da vinda de Cristo para arrebatar a igreja fiel. Eles fizeram isso com a melhor das intenções, mas em assim procederem acabaram popularizando um equívoco que, imagino, jamais há de ser completamente corrigido. Estes nobres expositores da Bíblia não levaram em conta que os sinais dos tempos, tal como apontados pelo Senhor, eram apenas uma porção da resposta que Ele deu à tríplice questão levantada pelos discípulos, a saber: “Quando serão estas coisas, e que sinal haverá da tua vinda, e do fim do mundo?”

       Cristo então lhes responde dentro do contexto de uma esperança escatológica que já era popular e muito bem definida entre os judeus. Ou seja, Ele falou de acontecimentos que devem ser presenciados no mundo durante a época que antecederá a sua segunda vinda, a qual de fato é apenas a primeira, de acordo com a expectativa escatológica dos judeus. Nossos teólogos esqueceram também que esta segunda vinda de Cristo não tem relação alguma com o arrebatamento da igreja, mas com o seu regresso em glória e majestade para a nação dos judeus a fim de cumprir as profecias e promessas de Deus aos pais.

       Para os que estão familiarizados com a escatologia judaica vigente nos dias do Novo Testamento, não existem dúvidas. Estes sinais dos tempos, exatamente os sinais mencionados pelo Senhor, já haviam sido discutidos nos apocalipses dos judeus e apontados como tendo relação com o aparecimento do Messias Glorioso. Isso é, eles já faziam parte do programa escatológico do povo judeus, ou pelo menos de algumas escolas farisaicas, e tinha relação com a sua esperança na vinda do Cristo-Libertador. Sem que haja necessidade de rodeios, o que estou querendo externar é que estes sinais dos tempos não têm relação alguma com a esperança escatológica da igreja cristã, ao que costumamos chamar de arrebatamento.

       Para simplificar, estes sinais dos tempos tratam de acontecimentos que devem sobrevir ao mundo em um curto espaço de tempo, mais precisamente durante a segunda metade da grande tribulação. Para termos a mais clara certeza disso é bastante atentarmos para o cenário descrito no Apocalipse de João. Os cristãos nunca devem estar preocupados com “os sinais dos tempos”, porque quando eles começarem a acontecer, a igreja já não estará aqui. Alguns crentes preferem acreditar de outra maneira e chamam de heresia a fé que temos de sermos arrebatados antes da grande tribulação, mas a verdade é que os chamados sinais dos tempos não possuem valor aplicável à vida e à esperança do crente em Jesus.
        Os sinais não têm relação com o arrebatamento, mas com a manifestação pessoal de Cristo desde as nuvens do céu. Noutra oportunidade hei de escrever um estudo sobre os “Dois Arrebatamentos Escatológicos”, tão evidentemente descritos na Bíblia, e darei explicações acerca de como a doutrina do arrebatamento da igreja foi desenvolvida e crida entre os primeiros cristãos. Como não posso me eximir do assunto, também pretendo chutar o balde e de uma vez por todas dar demonstrações de que a igreja não passará pela grande tribulação. Por enquanto, sugiro aos meus leitores que leiam com paciência e atenção a minha postagem sobre a “Contribuição de John Darby à Escatologia Moderna”.

       Fiquem com Deus Nosso Senhor, e até breve.

sábado, 4 de março de 2017

A Falência da Escola Dominical

O Pastor David Brito não se cansava de enfatizar: “A Escola Dominical é o seminário da igreja”, e ele estava completamente correto em sua maneira de raciocinar. Houve mesmo uma época em que os alunos verdadeiramente aprendiam, e não era raro ouvir alguém dizer que a Escola Bíblica Dominical era a mais gratificante reunião da igreja. O tempo passou e as coisas mudaram drasticamente. Eu, por convivência, conheci a EBD em cinco estados brasileiros e em todos eles a freqüência dos crentes nestas reuniões era massiva, sendo que pelo menos noventa por cento dos cristãos eram matriculados, e destes, cerca de oitenta por cento era freqüentadores assíduos da Escola Dominical.

       Hoje o que se testemunha é uma cena lamentável. As escolas estão cada vez mais vazias e existe até quem as considere como desnecessárias. Na região onde moro, por exemplo, existem pastores presidentes de campo, presbíteros e diáconos que nunca vão às reuniões da EBD. Não poucos líderes a submeteram ao completo descaso. Eles começaram evitando-as, depois as transferiram do Domingo para outros dias da semana, e mesmo assim, não é coisa rara eles marcarem outro tipo de atividade exatamente para aquele dia e hora, fazendo assim com que a reunião seja adiada ou simplesmente anulada. O descaso tem sido geral.

       O que se comenta nos bastidores é que os assuntos ali tratados são enfadonhos demais e que noutros casos a CPAD tem reprisado temas já estudados. Eu reconheço a validade desta alegação, mas o fato é que o problema vai além do apontado. Certo pastor, ao tratar do assunto comigo, me perguntou se o problema não está em que a nossa mentalidade evoluiu bastante em relação à mentalidade proposta pelos comentaristas de nossas Lições Bíblicas, porque, para todos os efeitos (pondera ele), o sistema de ensino deles não mudou muito desde que aceitamos a fé há cerca de trinta anos. Isso também é verdade, mas acho que não vem ao caso, pois eu continuo a freqüentar a Escola Dominical como sempre o fiz. Não obstante, a observação prevalece, porque alguns dos professores com os quais tenho lidado e que também são assíduos freqüentadores da EBD, também têm reclamado dos conteúdos de nossas Lições Bíblicas. Eles alegam que está sendo difícil trabalhar encima dos gabaritos produzidos pelos comentaristas e que às vezes estes escrevem sem levar em consideração o nível intelectual e o grau de exigência de alguns alunos. Eu mesmo já me deparei com lições às quais considerei tão supérfluas quanto evitáveis. Do mesmo modo, estes seletos professores costumam ensinar com a revista fechada, dando provas de que não dependem do conteúdo da lição. Isso é um péssimo sintoma.

       A CPAD parece estar se esforçando no sentido de inovar e de injetar ânimo no sistema educacional da instituição através de seminários e palestras. Pastores e outros mestres de várias partes do país também têm contribuído através de blogs e sites regularmente dão suporte as professores a cada nova lição. Isso é bom e útil, mas ao que parece, o cerne da coisa não está precisamente ou tão somente em ampliar o cabedal intelectual de nossos professores. Na verdade, a maior parte desse problema está é no material de ensino que dispomos. Precisamos ser francos e aceitar que os comentários de nossas lições dominicais são elementares e que não agregam conhecimento útil nem sabedoria proveitosa. Infelizmente não dá para crescer em conhecimento sendo nutrido segundo a cartilha da CPAD.

       Na verdade, e a fim de não sermos injustos, há apenas dois ou três comentaristas de Lições Bíblicas que regularmente escrevem coisas dignas da pena de um estudioso, e foi por reconhecer esse fato que num trimestre do ano passado eu fiz questão de escrever ao Pastor José Gonçalves, parabenizando-o pelos excelentes comentários  que fizera na edição da Lição Bíblica na qual tratara sobre a Carta de Paulo aos Romanos, o que considerei uma jóia do pensamento cristão moderno. Outros profissionais da área deviam pensar a respeito e igualmente se aplicar em produzir literatura de cunho verdadeiramente teológico, em vez de ficarem a discorrer sobre assuntos sem importância.

       Para alguns comentaristas pode parecer árdua tarefa esta de se colocar na condição dos alunos da EBD e experimentar de suas exigências intelectuais. Eles também estão insatisfeitos com o conteúdo de nossas lições. Quanto aos professores, muitos deles são obrigados a se virar como podem, já que em não raros casos, subsídios não há que os favoreçam. E não quero que o meu leitor imagine que estou a duvidar das capacidades de nossos comentaristas. Longe disso! O que estou a declarar é que os conteúdos de nossas Lições Bíblicas (salvo os casos supracitados) são superficiais e que se equipara à qualidade do ensino secular de nosso país, que, aliás, é paupérrimo.

       Me ponho a pensar, entrementes, quão frutífero seria o aprendizado se o grosso de nossos comentaristas escrevessem com a mesma desenvoltura de Alexander Balmain. Ele era brilhante, mas se tornou ainda mais eficiente porque conseguia ensinar teologia profunda sem se desvencilhar da graça e da devoção. Um dos profissionais da CPAD esteve em minha cidade há alguns anos e abertamente afirmou que a editora reprime a liberdade teológica e intelectual de seus contratados. Não me lembro de tê-lo ouvido pedir segredo a respeito, mas não é novidade. De minha parte, não discuto se isso é bom ou ruim, pois toda empresa possui alguma política interna, e, por outro lado, os contratos existem para que sejam respeitados, mas uma vez que a minha condição de educador da igreja me obriga a consumir os seus produtos, vejo-me no direito e na responsabilidade de externar a insatisfação com a qual tenho convivido.

       Outro pastor, cuja influência é bastante notável dentro da Convenção Estadual da AD na Bahia me disse que a CPAD é um “grupo fechado” e que novas mentalidades não são bem-vindas. Isso sim é uma perda lastimável! O time de comentaristas de Lições Bíblicas é composto por seis ou oito cabeças, e algumas delas estão a escrever as mesmas e infrutíferas coisas há anos. Se continuarmos assim, vai ser uma tarefa deveras hercúlea livrar da mediocridade as futuras gerações de pensadores cristãos no Brasil. O pior de tudo é que o meu pessoal pessimismo não me deixa acreditar que haverá melhoras nesse sentido, porque para que isso venha acontecer se fará necessário o abandono de velhos paradigmas, e já ficou comprovado que os amigos lá de dentro não estão dispostos a fazer semelhante sacrifício.
       Bom seria se eles se despertassem enquanto há tempo, porque se esse desinteresse pela Escola Dominical viralizar não haverá como reverter o quadro. E isso, caros publicadores, não tem a ver apenas com alguns “gatos-pingados” do interior da Bahia. Eu pessoalmente conheço ministérios inteiros que estão evitando as reuniões dominicais para aprendizado da Bíblia, e os rebanhos por sua vez, estão seguindo o triste exemplo. O número de revistas de Lições Bíblicas vendidas a cada trimestre não reflete a verdadeira freqüência dos crentes na Escola Dominical.

       Recentemente certo amigo usou o celular para gravar uma reunião dominical em sua igreja onde o número de membros ultrapassa a casa das duas centenas, e o que o vídeo mostra é a realidade nua e crua: menos de dez crentes estavam presentes, e, dentre estes, nem o pastor nem qualquer representante da liderança local. A cena se repete em outras igrejas e a impressão que fica é que apenas os “ignorantes” é que estão levando a escola Dominical a sério. Tem pastor que prefere passear no shopping com a família nas manhãs de Domingo. Presbíteros há que trocam a EDB pela praia ou pelo futebol. E não pensem que estou exagerando quando digo que existem até presidentes de ministérios que preferem ir à rinha ver briga de galos a se unirem ao rebanho aos Domingo para uma discussão sadia em torno da Palavra de Deus. Não seriam sintomas de falência espiritual? Que cristão, em sã consciência, abdicaria de ir à igreja na manhã de Domingo com a família para juntos aprenderem a Palavra da Verdade?

       Apesar disso, alguém desejará reagir a isso alegando que a frieza espiritual é um sinal dos tempos. Tudo bem. Que seja então! Todavia, isso não deve impedir que a CPAD e sua junta de educadores se ocupem em fazer a sua parte produzindo Lições Bíblicas com conteúdo verdadeiramente proveitoso. Não ficarei surpreso se alguns se levantarem para defender o atual estado das coisas; é em nome dos inconformados que estou a me pronunciar.


       Suplicarei então aos prezados irmãos da CPAD que não tomem estas minhas palavras como ofensas, porque afinal de contas somos todos servos de Deus e desejamos a saúde plena da igreja de Cristo. Ademais, vocês também sabem que é possível fazer melhor.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

A escatologia da Harpa Cristã

Ainda presos à questão suscitada em nossa postagem anterior, na qual abordei a premissa sustentada por certo pastor ao assegurara que “a escatologia não muda” desejo trazer ao lume outra demonstração de como a Doutrina das Últimas Coisas tem evoluído e se aperfeiçoado ao longo dos anos. Uma observação hei de fazer, porém, a saber: que ao mencionar a “evolução da escatologia”, estou a destacar apenas que a verdadeira evolução não ocorreu no campo dessa disciplina teológica, senão na maneira como a estudamos e compreendemos.
       
     Uma prova clara e irretorquível de que a escatologia muda e que pode ser “melhorada”, nós a temos nos dados que ora apontarei. Vamos então iniciar esse estudo indagando do leitor se ele sabe de fato o que cremos, nós que professamos o modelo de fé e esperança adotadas pelos membros das Assembléias de Deus. Mas eu a isso me refiro quanto à forma e à ocasião da segunda vinda de Cristo. Ora, como é do conhecimento de todos, no que se refere ao arrebatamento da igreja, tem se admitido os assembleianos adotam a opção pré-tribulacionista, ou seja, a explicação comumente aceita de que o Senhor Jesus virá como um ladrão na noite com o intuito de nos arrebatar secretamente antes do aparecimento do anticristo e da eclosão da grande tribulação.

      Explicação aceita sem relutâncias, mas que na verdade não reflete o original sentimento de nossa denominação quando de sua fundação e desenvolvimento. Isso porque, na época em que foi deflagrado o grande reavivamento espiritual da Rua Azusa, e a despeito da prevalecente expansão do Dispensacionalismo difundido por John Darby e seus companheiros, as idéias que os cristãos tinham acerca da forma e da ocasião da chamada segunda vinda de Cristo ainda não estavam perfeitamente delineadas, o que na opinião de alguns, não deixa de ser uma escandalosa deficiência, principalmente se considerarmos que naquela época o cristianismo já contava com quase 1900 anos de fundação.
As deficiências expressas na compreensão que aqueles nobres irmãos tinham acerca da forma e da ocasião do retorno de Cristo para buscar a sua igreja andam estão ainda são patentes e continuam ecoando na liturgia e nossas reuniões, principalmente através da composição de não poucos cânticos congregacionais que (graças a Deus) foram preservados na Harpa Cristã, que é o hinário oficial adotado não apenas nas Assembléias de Deus, mas também em outras denominações evangélicas.

       Em diversos e muito bem reconhecidos hinos dessa harpa Cristã, é comum percebermos como os santos de outras décadas fizeram confusão no tocante aos elementos que envolvem as “duas fases” da segunda vinda de Cristo, e respeito delas falavam como se na verdade o Senhor houvesse de vir uma vez apenas. Vejam por exemplo o que diz o compositor do hino de número 70:
“Nós aleluia daremos a Cristo, quando o virmos nas nuvens voltar, de esplendor e de glória vestido, Seus escolhidos vai arrebatar”.

       Atentem agora para o que diz as três estrofes do hino 74. Aqui transcreveremos a primeira delas apenas:
“Talvez Cristo venha ao romper da aurora, com santos arcanjos e com voz sonora; os mortos porá dos sepulcros pra fora; Jesus breve vem nos buscar”.

Já o hino 191 diz assim na última estrofe:
“Jesus do Céu há de voltar, em majestade e glória, então seus anjos irão cantar o hino da vitória. Jesus enfim vai suplantar o anticristo, e reinar, Jesus, Jesus, ó vem me arrebatar!”
Para finalizarmos, vamos observar a letra inicial do hino 442:
“Breve no Céu, Jesus há de aparecer em gloriosa luz; todos o hão de ver. Naquele dia, então, eu hei de receber de Cristo galardão; Oh! Que prazer!”


     Por aí podemos notar que aquelas gerações de cristãos, cuja sinceridade e fé devemos imitar, não possuíam claras noções acerca da escatologia que na atualidade havemos acatado. O que é uma pena, pois alguns destes sacros compositores partiram para estar com o Senhor há menos de quarenta anos, de modo que, se ocorreu alguma revolução no pensamento e no sentimento assembleiano em relação à nossa escatológica esperança, temo que isso só pode ter se dado em um tempo relativamente recente. O que não deixa de ser um avanço nesse sentido. Gostaria que acontecesse o mesmo em relação à errônea concepção que os nossos monitores têm sustentado no tocante às Bodas do Cordeiro. Mas isso deve ser assunto para outra oportunidade.

Donald Trump é o anticristo?

Existem postagens que a gente publica e depois se arrepende, mais em função do tempo que se encarrega de provar o quanto é possível estarmos enganados. A presente dissertação é um exemplo disso; eu a escrevi há cerca de dois meses e tenho estado relutante quanto à sua publicação por receios de que possa estar cometendo algum tipo de injustiça. Outros há que se aventuraram a fazer o mesmo, e hoje com resignação entendem que a eloqüência do silêncio podia ter sido a melhor das opções.
       Fato é que desde o início dos anos 70, tem-se dito e escrito que o palco está sendo preparado para que o anticristo seja apresentado ao mundo. Durante esse período de tempo tão curto não foram poucos os indivíduos que apareceram para assumir o posto daquele que aterrorizará o mundo em suas horas finais, e, apesar disso, temos notado como a opinião das massas vai mudando ao passo em que novos candidatos vão surgindo. Bush, Clinton, Obama, João Paulo II, Bento XVI, Papa Francisco e até Sadan Hussein já foram apontados como prováveis anticristos, porém, a obsessão do momento tem se concentrado em Donald Trump, o atual presidente dos Estados Unidos, e, convenhamos, esse polêmico mandatário dos norte-americanos para se esforça para atrair todos os predicados a si. Trump tem exagerado no estereotipo, e assim fazendo com que os mais atentos descubram nele alguns traços que correspondem em muito com as descrições que a Bíblia faz a respeito daquele que há de ser o Homem do Pecado e Filho da perdição, a famigerada Besta do apocalipse.
       Todas as atenções estão voltadas para ele; até as criancinhas inocentes estão temendo que Trump venha se tornar o monstro que provocará a Terceira e definitiva Guerra Mundial. Os “caçadores de anticristos” também estão eufóricos e certos de que finalmente encontraram o homem que há de virar o mundo de ponta-cabeça. Paulo, nosso apóstolo dos gentios por excelência, nos falou acerca da aparição do anticristo e disse que o espírito que o rege já está no mundo, mas que também existe algo ou “alguém” que impede a sua manifestação, até que seja tirado do caminho.
       Teólogos da atualidade acreditam que Paulo estava se referindo ao Espírito santo quando afirmou que existe “um que ainda o detém”, todavia, os primeiros pais da igreja interpretaram estas palavras de Paulo como sendo alusivas ao Império Romano, pois entendiam , à luz da perspectiva comum de Daniel e Apocalipse, que o anticristo deve aparecer primeiramente segundo a imagem de uma pessoa inexpressiva e que aos poucos se tornará tão proeminente (aliás, é esse o significado da palavra “Trump”) que eliminará os três principais sustentáculos do reino que estará dominando o mundo de então. Os mais afeiçoados à Teoria da Conspiração já se anteciparam em atestar que Trump, o chifre pequeno da profecia, já abateu aos três chifres maiores, a saber: Clinton, Hillary, e o próprio Obama.
       Eu não estou tão seguro quanto às posições assumidas por ambas as gerações de interpretadores da Bíblia. Talvez as duas escolas estejam parcialmente corretas, mas pode ser também que as estejam igualmente equivocadas. A interpretação que enxerga no Espírito santo um obstáculo ao aparecimento do anticristo quer que acreditemos que ele só se manifestará ao mundo depois do arrebatamento secreto da igreja, conquanto (acreditam eles) é o ministério do Espírito santo através da igreja que impede a aparição da Besta. Particularmente tenho considerado essa interpretação deveras presunçosa, porque na sua presente condição, o cristianismo está mais para aliado do que para adversário do anticristo, mas por outro lado, devo admitir que Deus não depende daquilo que creio ou deixo de crer. Em relação ao ponto de vista segundo o qual o Império Romano deve ser o verdadeiro obstáculo à manifestação da Besta, apesar de muitíssimo interessante, tem lá os seus percalços.
        Mas preciso me ocupar primeiramente com aquilo que há de favorável a esta interpretação, porque embora as pessoas entendam diferente, a verdade é que o Império Romano  jamais deixou de existir, e tão certo quanto a Bíblia declara que esse reino de opressões estaria reinando no mundo na ocasião da vinda de Cristo em gloria e majestade, assim também é certo que ele continua a exercer a sua opressão sobre as nações, principalmente por meio de seu principal instrumento, os Estados Unidos da América!
       O Império de Roma, sob o qual Cristo foi crucificado e sob cuja fúria foram perseguidos e martirizados incontáveis milhares de cristãos, nunca expirou, apenas se camuflou e migrou para o continente assim chamado de o Novo Mundo, e dali permanece a exercer a opressão sobre as nações.
Não será surpresa para ninguém se o anticristo surgir dos Estados Unidos da América. É bem certo que muitas dentre as famílias mais importantes da Roma Antiga ainda existam e que conservam puras as suas raízes genealógicas. Pois bem, o profeta Daniel assegura que a Besta do Apocalipse há de nascer do Império de Roma. Estas seletas famílias, todas elas detentoras do verdadeiro poder que oprimiu a Europa durante mais de dois mil anos, vieram para a terra à qual chamaram de América do Norte e a colonizaram com intenção de torná-la em um nova Europa, de onde também fomentaram a criação da etérea, porém, real a mal-afamada Nova Ordem Mundial. São estas as famílias que controlam as mais importantes empresas dos Estados Unidos e todas elas estão operantes em todo o mundo. A bolsa de valores, os bancos, as falsamente chamadas de “estatais”, as mídias, as agências de saúde, os institutos de educação, as redes de entretenimento em todos os seus segmentos, tais e tais... Não vamos ficar aqui a enxugar gelo, porque você também já está saturado de ouvir coisas desse tipo. O que pretendo com isso dizer é que se o anticristo viesse agora o mundo já estaria praticamente pronto para recebê-lo, mas principalmente se ele vier da América do Norte.
       Antes de ocorrerem as eleições para a presidência norte-americana, eu já havia comentado que Trump sairia vencedor. Minha ilação era absurda até para mim mesmo, mas eu a fiz por estar apegado à impressão de que havia “algo” por trás da cena a preparar as coisas de modo que ele saísse vencedor da disputa pela presidência. E como eu podia estar certo disso? – Eu simplesmente não estava certo de coisa alguma; apenas presumi que Hillary Clinton seria a peça ideal para competir com Trump e ser por ele “engolida”. Eu assim presumia porque me dava à ilação de que nas eleições norte-americanas praticamente não existem surpresas, mas que se havia alguma, esta seria, certamente, a doce ilusão de que uma mulher surgiria para ser indicada como a mais forte adversária à proposta política de Donald Trump. Eu realmente não acreditava numa vitória de Hillary, pois é do conhecimento de alguns especialistas que não é do interesse de “certas pessoas” que uma mulher seja eleita presidente da nação mais poderosa do mundo. Assim, pude tão somente supor que a escalada de Trump estava sendo programada pelos seus próprios “adversários’. A questão então seria: Com que propósito?
       Não muito depois, fiquei sabendo de rumores segundo os quais a Europa e outras partes do mundo estavam eufóricas com o anúncio da vitória de Trump. O que se falou de imediato foi que o novo presidente dos Estados Unidos enfim criará mecanismos capazes de sanar as sangrias econômicas que estão a provocar anemias por toda parte. O mesmo Trump afirmou diversas vezes que conhece as vias da cura e que com alguns telefonemas seus, médicos se prontificarão em auxiliá-lo nesse grande projeto de restauração que beneficiará o mundo inteiro.
       Devido ao meu compromisso religioso, não me é permitido insinuar que esse ou aquele cidadão do mundo é ou há de ser o anticristo, pois a Bíblia a isso chama de leviandade, e esse é um sentimento que não deve ser cultivado por um cristão. Por outro lado, eu faço uso do direito que tenho de julgar e de acreditar no que as evidências me apontam, mas até isso pode resultar em uma atitude desnecessária. O melhor é me concentrar nas minhas obrigações como cristão e convidar outros a se deliciarem com a fé e com a esperança de que quando o anticristo se manifestar, nós já não estaremos aqui.

       Quanto ao tempo, ele ainda há de demonstrar se estamos enganados ou não. O certo é que mesmo que Trump não venha a ser o anticristo, tragédias são esperadas em todo o mundo durante o seu mandato. E se ele de fato for a Besta, há de ser assassinado em público; isso causará comoção geral, mas ele logo há de ser devolvido à vida e desde então os homens hão de ter o seu anticristo. Porém, alguma coisa me diz que o demônio está brincando com a nossa inteligência, e que Trump ainda não é o homem que se transformará na Besta do Apocalipse. Quem sabe se ele ao menos não dará o golpe final na economia mundial e que arrastará o planeta para um caos financeiro capaz de convencer a todos os líderes globais acerca da necessidade de um governo único? Esse governo único nunca existirá de fato, todavia, é desse mar de desconforto financeiro que surgira o anticristo. Os poucos cristãos sinceros que ainda existem devem se unir em oração e vigilância. Jesus Cristo não tarda vir!

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

A Diferença entre O Tempo dos Gentios e A Plenitude dos Gentios



No ano de 1998 recebi em minha companhia um jovem que havia acabado de se converter ao Evangelho. Ele logo passou a pertencer ao meu restrito grupo de amigos e, agora, passados já vários anos, esse moço se tornou um mestre em assuntos teológicos e um arguto investigador das Escrituras. Recentemente ele me contou de sua experiência enquanto trocava “idéias” em um grupo de WhatsApp formado unicamente por pastores e pregadores de várias partes do país. O assunto da vez era o “atual” cumprimento das profecias, e no leme do barco estava um pastor de fama reconhecida ao qual não poucos cristãos têm considerado como o maior pregador de escatologia do Brasil.
      Entre uma observação e outra, certo pastor fez questão de ressalvar que a imagem e a pessoa do dito pregador deviam ser trazidas sob a mais venerável consideração, mas que a despeito disso, a opinião por ele sustentada devia ser reavaliada já que (ponderava o interlocutor) a premissa estava deveras desgastada. O reverendo, ainda que com carinho e educação, reagiu a esta observação alegando que “não há nada a ser reconsiderado, pois a escatologia não muda”.
       Infelizmente, e para dano do aprendizado cristão, eu tenho de admitir e lamentar que a escatologia não tenha mudado. Pelo menos não para aqueles que por preguiça ou bazófia têm se contentado com os rudimentos da Doutrina das Últimas Coisas. Eu, pelo contrário, tenho ensinado e insistido em que não poucas concepções formadas sobre a escatologia precisam ser abandonadas e completamente esquecidas a fim de que nos apropriemos de conhecimentos mais elevados e consistentes. Para a felicidade dos que amam a teologia eu posso assegurar que a escatologia mudou muito e para melhor.
       A fim de dar um claro exemplo de como estão ultrapassados alguns conceitos antigos e ainda aceitos como corretos no campo da escatologia, chamarei a atenção do meu leitor para um assunto há muito debatido nos círculos intelectuais do cristianismo no Brasil, o qual é a errônea concepção que alguns de nossos doutores têm sustentado acerca do chamado “tempo dos gentios”, tal como foi referido pelo Senhor em Lucas 21. 24: “E Jerusalém será pisada pelos gentios, até que os tempos dos gentios se completem”.
       Mas o que vem a ser esse tempo dos gentios? – Se você fizer essa pergunta a qualquer teólogo ou pregador das Assembléias de Deus, por exemplo, ele seguramente há de responder que o tempo dos gentios tem a ver com a Era da igreja, a chamada Dispensação da Graça. No entanto, eu afirmo que essa colocação está muito equivocada e que foi edificada sobre o nada; ou mais, que ela reflete bem o comodismo intelectual e a presunção dos que fazem a teologia em nossa nação. Aliás, não é de agora que venho chamando a atenção de nossos teólogos para uma consideração mais cautelosa e para uma investigação mais criteriosa sobre o nascedouro das doutrinas que compõem o arcabouço de nossa Teologia das Últimas Coisas. Tal é o caso da concepção formada sobre a expressão “Tempo dos Gentios”.
       Trata-se de um ingrediente constante na tradicional escatologia dos judeus, a qual devia receber mais respeito e atenção da parte de nossos estudiosos mais sinceros. A expressão, ainda que não seja corriqueira nas obras do apocalipsismo judaico, sobressai através das idéias ali desenvolvidas. O tempo dos gentios é, por assim dizer, a extensão do domínio pagão sobre a herança dos filhos de Jacó. Em outras palavras, ela diz respeito à opressão de Israel e à temporária anulação da monarquia davídica até que venha o Libertador de Sião na pessoa de seu Messias Glorioso. Não devia existir confusão sobre as palavras proferidas por Cristo, pois está muito evidente que os gentios ali referidos não são os povos evangelizados e adicionados à Igreja, mas as nações ímpias que pisam e profanam o solo sagrado de Jerusalém. Isso efetivamente não tem nada a ver com a Era da Igreja ou com a Dispensação da Graça.
       Em contrapartida, em Romanos 11. 25, o apóstolo Paulo menciona que “o endurecimento veio em parte sobre Israel, até que a plenitude dos gentios haja entrado”. Essa Plenitude dos Gentios tem certamente tudo a ver com a Era da Igreja e sua missão evangelizadora, pois na presente sessão Paulo se refere aos gentios como sendo aqueles que em função da incredulidade dos judeus em relação à obra redentora de Jesus, acabaram sendo aceitos na comunidade dos filhos de Deus. Notem que o apóstolo se refere a essa plenitude dos gentios como sendo um segredo, isso é, uma doutrina pouco difundida. Quanto a isso ele estava completamente correto. A expressão grega ali utilizada é pleroma, a qual significa literalmente “o complemento ou finalização de uma atividade” que, nesse caso, pode ser a obra evangelizadora da igreja.
       Então, antes de deixarmos ocorrer à nossa imaginação que a escatologia não muda, seria bom fazermos uma consulta mais criteriosa sobre as bases de nosso antigo e ultrapassado modo de entendermos a Doutrina das Últimas Coisas. Até breve.